2. BÖLÜM
5.3. Geleceğe yönelik çıkarımlarım
Segundo Van Fraassen, há um enunciado ingênuo do realismo científico, que é aquele que “[...] caracteriza uma teoria científica como um relato sobre o que realmente existe e a atividade científica como um empreendimento de descoberta, em vez de invenção” (VAN FRAASSEN, 2007, p. 25), Ele conclui – enunciando diferentemente – que o realismo, livrando-se do seu caráter ingênuo, concebe que “[a] ciência visa dar-nos em suas teorias um relato literalmente verdadeiro de como o mundo é, e a aceitação de uma teoria científica envolve a crença de que ela é verdadeira” (Ibid., p. 27, grifos do autor).
Ele defende, em contrapartida, o que chama de empirismo construtivo. Segundo este entendimento, “[a] ciência visa dar-nos teorias que sejam empiricamente adequadas; e a aceitação de uma teoria envolve como crença, apenas aquela de que ela é empiricamente adequada.” (Ibid., p. 33, grifos do autor).
Nesse sentido, a verdade está diretamente ligada ao empirismo, e automaticamente ao materialismo, sendo a teoria de Van Fraassen uma tese realista por definição.
Na sua defesa do empirismo construtivo, esse filósofo chama a atenção para a “dicotomia” entre teoria e observação. Analisemos a seguinte situação proposta por ele:
A teoria diz que se uma partícula carregada atravessa uma câmara preenchida com vapor saturado, alguns átomos nas vizinhanças de sua trajetória são ionizados. Se esse vapor é descomprimido e, portanto, se torna supersaturado, ele condensa em gotículas onde estão os íons, criando assim a trajetória da partícula. A linha cinza-prata resultante é similar (fisicamente, assim como em aparência) à trilha de vapor deixada no céu quando um jato passa. Suponhamos que eu aponte tal trilha e diga: „Olhe, lá está o jato!‟ Alguém poderia dizer: „Vejo a trilha de vapor, mas onde está o jato?‟ Então eu responderia: „Olhe logo à frente da trilha ... lá! Você o vê?‟ Ora, no caso da câmara de vapor, essa resposta não é possível. Assim, apesar de ser a partícula detectada por meio da câmara de vapor, e essa detecção estar baseada em observação, claramente, esse não é um caso de estar a partícula sendo observada (Ibid., p. 41, grifos nossos).
Para este autor, o fato de estar sendo observado ou não já é colocado pela teoria, de forma que “[...] aceitar uma teoria é (para nós) acreditar que ela é empiricamente adequada – que o que a teoria diz sobre o que é observável (para nós) é verdadeiro” (Ibid., p. 44, grifos do autor). Poderíamos dizer que Van Fraassen, com sua tese, avança no sentido internalista, mas não no sentido de discutir mesmo os pressupostos do conhecimento científico. Ele discute o método sem se questionar acerca dele.
Acreditamos que este argumento em favor da ciência e do realismo científico, ou empirismo construtivo, como o autor prefere chamar, contribui para, ao contrário, entender a ciência dentro daquilo que é criticado por Collins e Pinch, Latour, Maturana e outros.
Apesar de não desconsiderar os embates na ciência, Van Fraassen parece entender que eles não são algo determinante, que não impedem a descoberta da verdade, o que demonstra claramente o seu entendimento realista do conhecimento científico:
[...] alego que o sucesso das teorias científicas comuns não é nenhum milagre. [...] Pois toda teoria científica nasce em uma vida de competição feroz, uma selva de dentes e garras ensangüentadas. Apenas as teorias bem- sucedidas sobrevivem – aquelas que, de fato, agarram as reais regularidades da natureza (Ibid., p. 81, grifos do autor).
Perceba-se: se eu considero que há uma convenção para determinar o que é observável, que os sucessos das teorias não são por acaso, têm uma razão de ser, o que significa uma teoria ser bem sucedida? É muito mais plausível considerar que as tais regularidades da natureza, de que fala o autor, não são descobertas, ou “agarradas” pela teoria, como se uma coisa não se comunicasse com a outra, como se teoria e experiência se fizessem separadas e, num determinado momento, fossem colocadas em teste. Ao contrário, consideramos que as teorias já ditam as respostas que querem ter. Ser bem sucedida não é ser mais correta, no sentido de se aproximar mais da verdade (supostamente ontológica, última), mas quando ela, a teoria, consegue constituir-se como uma verdade.
Assim, umas teorias são bem sucedidas nas respostas e outras não, mas isso não se deve àquelas terem melhor representado o real; apenas a junção experiência/teoria foi satisfeita, segundo os critérios acordados, convencionados, para tal. Isso não deve ser considerado argumento para dizer que aquela teoria (dita bem sucedida) “agarrou de fato as regularidades da natureza”, como enfatizou acima o autor.
Se o próprio Van Fraassen assume que “[a] real importância da teoria para o cientista profissional é que ela é um dos elementos da elaboração de experimentos” (Ibid., p 136),
como pode ele considerar que “[...] [o]s experimentos são então elaborados para testar essas teorias, para ver se elas poderiam ser admitidas na condição de portadoras da verdade contribuindo para nosso retrato do mundo” (Ibid., loc. cit.). Ou seja, se os experimentos são feitos já se considerando as teorias, como podem ser considerados testes para elas mesmas em sentido ontológico? Nem se fossem feitos independente ou aleatoriamente, pois seria uma montagem de quebra-cabeças da mesma forma.
Enfim, pelo fato de uma teoria se comunicar com elementos da experiência, do mundo sensível, não devemos passar a considerar que essa é a única – ou a melhor (aliás, segundo quais parâmetros e critérios?) – forma de “casamento” entre teoria e realidade! Este parece ser o grande equívoco da concepção realista.
Ao declarar que “[...] [o] lugar da possibilidade é o modelo, não a realidade por trás dos fenômenos” (Ibid., p. 352), Van Fraassen considera que existe uma realidade com padrões muito bem determinados – e inscritos nos moldes científico-racionais ocidentais, diga-se de passagem. Em contrapartida, argumentamos que ele poderia considerar que o modelo teórico ainda não encontrara seu equivalente na realidade observável. Ou seja, a cada teoria corresponderia um componente do real.
Este entendimento que propomos, apenas como provocação, poderia ser visto como tributário do total relativismo. No entanto, argumentamos que esta última interpretação só surge ao se considerar essas coisas fora de um contexto social. O fato não é que qualquer teoria vale, como se tivéssemos para um mesmo contexto social várias possibilidades, mas que grupos sociais diferentes constroem representações teórico-mentais diferentes, as quais, portanto, determinarão correspondências com o mundo externo também diferentes.
Inevitavelmente, todo realista acaba defendendo que o empreendimento científico é o que está mais próximo de uma suposta realidade ontológica. Por isso, ao tentar fugir do realismo, ou criticá-lo, acaba ficando na mesma, porque não consegue sair do lócus de que fala – o referencial da ciência moderna ocidental, aquele que declara que não há como escapar da conformação determinada pela realidade externa (a qual é independente das representações mentais que possamos construir e subjuga todo e qualquer objeto ou ser vivo existente), realidade essa que, se tiver regularidades e universalidades, estas serão reveladas (seja quando for, ainda que em parte e assintoticamente no tempo) por tal ciência.
Sustentamos a posição de que o empirismo está diretamente ligado ao fato de que, na época em que surgiu, coisas eram criadas utilizando os pressupostos da mecânica e isso teria levado, portanto, ao entendimento de que a natureza, e/ou a realidade, deveria ser formatada
naquelas estruturas. É mais ou menos como uma internalização do mundo externo para um suposto mundo interno ou além do material, do palpável.
Encontramos também em Van Fraassen tentativas argumentativas que usam situações ou entendimentos descontextualizados para justificar posições hegemônicas acerca da ciência e do realismo científico. Vejamos este relato:
[...] devo agora relatar as razões que me converteram a uma crença total no realismo científico. Essa mudança de opinião foi um acontecimento repentino, que me pegou desprevenido, quando eu estava lendo Tomás de Aquino. Como Saul na estrada de damasco, fui atingido por uma luz ofuscante e vi. O que vi foi que as tentativas medievais para provar a existência de Deus possuem análogos atuais, que demonstram a correção do realismo científico (Ibid., p. 356, grifos nossos).
O autor usa a expressão e a analogia referente a Saul, como se esta fosse realmente portadora de verdade indiscutível e válida para tudo e todos. Ele desconsidera que, assim como essas narrativas antigas, existem outras igualmente dignas de crédito, que são inscritas em outras concepções da vida, e com representações diversas dessas de que ele fala.
Van Fraassen passa então a analisar as teses de Tomás de Aquino e a tomá-las como base para seu argumento sobre o realismo cientifico. Resumidamente, vejamos um dos argumentos de Tomás de Aquino expostos por Van Fraassen, como forma de exemplificar sua comparação:
Assim diz Tomás de Aquino: [...] deve haver alguma coisa que seja a mais verdadeira, a melhor, a mais nobre, e, conseqüentemente, alguma coisa que seja o maior ser; pois, como diz Aristóteles, o que é o maior quanto à verdade possui mais realidade (Ibid., p. 366, grifos do autor).
Como já vimos no capítulo 2, a verdade para Aristóteles é verificada através do Princípio da Não-contradição, pelo qual o que É automaticamente determina o que Não-é, justamente porque do contrário geraria a contradição. Nesse sentido, se Tomás de Aquino – que é tributário do pensamento de Aristóteles, visto que foi estudioso do pensamento deste grego, que inclusive o influenciou – de pronto declara, amparado em Aristóteles, que deve haver uma verdade superior a tudo o mais, e isto instantaneamente se torna uma lei determinante, basta agora estabelecer a sua concretização operacional.
É dentro deste raciocínio que Van Fraassen argumenta em favor da supremacia da ciência como conhecimento superior:
Assim, o que devemos explicar não são as supostas regularidades nos fenômenos naturais, mas antes, por que os fenômenos se aproximam de regularidades aparentes na medida em que o fazem. E quando a ciência descreve uma estrutura subjacente de maior unidade, coerência, simplicidade e regularidade que os fenômenos jamais poderiam esperar ter, então esse próprio grau de unidade sustenta que o retrato científico é um retrato mais verdadeiro, e que o mundo científico – e a mesa de Eddington – possui maior realidade que o mundo do senso comum (Ibid., p. 368).
Veja que o autor acredita na existência de uma dimensão ontológica absoluta, ao considerar que não devemos entender o fenômeno, mas entender como o fenômeno pode nos levar à verdade. O fenômeno, nessa concepção de Van Fraassen, seria apenas uma “pista”. A concepção do autor desconsidera que o conhecimento se torna verdadeiro quando faz parte e tem relação com a comunidade que detém aquele conhecimento. Embora vivamos uma época de colonização da ciência como forma hegemônica de epistemologia ou sistema de conhecimento, este entendimento externalista e contextualizante já há muito tempo ganha força e credibilidade, como estamos demonstrando em todo o corpo deste trabalho.
Apesar de já termos analisado questões referentes à relação entre ciência e senso comum, nos deteremos a comentar alguns pontos levantados sobre isso pelo autor em questão. A ciência procede como se tudo o que veio antes já estivesse presente no seu intento e que tudo que ela traz são coisas adicionais, para complementar; ela não vê que muitas coisas que antes existiam e que eram importantes, inclusive para a saúde mental do ser humano, questões simbólicas inclusive, hoje já não são tão consideradas.
O fato de uma comunidade não considerar que ao esfregarmos uma mesa com a mão não tocamos nela – conforme uma explicação da ciência moderna diz ocorrer, devido a interações eletrônicas, de repulsão, entre as camadas exteriores de elétrons dos átomos externos da pela de nossa mão e aquelas do material da mesa –, não a torna inferior a uma sociedade dependente desta última explicação. Isso porque aquela sociedade tem suas explicações, que respondem às suas questões. Isso não quer dizer tampouco que não tenham dúvidas e que estejam paralisadas ou sejam refratárias a outros conhecimentos. Assim como as comunidades científicas, aquelas onde o dito “senso comum” é mais presente, constantemente estão sofrendo mutações e alterações.
Mas que se deixe claro que essas mudanças não seguem a obrigatoriedade quanto ao modo de conceber o mundo como a ciência mostra e exige, não segue a cartilha; poderá comportar outras formas de entender e explicar, sendo uma ramificação alternativa.
Nesse sentido, poderíamos dizer que o que ocorre é que um ramo – por questões já postas anteriormente, como ideológicas, políticas e principalmente econômicas – acaba sendo considerado o ramo mais viçoso, mais crível. E, de forma retrospectiva, os demais ramos são obrigatoriamente considerados inferiores, ou erros de percurso.
É isso que faz com que Van Fraassen (entre outros que compartilham o tipo de visão que ele defende), enxergue o mundo como um relógio, analogia que ele usa como mais um argumento para defender o realismo. Ou seja, ao perguntar se “[...] você pode conceber um relógio que marca o tempo sem um mecanismo interno?” (Ibid., p. 356, grifos do autor), ele está procedendo de acordo com o que colocamos acima, de forma retrospectiva. Assim como o relógio, deve ser tudo o mais, com associações e coordenações mecânicas e lógicas (insistimos: segundo a lógica que ampara a ciência contemporânea, claro). Mais um indício do vício do empirismo e realismo unificante, considerar um relógio como representante daquilo que seria a realidade, ontologicamente falando.