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Os dados da pesquisa foram construídos e analisados com base nos posicionamentos de professores e estudantes sobre as práticas de leitura, a partir das vozes sociais que permeiam os enunciados presentes nos questionários aplicados e nos documentos oficiais. O processo de compreensão dos dados foi norteado pelas orientações do pensamento bakhtiniano que considera o ser expressivo e falante (BAKHTIN, 2010) como objeto de estudo e se refere à noção de texto como um conjunto de enunciados. A esse respeito Bakhtin (2010, p.307) enfatiza que “[...] o texto é a realidade imediata (realidade do pensamento e das vivências). Onde não há texto não há projeto de pesquisa e pensamento”. Nesse sentido, o texto é o ponto de partida, quaisquer que sejam os objetivos da pesquisa e é por meio das relações dialógicas que os sentidos são construídos.

Outra noção que norteou as análises dos dados foi a de compreensão ativa, responsiva. Conforme Bakhtin (2010, p. 271) “ [...] toda compreensão é prenhe de resposta, e, nessa ou

naquela forma, a gera obrigatoriamente: o ouvinte se torna falante”. A compreensão sendo responsiva exige uma participação ativa dos interlocutores. Como enfatiza o autor:

A compreensão é uma forma de diálogo; ela está para a enunciação assim como uma réplica está para a outra no diálogo. Compreender é opor à palavra do locutor uma contrapalavra. [...] Na verdade, a significação pertence a uma palavra enquanto traço de união entre os interlocutores, isto é, ela só se realiza no processo de compreensão ativa e responsiva. (BAKHTIN, 2009, p.137)

O processo de compreensão é dialógico, tendo em vista que ocorre entre duas consciências. Para Bahktin (2010, p.316), na compreensão existem duas consciências, dois sujeitos. A compreensão implica orienta-se para o outro e emitir juízos de valor sobre o “outro”, por isso, buscamos, nesta investigação, ouvir as vozes que ressoam nos enunciados de professores e estudantes para explicitar as práticas de leitura, em turmas de Língua Portuguesa, no Ensino Fundamental. Essas vozes são compreendidas como manifestação de consciências que dialogam, concordam, discordam, silenciam a voz do outro ou a si próprio, expressando valores. (OLIVEIRA, 2005).

Nessa perspectiva, esta investigação ocorreu nas Escolas Estaduais Dr. José Gonçalves de Medeiros, Joaquim José de Medeiros e Barão do Rio Branco, as quais obtiveram resultados exitosos, segundo o IDEB 2009. Para tanto, foram encaminhados, pelo Programa de Pós- Graduação em Estudos da Linguagem da UFRN, ofícios aos diretores das referidas escolas, com o objetivo de solicitar autorização para a realização da pesquisa, conforme consta nos Apêndices E, F e G.

Conforme mencionado na seção 2.2.4, a pesquisa foi desenvolvida em março de 2012, da qual participaram as três professoras de Língua Portuguesa do 9º ano do Ensino Fundamental e 102 dos 110 estudantes. Assim sendo, houve aplicação de questionários com os sujeitos da pesquisa, observação de uma aula/hora relógio de Língua Portuguesa em cada turma, além de um encontro com as equipes de direção e pedagógica de cada escola.

Para a construção dos dados da pesquisa, as professoras das instituições educacionais supramencionadas receberam uma carta explicativa e responderam a um questionário composto por cinco questões abertas, bem como a um questionário de caracterização do professor também com cinco questões, que correspondem respectivamente aos Apêndices C e D.

Com relação aos estudantes, esses também receberam uma carta explicativa e responderam a dois questionários: o primeiro, com cinco questões abertas e o segundo questionário composto por seis questões fechadas, segundo Apêndices A e B.

Os questionários aplicados com os professores foram analisados e suas vozes sociais são apresentadas na seção 7.1. No que diz respeito aos questionários aplicados com os estudantes, as respostas às questões abertas foram analisadas e categorizadas, conforme comentamos a seguir. As respostas às questões fechadas por sua vez foram analisadas e apresentadas por meio de gráficos em função das opções de respostas do questionário, conforme consta na seção 7.2.

As vozes dos estudantes foram sendo reveladas a partir de suas respostas às questões abertas, as quais foram categorizadas de acordo com o seguinte processo:

(i) Os questionários foram numerados e codificados para identificação da turma do 9º ano por escola.

(ii) Todas as respostas de cada questão, ou seja, as questões 1, 2, 3, 4 e 5 foram analisadas e categorizadas por turma.

(iii) Cada posicionamento correspondia a uma categoria. À proporção que surgiam novos posicionamentos também surgiam novas categorias. A quantidade de referências a um mesmo posicionamento foi computada em tabelas.

(iv) Foram construídas tabelas computando os posicionamentos por turma e por questão, ou seja, para as questões abertas 1, 2, 3, 4, e 5 e para as três turmas totalizaram 15 tabelas.

(v) Em seguida, a partir da junção dos posicionamentos de cada questão por turma de 9º ano, foram construídas 5 tabelas, uma para cada questão analisada. Sendo assim, cada tabela resume os posicionamentos dos estudantes das 3 turmas de 9º ano no que se refere à cada questão.

(vi) Os posicionamentos categorizados e computados que compõem cada tabela são apresentados por ordem decrescente e comentados na seção 7.2 que trata das vozes sociais dos estudantes.

Os conhecimentos construídos a partir da observação de uma aula hora/relógio de cada professor são abordados na seção 7.3.

Na ocasião, enquanto pesquisadora, procurei dialogar com os diretores, os coordenadores pedagógicos, os supervisores, as bibliotecárias acerca das atividades pedagógicas desenvolvidas na escola, especialmente, no tocante aos projetos sob a responsabilidade da biblioteca e com a participação da comunidade escolar. Foram, pois,

apresentados os Planos de Ação das Bibliotecas, os Projetos das Semanas Literárias e os Projetos de Incentivo à Leitura e à Escrita cujos dados foram analisados e são apresentados no item 7.4 desse trabalho. Desse modo, foi vivenciado, com as equipes de direção e pedagógicas, um encontro informal em cada escola pesquisada, o qual foi denominado de Encontro Dialógico.

Apresentamos, a seguir, os postulados bakhtinianos que nortearam a pesquisa. Conhecer os aportes teóricos que fundamentam esse trabalho é importante para que possamos compreender a construção e análise do seu corpus.

Benzer Belgeler