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Callon (1986) apresenta um exemplo detalhado do que seria esse processo de translação: um processo no qual a identidade dos atores (actantes), a possibilidade de interação e as margens de manobra são negociadas e delimitadas, para que, em certo momento, algo seja pontuado como, por exemplo, conhecimento (conhecimento científico, conhecimento organizacional, organização) para que se feche a caixa-preta.

John Law (n.d) também falou do processo de tradução, reforçando que a Teoria Ator-Rede assume que a estrutura social não pode ser entendida como um substantivo, mas um verbo – um local de luta com efeito relacional. Além disso, não podemos entender a “ordem social” no singular, com um único centro e um conjunto único de relações estáveis – há ordens, no plural, e há resistências. E, para o autor, este é o objeto principal da Teoria Ator-Rede: a análise da luta pelo ordenamento social. Neste sentido, a ideia de tradução implica na ideia de transformação e também na possibilidade de equivalência, isto é, a possibilidade de que uma coisa (por exemplo, um ator) possa representar outra (por exemplo, uma rede).

Dessa forma, podemos afirmar que o nosso interesse aqui, inspirados no interesse da Teoria Ator- Rede, é entender como os atores e as organizações se mobilizam, justapõem-se e mantêm unidos os elementos que os constituem. Além disso, entender como as organizações evitam que esses elementos possam seguir suas inclinações e se distanciem, e, ainda, como podem esconder por um certo tempo o próprio processo de tradução. Neste sentido, toda tradução é contingente, local e variável. A Teoria Ator-Rede é uma sociologia relacional e orientada a processos a qual trata agentes, organizações e máquinas com efeitos interativos – diluindo as divisões analíticas entre agenciamento e estrutura, o macro e o micro social (Mitev & Howcroft, 2011).

Czarniawska (2008), por sua vez e na mesma direção de John Law e Michel Callon, traz a concepção de Michel Serres do processo de tradução, não como um mero processo linguístico, mas uma operação generalizada e que ocorre de diferentes formas: deslocando coisas e/ou substituindo-as. O processo de tradução envolve sempre conhecimento, pessoas e coisas, assim como, suas identidades: “Cada ato de tradução modifica o tradutor e aquilo que é traduzido” (Czarniawska, 2008, p. 424).

Esta concepção de tradução é aplicada por Czarniawska nos estudos organizacionais em uma tentativa de compreender a contínua circulação de ideias e práticas gerenciais. Nesta perspectiva, estas ideias e práticas são traduzidas em objetos como livros, modelos ou apresentações, que em novos contextos emergem e são traduzidos em novos objetos ou ações.

A autora também traz para o processo de tradução a concepção do actante, aquele que é sujeito ou objeto de um ato. Podem ser actantes seres humanos, animais, objetos ou conceitos. E, neste sentido, o termo substitui a palavra “ator” para marcar a ideia de que um actante modifica também seu papel ao longo da narrativa podendo permanecer como agente ou como objeto da ação de outros. (Czarniawska, 2008)

A combinação desta abordagem com a Teoria Ator-Rede resulta em um framework que pode ser sintetizado em um processo de pesquisa com os seguintes passos: (a) identificar os actantes, (b) colocá-los em uma trajetória até que eles se tornem atores (isto é, adquiram uma distinta e relativamente estável característica) através de uma série de programas e anti-programas.

Voltando a Callon, o autor sintetiza em um artigo os três princípios da translação, seus quatro momentos – exemplificando-os a partir de um caso sobre a domesticação das vieiras e seus pescadores de St. Brieuc Bay (Callon, 1986) –, e a controvérsia científica e econômica sobre as causas do declínio na população dessa espécie na baia. Neste artigo, o autor entende a abordagem da translação como uma nova forma de estudar o poder e enuncia os três princípios desta abordagem: (a) agnosticismo, ser imparcial com os atores envolvidos na controvérsia; (b) simetria generalizada, o que entende como compromisso de apresentar diferentes pontos de vista nos mesmos termos; e, (c) a associação livre, na qual há o abandono de todas as distinções entre o natural e o social.

Ainda neste artigo, o autor discrimina um framework (Ver FIGURA 1) de análise e apresenta os quatro momentos do processo de translação, a saber: (a) problematização5, quando os pesquisadores se fazem indispensáveis para os outros atores do drama por definirem a natureza e os problemas do futuro, sugerindo, então, que aquilo poderia se resolver pela negociação dos atores através do ‘ponto de passagem obrigatório’ do programa de investigação dos pesquisadores; (b) interessamento6, entendido como uma série de processos pelos quais os pesquisadores devem bloquear outros atores nos papéis que lhes foram propostos naquele programa, (c) engajamento7, um conjunto de estratégias nas quais os pesquisadores procuram definir a interrelação de vários papéis nos quais eles alocaram os ‘outros’; (d) mobilização8, um conjunto de métodos utilizados pelos pesquisadores para se certificarem de que os supostos porta- vozes da diversas coletividades são capazes de representá-las e não serem traídas pelo futuro.

5 Tradução nossa para problematisation. 6 Sem tradução, como no original. 7 Tradução nossa para enrolment. 8 Tradução nossa para mobilisation.

Concluindo, Callon reforça que a translação é um processo, nunca completamente realizado e que pode inclusive falhar, como se vê no referido caso (Callon, 1986). A ciência e a tecnologia são histórias dramáticas nas quais as identidades dos atores são uma das controvérsias. O observador que ignorar esta incerteza corre o risco de estar escrevendo uma história enviesada que ignora o fato de que a identidade dos atores é problemática. Além disso, reforça que os quatro momentos da translação podem ser sobrepostos na realidade e constituem apenas um framework analítico para o processo.

Dentro do momento de problematização, há ainda outros dois passos primordiais a serem perseguidos: (a) a interdefinição dos atores e a (b) a definição do ponto de passagem obrigatória.

Callon representa graficamente seu exercício de identificação dos atores, seus objetivos e obstáculos no processo de tradução da seguinte maneira:

Figura 1 - Processo de Translação de Callon Fonte: Extraído de Callon (1986, p. 20)