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A pesquisa que passamos agora a apresentar com pormenores foi realizada em uma escola pública da Rede Municipal de Belo Horizonte. Como nenhuma escolha é aleatória, torna-se necessário justificar ou traçar os caminhos que nos conduziram a esta escola.

Uma das primeiras opções a serem feitas foi em relação à rede pública de ensino em oposição à rede privada. Por que uma escola pública? A escola é constantemente questionada pela sociedade pela deficiência do letramento que ela tem proporcionado aos alunos, questionada tanto através de pesquisas sérias desenvolvidas pelos centros especializados como através dos discursos sobre a leitura, veiculados nas diversas mídias. Entretanto, é a escola pública o alvo por excelência dessas críticas, intensificadas sempre por ocasião da divulgação dos resultados das avaliações externas que a colocam em posição desfavorável em relação aos resultados apresentados pelos alunos matriculados na rede privada. Dessa forma, a nossa opção pela investigação centrada em uma escola da rede pública pretende propor uma reflexão teórica sobre as práticas pedagógicas adotadas no sistema público de ensino e possibilitar, talvez, melhorias na qualidade da educação oferecida, através da análise do letramento literário escolar, os seus limites, conforme são percebidos e descritos, e suas potencialidades, aquilo que pode ser realizado a partir de uma mediação adequada, com clareza de objetivos.

A opção pela Rede Municipal de Belo Horizonte tem a ver com uma identificação com minha trajetória pessoal, como estudante e como profissional. Cursei o ensino básico em escolas municipais (inclusive na que hoje é o objeto da minha pesquisa) e sempre atuei na Rede Municipal. A proposta de educação implementada há mais de uma década pela Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte – a Escola Plural, que se organiza em

ciclos de formação humana, o que representa uma especificidade em relação às demais redes, é um dos reforços para a minha escolha, haja vista as constantes críticas que a sociedade tem dedicado a ela. As famílias ainda mantém muito viva a idéia de seriação e, por isso, percebem os ciclos como uma facilitação para a aprovação do aluno e uma falta de compromisso com a aprendizagem.

Outra justificativa para a escolha da escola municipal de Belo Horizonte tem a ver com a qualificação dos docentes. Por oferecer uma política de valorização profissional ligeiramente melhor que as demais redes desta região, Belo Horizonte atrai professores com uma formação profissional mais adequada, havendo, portanto uma maior possibilidade de diálogo entre a academia e a escola.

Há ainda uma última motivação - a que mais nos importa, por estar diretamente ligada aos objetivos dessa pesquisa: o Programa de Revitalização das Bibliotecas Escolares da RMEBH, implantado em 1997, como parte integrante do Programa Escola Plural. Esse programa teve como objetivo criar ou “revitalizar” as bibliotecas escolares, a partir da contratação, via concurso público, de profissionais responsáveis pelo setor e da criação do Núcleo de Coordenação de Bibliotecas, ligado à Gerência de Coordenação da Política Pedagógica da Secretaria Municipal de Educação. Atualmente, Belo Horizonte conta com 182 bibliotecas escolares, sendo que 35 desse total são bibliotecas-pólo, cujo bibliotecário é também o coordenador de outras 4 bibliotecas da mesma região. Esse trabalho de coordenação junto aos auxiliares de biblioteca tem o propósito de promover uma interligação entre as demandas escolares e o Núcleo de Coordenação de Bibliotecas e também o de desenvolver o trabalho de assessoria, naquilo que se refere à formação do funcionário da biblioteca.15 Essas ações refletem uma concepção pedagógica que valoriza a biblioteca como um espaço de produção do conhecimento, seja ao viabilizar material de pesquisa aos professores e alunos, seja como espaço apropriado à leitura. Na elaboração do projeto e na condução da pesquisa, tivemos em mente o intento de observar mais de perto essa biblioteca para perceber os resultados dessa iniciativa governamental de incentivo à leitura no âmbito escolar, ao analisarmos as percepções dos sujeitos em relação aos trabalhos ali desenvolvidos e aos serviços que são oferecidos.

15 O pré-requisito exigido para os candidatos ao cargo de auxiliar de biblioteca é o nível médio, embora

Mas como chegamos a essa escola entre tantas outras possíveis? Um aspecto que desde o início julgamos ser fundamental para o bom andamento do trabalho era a atitude de cooperação, desejável entre pesquisador e pesquisados. Para facilitar essa abertura, um primeiro contato foi realizado com o Núcleo de Coordenação de Bibliotecas, oportunidade em que expus o plano de pesquisa e que possibilitou a minha participação em uma reunião com os bibliotecários (dessa forma eu poderia estabelecer um contato com todas as escolas indiretamente). Na ocasião, pude apresentar em linhas gerais o estudo que pretendia realizar, os meus vínculos institucionais, e falei da aceitação que buscava a partir daquela conversa. Muitos se mostraram interessados na pesquisa e dispostos a colaborar. A opção então recaiu sobre aquela escola de que eu já dispunha de algumas informações e de relações pessoais pré-estabelecidas. Entretanto, essa escola também apresenta algumas características próprias que reforçaram essa escolha, como o esforço da comunidade escolar em manter uma identidade própria construída ao longo dos anos, desde a sua fundação, que lhe assegura uma posição de destaque nos movimentos sociais de valorização dos profissionais em educação e de luta por uma educação de qualidade. Também não se trata de uma escola em “crise”, mas de uma escola com perspectivas de ser bem sucedida. Por estar bem localizada no bairro, ela apresenta um quadro mais estável de professores e condições físicas e materiais que possibilitam a realização de um bom trabalho.

A escolha dos casos a serem estudados foi feita a partir de um levantamento prévio realizado através de um questionário. Os dados obtidos foram analisados e categorizados, conforme nos mostravam sujeitos que apresentavam perfis previsíveis ou contrastantes, em relação às hipóteses inicialmente estabelecidas como explicações para a atualização de práticas de leitura. Entre essas hipóteses está a relação entre posição social e práticas de leitura presentes no ambiente familiar. Essas proposições são elaboradas a partir de Bourdieu: “ o gosto é produto de uma educação cultural e a sua aquisição se prende a um capital cultural incorporado, que se constitui no seio da família, trazendo, em seu bojo, as marcas da classe social em que esta se insere.” (apud SILVA, 1997, p.134)

Ainda neste capítulo, apresentaremos com mais detalhes as escolhas realizadas, bem como as bases teóricas que as orientaram.