Como todo processo de organização política, pressupõe a mediação de elementos histórica e ontologicamente determinados, ou seja, os indivíduos reais, suas ações e suas condições materiais de vida, tanto aquelas que eles já encontraram elaboradas quanto aquelas que são o resultado de sua própria ação (MARX e ENGELS, 2005), podemos dizer, que o movimento de renovação ético-política do Serviço Social brasileiro, não foi fruto do desejo ou da vontade subjetiva de meia dúzia de assistentes sociais envolvidos numa militância cívica e/ou política: ele expressou, processadas numa perspectiva profissional e retratadas no interior da categoria, demandas e aspirações da massa dos trabalhadores brasileiros (NETTO, 1999).
O Brasil do final dos anos 1970 viveu mudanças sócio-políticas importantes34, com a distensão e conseqüente ocaso da ditadura militar e a eclosão de movimentos sociais provenientes, sobretudo, dos segmentos da classe trabalhadora. Além do protesto à repressão do regime, as massas foram movidas pelo auge da recessão e inflação da época. Grande parte da classe trabalhadora vivia as mazelas do período de decadência do “milagre econômico”35. A retomada do poder de mobilização dos trabalhadores disseminou-se como mecanismo de afirmação da luta política da classe, frente as más condições de vida e trabalho imposta pelos ditames autocráticos burgueses nacional e internacional, sob a tutela dos governos militares. Nascia, nesse momento histórico, o arcabouço político que cimentara as bases da redemocratização do Brasil.36
A força insurgente da organização de novos sujeitos coletivos, na sociedade brasileira, dinamizou a vida política do país, impactando e revalorizando as práticas sociais presentes no cotidiano popular.
34 A mobilização dos(as) trabalhadores(as) urbanos(as), com o renascimento combativo do seu movimento sindical; a tomada de consciência dos trabalhadores rurais e a vitalização da sua organização;o ingresso, também na cena política, de movimentos de cunho popular (entre os quais o associacionismo de moradores) e democrático (os estudantes, as mulheres, as minorias etc); a dinamização da vida cultural, com a ativação do protagonismo de setores intelectuais; a afirmação da opção democrática por segmentos da Igreja católica e a consolidação do papel progressista desempenhado por instituições como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) – tudo isto pôs na agenda da sociedade brasileira a exigência de profundas transformações políticas e sociais (NETTO, 1999, p. 100).
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É importante destacar que no período pós-64 o país viveu um processo de modernização conservadora, certamente o último suspiro nessa modalidade marcante do desenvolvimento nacional: industrialização e urbanização aceleradas, e modernização do Estado brasileiro, inclusive com expansão de políticas sociais centralizadas nacionalmente. Esse processo, que representou uma espécie de salto a diante, foi conduzido pela lógica de “deixar crescer o bolo para depois dividir”, segundo a conhecida frase de Delfim Netto, então responsável pela política econômica. O que se assistiu, na verdade, foi ao acirramento das contradições sociais no país, com a radicalização das expressões da questão social (BEHRING e BOSCHETTI, 2006). A expansão econômica verificada a partir de 1968 se fez dentro de um neocapitalismo periférico com severo controle estatal, concentração de renda como fator gerador de capital e dependência estrita do capital estrangeiro. O crescimento acelerado impôs severas condições de vida ao vasto setor assalariado de faixa mais inferior. Os ajustes salariais perderam a antiga flexibilidade e, inclusive as horas de trabalho aumentaram (LOPEZ, 1988). Este crescimento econômico em função do milagre, não tinha sido acompanhado por políticas sociais que pudessem melhorar a qualidade de vida da população. Segundo Lopez (1988), de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), houve um considerável aumento do índice de mortalidade infantil nas grandes cidades em face de pauperização de amplas camadas da população menos favorecidas. Em meados da década de 1970, fazia-se sentir, no contexto interno, as conseqüências da crise mundial de petróleo. O mercado interno se retraíra muito em face da compressão salarial adotada para propiciar uma produção de artigos industriais a preços vantajosos no mercado externo que se encontrava em fase recessiva. A concentração da renda ampliara o poder de compra de uma minoria, mas, pauperizando a maioria, contribuía fortemente para aguçar tensões sociais que a ação repressiva e a máquina publicitária não podiam controlar indefinidamente.
36 As inflexões deste período determinaram a construção do maior movimento político da história brasileira pelo
sufrágio universal, a campanha das Diretas-já em 1984. No entanto, os intentos democráticos, foram suprimidos pelo alto, (significando a derrota da luta popular pelo direito ao voto nas eleições para presidente da República), deslanchando no colégio eleitoral que elegeu Tancredo Neves e José Sarney, no pleito eleitoral, para assunção em 1985.
Trata-se, portanto, de uma geração que, tendo conhecido os horrores do autoritarismo dos regimes militares e tendo sido saqueada dos seus direitos de expressão, organização e participação, deposita todos os seus esforços no retorno a institucionalidade democrática [...] Embora atravessados por diferentes ideologias, projetos e interesses, os movimentos sociais dos anos [19]70 e [19]80 lutavam não contra o Estado em si, mas contra o Estado autoritário, clientelista e opressor da sociedade. Não contra a democracia representativa liberal, mas a favor da criação e da ampliação de espaços de participação política e da inclusão econômica e social (LÜCHMANN e SOUSA, 2005, p. 96).
O conjunto das lutas travadas por parcelas da classe trabalhadora brasileira, nessa época, suscitou avanços na perspectiva de construção da consciência de classe37, com rebatimentos no interior de vários contingentes profissionais, dentre os quais fazemos destaque para os assistentes sociais. Pois foi no percurso desse movimento de reorganização das lutas sociais dos anos 1980, que se processou a interlocução política de setores profissionais do Serviço Social com os segmentos populares e a incorporação crítica das suas lutas e demandas, na agenda profissional.
Tal processo deve ser considerado, também, como expressão dos desdobramentos sócio-políticos, provocados pelas mudanças na sistemática de acumulação capitalista, em nível internacional38, que alteraram a relação capital- trabalho, suscitando o empobrecimento das camadas médias, às quais, tradicionalmente, incidiam grandes contingentes profissionais do Serviço Social39, bem
37 É importante salientar que a consciência é adquirida através de experiências sucessivas, isto é, quando da
percepção de que nada do que existe é natural, mas porque existem determinadas condições, cujo desaparecimento não fica sem conseqüências. Quando se tem percepção disso, o movimento se aperfeiçoa, perde os elementos de arbitrariedade, torna-se independente, no sentido de que, para obter determinadas conseqüências, cria as premissas necessárias e empenha suas forças na criação dessas premissas (GRAMSCI, 2000). Ao se assumir enquanto classe, o proletariado nega o capitalismo afirmando-o. Em sua luta revolucionária, não basta o proletariado assumir- se enquanto classe (consciência em si), mas é necessário se assumir para além de si mesmo (consciência para si). Conceber-se não com interesses próprios dentro da ordem capitalista, mas também se colocar diante da tarefa histórica da superação dessa ordem. A verdadeira consciência de classe é fruto dessa dupla negação: num primeiro momento, o proletariado nega o capitalismo assumindo sua posição de classe, para depois negar-se a si próprio enquanto classe, assumindo a luta de toda a sociedade por sua emancipação contra o capital (IASI, 2007).
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Nesta época, se erigia, concomitantemente, em âmbito internacional, nos países de economias centrais, o reordenamento do capital, que demonstrava como resposta à sua crise estrutural, deflagrada no início dos anos 1970, o prelúdio de tempos de barbárie social, através da intervenção objetiva na organização da produção e desregulamentação das relações de trabalho. No entanto, os reflexos desta recomposição, só se fizeram sentir, de modo mais ofensivo na realidade brasileira, na década de 1990, com a consolidação do projeto neoliberal.
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Em relação a particularidade do Serviço Social nesse contexto, é notória a mudança do perfil dos profissionais, que tornaram-se, massivamente, trabalhadores assalariados, oriundos das camadas médias e baixas da classe trabalhadora. Essa nova situação estrutural exigiu do Serviço Social uma reflexão mais sofisticada sobre a realidade
como, aprofundaram o acirramento das contradições sociais presentes na luta de classes, fazendo ressurgir e ressoar, de forma acentuada, nos âmbitos da organização, formação e intervenção profissionais, as críticas ao sistema vigente40.
Acontece que os assistentes sociais, ao se perceberem como trabalhadores41, passaram a imprimir uma ressignificação a profissão42, demarcada pela politização e conscientização da categoria profissional, repercutindo numa reverberação significativa das entidades profissionais, dado o desempenho que tiveram no avanço político deslanchado na construção do atual projeto profissional43. Tal processo se gestou, a partir da mediação política nos espaços de atuação profissional, bem como nas ações organizativas de outras categorias, como os movimentos grevistas, com destaque para as greves dos metalúrgicos do ABC paulista e as manifestações de movimentos sociais urbanos, dentre outras lutas mais gerais da classe trabalhadora, que se colocavam no campo político de esquerda e de construção da crítica a ordem político-econômica do capital nos países periféricos.
Não foi por acaso que a moralidade profissional de ruptura incorporou as influências objetivas do seu tempo histórico. A construção de uma ética objetivada nos enfrentamentos de questões políticas transcorridas no período pós-ditadura, fez rebater fortemente, no interior da categoria profissional, projetos societários distintos daqueles que atendiam aos interesses das classes e camadas dominantes.
Na entrada dos anos 1980 a militância político profissional alcança a sua maturidade, evidenciada na organização sindical nacional dos assistentes sociais com a
brasileira e a criação de identidades políticas com “os de baixo”, que assumiam uma nova posição no cenário político que se erigia no período (BEHRING e BOSCHETTI, 2006).
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O processo contraditório da ditadura, ao modernizar setores da sociedade, criou as condições para o seu próprio ocaso: gerou a maior concentração operária do mundo – o ABCD paulista – e assalariou os profissionais do nível superior (BEHRING e BOSCHETTI, 2006).
41 Uma pesquisa sobre o salário mínimo profissional, elaborada pela Comissão Executiva Nacional de Entidades
Sindicais de Assistentes Social (CENEAS), e realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-econômicos (DIEESE), em 1982, revelou um perfil da categoria profissional que a identificou como parte objetivamente integrante da classe trabalhadora. Um melhor detalhamento da pesquisa pode ser encontrado em Abramides e Cabral (1995).
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É inclusive, a partir desse período que emerge o veio teórico de inspiração marxista, que considera o Serviço Social, uma especialização do trabalho coletivo, dentro da divisão social e técnica do trabalho. Nesse sentido, o Serviço Social passa a ser compreendido como uma profissão voltada para uma intervenção social nas expressões da questão social, a partir de um conhecimento da realidade na perspectiva de totalidade, o que implica o rompimento de uma visão endógena da profissão.
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O novo projeto profissional tem se constituído, fundamentalmente, a partir da conversão teórico-metodológica de interpretar a realidade social. A perspectiva de totalidade imprimiu uma ressignificação no pensamento profissional sobre a compreensão das contradições da sociedade capitalista e, conseqüentemente, determinou inflexões do ponto de vista da atuação política dos sujeitos profissionais.
criação da Comissão Executiva Nacional de Entidades Sindicais de Assistentes Sociais (CENEAS) em 1979 e depois, em 1983, a ANAS - Associação Nacional de Assistentes Sociais, entidade político-sindical da categoria; com trabalho desenvolvido pela Associação Brasileira de Ensino em Serviço Social - ABESS44, na coordenação do debate sobre o projeto de formação profissional; na mudança de perspectiva ético- política no interior do Conjunto dos Conselhos Federal e Regional de Assistentes Sociais CFAS/CRAS45 -, especialmente, a partir das mudanças na política de fiscalização do exercício profissional e, por último, com a criação da Subsecretaria de Serviço Social da União Nacional dos Estudantes SESSUNE46 como entidade representativa do segmento estudantil de Serviço Social, parceira histórica das lutas profissionais e da classe trabalhadora.
A atuação dessas entidades representativas imprimiu uma dinâmica de debates coletivos e democráticos, em torno das diversas dimensões da profissão. O contorno crítico e politizado que os eventos nacionais da categoria revelaram desde o III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS)47 consistiu a maior expressão de
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Encarregada de coordenar e articular o projeto de formação profissional, a partir do final da década de 1970, a ABESS deixa de ser Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social (criada em 1946) e transforma-se em Associação Brasileira de Ensino em Serviço Social. Somente na segunda metade da década de 1990 é que se torna ABEPSS, em função das demandas potencializadas pelo crescimento de cursos de Pós-graduação e a conseqüente consolidação da pesquisa no Serviço Social. É nesse período que a afirmação da natureza científica dessa entidade se explicita com maior veemência.
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É importante lembrar que “a esfera dos conselhos de fiscalização da profissão era caracterizada por um perfil conservador, corporativo e burocrático [...] Esses conselhos passaram, a partir da década de 1980, a abrigar profissionais oriundos do movimento sindical, o que redefinira significativamente suas diretrizes, gerando a democratização das suas relações internas e sua vinculação com outras instâncias organizativas” (RAMOS, 2006, p. 173). Por essa razão o Conjunto dos Conselhos Federal e Regionais de Serviço Social CFESS/CRESS é hoje a síntese da redefinição, no interior do antigo conjunto CFAS/CRAS, do papel da fiscalização do exercício profissional, no sentido do deslocamento da dimensão policialesca para novas acepções democráticas, e anti-corporativistas, como características fundamentais no desempenho de suas funções em defesa dos direitos sociais e do compromisso com a qualidade dos serviços prestados aos usuários do Serviço Social. Foi também de grande importância o trabalho desenvolvido, por essas entidades, na formulação e aprovação do Código de Ética Profissional de 1986, instrumento normativo que balizou a vinculação ético-política dessa categoria profissional com as lutas da classe trabalhadora e na construção do Código de Ética vigente, formulado em 1993.
46 Antes da criação da Executiva Nacional dos Estudantes de Serviço Social (ENESSO), o movimento estudantil de Serviço Social (MESS) possuía sua direção arregimentada pela Subsecretaria de Serviço Social da União Nacional dos Estudantes (SESSUNE), criada no início da década de 1980. Somente em 1993 o MESS, suprimiu a SESSUNE e criou a ENESSO, que é hoje a entidade que organiza a articulação e mobilização dos estudantes. Esta mudança foi resultado de debates no MESS, onde se evidenciou a necessidade de uma maior autonomia perante a UNE.
47 Realizado em 1979 o III CBAS foi mais que um evento. O “Congresso da Virada”, como ficou amplamente
conhecido, foi um grande marco no processo de enfrentamento da perspectiva conservadora no interior da profissão. A explicitação do compromisso político e coletivo da categoria profissional com os interesses da classe trabalhadora e com suas lutas históricas e imediatas, fez desse evento um momento marcante e decisivo para o Serviço Social brasileiro. Em 2009, o conjunto das entidades representativas do Serviço Social brasileiro (CFESS/ABEPSS e
ruptura com o tradicionalismo profissional, explicitando-se, predominantemente, nos níveis da produção teórico-política e das práticas organizativas e interventivas desde então.
No entanto, “este rebatimento não foi idílico: acarretou polêmicas e diferenciações na categoria – o que, aliás, é uma própria e saudável implicação da luta de idéias” (NETTO, 1999, p. 101). É simplesmente expressão de que categoria profissional é uma unidade não-identitária, de elementos diversos. Na medida em que a tomamos como sujeito coletivo heterogêneo, percebemos que por ela perpassam vários projetos individuais e societários. Assim sendo, constitui-se um espaço plural no qual podem surgir projetos profissionais diferentes. Negar essa realidade é negar da processualidade histórica a dinâmica que lhe é inerente, bem como desconsiderar as contradições fundamentais que a compõem.
Vale lembrar, só a título de ilustração, que a renovação do Serviço Social brasileiro, em meados da década de 1970, compreendeu três principais tendências de matrizes teórico-políticas diferenciadas, quais sejam: a modernizadora; a de reatualização do conservadorismo e a de intenção de ruptura (ABRAMIDES, 2009). Esta última foi a que ressoou com maior intensidade no interior da categoria profissional, a partir dos anos 1980. No entanto, não foi de forma imediata. Permeou tenso debate e disputa pela hegemonia profissional48 com outras tendências existentes
a época e que perduram até hoje.
É importante assinalar que a hegemonia do projeto profissional se funda em uma perspectiva analítica que a concebe articulada ao pluralismo com direção social. Nesse sentido, a hegemonia com pluralismo, no âmbito do projeto profissional, expressa a predominância de uma direção política, construída por meio de uma vontade coletiva, gestada por um processo não coercitivo e pressupõe a não eliminação
ENESSO) organizaram um evento em comemoração aos 30 anos do congresso da virada, cujo tema “começaria tudo outra vez se preciso fosse” expressou a reafirmação da tendência teórico-político profissional despontada no CBAS de 1979.
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Um dos aspectos referentes a polêmica em torno do debate sobre o Projeto Ético-político do Serviço Social diz respeito a transposição da concepção gramsciana de hegemonia para o contexto de uma profissão. Ao se transpor essa categoria teórica para análise no âmbito profissional, a hegemonia é utilizada como direção ético-política e teórica que sustenta determinada direção social estratégica, representando uma dada compreensão de realidade e de profissão e de formas de enfrentamento adotadas por segmentos da categoria profissional e suas entidades representativas, embora possa não ser majoritária na categoria profissional (RAMOS, 2009).
ou repressão de interesses particulares contrários a direção predominante (RAMOS, 2009).
No que diz respeito à luta pela quebra do conservadorismo profissional, as principais mediações teórico-políticas foram sendo gestadas a partir do questionamento as concepções mecanicistas presentes no código de ética de 198649 e com o aprofundamento do debate profissional desembocando na formulação, em 1993, do atual código; no deslocamento da perspectiva corporativista no âmbito dos conselhos da profissão para acepções totalizantes da profissão que possibilitou a participação do Conjunto dos conselhos, dentre outras atividades, na articulação e organização de movimentos da sociedade civil, através do apoio as lutas em favor da democracia e cidadania e participação em conselhos de política e direitos; e, por último, na implementação das diretrizes curriculares que consolidou o redimensionamento do projeto de formação profissional, a partir do amadurecimento de adesão teórica à perspectiva crítico-dialética de totalidade. É importante frisar essas inflexões como processo e expressão fundamentais da quebra do quase monopólio do conservadorismo teórico-metodológico e político da profissão.
Nessa perspectiva, o redimensionamento dos processos interventivos, especialmente das políticas sociais, começou a ser evidenciado na luta por direitos e na abertura de espaços de atuação profissional em instituições de formação e organização política dos trabalhadores, como sindicatos, associações profissionais e movimentos sociais, bases da construção do projeto ético-político profissional na direção das lutas e conquistas democráticas e do ideário da emancipação humana. O salto qualitativo dessas inflexões demarcou a incorporação, ao projeto profissional, de uma perspectiva ético-política que transcende à dimensão endógena da profissão. Esta perspectiva tem expressão primordial no modo de compreender o projeto profissional vinculado as lutas de segmentos trabalhadores, para a construção de uma sociabilidade para além do capital, o que define nitidamente o ponto de vista de classe desse novo projeto. E a organização dos assistentes sociais foi, sem dúvidas, a principal mediação para o avanço de uma reinserção profissional crítica nos espaços institucionais e para o
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De acordo com Barroco (2001) esta concepção se deve à compreensão imediata de a moral derivar da produção econômica e dos interesses de classe, sem a apreensão das mediações peculiares à ética. Disso resultou a vinculação mecânica do compromisso profissional com a classe trabalhadora, sem o estabelecimento da mediação dos valores próprios à ética.
reconhecimento de que a ação política constitui-se o primeiro passo no sentido da auto- realização das classes subalternas (GRAMSCI, 2000).
Conforme assinala Netto (1999), a experiência sócio-profissional tem comprovado que a afirmação social de um projeto profissional pressupõe em sua base uma categoria fortemente organizada. Isso demanda articulação e respeitabilidade com e frente a outras profissões, instituições e usuários dos serviços oferecidos pela profissão. São essas requisições elementares para que um projeto profissional como o do Serviço Social brasileiro ganhe solidez.
Por essa razão, as conquistas profissionais não podem ser deslocadas do contexto social no qual se processam. Esse movimento não foi e nem é um processo somente endógeno a profissão. Mantém uma profunda sintonia com a totalidade das relações que compõem a vida social. Por isso, não podemos considerar as conquistas do coletivo profissional somente como frutos da qualificação teórico-política do trabalho