Da seleção dos sujeitos da pesquisa
Os sujeitos da pesquisa foram escolhidos após período de observação das atividades de leitura literária em sala de aula e por meio de exame de alguns textos como resenhas e outros chamados "eu recomendo", produzidos em situações escolares nos dois contextos da pesquisa. Assim, orientada por questões tais como equilíbrio entre o número de meninos e o de meninas e atenta a diferentes níveis de letramento literário70, os critérios foram sendo construídos de modo a delinear grupos menores, para entrevistas posteriores de abordagem mais vertical.
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Este tipo de verificação foi possível em uma conversa inicial com os alunos, de caráter mais amplo, amplitude tanto no que se refere ao modo de abordagem quanto ao número de entrevistados, e também a partir da observação dos desempenhos dos alunos nas atividades em sala de aula, nas quais eram solicitados pela professora a expor comentários, a ler resenhas para os colegas, entre outras manifestações verbalizadas sobre as leituras que vinham realizando.
Das entrevistas
Os alunos, que já vinham sendo acompanhados nas situações coletivas que compõem as práticas de leitura literária nas escolas, foram focalizados, nas entrevistas, como sujeitos produtores de discursos sobre a leitura literária, dimensão a partir da qual pude desenhar alguns quadros definidores de concepções, preferências, critérios de escolha, e até mesmo de outras práticas sociais de leitura, que projetam a vida literária para fora da escola.
Cada quadro de respostas procurou definir como eixo uma categorização temática sobre a literatura. Algumas de viés mais sócio-econômico-cultural71, como a categoria 'leituras dos pais', outras de viés mais institucional, ligadas à cultura escolar propriamente dita72, como a que pressupõe o jogo de relações que os sujeitos estabelecem com gêneros/obras/autores/etc.
As questões responsáveis pela configuração dos quadros variavam de acordo com a situação de interlocução, que considerava acima de tudo um diálogo de abertura e não de fechamento das possibilidades de trocas entre sujeitos (pesquisadora e pesquisandos). Por isso, durante a pesquisa de campo, algumas alterações foram deliberadamente realizadas, como a mudança de enfoque para um e outro quadro que contasse com implícitos teóricos; em uma e noutra escola, em conformidade
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Aqui procurou-se relacionar leitura dos pais e formação/profissão.
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Aquelas que consideram um certo domínio de categorias do campo da teoria literária, tais como noções de gênero, autoria, ou mesmo dados ligados aos processos de circulação de livros da literatura na sociedade.
com suas práticas; de um para outro aluno, segundo sua proficiência no trato com o texto literário.
É exemplar nesse sentido a experiência com a pergunta "o que é literatura?". Devido à dificuldade para a abstração teórica de tal envergadura, perceptível na entrevista com alunos da Escola Balão Vermelho, e no intuito de não provocar "ruídos" que interrompessem o fluxo de empatia esperado, formulei outra de orientação distinta para os alunos da Escola Municipal Antônio Sales Barbosa: "para que ler literatura?", de natureza mais pragmática, que mais facilmente pudesse ser respondida, sem comprometimento do curso do diálogo. Outras vezes, preservou-se a direção para a qual se encaminhava a conversa, subtraindo-se questões que não se aproximassem de temas que vinham sendo abordados, atitude que reforça o caráter flexível das entrevistas, em consideração às idiossincrasias dos alunos das duas escolas.
Em suma, como já foi dito no traçado metodológico desta tese, as entrevistas contavam com uma estrutura de fundo fixo, mas operacionalmente flexível, que se modificava segundo os encaminhamentos e desdobramentos surgidos na situação de comunicação pesquisador-pesquisando. Desta forma, repito, procurou-se evitar questões que interrompessem o fluxo do diálogo ou
dificultassem a aproximação entre as partes envolvidas, que reprimissem ou impedissem a fala espontânea sobre o assunto. O grau de familiaridade com a literatura, apreendido nas observações prévias, possibilitou a definição do tom mais teórico ou mais pragmático, não só de acordo com as práticas voltadas para a leitura
literária observadas, como também de acordo com as especificidades dos leitores na interação com os livros de literatura.
Da escola Balão Vermelho, foram selecionados os seguintes alunos: Ana Luiza, Artur, Daniel, Juliana, Sofia, Túlio
Nessa escola, como já observei acima, os critérios que guiaram a seleção corresponderam às performances (menos ou mais empenhadas) dos alunos nas discussões e nas apresentações de resenhas nas aulas de Português, considerando-se tanto aquelas de maior quanto as de menor fluência que se deixavam ver nos discursos produzidos sobre as leituras literárias.
Da Escola Municipal Antônio Sales Barbosa, os sujeitos selecionados foram: Diego, Núbia, Vivian, Flaviane, Bruno, Karoline.
Na escola pública, para a escolha dos alunos utilizei critérios semelhantes à experiência já realizada na Escola Balão Vermelho, ou seja, primeiramente uma observação atenta de algumas atividades em sala de aula, para, em seguida, conversar com um grupo de abrangência representativa, num contato inicial, e só depois recortar mais uma vez o universo dos entrevistados, com os
quais dialogaríamos em outras oportunidades73 no decorrer do ano. Um ano complicado, como já evidenciei antes, por uma greve que se estendeu por quase todo o primeiro semestre letivo na escola pública da Rede Pública Municipal.
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Foram três as entrevistas com cada aluno(a), além de outras situações "não-agendadas", nas quais pudemos dialogar, seja durante a realização de trabalhos em grupo, seja nas apresentações de trabalhos pelos grupos, quando tive a oportunidade de ampliar a avaliação sobre escolhas e critérios que as regiam, naquelas circunstâncias de leitura literária engendradas pela proposta pedagógica das práticas escolares de valorização dos espaços de leitura.
Dentro das condições desse quadro social e político diferenciado, os alunos foram selecionados com vistas a uma caracterização do objeto dessa pesquisa, ou seja, a recepção da literatura por jovens leitores, considerando sobretudo as disposições, ou predisposições, para esse tipo de letramento.