I. BÖLÜM
4.2. İkinci Alt Probleme İlişkin Bulgular ve Yorum
Se para Hobbes o “estado de natureza” constitui-se em estado de guerra (no qual o
homem luta contra o homem), somente abolido pela criação do Estado, governado pelo
soberano absoluto, para Locke o “estado de natureza”, pelo contrário, não possui implicações
negativas. Seria esse um estado no qual a razão governaria o homem, pois haveria uma razão humana, dada por Deus a todos, a qual guiaria as condutas dos homens, em função de não ser extinta a raça humana.
Ocorre, porém, que mesmo se os homens se autogovernassem, os conflitos de interesse poriam problemas não solucionados nesse estado, problemas que apareceriam quando houvesse alguma disputa em que nenhuma das partes envolvidas pudesse opinar sem recorrer a um terceiro, ou seja, a um juiz nomeado apenas para um conflito em particular. Tal juiz, por ser conhecido de algum dos envolvidos, daria voz de razão ao que mais lhe agradasse, por não possuir imparcialidade conferida por uma instituição a qual estivesse ligado. Não apenas em relação a isso: mesmo nas disputas sem juiz, certamente a lei do mais forte prevaleceria e facilmente os homens poderiam colocar outros sob seu jugo. A conclusão lógica desse pensamento seria a de que mais vezes o evento se repetiria, nunca cessando, sempre criando entre os homens um estado de guerra. Essa questão é explicada pelo próprio Locke:
Homens vivendo juntos segundo a razão, sem um superior comum na terra com autoridade para julgar entre eles, eis efetivamente o estado de natureza. Mas a força, ou uma intenção declarada de força, sobre a pessoa de outro, onde não há superior comum na terra para chamar por socorro, é estado de guerra; e é a inexistência de um recurso deste gênero que dá ao homem o direito de guerra ao agressor, mesmo que ele viva em sociedade e se trate de um concidadão. (LOCKE, 1994, p. 92)
A partir disso, pode-se supor que a formação de uma sociedade política faz-se tendo em vista abster-se de um estado de guerra, que impossibilitaria uma vida livre, outorgando poder político a alguém, ou a algo (uma instituição que representasse os homens), responsável por gerir a convivência humana em suas diferentes esferas — hoje pensadas enquanto esfera jurídica, legislativa e executiva. Neste ponto, é necessário apresentar o que Locke entende por
“poder político”. A resposta dada por ele a essa questão parece bastante clara. Afirma o autor: Por poder político, então, eu entendo o direito de fazer leis, aplicando a pena de morte, ou, por via de consequência, qualquer pena menos severa, a fim de regulamentar e de preservar a propriedade, assim como de empregar a força da comunidade para a execução de tais leis e a defesa da república contra a depredação do estrangeiro, tudo isso tendo em vista apenas o bem público. (LOCKE, 1994, p. 82)
O critério que diferenciaria a pena dada a algum infrator antes da formação de uma sociedade política seria baseado na natureza do poder. Assim sendo, haveria imparcialidade na aplicação das leis, pois elas seriam válidas para todos, independentemente de quem tivesse
cometido delito. Os cidadãos deixariam de ser iguais em “estado de natureza”, mas passariam
a ser iguais perante o critério que os une, governados também segundo este mesmo critério, sem qualquer distinção, pois as leis delimitariam o que os homens poderiam fazer em busca de permanecerem unidos na sociedade política.
Uma questão, de outra ordem, que distingue a posição de Locke da de Hobbes, é relativa à escolha do legislador e executor das leis, que garantiria a união dos homens em uma sociedade política. Hobbes entende que apenas um soberano absoluto possuiria essa capacidade. Locke, antecipando Montesquieu, demonstra haver necessidade em dividir-se as instituições que manterão o governo. Para ele, o poder confiado não poderia ser colocado nas mãos de um só, mas deveria ser dividido pelos que elaborariam as leis (legislativo), pelos que as executariam (executivo) e pelos que observariam a convivência dos homens, para que a vontade que os uniu não fosse transgredida, uma espécie de poder judiciário (federativo). Nesses moldes estaria criado o “Governo Civil”.
Esse ideal proposto tanto por Hobbes quanto por Locke é uma posição necessária para o pensamento político, pois pressupõe a “humanização” do homem, criada somente por meio da política. Não somos iguais, por fruto da genética de cada um, mas o somos por meio da palavra e daquilo que com ela realizamos. A criação de conceitos abstratos é imposta como o pilar daquilo que com a palavra podemos fazer, pois como saberíamos o que é o “perdão”, a
“promessa”, a “mentira” se não dispuséssemos da palavra? Ao mesmo tempo em que essas
noções fundam a sociedade política, fundam também os atos de linguagem por meio dos quais a comunicação será efetuada. Noções como essas são necessárias à permanência do homem entre seus semelhantes: os homens. Hobbes e Locke partem desse pressuposto, o mesmo que Arendt observará ao discutir a questão das revoluções, percebidas por ela como a abolição do contrato estabelecido pelos homens para a criação de um novo contrato.
A questão política adentra esse pensamento, ajudando-nos a entender o significado de política de uma forma que as teorias contratualistas iniciam, mas deixam vagas. Por esse motivo, inicio no próximo subcapítulo as considerações de Arendt sobre o político, buscando nisso o entendimento da política na atualidade, bem como de questões a ela concernentes, principalmente a da interação do homem com os seus semelhantes, membros de uma mesma sociedade política.