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As associações religiosas brasileiras, e mineiras em especial, seguiram o modelo português, de origem medieval. Elas são conhecidas genericamente como “irmandades”, termo empregado indistintamente como sinônimo de confraria, arquiconfraria e ordem terceira. Entretanto há diferenças entre o que cada um dos termos designa. As irmandades são associações de fiéis instituídas para exercer alguma obra de piedade ou caridade. As confrarias

3 Para mais detalhes sobre esse duplo pertencimento dos sujeitos, ver a dissertação de Marileide

Lopes dos Santos, intitulada Educação, assistência e sociabilidade: governo dos pobres em Sabará/MG (1832-1860), defendida em 2007 (SANTOS, 2007).

são aquelas criadas para o incremento do culto público. Quando uma confraria tem o poder de agregar outras com o mesmo nome e finalidade, configura-se como arquiconfraria. As ordens terceiras são associações pias que se vinculam a uma ordem religiosa, da qual extraem e adaptam regras para uma vida cristã no mundo (BOSCHI, 1986, p. 12-21).

Em todos os casos, havia necessidade de elaborar um Estatuto ou Livro de Compromisso – que deveria ser submetido ao crivo da Coroa Portuguesa –, no qual constavam os deveres e direitos dos congregados. Além das suas funções precípuas, era comum a todas as associações a assistência aos irmãos, a celebração de missas em sufrágio da alma, sepultamento no interior das igrejas erigidas pelas irmandades, com solenidade e acompanhamento dos irmãos e do capelão (BOSCHI, 1986, p. 12-21). Embora organizadas sob a égide da Igreja, mas também do Estado, podemos incluir entre as associações religiosas as misericórdias, “gênero de agremiação voltada para o exercício da caridade para com o próximo, as misericórdias cuidavam de doentes desassistidos, de defuntos carentes de recursos, de presos e de condenados” (BOSCHI, 1986, p. 13).

Assim, uma grande quantidade de pessoas, homens e mulheres, ricos e pobres, agremiava-se nas associações religiosas para promover o culto público, cultuar seus santos, buscar proteção diante das contingências da vida e da morte, encontrar pessoas, estabelecer relações e praticar a caridade, e, também, como forma de conquistar poder e salvação.

De acordo com Caio César Boschi a história das confrarias, arquiconfrarias, irmandades e ordens terceiras se confunde com a própria história social e religiosa de Minas Gerais no século XVIII. A descoberta de ouro em grande quantidade no final do século XVII atraiu para Minas uma grande quantidade de homens sob a ilusão da riqueza fácil. Naquele momento, também os eclesiásticos afluíram para Minas em grande quantidade.

Essa fase do povoamento da região das minas foi marcada pelo clima de insegurança e instabilidade. Diante da impossibilidade de recorrerem ao poder institucional do Estado, cuja implantação ainda não se havia efetivado, os homens se socorreram na religião. Entretanto, decorridos pouco mais de dez anos do aparecimento das primeiras pepitas de ouro, a Coroa proibiu a fixação do clero regular na região das Minas. Desse modo, coube aos leigos cuidar da

implementação da vida religiosa, inclusive financiando-a de diferentes formas (BOSCHI, 1986; 2007).

Nas Minas Gerais do século XVIII, religiosidade, sociabilidade e irmandades se (con)fundem e se interpenetram. As irmandades coloniais mineiras, grêmios de cunho orgânico e local, avocaram para si grande parte das expressões de religiosidade e representaram um canal privilegiado de manifestações em uma realidade histórica na qual a livre associação era proibida. Agentes da religiosidade, elas não se reduziram ao inerente caráter devocional. A sociabilidade, a beneficência e o compromisso de assistir seus integrantes na vida, nas vicissitudes desta e na morte são, por vezes, motivações mais fortes que induziram os habitantes de Minas a organizá-las e nelas permanecer (BOSCHI, 2007, p. 59). “Em síntese, as irmandades funcionaram como agentes de solidariedade grupal, congregando, simultaneamente, anseios comuns frente à religião e perplexidades frente à realidade social” (BOSCHI, 1986, p. 14).

As associações religiosas mineiras assumiram contornos específicos em decorrência da forma de ocupação de seu território e da proibição de instalações de ordens religiosas na região, mas, a despeito disso, elas foram instituições bastante comuns na sociedade brasileira do Setecentos. Tais agremiações desempenharam importante papel no que se refere à prática religiosa e à assistência social suprindo, não raras vezes, as funções do Estado e da Igreja. Elas também se constituíram como importantes espaços de sociabilidade, visto que, com efeito, as cerimônias religiosas realizadas dentro e fora dos templos, bem como suas reuniões, promoveram a configuração de um microcosmo com contornos particulares em torno do qual as pessoas se reuniam.

No final do século XVIII esses espaços de sociabilidade sofreram forte contração decorrente, por um lado, do cerceamento das associações por parte da Coroa, visto que poderiam converter-se em “conventículos sediosos”, e, por outro, da evasão dos membros para outros espaços de sociabilidade que tendiam para maior laicização (BOSCHI, 2007, p. 74-75). Embora não com a mesma vitalidade do século anterior, estudos demonstram que essas associações tradicionais permanecem com força na cena pública ao longo de todo o século XIX e até hoje, tanto em Minas quanto em todo o Brasil.

(OLIVEIRA, 2002; GOMES, 2009; COE, 2009; CRUZ, 2007; SANTOS, 2007). A permanência das associações tradicionais na cena pública, bem como o nascimento de novas formas de sociabilidade, no período recortado pela pesquisa, foi capaz de produzir um hibridismo derivado das transformações que se entrelaçaram e foram matizadas pela permanência de antigas formas de congregação.

A proliferação de espaços de sociabilidades que tendiam à maior laicização, de que nos fala Boschi (2007, p. 75), e dentre os quais podemos apontar as associações mineiras do período regencial, pode ser localizada no bojo de dois fenômenos complementares, porém distintos: a difusão do Iluminismo e a configuração de uma esfera pública de poder. Ambos os fenômenos produziram uma diferenciação de princípio entre as associações religiosas, por um lado, e as sociedade literárias, maçônicas e filantrópicas, por outro.

A formação das primeiras se orienta, principalmente, pela prática da caridade e a das últimas, pela filantropia. Essas associações possuem algumas similaridades com aquelas. Contudo o que demarca a diferença entre elas é que as associações laicas cuja criação se orienta pelo principio da filantropia reflete uma nova maneira de inserção dos sujeitos no espaço público. Assim, um dos caminhos para entendermos as diferença entre as formas tradicionais de agremiação (irmandades, confrarias, arquiconfrarias, ordens terceiras e misericórdias) e as novas (maçonaria, sociedades literárias e científicas e as associações políticas e filantrópicas) é a percepção e a compreensão dos traços distintivos entre caridade e filantropia.

Não queremos com isso reduzir a formação de associações religiosas ao exercício da caridade, pois suas funções iam muito além dela, como ficou demonstrado acima. Entretanto, não há como negar que a caridade é um dos mais fortes motores da associação religiosa.

A prática da caridade, assente em valores religiosos, é bastante longeva e tem a Igreja Católica como criadora de suas bases sociais e institucionais. De acordo com o Bluteau (1712/1727), caridade significa “virtude teologal com a qual amamos Deus por amor dele, e ao próximo por amor de Deus”. A caridade era entendida também como “ação caritativa”, que significava fazer a caridade a alguém, ensinando-o ou fazendo-lhe outro benefício e como

“esmola”. Desse modo, a caridade é compreendida como virtude cristã e tem o sentido de amor ao próximo, que se expressa pela doação material e espiritual.

A filantropia subsidiou práticas parecidas com aquelas de origem caritativa, mas que se orientaram por princípio diverso. A filantropia é de natureza secular, portanto necessariamente diferente da caridade, cuja natureza é religiosa. De acordo com GEREMEK (1995), a ideia de filantropia se configura com base nas transformações do quadro de pensamentos e mentalidades operadas pelas Luzes, que provocaram certa laicização do mandamento do amor ao próximo, que assumiu um caráter mais cívico e secular.

Falcon (1986, p. 70-77) acrescenta que a filantropia pode ser definida como “amizade desinteressada pela espécie humana”; trata-se de um “sentimento de dever para com os miseráveis”. O filantropo seria aquele que pratica beneficências, ou seja, faz bem aos outros, assiste pobres e doentes. Na concepção iluminista, tal atitude seria própria dos “homens ilustrados”. Esse sentimento manifesta-se, preferencialmente, na ação coletiva: o grupo reúne- se em torno de uma causa, mobiliza-se para a ação e programa atividades, em geral reconhecidas socialmente como positivas (GEREMEK, 1995). Pode-se exercitar a filantropia e a beneficência instituindo sociedades. Daí decorre a criação de instituições assistenciais tais como hospitais, asilos, orfanatos entre outras (1986, p. 70-77).

1.1.2-A constituição da esfera pública de poder e as novas formas

Benzer Belgeler