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İbnü’r-Râvendi’nin Berâhime ile İlişkilendirilmesi

As antologias, as histórias e os textos críticos de Manuel Bandeira servem de fonte para sua produção. Em sua autobiografia, Itinerário de Pasárgada, o historiador explica que se envolveu na organização de antologias poéticas por força e vontade do ministro Gustavo Capanema114. Em 1936, "o grande ministro” solicitou que ele resumisse em cinco antologias a melhor poesia do Brasil. Esses livros seriam divididos em: ante-românticos, românticos, parnasianos, simbolistas e modernistas. Bandeira aceita ocupar-se dos românticos (o Romantismo celebrava seu centenário) e dos parnasianos. Declinou, entretanto, do estudo da poesia colonial, a qual declara estar muito melhor nas mãos de Sérgio Buarque de Holanda, e do Simbolismo, para o qual sugere o

114 Gustavo Capanema Filho (1900-1985), mineiro de Pitangui, construiu uma

sólida carreira política que teve início em 1927, como vereador de sua cidade natal, passando por vários cargos públicos até chegar a Ministro da Educação e Saúde do governo de Getúlio Vargas. No âmbito cultural, relacionou-se com Manuel Bandeira e com vários outros artistas como Mário de Andrade, Cândido Portinari, Heitor Vila- Lobos, Cecília Meireles e Vinícius de Moraes. Carlos Drummond de Andrade chegou a ser chefe de gabinete em seu ministério.

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nome de Andrade Muricy. Em relação ao Modernismo, conclui: "o modernismo era cumbuca onde eu, macaco velho, não me atrevia a meter, já não digo a mão, mas sequer a primeira falange do dedo mindinho"115.

Com exceção do período anterior ao Romantismo, em que a proposta seria chamar-se anterromântico, Bandeira segue a ideia do ministro Capanema para classificar os autores e obras em unidades maiores na Apresentação da poesia brasileira. O historiador identifica os estilos na parte superior das páginas, nomeando, assim, tanto o ensaio quanto a antologia.

Os responsáveis pela sua incursão em escritas históricas também são apresentados em Itinerário de Pasárgada (1984):

fui aceitando tarefas em outros campos. Em 1938, Rodrigo M. F. de Andrade, como diretor do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, me convenceu a escrever um Guia de Ouro Preto; Afrânio Peixoto, diretor de uma coleção na Editora Nacional, me levou a preparar uma edição crítica e comentada da obra poética de Gonçalves Dias (1944); os meus alunos do Pedro II umas Noções de história das literaturas; os da Faculdade de Filosofia uma Literatura hispano-americana (1944)116

A edição da Apresentação da poesia brasileira, de 1965, tem como fonte essa produção anterior do crítico e historiador. Os textos, muitas vezes, são reformatados, alterados ou acrescidos de informações, mas em grande medida se repetem. Essa é uma característica comum na obra de Manuel Bandeira, qual seja, o processo constante de construção da memória117. No âmbito da história, mesmo a primeira edição, de 1946, possui uma similaridade com o período que compreende os inícios até o Simbolismo da poesia brasileira, relatada nas Noções de história das literaturas, de 1940118.

115 BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada. p. 107. 116 BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada. p. 107-108.

117 Em sua poesia, o tema da infância é constantemente retomado e

modificado. Há exemplo de versos que aparecem em mais de um poema cujo sentido é transformado de um texto para outro, como em “Antologia”, peça composta de versos de vários outros poemas.

118 Esse é o primeiro livro de Manuel Bandeira sobre história literária. Poucas

foram as modificações desta obra para a Apresentação da poesia brasileira (1965), no que tange ao período que vai de Anchieta ao que antecede o Modernismo. Nesse sentido, Noções é fonte fundamental para compreender a poesia até o século XIX, pois as raras modificações, do texto de 1965, assinalam uma mudança na recepção

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Ocorre que, nessa obra, Bandeira historia outros gêneros e, após “O movimento simbolista”, encerra com “Correntes modernas” em que se limita a narrar a história do Modernismo brasileiro e enumerar um conjunto de poetas sem dar ênfase a nenhum, o que não acontece na primeira edição da Apresentação, em que os poetas modernistas são citados com suas respectivas biografias e bibliografias. Nesse sentido, é possível entender que o autor utilizou como fonte o texto de 1940, para o período que compreende do século XVI ao XIX, ampliando, no de 1946, as novas informações e acrescentando a apresentação dos poetas modernistas. Dessa forma, o período que compreende de 1936, ano em que Capanema solicitou as cinco antologias, até 1965, última publicação da Apresentação, expõe um movimento de expansão e de contínua revisão da memória de Bandeira sobre a poesia brasileira.

Em Noções de história das literaturas, seu primeiro trabalho historiográfico, propõe o critério cronológico para os três primeiros séculos relativos à época colonial, revelando uma dificuldade em estabelecer classificações periodológicas mais exatas. David Perkins explica que a classificação é fundamental para a disciplina da história da literatura, pois mapeia o mundo cultural119. A sugestão de Capanema

para chamar o período anterior ao Romantismo de anterromântico demonstra que em 1936 ainda não havia um consenso sobre a taxonomia anterior à independência120.

Já para a época nacional, que inicia em 1836, com o Ensaio sobre a história da literatura no Brasil, Bandeira usa o critério estilístico, pois do historiador. Isso fica evidente na apresentação de Anchieta e de Bento Teixeira como será demonstrado no capítulo 4.

119 PERKINS, David. História da literatura e narração. p. 30.

120 O critério cronológico para o período anterior à independência tinha sido

utilizado por Joaquim Norberto em seu Bosquejo da história da poesia brasileira (1841), Santiago Nunes Ribeiro em Da nacionalidade da literatura brasileira (1843), Ferdinand Wolf em Histoire de la litterature bresilienne (1863) e Fernandes Pinheiro em Resumo da história literária (1872). Sílvio Romero preferiu nomear de “Período de formação” e de “Desenvolvimento autonômico”. Ronald Carvalho de “Período de formação” e “Período de transformação e Arthur Motta de “Época de formação”, Época de transformação” e “Época de expansão autonômica”. José Veríssimo e Nelson Werneck Sodré classificaram, respectivamente, de “Período colonial” e “Literatura colonial”.

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divide em Romantismo, Realismo, Simbolismo e Correntes modernas. As duas primeiras escolas são ainda subdivididas em gêneros: poesia; prosa; teatro; historiadores, críticos e jornalistas; a oratória. Machado de Assis recebe um capítulo específico e serve como marco entre os românticos e os realistas O movimento simbolista não apresenta subdivisões e, tampouco, as correntes modernas.

David Perkins explica que quando há uma multiplicidade de objetos, esses devem ser convertidos em um número menor de unidades para que sejam caracterizados, ordenados e inter-relacionados121. Em Noções 122 , os românticos escreveram em prosa e em verso, os parnasianos são representantes da poesia entre os realistas, enquanto, dos simbolistas em diante, Bandeira somente tratará de poetas. Na Apresentação, como trabalha apenas com um gênero, a classificação se restringe aos estilos literários advindos da Europa.

Embora possua semelhanças, pois Bandeira reutiliza, em 1946, o texto de 1940, há referências que não constam na Apresentação. Um exemplo é quando trata de Tomás Antônio Gonzaga. O historiador em Noções apresenta uma nota de rodapé em que esclarece: “no número de abril de 1940 da Revista do Brasil publicamos um estudo comparativo das Cartas e das obras de Gonzaga e Cláudio Manuel, cujas conclusões são favoráveis à autoria do primeiro”123. Na Apresentação essa nota é retirada, sendo possível averiguar, apenas pela leitura, a opinião a favor de Gonzaga. No artigo intitulado Autoria das “Cartas chilenas”, os argumentos são mais desenvolvidos, mas os críticos citados são os mesmos que aparecem no compêndio de 1946. Nesse caso, Bandeira utilizou o artigo para tratar do poeta em Noções e reutilizou-o para a Apresentação. Essa atitude demonstra o modo como Manuel Bandeira foi construindo a sua história da poesia brasileira124.

Na Apresentação da poesia brasileira, os românticos, os

121 PERKINS, David. História da literatura e narração. p. 30.

122 A partir desse momento o livro será identificado apenas por Noções. 123 BANDEIRA. Noções de história das literaturas. p. 285.

124 Por esse motivo, embora o objeto desta tese seja o texto de 1965, o

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parnasianos e os simbolistas têm, como fonte, além das Noções de história das literaturas (1940), outros textos do autor: Antologia dos poetas brasileiros da fase romântica (1937), Antologia dos poetas brasileiros da fase parnasiana (1938), Poesias, de Alphonsus de Guimarães (1938), Obras-primas da lírica brasileira (1943) e Obras poéticas de Gonçalves Dias (1944). Por outro lado, A apresentação da poesia brasileira, de 1946, serve de fonte para Gonçalves Dias (1952), Antologia de Gonçalves Dias (1958), Poesia e vida de Gonçalves Dias (1962) e Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire, Castro Alves (biografias) (1963).

À edição de 1965 incorpora esses textos anteriores, aos quais acrescenta ainda a Rimas de José Albano (1948) e Antologia dos poetas bissextos contemporâneos (1946) livros que Bandeira organizou e apresentou. O livro Poesia do Brasil (1963) conta com a colaboração de José Guilherme Merquior para a fase moderna. Nessa obra, Bandeira seleciona e estuda a poesia brasileira, retomando e ampliando as mesmas informações presentes nas edições anteriores da Apresentação.

Sua produção como antologista serve também de fonte para a segunda parte da Apresentação. Na antologia, os poemas de Gonçalves Dias, por exemplo, foram retirados das Obras Poéticas de Gonçalves Dias (1944), enquanto “Adormecida”, de Castro Alves, foi recolhido da Antologia dos poetas brasileiros da fase romântica (1942).

A produção crítica e historiográfica de Bandeira corresponde, dessa forma, a um processo de elaboração que se inicia em 1940 e vai até 1965, três anos antes de sua morte. Assim, a última publicação em vida da Apresentação sinaliza a construção da memória do observador Manuel Bandeira sobre o sistema o qual historia e do qual participa.