Os livros de poesia das escritoras que têm algum tipo de atuação na mídia como Martha Medeiros, Lya Luft e Paula Taitelbaum, cujas obras constituem o corpus a ser analisado nesse capítulo, sinalizam novos paradigmas para a discussão sobre as especificidades do lirismo atual. Muito embora, essas autoras sejam praticamente ignoradas nas análises feitas sobre a poesia do Rio Grande do Sul. Em geral, os estudos sobre a lírica, desse período, têm priorizado o nome de autores exponenciais, com publicações que traduzem algum tipo de ruptura ou sugerem inovações quanto à forma ou uso da linguagem. Ao privilegiarem autores consagrados, os estudiosos preocupam-se em estabelecer categorias que dão sustentação às analises do que consideram literatura de qualidade. Esse procedimento dificulta o estudo de obras que não correspondem às expectativas de tais teorias. Em função disso, verifica-se uma dificuldade de se estabelecer referências tanto teóricas quanto recepcionais, visto que os analistas, praticamente, não têm se pronunciado acerca das publicações mais recentes.
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Para avaliar as produções poéticas das autoras citadas, faz-se necessário, na maioria das vezes, o abandono de orientações teóricas que estão presas a valores estéticos de um período anterior, que elegiam valores como "belo" "distanciamento estético", "metrificação", "originalidade" e "naturalidade". Boa parte da crítica, muitas vezes, ao pretender produzir uma redefinição da lírica, acaba revelando uma visão de poesia baseada em paradigmas redutores e conservadores, sendo, em alguns casos, incapaz de lidar criticamente com a "diferença" provocada por experiências poéticas, que, em certo sentido, traduzem uma concepção de lirismo mais voltada para o imediatismo característico dos tempos atuais.
Para analisar a poesia de Lya Luft, Martha Medeiros e de Paula Taitelbaum, torna-se imperioso considerar o impacto da tecnologia e da cultura de massas sobre a poética contemporânea. A noção de poesia como algo "natural" e como a confissão de um eu-lírico, na obra dessas escritoras, está sendo reconfigurada em função da possibilidade de interação com o novo ambiente tecnológico da cultura, em que a fala é constantemente minada e/ou atravessada pelo discurso da televisão e da publicidade, reveladores da descontinuidade e da excentricidade.
Seguindo a linha confessional, com uma poesia quase sempre direta, elas preferem um contato mais imediato com a audiência, evitando um trabalho mais experimental no que tange aos usos dos recursos da linguagem. Essa intenção surte efeito, principalmente quando somada ao fato de as aludidas autoras terem uma exposição na mídia, no caso de Lya e Martha, no jornal em que são cronistas e de Paula, na publicidade e na atuação premiada de criação de sites, na Internet.
Vale destacar que o diálogo de poetas contemporâneos com as tecnologias de ponta não está associado à desvalorização ou ao desaparecimento da palavra escrita. Essa aproximação, em certo sentido, revitaliza a palavra, estabelecendo uma reconfiguração na forma da tessitura poética, uma vez que novos modos de usar a linguagem passam a ser incorporados à poesia. Nesse
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caso, as circunstâncias históricas, bem como os recursos e suportes para a divulgação da produção literária estabelecem uma diferença substancial. Conforme já demonstrado anteriormente, em relação às escritoras do século XIX, o espaço utilizado para dar visibilidade às produções era circunscrito aos eventos sociais, com uma audiência bem mais restrita. Atualmente, são exploradas as múltiplas possibilidades, assim como a visibilidade oriunda do avanço dos recursos dos novos meios de comunicação a fim de promover as obras literárias.
A produção poética de Lya Luft, Martha Medeiros e de Paula Taitelbaum não se engaja em nenhum movimento organizado e/ou corporativo, como as vanguardas do século XX, nos anos 50 e 60 e a própria poesia marginal da década de 70. Ao contrário, um de seus traços mais característicos é justamente o de fenômeno difuso e não-programático, isento de plataformas estético- ideológicas e de militância literária articulada. Sob esse aspecto, divergem de autoras que mantêm compromissos com um projeto tanto de ordem estética quanto ideológica como Lila Ripoll e Lara de Lemos, cujas obras foram objeto de discussão no capítulo anterior.
O que essa nova poesia prioriza não é o tom grandiloqüente, os cantos épicos às forças da natureza, as profundezas abissais da alma humana, os tormentos indizíveis, os alumbramentos ou as epifanias. Ela debruça-se sobre questões do cotidiano, às vezes, para celebrar o anedótico, o puramente episódico ou o intranscendente. Esse fazer literário flagra, na experiência prosaica, o momento do vivido e as pequenas descobertas e inquietações do dia-a-dia. É uma poesia que opta por não se colocar essencialmente como porta voz das grandes angústias existenciais da modernidade, que não se preocupa com as forças sociais e que não cria, na maioria das vezes, um efeito de distanciamento que possibilita a disjunção entre o sujeito poético e o sujeito empírico. Essa lírica é o que se pode chamar de auto-referencial, centrada no "eu" da enunciação e não na linguagem. Esse "eu" que fala expressa sentimentos fragmentários, através de uma sintaxe, geralmente, convencional, embora marcada pelo tom coloquial menos intelectualizado ou influenciado pela filosofia da linguagem.
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A constelação temática de Lya Luft, Martha Medeiros e Paula Taitelbaum reflete, em certo sentido, a questão do esgarçamento do tecido social, representado pela excessiva valorização de um certo cotidiano pequeno burguês. Esse fato dá-se, em especial, nas obras das duas últimas escritoras, marcadas pelo centramento na auto-referencialidade, praticamente ignorando questões mais amplas de caráter existencial ou social. A pouca relevância atribuída a tais aspectos, nas obras dessas escritoras, acaba por fundar um certo enfraquecimento das bases que sustentam uma obra com mais profundidade.
Sob essa ótica, a poesia perde sua aura e passa a ser mais uma mercadoria na sociedade, mediada pela divulgação em diferentes mídias e pelo potencial de consumo. Diante da emergência dessa "nova" poesia, urge serem questionadas as bases que sustentam os posicionamento sobre a literatura contemporânea, visto que há uma necessidade se de colocar no centro das discussões o restabelecimento de critérios críticos para a análise do fenômeno literário. A partir dessa discussão, poder-se-ia compreender o que se pode definir como a rápida obsolescência textual. Processo comum em uma sociedade em que os bens culturais se viram sugados para a engrenagem do consumo e da rápida dissolução.
O motor dessas reflexões orienta para a necessidade de se repensar os paradigmas sobre a concepção de poesia, bem como de tradição e linguagem. Para que possa dar conta da pluralidade da atual cultura literária, o crítico não deveria se contentar com paradigmas que respondiam a expetativas de outros períodos. Nesse sentido, convém destacar as observações de Maria Esther Maciel em ensaio sobre a poesia do fim do século XX:
Muitos dos procedimentos estéticos inventados na fase heróica dos movimentos de vanguarda e levados às últimas conseqüências pelos movimentos posteriores, como as técnicas do simultaneismo, fragmentação, montagem e colagem, dentre outras, convertem-se em práticas rotinizadas - porque esvaziadas de seu efeito transgressor -
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dentro do que passou ser designado de pós- modernidade.1
As produções poéticas da última década do século XX, embora ainda marcadas pela confluência de tradições e linguagens diversas, mostram-se rebeldes à promessa utópica que sustentou as vanguardas. O conjunto dessas obras não assume nenhuma espécie de pacto coletivo ou funda movimento literário. Tal processo de emancipação implica, na prática, uma série de rupturas, no tocante à poesia anterior e à própria cultura. Além disso, revela uma certa adesão às linguagens contemporâneas, sem necessariamente assumir uma postura radicalizada, seja de hostilidade ou de reverência, diante das tradições e códigos que se intersecionam no cenário atual. No entanto, as autoras não têm a intenção de se colocarem como uma espécie de olho crítico da sociedade, fazendo de sua poesia um instrumento de aferição das contradições e ambigüidades do processo cultural a que assistem e vivenciam. Essas escritoras encarnam assumidamente a voz de um sujeito feminino mutante e falam a partir de seu universo de experiências.