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1. Mu’tezile’nin Tepkisi

1.1. Hayyât’ın Eleştirisi

A história da literatura, ao longo do século XX, passou por vários processos de revisão, resultantes das múltiplas perspectivas em relação às concepções de história, de literatura e de ciência, conceitos que fundamentam a reflexão sobre a complexidade de pensar essa disciplina. Heidrun Olinto (1996) demonstra a complexidade dos estudos literários comentando sobre uma das edições da Modern Language Association, anuário que publica a atividade dos profissionais cujos interesses são vinculados à área da literatura. Esse compêndio é composto por cinco volumes e de “espantosos 2716 itens diferentes distribuídos entre notas, edições, artigos, coletâneas, monografias e livros”28. A autora relata que o periódico reconhece em ordem alfabética a vigência das seguintes teorias da literatura: estruturalista, feminista, filosófica, hermenêutica, linguística, marxista, narrativista, neo- historicista, pós-estruturalista, pós-modernista, pragmática, psicanalítica, psicológica, reader-response-criticism, recepcional, retórica, semiótica e sociológica.

Esse número de abordagens, segundo Olinto, não leva necessariamente a um conhecimento mais preciso e nem tampouco a descobertas mais completas sobre o mesmo objeto, mas simplesmente inventa outros objetos. Em torno dessa questão, Heidrun Olinto organiza

28 OLINTO, Heidrun. Interesses e paixões. In: _____. Histórias de literatura:

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o livro Histórias de literatura: as novas teorias alemãs (1996)29, no qual apresenta, além de um artigo de sua autoria, textos de mais onze historiadores alemães, escritos durante a década de 1980, como um programa alternativo para estudar o fenômeno literário que se constitui como teoria da literatura empírica, fundada sobre conceitos epistemológicos construtivistas.

Heidrun Olinto abre a “Apresentação” da coletânea, expondo ao público brasileiro sua intenção de “refletir o crescente interesse pela tematização de novas formas de pensar a escrita de histórias de literatura, a partir da contribuição de teóricos alemães”30. A autora aproxima não apenas espaços, mas também tempos, pois busca, no passado, uma tradição que tem como marco inicial o texto de Hans Robert Jauss (1967). Seu interesse assinala um momento de mudança de paradigma que iniciou com o ensaio de Jauss, responsável por desconstruir as “propostas de histórias literárias de intenções universalistas, totalizantes nas quais as obras e os autores eram enfileirados cronologicamente em uma utopia progressista pela articulação de estilos e épocas homogêneas”31. Nesse sentido, Olinto

aponta a passagem para novas teorias que são herdeiras da estética da recepção.

Entre os onze intelectuais alemães que compõem a obra, encontra-se Siegfried Schmidt, cujo artigo “Sobre a escrita de histórias da literatura” (1996) questiona se, naquele momento, escrever histórias da literatura seria um projeto necessário e impossível. Schmidt apresenta algumas dificuldades pelas quais o historiador da literatura esbarra em seu ofício e propõe sugestões tendo como ponto de partida um estudo empírico da literatura. Entre suas propostas, duas são fundamentais para a escrita desta tese: o reconhecimento explícito da noção de construtividade e a definição de literatura como “sistema social”.

29 OLINTO, Heidrun Krieger. Histórias de literatura: as novas teorias alemãs.

São Paulo: Ática, 1996.

30 OLINTO, Heidrun, Histórias de literatura. p. 5. 31 OLINTO, Heidrun. Histórias de literatura. p. 6.

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No artigo, Teoria da história, historiografia e diacronologia, Gebhard Rusch apresenta o conceito de passado, história e historiografia para as concepções construtivistas. Do ponto de vista epistemológico, essa ciência se opõe às visões realista e relativista sobre o tempo, pois acredita que ele é “um construto ou conceito cognitivo capaz de desempenhar uma parte importante na organização da experiência humana e na coordenação e no planejamento da ação humana”32. O autor explica que cada vez menos pesquisadores pensam

a memória como depósito cujo sentido é o de conservar o passado disponível, perspectiva que levava ao equívoco dos realistas. Em vez disso, para Rusch, há um aumento de cientistas que entendem o fenômeno da memória e da recordação como atividades cognitivas. Todavia os construtivistas não são relativistas, pois para os pesquisadores, a memória permite ao homem atender às necessidades atuais, ou seja, possui aspecto pragmático, e não o de arquivo. Como esclarece Rusch, “nossas memórias não nos fazem cientes dos acontecimentos passados, mas apenas nos conscientizam daquelas ideias que são assim identificadas, na situação presente, como expressão consciente de acontecimentos passados”33.

Nesse sentido, o conceito de passado é uma construção intelectual por meio da qual tentamos organizar nossas experiências mentais e sensoriais em um sistema coerente. As narrativas históricas cumprem o mesmo papel uma vez que ordenam as memórias de modo verbal. Rusch elucida que “tal como a estrutura do tempo liga as unidades de experiência internamente uma à outra, nesse sentido, o tempo verbal estrutura e coordena as unidades e sequências da narrativa”34. Assim, as histórias que vivenciamos e as histórias que narramos adquirem sua coerência interna e suas integrações externas pelo mesmo conjunto de estruturas cognitivas de esquemas de ação.

Em seu artigo intitulado “Interesses e paixões: histórias da

32 RUSCH, Gebhard. Teoria da história, historiografia e diacrologia. In:

OLINTO, Heidrun Krieger (Org.). Histórias de literatura: as novas teorias alemãs. São Paulo: Ática, 1996. p. 151.

33 RUSCH, Gebhard. Teoria da história, historiografia e diacrologia. p. 154. 34 RUSCH, Gebhard. Teoria da história, historiografia e diacrologia. p. 156.

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literatura”35, Olinto parte das questões formuladas por Siegfried J. Schmidt para apresentar as diversas linhagens teóricas que alteraram o prestígio da história literária ao longo do século XX. A necessidade e a possibilidade de escrever histórias servem como motriz para situar a discussão sobre literatura, história e história da literatura, em molduras referenciais novas que não tematizam, como explica a autora, somente problemas epistemológicos, metateóricos, metodológicos, estéticos e políticos espinhosos, mas oferecem visões de caráter flutuante para as soluções apontadas.

Essa estudiosa propõe não apenas novos tipos de histórias, mas uma história pragmática e comunicacional preocupada mais com o questionamento de significados vivos do que com a quimérica recuperação de uma pretensa tradição naturalizada pelas diversas instituições que compõem o sistema literário. Segundo Olinto, hoje a historiografia literária não demanda hipóteses gerais permanentes, mas parte de formulações transitórias de validade limitada. Essas formulações devem ser legitimadas por consensos intersubjetivos negociáveis, por comunidades científicas em função de estratégias eficientes na solução de questões sentidas como problemáticas a certos interesses e paixões. Para isso, busca a possibilidade de uma visão da história que oferte meios de conectar o geral abordagem dos historiadores antigos e o particular interesse dos historiadores atuais sem habilitar um em detrimento do outro36.

Ao observar como a história da literatura oscilou no decorrer do tempo, à medida que modificou a forma como eram vistas as relações entre literatura e história, Olinto, em seu artigo, aponta ainda a passagem do imanentismo surgido com a disciplina teoria da literatura, seguindo em crescente contextualização, inicialmente visível nas estéticas da produção, depois na estética da recepção, para, finalmente, apresentar molduras amplas de teoria da comunicação que leve em

35 OLINTO, Heidrun Krieger. Interesses e paixões: histórias da literature. In:

_____. (Org.). Histórias de literatura: as novas teorias alemãs. São Paulo: Ática, 1996. p. 15-45.

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conta o plural, a contingência e a imprevisibilidade do objeto de estudo. Partindo dos formalistas russos, principalmente do modelo explicativo do processo de comunicação de Roman Jakobson, Olinto analisa o impacto da exclusão das teorias formalistas e a inclusão de teorias pragmáticas no cenário institucional da teoria e da história da literatura e dialoga com Sigfried Schmidt quando ressalta a necessidade de inserir a história literária em sistemas sociais complexos e instáveis, capazes de apresentar os compromissos do historiador. Tais compromissos “são moldados por sua inserção em determinado espaço histórico-social e em uma esfera disciplinar institucional que orienta as suas preferências por certas molduras teóricas”37.

Rusch comenta que qualquer acontecimento, objeto, fenômeno que vivenciamos é passível de ser desenvolvido como fatos em uma narrativa e, quando narramos, geramos, ao mesmo tempo, a permanência dos fatos e a consciência da duração ou dos períodos do tempo atribuído a tais desenvolvimentos38. Como podemos somente transferir tais processos no tempo, qualquer objeto, criatura, processo tornam-se documento do passado. Assim, a ciência da história é resultado das atividades historiográficas anteriores. Para Rusch, as possibilidades científicas empíricas do discurso histórico se restringem à invenção de histórias a partir de objetos identificados como traços ou documentos do passado e a partir de conceitos e modelos teóricos apropriados para testar sua compatibilidade com as fontes e com outras histórias39.

Nessa linha, é mister primeiramente situar os impactos das mudanças que o surgimento e o desenvolvimento dos estudos da história da literatura e da teoria literária impuseram na “sociedade” e na “ciência”, para, em seguida, desenvolver a proposta de uma história conceitual que leva em conta a noção de “sistema literário”.

37 OLINTO, Heidrun. Interesses e paixões. p. 42.

38 RUSCH, Gebhard. Teoria da história, historiografia e diacrologia. p. 157. 39 RUSCH, Gebhard. Teoria da história, historiografia e diacrologia. p.158.

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