• Sonuç bulunamadı

Para Cunha (2002) ser enfermeiro é:

“- Defender de forma apaixonada o que fazemos, tal actor cujo palco é o centro da vida. - ´Casar-se` com a forma possível dessa paixão, pois os obstáculos são reais e há que

saber ultrapassá-los.

- Uma responsabilidade colossal…

- Acreditar na dimensão sinfónica do tocar terapêutico e afectivo…

- Ser enfermeiro é ter a coragem de ser diferente, vanguardista e inovador…

- É romper com preconceitos e mitos, é reflectir sobre a herança do passado, aceitando que ´Alguns Anciões do Restelo` têm o seu lugar na história da Enfermagem, mas falta- lhes paciência e sobras-lhe o medo de inovar…

- É acreditar que só sendo atrevido em termos científicos, se podem contornar obstáculos e conquistar o futuro…” (p. 33).

Com esta reflexão, Cunha (2002) cogita sobre a essência da conjuntura de ser enfermeiro, o Cuidar, o aceitar o outro, e acrescenta que, efectivamente, ser enfermeiro:

“(…) é estar na mesma latitude do doente/pessoa significativa, é salvar vidas e prestar-lhes cuidados físicos quando lhes dói o corpo e ouvi-los e confortá-los quando lhes dói a alma” (p. 33).

Importa, assim, considerar que, à semelhança do que vem a ser referido, o exercício profissional de Enfermagem tem a seu “colo” a relação interpessoal e terapêutica estabelecida entre o enfermeiro e uma pessoa ou grupo de pessoas, centrada no acto de Cuidar. Apesar do quadro de referências, valores, princípios e desejos dos intervenientes nesta relação, esse mesmo quadro não pode, por parte do enfermeiro, constituir um obstáculo à relação interpessoal com o cliente. Nesta relação interpessoal, o enfermeiro discerne-se pela sua formação e experiência, o que lhe facilita o processo

de compreensão, aceitação e respeito pelo outro, numa dialéctica de abstenção de juízos de valor relativos ao(s) cliente(s) alvo dos cuidados de Enfermagem (Ordem dos Enfermeiros, 2003).

Hesbeen (1997) aponta uma série de particularidades, consideradas ideais, para os contornos das características psico-emocionais da personalidade do enfermeiro, a seguir descritas:

“- conhecimento de natureza humana, científica e técnica em relação com a saúde;

- domínio dos apoios necessários à prática de Enfermagem;

- situar a sua acção na equipa pluridisciplinar;

- exercer e desenvolver a sua capacidade de inferência;

- um lugar deixado à intuição;

- a capacidade de ir ao encontro do outro, de tecer laços de confiança e de caminhar com ele no âmbito de um projecto de Cuidar. Este encontro e este caminhar precisam que se escute e que seja caloroso, disponível, simples, humilde, autêntico e compassivo e que se tenha sentido de humor;

- tender para a autonomia e favorecer a dos outros;

- revelar uma presença de Enfermagem forte, fonte de serenidade, estando particularmente atento aos aspectos de conforto, de doçura, de calor e aos ´mil e um pormenores` que são importantes para os beneficiários dos cuidados;

- (…)

- uma visão enriquecida da vida, da humanidade, da saúde, do Cuidar e dos cuidados de Enfermagem ;

- a capacidade de Cuidar de si próprio;

- ser portador de uma palavra de Enfermagem autêntica e reflectida e querer utiliza- la em diferentes lugares, não apenas numa óptica de Cuidar, a fim de participar numa maior atmosfera de humanidade;

- uma capacidade explícita de se indignar” (p. 115).

Neste contexto, Hesbeen (1997) propõe um esquema representativo das características consideradas ideais para os contornos psico-emocionais da personalidade do enfermeiro, as quais estão representadas na figura 1.

que tem uma visão enriquecida da vida, da humanidade, da saúde,

do cuidar e dos cuidados de enfermagem

e que tem curiosidade pelas «coisas da vida»

que tende para a autonomia e favorece a dos

outros

que escuta e pratica uma arte portadora de sentido para o beneficiário dos cuidados que a

torna capaz de ir ao encontro do outro, de tecer laços

de confiança e de caminhar com ele no âmbito de um projecto de

cuidados significativo

que possui conheci- mentos de natureza hum ana, científica e técnica em relação

com a saúde

que cuida si

que exerce e desenvol - ve a sua capacidade de

inferência incluindo nela a intuição

que é autêntica, simples, humilde, disponível, que se compadece e que age como vector de serenidade velando pelo conforto, pela doçura, pelo calor e pelos «mil e um pormenores» que procura afinar e

desenvolver a sua arte, bem como discuti-la e partilhá -la

com os outros

que se situa num a equipa pluridisciplinar

que exerce a sua capacidade de se

indignar

que domina os apoios da prática da enfermagem, nomeadamente: - os cuidados ditos básicos, - a presença contínua, - os actos prescritos, - as várias acções de saúde, - o ensino, o enquadramento e o acompanhamento de pessoas menos qualificadas ou não qualificadas

que revela sentido de humor

que participa em diferentes situações não

exclusivamente de cuidados para uma maior atmosfera de

humanidade Fígura 1 – Tentativa de representação da pessoa do enfermeiro

Fonte: Adaptado de Hesbeen (1997, p. 117).

Assim, a um profissional de Enfermagem, é exigido possuir uma visão crítica e reflexiva, capaz de assumir compromissos na vertente social, profissional, humana e cultural. Para tanto, o perfil do enfermeiro deve, de acordo com Cunha (2002), ser baseado nos seguintes pressupostos: cientificidade, humanismo/afectividade, paciência/compaixão, diplomacia/negociação, liderança e técnica.

Benner (2001), defende que o enfermeiro, para dar resposta a um problema de saúde identificado e para atender a pessoa com que se depara, necessita de ampliar as suas competências existenciais, isto é, as que fazem de cada enfermeiro um ser humano. Neste sentido, o enfermeiro deve ser capaz de se envolver com os clientes, mas de forma a permitir manter a distância adequada para ser profícuo e seguro nas várias exigências que cada situação específica de cuidados de Enfermagem requer. Esta distância emocional deve vigorar especialmente quando os momentos de crise e de mudança são marcados pelo sofrimento físico, emocional, psicológico e espiritual da pessoa que é cuidada. Acrescenta que estas competências de envolvimento com os clientes e respectivas famílias são centrais quando se adquire “perícia profissional”, pois a promoção do bem-estar dos clientes que se encontram numa situação vulnerável requer, por um lado, atenção sobre a situação ou problema e, por outro, capacidades existenciais de envolvimento pessoal.

Percebe-se, assim pelo exposto, que ser enfermeiro é uma profissão exigente e complexa. Para se ser um “bom” enfermeiro, a formação e a experiência profissional assumem um papel chave. O curso de base em Enfermagem, o da Licenciatura, afigura- se como um palco de interacções, em que são adquiridos conhecimentos de várias ordens: científica, técnica e humana, preparando o aluno para múltiplas situações. No entanto, existem particularidades do processo de Cuidar que exigem ao profissional o domínio de determinadas competências, adquiridas ao longo da sua experiência. No fundo, ao enfermeiro é exigido articulação constante, dos conhecimentos teóricos e práticos, em que a experiência assume uma parcela importante.

como incita capacidades para Cuidar de si próprio. Necessariamente, estas características são fruto, em grande parte, das competências e conhecimentos adquiridos na formação e pela experiência dos enfermeiros. Ser enfermeiro, então, implica um conjunto de exigências para que o Cuidar do Outro seja uma realidade consistente e matura.