João Adolfo Hansen, muito acertadamente, assinala no texto “Leituras coloniais” a grande dificuldade de se fazer uma história descritiva da leitura no Brasil, anterior ao século XIX, uma vez que são raríssimas “as evidências coloniais de leitores e de leituras de diferentes mediações sociais.”285 Dentre as poucas fontes disponíveis para essa tarefa, encontram-se as cartas jesuíticas. No Cartório Jesuítico, fundo
282 MENDES. A oratória barroca de Vieira, p. 32-33.
283 LORAUX. Invenção de Atenas, p. 257. Nessa passagem a autora está se referindo à oração fúnebre de Atenas, mas acreditamos que as mesmas considerações possam ser feitas aos sermões no contexto de nosso estudo.
284 MENDES. A oratória barroca de Vieira, p. 1-92. 285 HANSEN. Leituras coloniais, p. 172.
pertencente ao acervo do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, acham-se documentos que podem auxiliar na reconstituição de algumas das práticas de leitura, de escrita e publicação de textos no referido período.
Nesse fundo aparecem muitas menções a sermões e sermonistas, especialmente ao padre Antônio Vieira. Numa carta de 21 de março de 1674, por exemplo, o padre del Vale, da Província do Peru, mas que assistia em Sevilha, escreveu ao padre João de Almeida, Procurador Geral da Província de Portugal: “Piden-me de mi Província del Peru algunos Sermones Impressos en Portugal. Vossa Reverendíssima me imbie asta 6 de lo más selecto que aja salido. Ya tengo el que predicó de las llaga[s] en Roma el Pe. Vieira.”286 Do mesmo padre del Vale, outra carta de 8 de julho daquele ano traz: “De mi Provincia del Peru me piden algunos sermones en Portugues. Suplico a Vossa Reverendíssima que de lo más selecto que hubiese me recoxa los que pudiese para cumplir el deseo y buen gusto de los Padres que los desean.”287 A troca de cartas pelos membros da Companhia de Jesus, prevista em suas Constituições, facilitava a comunicação e a circulação de informações, bem como de impressos, como se vê neste caso.
Mas não só na Península Ibérica essa comunicação era efetivada. Várias cartas remetidas de Roma para Portugal, especialmente para o padre João Franco, Procurador da Província de Portugal no final do século XVII, documentam o dinamismo da troca de informações e a circulação de textos entre os membros da Companhia de Jesus. Duas cartas do padre Antônio do Rego colaboram para a demonstração da maneira como circulavam os sermões entre os jesuítas. Na primeira, datada de 7 de abril de 1696, o remetente pede o envio dos “dous livros, ou tomos do Rosário do Padre
286 ANTT, Cartório Jesuítico, maço 69, doc. 237. 287 ANTT, Cartório Jesuítico, maço 69, doc. 243.
Vieira, e venham em papel que cá os mandarei encadernar.”288 Na segunda, datada de 3 de novembro de 1696, o autor da carta agradece a lembrança dos referidos sermões.289
Outra carta endereçada ao mesmo padre João Franco, também remetida de Roma, traz o seguinte pedido: “Na primeira ocasião me fará Vossa Reverendíssima graça mandar todos os livros dos sermões impressos do Padre Vieira [...]; e os livros bem encadernados; tudo com seu preço distinto.”290 Na carta do padre Antônio do Rego, o pedido de que os livros fossem “em papel”, ou seja, sem encadernação; nesta, o pedido de que já fossem “bem encadernados”. A menção ao preço, na última carta, nos recorda que o livro era uma mercadoria e estava sujeito aos constrangimentos do mercado. André Belo afirma que, “entre a segunda metade do século XVII e a primeira do XVIII”, o mercado ibérico de livros era deficitário, mais importava que produzia livros. E uma das razões disso eram “os altos custos da impressão, do papel e das matérias-primas de base.”291
O alto preço, entretanto, poderia ser uma questão contornável quando o objetivo era elevado. Isso é o que indica uma carta do padre José Pereira de Albuquerque, escrita da Bahia, em 13 de setembro de 1758, para o padre Domingos de Souza, Procurador Geral da Companhia. Nessa carta, o remetente agradece o empenho do dito Procurador na busca por livros que possibilitassem “estender, e dilatar a devoção da Benditas Almas do fogo do Purgatório”. Entre os livros, havia dois sermões do padre Gaspar Oliven (sic). Um dos sermões teria sido pregado em Roma, na presença do Papa, e nele o sermonista teria comentado um breve de Benedito XIII, que trataria da referida devoção. O remetente pede que a busca pelos sermões seja feita na Itália e na Espanha e adverte ao Procurador que, “aparecendo os ditos livros não repare Vossa
288 ANTT, Cartório Jesuítico, maço 69, doc. 251. 289 ANTT, Cartório Jesuítico, maço 69, doc. 257. 290 ANTT, Cartório Jesuítico, maço 69, doc. 268. 291 BELO. As gazetas e os livros, p. 31.
Reverendíssima no custo por que tudo dou por bem empregado por ser cousa que respeita às Benditas Almas do Purgatório.” 292
Voltando ao século XVII, verificamos que para o mesmo padre João Franco escreveu o padre Bello, de Roma, em 30 de janeiro de 1697, pedindo ao destinatário que não se esquecesse dos sermões do padre Vieira, bem encadernados,293 e também o padre Manoel Correa, em 29 de junho do mesmo ano e lugar. Nessa carta, o remetente solicita a remessa de um ou dois tomos dos sermões do Padre Vieira. E em seguida pede notícias do Reino de Portugal
porque sucede perguntar-nos um senhor destes por cousas desse Reino e não lhe sabemos dar razão, sendo que das outras nações não há nenhuma que havendo nos seus estados alguma cousa memorável não na ande apregoando para crédito da sua nação; mas pelo contrário de Portugal não é aqui ouvido.294
A carta sugere a importância e o valor das informações que pudessem acrescentar créditos à nação portuguesa. Nesse contexto, pode-se inferir o valor que a circulação de sermões de renomados pregadores, como Vieira, poderia alcançar.
No final daquele mesmo ano, em 30 de novembro, o padre Manuel Correa enviou uma carta ao Procurador, afirmando que a morte do Padre Vieira tinha sido em Roma muito sentida. Relatou, ainda, que das missas daquela semana trezentas foram aplicadas ao famoso sermonista, “merecedor de muito mais pelo grande crédito que deu à Companhia em toda Europa e aqui em Roma aonde é venerado extraordinariamente e suspiram pelos seus sermões.”295
Se na segunda metade do XVII, como temos vindo a mostrar, a circulação de impressos entre os membros da Companhia parece ter sido bastante freqüente, é preciso lembrar, todavia, que a circulação de manuscritos continuou sendo muito
292 ANTT, Cartório Jesuítico, maço 97, doc. 161. 293 ANTT, Cartório Jesuítico, maço 69, doc. 279. 294 ANTT, Cartório Jesuítico, maço 69, d0c. 270. 295 ANTT, Cartório Jesuítico, maço 69, doc. 280.
intensa, mesmo após a invenção da imprensa. Segundo Diogo Ramada Curto, na primeira metade do XVII, foi “esmagador o domínio dos textos manuscritos sobre os impressos em Portugal.”296
Outros tipos de texto circulavam entre os jesuítas além dos sermões. Alguns textos aparentemente mais voltados para as práticas dos rituais católicos ou para o ensino das primeiras letras eram solicitados pelos padres que estavam distantes da Metrópole. Tomemos como exemplo o documento 473, do maço 70, do Cartório Jesuítico. Trata-se de um rol de objetos enviados ao padre Baltazar Barreto, na caravela São Francisco, de Bartolomeu Dias Coutinho, que partiu para Cabo Verde em outubro de 1622, e relacionava, dentre outros objetos, dois missais novos, duas dúzias e meia de cartilhas e 4 livros das cartas da Índia novos.297
Uma carta do padre Manuel de Oliveira, escrita no Colégio da Bahia, em 3 de agosto de 1673, e endereçada ao padre Sebastião de Lima, é bastante sugestiva em relação ao gosto do leitor, às dificuldades de aquisição de livros na Colônia e de manutenção desses objetos:
Agradeço muito a Vossa Reverendíssima a promessa do missal, e breviário e peço a Vossa Reverendíssima já que me quer fazer essa graça que seja missal na perfeição cousa da mão de Vossa Reverendíssima; e novo que tenha todos os Santos novos pela ordem dos meses no corpo do missal, e não em cadernos no fim como alguns têm [...]. O breviário seja de quarto, e do maior, e melhor letra que Vossa Reverendíssima puder achar. E que tenha todos os Santos novos que houverem saído até o presente, e todos pela ordem dos meses, e não em cadernos no fim, e se Vossa Reverendíssima o quiser mandar dourar, seja sem lavores, e dourado liso, e em lugar de bezerro mande-lhe Vossa Reverendíssima pôr cordovão negro; porque entendo que durará mais em razão de que esta terra é muito úmida, e logo umedece tudo, e isto de livros em pouco tempo se perdem. E se Vossa Reverendíssima me quiser mandar um Diurno para companhia do breviário, e um batistério, que o não há no Engenho para administrar os sacramentos a quem necessário for, receberei a mercê.298
296 BELO. As gazetas e os livros, p. 32.
297 ANTT, Cartório Jesuítico, maço 70, doc 473. 298 ANTT, Cartório Jesuítico, maço 71, doc. 76.
Do cuidado com a inclusão dos novos santos, devidamente incorporados ao missal e ao breviário, pode-se inferir a preocupação com a devoção e a celebração de festas a eles dedicadas. A canonização de santos novos parece ter sido empresa diligente dos jesuítas, como se pode comprovar pelo relato contido numa carta escrita ao padre Estevão de Castro, do Colégio de Santo Antão, pelo padre Manoel do Couto, do Colégio de Pernambuco em 7 de dezembro de 1624:
Quinta-feira que foram cinco deste chegaram aqui as novas da Beatificação do Nosso Glorioso Padre São Francisco de Borja e logo ontem pela manhã sexta-feira dei recado ao Senhor administrador, pera que em dando o meio-dia mandasse sua Senhoria dar recado às Igrejas para um repique solene, e o mesmo mandei pedir aos superiores dos conventos, os quais todos no ponto do meio-dia em o nosso colégio dando sinal com seus sinos, que os tem muito bons, e formosos, logo todos acudiram, assim Igrejas, como Mosteiros, com tanta pontualidade, e alvoroço, que pasmaram muitos e alguns também cuidaram quando viram tão súbita alegria, que a Bahia era Restaurada; mas quando souberam que se fazia esta festa a um novo santo da Companhia disse um velho honrado por nome Coutinho: Valha-me Deus, estes Padres hão de meter tantos santos nos céus, que quando lá formos não havemos de achar lugar. Enfim a nova foi mui bem recebida, e festejada de todos, e com a vinda do nosso novo vice- provincial Manoel Fr. que esperamos cada dia, se lhe fará uma grande festa.299
A devoção aos santos, manifestada em festas, orações e posse de relíquias era expressão de uma religiosidade mais popular, embora fosse incentivada pela Igreja instituída, como se vê no documento transcrito. A proximidade com o santo, concretizada por vezes através de imagens, orações escritas e relíquias, poderia representar proteção contra as dificuldades da vida. Os Livros de Horas funcionaram também assim para os devotos católicos desde a Idade Média.
Em sua origem, eram os Livros de Horas manuscritos, depois passaram a ser impressos, geralmente num formato pequeno e fácil de transportar, constituindo objetos de devoção privada.300 No século XV eram produzidos aos milhares, como livros
299 ANTT, Cartório Jesuítico, maço 70, doc. 91.
portáteis de oração, cujo aumento de circulação estava associado às conquistas da leitura silenciosa no Ocidente cristão, o que “permitiu finalmente a fusão, no domínio privado, da leitura e da oração outrora públicas.”301 Um Livro de Horas protestante do século XVI indica que esse tipo de livro de oração também funcionava como um facilitador na compreensão das Escrituras.302
A disseminação do Livro de Horas possibilitou uma relação mais íntima entre o fiel e seu livro. Os gêneros de oração presentes nesses livros eram variados e poderiam atender a especificidades de diferentes públicos. Além disso, muitas vezes eram deixados espaços em branco para que o possuidor pudesse escrever neles
os seus pedidos ou vontades. E o próprio livro, como indicam as suas rubricas, torna-se um talismã que, se for sempre transportado com a pessoa, a protege das desgraças pelo simples fato de ela se encontrar em contato permanente com o seu texto.303
Uma carta escrita por Roque de Oliveira, de Sergipe, ao padre Bento de Oliveira, em 12 de agosto de 1718, leva-nos a suspeitar de que talvez os sermões pudessem também ter sido usados dessa forma.
Aqui está um Padre desta Província doente, este me pede lhe haja dessas partes os sermões a que chamam de [ilegível], oferecendo-se para pagar a seu dono o que for justo; no Rol incluso verá Vossa Reverendíssima os que se pedem, e havendo-os me fará Vossa Reverendíssima muita graça mandá-los e juntamente o seu custo que tudo satisfarei.304
A suspeita levantada acima pode parecer muito arbitrária, mas talvez tenha alguma razão de ser. Saenger, em seu estudo sobre o Livro de Horas, mostra que, embora hoje a oração esteja muitas vezes separada da leitura, na “Baixa Antigüidade, rezar consiste em oralizar a partir de um texto escrito.”305 Somente por volta do século XIV propôs-se aos
301 SAENGER. Rezar com a boca e rezar com o coração, p. 192. 302 Cf. SAENGER. Rezar com a boca e rezar com o coração, p. 216. 303 SAENGER. Rezar com a boca e rezar com o coração, p. 224. 304 ANTT, Cartório Jesuítico, maço 70, doc. 16.
fiéis uma escolha entre oração oralizada e oração silenciosa, esta última associada à oração privada e a uma fervorosa meditação e contemplação interior. 306 A oração silenciosa, no século XV, ficou conhecida também como oração do coração, o que indicava “que o ato de rezar se situa no espírito daquele que reza.”307 Saenger assinala a relevância dessa “passagem da boca ao coração como primeiro órgão da oração.” O autor afirma que, no século VII, Isidoro de Sevilha refere que a etimologia de oratio é oris ratio. Lembra, porém, que essa definição pode dizer respeito aos sermões e pregadores.308
Um tratado borgonhês anônimo, traduzido no século XV, enquadra os sermões entre as formas de oração:
E deve saber-se que pelo nome de oração se entende aqui toda a obra mental ou vocal que é feita por devoção e em honra de Nosso Senhor, como cantar na Igreja, dizer a missa, as vésperas ou outras Horas do dia, escutar sermões que pregam a palavra de Deus, estudar as santas Escrituras e pensar em Nosso Senhor.309
Se ouvir os sermões era uma forma de oração, lê-los era uma forma de auxiliar a memória a reter seus ensinamentos. Saenger cita um teólogo francês do século XV, para mostrar a utilidade do livro naquele contexto:
Não é em vão ou por folia que os livros são dados aos homens, mas por pura necessidade, pois eles são feitos para completarem e socorrerem a fraqueza da memória que flui e corre como a água pelo leito do rio. Pelo que pouco aproveita ouvir ou interrogar para aprender, se a memória o não retém. Ora não basta a memória para tudo reter, pois ela é hábil como se diz. Pelo que é necessário o estudo dos livros para se reter o que se aprendeu através de perguntas e de ouvido. [...] Pois o sentido da vista é muito mais seguro do que o da audição e torna o homem mais seguro pois a palavra é transitória, mas a letra escrita permanece e imprime-se mais no entendimento do leitor.310
306 Cf. SAENGER. Rezar com a boca e rezar com o coração, p. 196 e 197. 307 SAENGER. Rezar com a boca e rezar com o coração, p. 200.
308 Cf. SAENGER. Rezar com a boca e rezar com o coração, p. 204.
309 Apud SAENGER. Rezar com a boca e rezar com o coração, p. 197, nota 21. 310 Apud SAENGER. Rezar com a boca e rezar com o coração, p. 213, nota 75.
Embora forma de oração, o sermão foi depreciado no contexto francês do século XV, segundo Saenger, por ser “considerado uma forma simplificada de comunicação, é admitido pelos letrados apenas porque permite abranger diferentes públicos, incluindo o dos ignorantes.”311 Num momento em que se começa a valorizar a oração silenciosa, individual e mental, o sermão, forma de oração oral proferida em público, é desvalorizado, mas reconhece-se nele o potencial de divulgação e persuasão da palavra cristã, apta a atingir um número cada vez maior de pessoas.
A impressão dos sermões significava, portanto, um auxílio à memória do ouvinte, que poderia ver, no momento da leitura, as palavras antes ouvidas e poderia guardá-las desta vez de forma mais duradoura. Além disso, possibilitava o deleite do leitor, como o afirma Santo Agostinho:
Porque geralmente um discurso escrito com elegância é lido com prazer, não somente pelos que tomam dele conhecimento pela primeira vez, mas ainda pelos que já o conheciam e ainda não o esqueceram. [...] Se alguém, por outro lado, o tiver esquecido, será instruído ao se recordar dele.312
Havia diferenças, entretanto, entre a palavra falada e a palavra impressa. Ao analisar os sermões de Vieira e mostrar sua capacidade de intervenção social, Margarida Vieira Mendes afirma que a publicação do sermão gera uma nova situação comunicativa, que “se sobrepõe à antiga situação da pronunciação: a do texto do sermão enquanto palavra impressa e publicada num outro contexto histórico e interacional.”313 A leitura do texto impresso constituía um novo locutor e um novo destinatário. Sendo assim, os sermões publicados indicavam as ações realizadas nos momentos históricos em que foram pronunciados, mas também intervinham no presente de sua publicação.314 Adotando em relação aos seus sermões a mesma hermenêutica que aplicava aos textos
311 SAENGER. Rezar com a boca e rezar com o coração, p. 213. 312 SANTO AGOSTINHO. A doutrina cristã, p. 231.
313 MENDES. A oratória barroca de Vieira, p. 308. 314 Cf. MENDES. A oratória barroca de Vieira, p. 315-316.
bíblicos, padre Vieira considerava o dito, no momento do proferimento do sermão, como figura ou profecia do impresso.315
É importante afirmar que, no âmbito da circulação desses sermões publicados no Antigo Regime, a audição e a leitura eram operadas “como reconhecimento de tópicos e preceitos técnicos aplicados à sua invenção e, ainda, como reconhecimento dos modos autorizados de sua interpretação teológico-política.”316 Para descrever a leitura desses textos, portanto, é necessário definir sua especificidade histórica e reconstruir as normas retórico-poéticas que presidiram sua elaboração. Nesse sentido, torna-se necessário reconhecer imediatamente a destinação utilitária que esses textos tinham. Tal destinação permite propor que, naquele contexto, esses textos
obedecem a programas específicos em que funcionam como discursos de ação visando a obter determinados efeitos adequados a fins hierárquicos muito precisos. Eles são fundamentalmente persuasórios, porque são retóricos; e como só se pode persuadir a respeito daquilo que já se conhece, eles também evidenciam, na mesma persuasão, padrões de repetição, ou seja, padrões de ordenação da experiência temporal que não são evidentemente os nossos.317
No século XVII, a par da permanência da circulação de sermões manuscritos, verificou-se uma tendência para a publicação de sermões, pregados ou não.318 Os sermões poderiam circular isoladamente, na forma de sermões avulsos ou soltos, e na forma de sermonários, coletâneas de sermões que funcionavam como verdadeiros manuais de eloqüência sacra, além de serem meios de edificação religiosa. Essas coletâneas eram poderoso auxílio na composição de sermões, utilidade há muito prevista pela Igreja: “Pois, quem possui um espírito vivo e ardente pode assimilar facilmente a eloqüência, lendo ou escutando os bons oradores, mais do que estudando
315 Cf. MENDES. A oratória barroca de Vieira, p. 318. 316 HANSEN. Leituras coloniais, p. 173.
317 HANSEN. Leituras coloniais, p. 174.
seus preceitos.”319 Geralmente traziam índice dos lugares da Escritura e das coisas mais notáveis das orações que os compunham, o que era valioso auxiliar na inventio dos sermões.
A impressão dos quinze sermões do padre Eusébio de Matos, citados