• Sonuç bulunamadı

Inúmeras vezes ouvimos dizer que a diferença primordial entre o homem e os demais seres que povoam o mundo reside no fato que o primeiro possui uma consciência reflexiva.

Nas seções anteriores, vimos que a consciência central caracteriza-se por um conhecimento do próprio sentimento de si, ou seja, a capacidade que um indivíduo possui de pensar sua própria existência e dos outros.

Esse conhecimento se constitui de maneira fugaz, apenas no momento em que você vivencia uma situação. Por exemplo, ao passear por um belo jardim, você sente o canto dos pássaros, o perfume das flores e a beleza deslumbrante da natureza. Você tem a posse desse sentimento, sabe que é “você” que está sentindo e vivendo cada momento. A posse desse sentimento emerge ao sabor da interação do seu corpo com toda a natureza. Algo porém permanece após o findar do canto dos pássaros.

Em organismos complexos, como nós seres humanos, a consciência fugaz e transitória se desenrola numa outra, mais rica e integrada: a consciência ampliada. Damásio (2004) reconhece que esta consciência encontra-se alicerçada nesse “você” central, porém agora dilatado, conectado ao “você” do passado e do futuro antevisto.

Nessa perspectiva, o indivíduo não terá apenas conhecimento do aqui e do agora de suas vivências, mas poderá ultrapassá-las, correlacionando fatos e projetando-se perante eles: “Qual o nome do jardim que ontem visitei?” , “Há quanto tempo não o visitava?” , “Quem estava comigo naquela ocasião?”, “Quando voltarei novamente aquele lugar paradisíaco?”

Ao fazermos tais indagações utilizamos muito mais do que um self central. Elevamos-nos acima da fugacidade do momento presente e, por meio do self-autobiográfico,11 alcançamos as alturas de nossos desejos.

Esse self-autobiográfico encontra-se fundamentado numa contínua reativação e exibição de memórias autobiográficas, ou seja, de um arcabouço de experiências vividas e armazenadas no cérebro, de modo a serem, realçadas num momento oportuno. São essas memórias pessoais que garantem nossa identidade.

Por outro lado, na consciência ampliada, o sentido do self surge na exibição consistente e reiterada de algumas de nossas memórias pessoais, os objetos

de nosso passado pessoal, aqueles que podem facilmente dar substância a

nossa identidade, momento a momento, e a nossa individualidade. (DAMÁSIO, 2000, p.253, grifo do autor).

11 O self autobiográfico baseia-se na memória autobiográfica, que é constituída por memórias implícitas de

Para Damásio (2000), as memórias autobiográficas se apresentam como objetos ao cérebro, este por sua vez as trata como tais, fazendo com que o organismo interaja com elas, de modo a fazer emergir a consciência central. Assim, a consciência ampliada nasce de duas contribuições capacitadoras: primeiro a capacidade de aprender e, conseqüentemente de armazenar o conhecimento, graças à existência de uma consciência central; segundo, a capacidade de restaurar essas informações em registros, de maneira que estes sejam capazes de produzir, nas palavras de Damásio, “um sentido do self no ato de conhecer”.

Como podemos observar, demos um salto qualitativo no que tange a superação de um self puramente biológico e transitório. Com o surgimento do self autobiográfico, evidencia-se o papel das memórias na constituição da noção de indivíduo.

A memória operacional, elemento fundamental na formação da consciência ampliada, faz com que os objetos do momento se mantenham ativos por um período de tempo maior. Diferentemente da consciência central, cuja escala temporal girava em torno de frações de segundos, a consciência ampliada se estabelece numa escala de segundos, minutos, podendo estender-se por horas ou anos.

Assim, a consciência ampliada nos permite gerar a sensação de posse do self no ato de conhecer, isto é, um sentido de individualidade. Nas palavras de Damásio (2000, p. 254): “A consciência ampliada, portanto, é a capacidade de estar consciente de uma gama enorme de entidades e eventos, ou seja, de perspectiva individual, de propriedade e da condição de agente sobre uma gama de conhecimento maior que a abrangida pela consciência central.”

A constituição da identidade e da individualidade requer a memória autobiográfica e suas atualizações no self-autobiográfica. Os registros em nossas memórias autobiográficas nos permitem definir nossa individualidade.

De acordo com Damásio (2000), aquilo que muitas vezes designamos como sendo “personalidade” depende de várias contribuições. Uma delas provém dos “traços” que comumente chamamos de “temperamento” que desde o nascimento pode ser evidenciado. Desses traços, alguns são transmitidos geneticamente, enquanto outros se formam no decorrer do desenvolvimento.

Uma outra contribuição importante à composição da personalidade, provém da interação que o organismo vivo mantém com o meio em todas as suas dimensões. Todos os acontecimentos, dos mais simples as mais complexas, são catalogadas e organizadas em uma memória autográfica que constitui o sustentáculo da individualidade. Essa memória rica de acontecimentos, se apresenta como receptáculo de idéias que fazemos de nós mesmos, da

imagem daquilo que somos física e mentalmente, ou até mesmo do modo como interagimos com outras pessoas.

Assim, o self autobiográfico não é apenas o resultado de nossas tendências inatas e de nossas vivências, mas de um contínuo reprocessamento de memórias dessas experiências.

Essa concepção de individualidade nos sugere pensar o homem como sendo parte integrante da natureza e, conseqüentemente de Deus. O homem, possuidor de uma mente e de um corpo, é um modo finito da substância infinita.

Segundo a filosofia de Espinosa, há um sentido no qual os modos finitos podem ser autodependentes, isto é, autônomos, do mesmo modo como Deus o é. Embora os modos finitos estejam sujeitos às vicissitudes, existem aqueles que resistem aos danos. Quando feridos são capazes de se restaurarem e ao serem ameaçados se defenderem ou se protegerem. Essa luta do ser em permanecer em si mesmo, é o que Espinosa denominou de “Conatus.”

Diferentemente das pedras, o homem se coloca no mundo com uma individualidade duradoura e resistente. Graças à sua consciência ele pode agir livremente, fazer a experiência do prazer e da dor, construir uma memória desses fatos e dar a eles um significado pessoal. Quanto maior nosso “conatus”, mais nos assemelhamos a Deus.

Ao formular a idéia de um organismo vivo, imerso em um ambiente, Espinosa tentou superar o abismo que separava o criador de sua criação. Ao defender a idéia de um Deus existente em si mesmo e por si (Natureza Naturante), Espinosa concebe os seres finitos como atributos de Deus, isto é, como coisas que existem em Deus e não podem existir nem ser concebido sem ele (Natureza Naturada).

Tudo o que existe, existe em Deus, ou seja, é dependente dele. Sendo Deus definido como um ser com infinitos atributos, não há nada que possa limitar ou até mesmo eliminar sua existência. Pensar o não-existente de Deus constitui uma carência, uma limitação que em hipótese alguma pode ser predicada de Deus.

Assim, a essência de Deus envolve sua existência. “Por causa de si entendo aquilo cuja essência envolve a existência; ou por outras palavras, aquilo cuja natureza não pode ser concebida senão como existente.” (ESPINOSA, 1973, p.83).

Para Espinosa, Deus não apenas existe necessariamente, mas abarca todas as coisas, isto é, nada pode ser concebido fora dele. Na interpretação de Scruton (2000, p. 16):

Se existe alguma coisa que não seja Deus, ela ou é em Deus e dependente Dele, e, nesse caso, ela não é uma substância, mas simplesmente um modo de Deus, ou então (axioma 1) ela é fora de Deus. Nesse caso, existe alguma coisa que Deus não seja, algum aspecto que Ele é limitado e, portanto finto

(definição 2), o que é impossível (definição 6). Dessa forma, existe no mundo somente uma substância e essa substância é Deus.

Essa substância única se constitui ao mesmo tempo Deus e natureza, “Deus sive

natura”, “Deus, ou seja, a natureza”. Deus é idêntico a natureza, imanente a ela. A partir dessa perspectiva, podemos compreender a importância do pensamento de Espinosa à concepção de individualidade proposta por Damásio.

O homem como organismo vivo e complexo, dotado de consciência e de vontade, relaciona-se com o mundo ao seu redor, não mais como sujeito que simplesmente impõe seu aparato cognitivo aos objetos para conhecê-los, mas mantém para com eles uma relação de interação.

Destarte, corpo, mente e ambiente participam de uma mesma e única substância, de modo a garantir que construamos uma imagem do que somos física e emocionalmente. Acreditamos que toda vivência humana, sujeita a uma remodelação contínua, depende de processos que ocorrem no corpo e na mente, a partir do meio social e cultural. Nossa memória é capaz de concatenar todos esses elementos à luz de um passado vivido e de um futuro antevisto. Com certeza, essas duas esferas temporais exercem influências significativas em nosso self autobiográfico.