O formulário abordou questões relativas à concorrência e à cooperação presentes na rede de prestadores de serviços turísticos de Aracati, não mais tratando, como realizado anteriormente, de concorrência entre destinos turísticos. Dessa forma, buscávamos compreender as relações e interdependências existentes na rede objeto deste estudo.
Entendemos, por cooperação, o trabalho realizado com um objetivo comum, afirmando que o processo cooperativo é formador das estruturas sociais, sendo um “agir organizado”. A competição ou concorrência é definida e compreendida como luta, mas não pela hostilidade entre os competidores. Assim sendo, para fins desta pesquisa, competição e cooperação não se apresentam como processos distintos e dissociados, podendo “[...] haver competição para haver mais cooperação”. (RECUERO, 2009, p. 81)
Ao serem questionados sobre a localização dos principais concorrentes na rede, os entrevistados afirmaram que 75% estão localizados no próprio munícipio de Aracati, enquanto 8,3% insistem que seus concorrentes estão em outras localidades do estado do Ceará, e não na própria rede local. A relação de proximidade com os competidores, dado o tamanho do destino, faz com que haja relações sociais entre eles, havendo, assim, também a possibilidade de uma maior cooperação.
GRÁFICO 18 - Localização dos principais concorrentes das empresas, 2013 − Aracati/Canoa Quebrada-CE
Fonte: Pesquisa direta, C. M. Diógenes, 2013.
A questão mais intrigante do formulário foi a que tratou da cooperação e de suas formas praticadas na rede de turismo. A maioria dos entrevistados entende que não trabalha de forma cooperativa com outros prestadores de serviços da rede de turismo, conforme demonstrado no gráfico 19. No discurso dos entrevistados, em diversos momentos identificamos exemplos de trabalhos realizados de forma cooperativa, inclusive entre os estrangeiros que fazem crescer a rede de familiares, amigos e conhecidos.
Observamos, através da teoria de base sobre turismo, que as atividades são complementares e interdependentes, constituindo redes de relações. Os viajantes adquirem uma viagem para um destino, mas compram serviços fragmentados que se somam para compor o todo. Os serviços contratados são executados por prestadores diferentes e juntos constituem a “experiência de viagem” e a “imagem do destino turístico”.
A cooperação entre os atores locais mostra-se como essencial para que o turista tenha uma experiência adequada às expectativas geradas no ato da compra. É comum observarmos os empreendimentos indicando parceiros que ofertam serviços com o padrão semelhante de
qualidade, mas os entrevistados não entenderam essa prática como um ato de cooperação dos atores. Aparentemente, a proximidade com o fato não os deixa ver essa cooperação.
Hotéis indicam restaurantes e passeios, ou tours, interessantes para seus hóspedes, e isso se constitui em uma prática mundial. Indícios no discurso dos entrevistados apontam que, como as distâncias entre os prestadores de serviços na Rua Dragão do Mar, conhecida por Broadway, são pequenas, não existe a necessidade de indicação, ficando o turista “livre” para percorrer seu próprio itinerário e interagir com as práticas sociais do lugar.
Os guias turísticos, a sinalização turística e os mapas indicativos apontam os itinerários que “devem” ser seguidos em cada destino turístico. Atualmente, somam-se a estes os instrumentos de “orientação” – ou de “desorientação” –, uma vez que eles apontam o que “vale a pena ser visto”, afastando o visitante das possíveis descobertas, vivências e sensações. Hoje, os aplicativos de viagens, utilizados através dos smartphones e consultados instantaneamente, indicam o percurso mais rápido e mais seguro, afastando o turista dos “riscos”.
GRÁFICO 19 - Existência de cooperação com outras empresas da rede, 2013 − Aracati/Canoa Quebrada-CE
Fonte: Pesquisa direta, C. M. Diógenes, 2013.
O processo de construção de ações cooperativas, na visão dos entrevistados, apresenta- se em processo de desenvolvimento: 33% afirmaram colaborar com outras empresas, sendo essa forma de cooperação essencialmente a indicação de outros prestadores quando sua capacidade de ocupação está saturada – o que não é percebido como cooperação para todos os entrevistados, já que, para muitos, essa é uma prática instituída pelo mercado, não se configurando como uma ação conjunta que busque o alcance de objetivos comuns. A maioria dos que responderam positivamente sobre essa cooperação estabelece relações essencialmente com outros prestadores de serviços de hospedagem (50%). Alguns relataram firmar parcerias
para o período de alta estação, enquanto outros citaram os bugueiros e as barracas de praia como parceiros. Observamos que essas cooperações são informais, e não institucionalizadas, sendo firmadas pelas relações sociais existentes entre os integrantes da rede, e não por iniciativa de gestões empresariais colaborativas.
As formas de cooperações observadas em Aracati apresentam-se como as mais usuais de cooperação na atividade turística, sendo inclusive realizadas de forma remunerada: são pagas comissões aos profissionais que indicam as empresas ou os prestadores de serviços. Na teoria que descreve as funções e competências dos profissionais que atuam nos meios de hospedagem, cabe ao concierge o papel de indicar serviços e apresentar o destino aos turistas. Essa função, no entanto, existe apenas em hotéis de alto padrão. Em Aracati, assim como em outras pequenas localidades e empreendimentos turísticos, essa função é desempenhada pelos recepcionistas dos hotéis e das pousadas. Os guias de turismo,42 profissionais responsáveis pela condução dos grupos de turistas, também trabalham com indicações de lojas, restaurantes, shows e entretenimento. Parte da renda desses profissionais é obtida através do pagamento desse comissionamento.
A cooperação capaz de gerar grupos ou redes de relações é apresentada posteriormente, quando trataremos da formação de instâncias de governança (BENI, 2012), sobre as quais se afirma que “[...] a capacidade de integração dos prestadores de serviços entre as atividades características do turismo e a visão de desenvolvimento da atividade são fatores determinantes e fundamentais para a composição de uma oferta competitiva e sustentável”.
Santos (2014), ao tratar das noções de rede aplicadas à geografia ou a uma geografia de redes, ressalta a importância da fluidez para a formação da rede. Para a atividade turística, a fluidez de informações e de cooperação é essencial para o desenvolvimento da atividade. Em Aracati, observam-se fortes indícios de cooperação e colaboração entre os prestadores de serviços turísticos, mesmo que esses não as percebam como cooperação.
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De acordo com o Ministério do Turismo, para o exercício da profissão de guia de turismo, que é regulamentada, é necessário comprovar a conclusão de curso técnico profissionalizante na área (reconhecido pelo Ministério da Educação) e ser cadastrado no Cadastro dos Prestadores de Serviços Turísticos (Cadastur). Um erro comum é confundir guia de turismo, o profissional que acompanha e explica os atrativos aos turistas, com guia turístico, que são os roteiros impressos com informações dos destinos e atrativos turísticos.