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I. BÖLÜM

1.7. Hristiyan İnanç Sistemine Göre Çalışma Ahlakı

As DD são coletivas com coreografias ora iguais para todo o grupo, ora com elementos grupais iguais e personagens independentes com coreografias próprias, dependendo da criatividade e da destreza do brincante. Dessa forma, existem passos e gestualidades que permaneceram e são passadas adiante. Outras partes ocorrem na criatividade da ordem do dia.

Quem já presenciou o gestual singular e quase acrobático dos Caretas e Mateus de Reisados e Bois, muitas vezes executados por brincantes que

beiram os 70 anos de idade, sabe que quase sempre se trata de uma série de movimentos preestabelecidos, executados por corpos preparados, que incorporam procedimentos artísticos e extra cotidianos, característicos do que a antropologia teatral considera ser o ator performático. Os mestres e melhores brincantes desses folguedos são, geralmente, atores-dançarinos que cantam. Durante as suas performances, lançam mão de um vasto repertório de gestos, vozes e movimentos, que receberam da tradição, sem que, no entanto, deixem de contribuir pessoalmente para a ampliação desse repertório, com a inclusão de novos signos ou com a recriação de antigos. Mesmo quando improvisam, utilizam determinados princípios, um estoque de signos com uma sintaxe, ou seja, um modo de utilizá-los, transmitidos pela via da observação direta e da transmissão oral. Usam, o que poderíamos chamar, um código anônimo e informal (mas em todo caso, um código), com a flexibilidade necessária não somente à expressão do talento individual do brincante, mas também à sua adaptação às circunstâncias do momento e do lugar. (BARROSO, 2007, p. 348)

O que é dançado, gestualidade e corporeidade resultam de continua expressão criadora de quem as faz e de tudo o que é vivido por cada um que está ali. Como afirma Merleau-Ponty, “quer se trate do corpo do outro ou de meu próprio corpo, não tenho outro meio de conhecer o corpo humano senão vivê-lo” (1994, p. 269). Em cada parte, o Mestre orienta o que é para ser feito. O passo que foi aprendido e incorporado pelo conjunto é repassado, ensinado a partir do próprio fazer de alguns do grupo que já o fazem. Diante do que foi repassado oralmente e percebido pelo olhar, o brincante faz o que compreende e que pelo movimento se torna sabido. Assim, os passos fluem com uma assinatura singular daquele que agora fazem. É necessário observar que

os estudos da percepção têm contribuído para ampliar a compreensão de cognição, no sentido de tornar mais claro como se realiza o fenômeno conhecer. A enação62 desloca o papel da representação ao considerar que o conhecimento é incorporado, isto é, refere-se ao fato de sermos corpo, com uma infinidade de possibilidades sensório-motoras, e estarmos imersos em contextos múltiplos. […] A cognição emerge da corporeidade, da experiência vivida e da capacidade de se movimentar do ser humano. (NÓBREGA, 2008, p 146).

Apesar de receber e sofrer influências do meio ambiente no qual se encontra, e se adaptar diante de exigências externas como forma de sobreviência, continuidade e inclusão, nos processos culturais locais, o Boi Paz no Mundo se configura corporalmente como um sistema vivo que possui auto-referencialidade e

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Segundo Nóbrega, (2008), o termo foi criado por Varela et al (1996) e traduzido por Assmann (1996) com o sentido de fazer emergir. Assim, enação se relaciona com a dimensão do conhecer e emerge da corporeidade.

autonomia, garantindo sempre relações dinâmicas entre as partes e o todo numa relação recursiva.

Os movimentos do nosso corpo advêm da circularidade entre este e o meio ambiente, o que vai sempre gerando uma compreensão daquele momento que se vive, produzindo uma interpretação corporal circunstancial do momento. Vamos agindo corporalmente, pela aprendizagem do que ficou sabido ali, e alguns desses movimentos vão se automatizando no próprio corpo e da próxima vez em que necessitarmos, em situações similares, utiliza-lo, já não pensaremos neles para os executarmos.

Tal observação vem complementar ou contribuir para o entendimento de como esse teatro/dança brincante ocorre, muitas vezes sem ensaios convencionais, ou, quando os promove, na verdade pela corporeidade apenas, estabelecem a aprendizagem pelo que é vivido naquele momento.

Nos passos executados, percebe-se a predominância de passos de xote, baião, marcha, valseados63 e sapateados. Nos momentos em que a música é ad

libitum64, o grupo geralmente para o movimento dançado e a ação se mantém apenas com quem canta e com o personagem ao qual se refere. Em circunstâncias assim, o que vemos é uma gestualidade caminhada e performática, buscando dar ênfase ao que a música sugere.

A roda é o desenho de sua cenografia, dessa forma as cenas ocorrem sem uma frente especial; entretanto, quando nela existem autoridades, o local onde elas se encontram passa a ser a frente escolhida pelo grupo.

As cenas sempre ocorrem no centro demarcado pelos cordões de galantes. No caso do Boi Paz no Mundo, em 2013, os cordões eram vermelho/rosa e azul. O

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Acompanhamento rítmico corporal de músicas ternárias, no entanto sem marcação exclusiva de passos reconhecidos como valsa, daí serem chamados de valseados.

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cordão de índios entra, atua, dança e se posta às vezes na continuidade dos cordões de galantes ou formando outro cordão paralelo a estes ou atrás deles.

As partes coreográficas, após a entrada/o início da brincadeira, são marcadas pelas partes de cada personagem. O que se dança diz respeito à cena específica que pertence a ele, sendo isso que estabelece a ordem do dia, tipo: entrada (Cazuza, Donana, Mateu, Liseu), Bascarrasco, Galantes, Índios, Cavalinho, Burrinha, Boi, Caboré, Cazuza-Donana-Mateu-Liseu, a dança na corda, Boi, despedida, saída.

No início entram Cazuza, Donana, Mateu, Liseu e começa um diálogo de cumprimento e improvisos para envolver a plateia. O grupo musical começa então a tocar algumas músicas nordestinas conhecidas, seja porque estão fazendo sucesso no momento ou por serem tradicionalmente conhecidas. Os quatro personagens vão convidando a plateia para dançar. Adultos e crianças entram na roda à medida em que são chamados e com eles vão se divertindo. Os passos são do clássico gênero forró (marcha, baião ou xote) e por isso a maioria sabe e participa.

As figuras coreográficas que mais utilizam são: roda, serpentina, avanço e recuo em fileiras, colunas, palmas e sapateio e dançadas isoladas, esparsas, ao centro da roda. Não utilizam implementos coletivos como espadas ou bastões. Exceção seria o chicote/corda/cobra que é utilizado pela Donana e por Cazuza e que em determinado momento eles juntam os dois (chicote/corda/cobra), colocando- os no chão no centro da roda para que cada um dos principais personagens façam improvisos em cima dela, mostrando destreza, habilidade e comicidade.

O Boi Paz no Mundo atua com uma média de 30 a 45 brincantes entre crianças, jovens e adultos, sendo que a grande maioria que atua cenicamente são homens. As crianças e jovens estudam nas escolas públicas locais e os adultos têm pequeno estudo, estando a grande maioria afastada da escola, sendo um grupo de trabalhadores que são prestadores de serviços gerais.

Tudo o que são e fazem traz experiências que corroboram o que produzem, criam e atuam corporalmente na brincadeira Boi Paz no Mundo, que para alguns também é reisado. Como já o dissemos, percebemos que para uma boa parte de

mestres e brincantes não existem espaços fronteiriços entre reisados e bois, bois e reisados, apesar de cada brincadeira ter um registro particular como isso ou aquilo.