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BÖLÜM III: AMPİRİK ANALİZ

3.1. Hollanda ve Popülist Radikal Sağ

3.1.3. Hollanda Bağlamında Sonuç ve Tartışma

Enquanto na França a luta contra a intemperança foi movida pelas idéias higienistas, ajudando a promover a concepção do alcoolismo entendido como um problema social, nos EUA os debates sobre os efeitos deletérios do consumo considerado excessivo de bebidas alcoólicas, freqüentemente, giravam em torno do bebedor e de seu grau de responsabilidade no ato de beber.

A princípio, forja-se uma concepção pela qual o bebedor é inteiramente

responsável pela embriaguez. O núcleo dessa concepção, que influenciou de maneira

decisiva as sociedades de temperança, baseia-se numa controvérsia filosófica, importante naquela época, sobre a distinção entre o desejo e a vontade. Assim, numerosos eram aqueles que se recusavam a separar o apetite pelo álcool da vontade consciente de beber bebidas alcoólicas. Entre os partidários dessa concepção,

encontrava-se o teólogo americano Jonathan Edwards, que pregava a responsabilidade moral do “pecador” como bebedor intemperante. Crítico do filósofo inglês John Locke, o teólogo americano recusava-se a aceitar o hiato entre o desejo e a vontade, afirmando ser impossível ao homem desejar algo contra sua vontade. Edwards denuncia, então, que, “ao escolher beber ou se embriagar, o bebedor escolhe seu prazer” (Levine, 1978: 150).

Como sublinha Levine (1978: 144 – trad. minha):

Durante o século XVII e na maior parte do XVIII, a assunção era a de que as pessoas bebiam ou não bebiam porque elas desejavam, e não porque elas seriam “obrigadas” a fazê-lo. No pensamento colonial, o álcool não ficava fora do controle da vontade; ele era viciante, e a bebedeira habitual não era entendida como uma doença.

Na visão colonial, não havia nada inerente ao indivíduo ou à bebida que impedisse alguém de beber moderadamente. Beber era, em última instância, um ato sobre o qual o indivíduo possuía controle; a dependência do álcool não era conhecida e a embriaguez era entendida como uma escolha, embora pecaminosa, que alguns faziam por prazer (Levine, 1978: 150). Com fundamento na idéia da responsabilidade do bebedor, não se admite a noção do alcoolismo como doença.

Tratava-se, portanto, de um modelo moral para compreensão do ato de beber e, sobretudo, do beber excessivo. A responsabilidade pelo ato de beber recaía sobre o indivíduo, cabendo a ele cultivar a temperança para o bem do corpo, da alma e da sociedade. A causa da embriaguez situava-se na fraqueza individual do pecador.

Com efeito, o modelo moral de compreensão do consumo considerado excessivo de bebidas alcoólicas forjou uma teoria da alcoolização de perspectiva endógena (Cerclé, 1988), de modo que o bebedor é considerado responsável por seu ato.

Ao longo do século XIX, assiste-se a importantes transformações na sociedade norte-americana. Desde a revolução que conduziu à independência, haviam ocorrido importantes modificações em sua organização social, notadamente com o surgimento da oposição entre a aristocracia colonial e o chamado “homem comum”, o common man, uma espécie de ancestral do self-made man norte-americano, que fazia parte de uma classe média em franca expansão. Assiste-se também a uma verdadeira guerra religiosa, palco em que vão se opor progressistas e conservadores, os liberais e os partidários das idéias calvinistas.

É nesse contexto que o médico norte-americano Benjamin Rush organiza as idéias correntes em sua época e, ao estudar os efeitos do álcool sobre o pensamento e o corpo humano, elabora um modelo “médico-moral” para compreensão do beber excessivo. Em 1786, ele redigirá o primeiro tratado científico consagrado aos estados de “alcoolização crônica”, impulsionando uma mudança de paradigma na compreensão da alcoolização excessiva (Cerclé, 1998: 16). Para Rush, os bebedores são “dependentes” da bebida alcoólica e essa dependência se desenvolve de uma forma gradual e progressiva. No modelo desenvolvido por esse médico, destacam-se quatro pontos essenciais:

Primeiramente, ele identificou o agente causal — os licores —; em segundo lugar, ele, esclarecidamente, descreveu as condições do bebedor como uma perda de controle sobre o ato de beber — como atividade compulsiva —; em terceiro, ele declarou esta condição como doença; e, em quarto, ele prescreveu a total abstinência como o único caminho para a cura do bebedor (Levine, 1978: 152 – trad. minha).

O uso de bebidas alcoólicas e, sobretudo, o beber excessivo passa a ser concebido como “doença da vontade” (Levine, 1978: 152); uma espécie de doença (desease) mental capaz de conduzir o indivíduo que se expõe ao consumo de bebidas alcoólicas a um beber contínuo e, conseqüentemente, à “perda de controle” (loss of

control) sobre o consumo do álcool.

O modelo elaborado por Rush renova o entendimento sobre a alcoolização excessiva, de modo que ela passa a ser compreendida como doença que está diretamente ligada à ação da bebida alcoólica. Desse modo, elabora-se uma teoria da doença alcoólica exógena, uma vez que a causa do alcoolismo situa-se nas propriedades farmacológicas das bebidas alcoólicas. (Cerclé, 1998).

As teses sobre as relações entre o uso do álcool e a intemperança, a definição do beber excessivo como uma “doença da vontade”, as conseqüências sociais e individuais do uso do álcool e a prescrição da “abstinência” total para o tratamento da alcoolização crônica passaram a compor o núcleo central da ideologia do movimento de temperança

do século XIX38.

Esse movimento teve um papel importante na construção de uma representação do beber excessivo como “doença” e na redefinição da imagem do bebedor. Como sublinha Levine (1978: 144 – trad. minha): “Durante todo o século XIX, as pessoas associadas ao movimento de temperança se perguntavam se a embriaguez intemperante ou o beber habitual eram uma doença ou uma conseqüência natural do uso moderado de bebidas alcoólicas”.

Entre os grupos de ajuda mútua dirigidos ao combate da alcoolização excessiva que se destacaram como parte do movimento de temperança, está a sociedade

Washingtoniana (1840), composta, na sua maior parte, por trabalhadores. Os washingtonianos propunham a reabilitação de bebedores habituais a partir de votos

públicos de abstinência. Cada membro deveria expor publicamente seus problemas com o uso do álcool e fazer um voto de abstinência, renunciando à bebida alcoólica.

O modelo desenvolvido por Rush, inspirador das sociedades de temperança, baseia-se na cisão entre desejo e vontade, de modo que o bebedor não era considerado inteiramente responsável por sua embriaguez. Os efeitos farmacológicos do álcool é que conduziriam o bebedor à perda de controle sobre as doses ingeridas. Como sublinha Levine (1978: 148 - trad. minha), “esta distinção é a mais importante do pensamento moderno; ela está no coração do conceito de adicção”39. A representação do beber excessivo como uma “doença da vontade”, isto é, como dependência, envolve uma redefinição da imagem do bebedor, na qual a idéia de “perda de controle” sobre o álcool passa a ser primordial.

38

Como sublinha Levine (1978: 153 – trad. minha): “O movimento cresceu lentamente; nos primeiros anos do século, ainda havia uma resistência considerável, até mesmo entre os grupos de elite, à necessidade de abstinência. Mas, em meados dos anos 1830, mais de meio milhão de pessoas haviam se empenhado em não ingerir bebida alcoólica, e o Movimento de Temperança se comprometera firmemente com a necessidade de total abstinência de todas as bebidas alcoólicas”.

39

“A partir do século XIX, termos como ‘opressivo’, ‘esmagador’ e ‘irresistível’ foram usados para descrever o desejo do bêbado pela bebida alcoólica. No período colonial, porém, quase nunca estas palavras eram empregadas. Ao contrário, as palavras mais usadas eram amor e afeto, termos raramente adotados nos séculos XIX e XX. Na definição moderna de alcoolismo, o problema não é que os alcoólatras gostem de se embebedar, mas que não o podem evitar — eles não conseguem se controlar. Talvez detestem mesmo se embebedar, e só desejem beber moderamente ou ‘socialmente’. Na visão tradicional, porém, o pecado do bêbado era o amor pelo ‘excesso’ de bebida, a ponto da embriaguez” (Levine, 1978: 148 – trad. minha).

Entretanto, a concepção de que o beber excessivo era fruto da escolha individual não desapareceu completamente. Na verdade, ela está integrada ao interior de um intenso debate em torno dos limites entre o “livre arbítrio” e a “necessidade”, entre a “vontade” e a “determinação”, que vai definir os contornos da representação, ao mesmo tempo, do alcoolismo e do alcoólico como doente.

Como resultado de toda essa discussão, assiste-se, no final do século XIX, a uma onda proibicionista do comércio de bebidas alcoólicas.

Na última década do século XIX, a ideologia da temperança começou a se deslocar de sua grande inclinação reformista para uma preocupação obsessiva pela proibição. A mais antiga organização e, sobretudo, as fraternidades, declinaram [...] No princípio do século XX, sob a liderança da Liga Antitaberna, todas as atividades se tornaram secundárias ao esforço de proibição [...] Desse modo, a campanha de proibição do princípio do século XX enfocou outros efeitos maléficos do álcool: o papel da bebida alcoólica nos acidentes industriais e ferroviários; seus efeitos nos negócios e na eficiência do trabalhador; seu custo para os trabalhadores e suas famílias; o poder e a riqueza do “monopólio da bebida alcoólica”; e sobretudo o papel do

saloon como um lugar que dava origem ao crime, à imoralidade, à

agitação de operários e à corrupção política. [...] O bêbado veio a ser visto cada vez menos como vítima e cada vez mais como simplesmente uma peste e uma ameaça (Levine, 1978: 161 – trad. minha).

O auge desse movimento ocorreu com a aprovação pelo Congresso dos Estados Unidos, através de emenda à Constituição, em 1920, da “Lei Seca”, que proibia a fabricação e venda de bebidas alcoólicas em todo o país. Com isso, a noção de dependência do álcool passa a ocupar um papel secundário na ideologia de temperança, preocupada cada vez mais com os malefícios sociais causados pelo álcool.

A “redescoberta” do alcoolismo, entendido como uma doença “crônica e fatal”, que provoca a “dependência em relação ao álcool”, só aconteceu nos anos de 1930 e 1940, através, de um lado, do programa de recuperação do alcoolismo desenvolvido pelos Alcoólicos Anônimos e, de outro, das pesquisas conduzidas pelo Yale Center of

Alcohol, dirigidas por E.M. Jellinek (Cerclé, 1998: 19 ; Levine, 1978: 162; Soares,

1999: 249), ambos responsáveis por mais uma mudança de paradigma na compreensão da doença alcoolismo.

Assiste-se, então, a um enfraquecimento do movimento proibicionista; e ao desenvolvimento da concepção “restritiva” da dependência alcoólica (Cerclé, 1998: 19).

Dali em diante, o álcool poderia ser considerado uma droga socialmente aceitável, domesticada e que, por razões desconhecidas, provocava a dependência somente em algumas pessoas, que teriam uma “predisposição orgânica” para desenvolvê-la. A essas pessoas, e somente a essas, caberia a abstinência total do consumo de bebida alcoólica, como forma de tratamento.