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BÖLÜM III: AMPİRİK ANALİZ

3.1. Hollanda ve Popülist Radikal Sağ

3.1.2. Özgürlük Partisi (PVV) ve Söylemsel Stratejileri

O debate antialcoólico vivido na sociedade francesa teve grande repercussão e influência no Brasil. Matos (2000) mostra que, nas primeiras décadas do século XX, notadamente na cidade de São Paulo, ocorre uma intensa divulgação de campanhas oficiais contra o uso do álcool, voltadas, sobretudo, para as classes populares, que ajudariam a definir os contornos de uma representação específica sobre o álcool, o alcoolismo e também sobre o bebedor, que faz um uso das bebidas alcoólicas considerado excessivo.

O início desse século é marcado por uma grande expansão urbana na cidade de São Paulo, que se torna um grande centro capitalista, no bojo do sucesso e das crises da sociedade cafeeira. Como conseqüência das intempéries sazonais, responsáveis pela oscilação no preço do café e do incremento da imigração, em proporções superiores às possibilidades de emprego, a cidade de São Paulo assiste a um grande crescimento de sua população, que acarreta graves problemas sociais.

Tudo se transforma rapidamente. Demolições e construções ditam o ritmo do progresso, que vai redefinir o espaço urbano, marcando de forma definitiva o perfil da metrópole. Novos bairros são criados, sobretudo, para atender às necessidades dos novos moradores: os operários, que são, em sua maioria, imigrantes que vêm à cidade

em busca de novas oportunidades, redesenhando o mapa da cidade e definindo uma nova circularidade, marcada por redes de relações que criam laços de solidariedade e novas estratégias de sobrevivência35.

É nesse cenário que vai atuar um personagem central para a realização dos sonhos modernizantes das elites brasileiras: o médico higienista e sanitarista36. A ação do higienismo não se concentrará apenas em São Paulo. Exemplares, nesse sentido, são os acontecimentos que resultaram na chamada “revolta da vacina”, que ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, no ano de 1904. Os acontecimentos que redundaram na revolta tiveram como pretexto a campanha de vacinação em massa contra a varíola, desencadeada pela presidência da república e conduzida pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz. Como expõe Sevcenko (1984), a revolta também foi uma reação contra uma política que, sob a égide do higienismo, visava estabelecer formas de controle sobre as massas populares, alterando a geografia urbana da cidade, através de uma reforma que visava à eliminação de bairros populares inteiros.

Nessa perspectiva, a exemplo do que ocorre na França, o discurso médico que atua na sociedade brasileira também ordena e classifica as coisas e as pessoas, definindo os perfis considerados indesejáveis, entre os quais destaca-se o do alcoólatra.

Nesse processo, os médicos assumiram vários papéis: como higienistas e sanitaristas, combateram o alcoolismo com campanhas e ações diversificadas; como legistas, discutiram as responsabilidades dos alcoólatras e a relação álcool-violência-crime; também nos hospitais e manicômios procuraram aperfeiçoar tratamentos para os alcoólatras, além de lutar por instituições especiais para abrigá-los. Esses papéis, algumas vezes, colidiam, gerando polêmicas, tensões e diferentes interpretações. Nesse quadro, o papel dos médicos e higienistas era de importância vital, já que consideravam o País na sua vocação para o “progresso e para a civilização” (Matos, 2000: 27).

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“A dinamização do processo de crescimento da cidade de São Paulo intensifica-se; a partir dos anos 20; pretendia-se dar à cidade a aparência de uma metrópole moderna, civilizada, refletindo a riqueza acumulada pela cafeicultura e pela indústria. Novas avenidas foram abertas, ricas residências construídas, projetos de vilas operárias implementados, ações repressivas empreendidas contra os cortiços; procurava- se isolar e afastar a pobreza urbana, considerada perigosa, particularmente depois das intensas manifestações operárias e populares dos anos 1917-19” (Matos, 2000: 24-25).

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Nas palavras de Matos, fica claro o papel de agente transformador do médico higienista: “Detentores do monopólio do ‘conhecimento racional e cientifico’, os médicos se incumbem de indicar como e quando agir, interceder e sanar. A intervenção médica foi concreta e continuada, tendo no higienismo uma das bases de sua doutrina, e criando todo um conjunto de prescrições que deveriam orientar a vida. Regras de higiene na cidade, no trabalho, no comércio de alimentos, no domicílio, na família e nos corpos, costumes e hábitos, alimentação, cuidados com o corpo, prazeres permitidos e interditos, deveria seguir um parâmetro: o médico” (Matos, 2000: 27).

O alcoolismo era considerado, sobretudo, uma patologia social, fundamento das preocupações sócio-higiênicas do discurso médico. Para combatê-lo, usava-se um “remédio” profilático, considerado eficaz: as campanhas antialcoólicas, voltadas, sobretudo, para as classes populares, consideradas as mais vulneráveis ao mal, uma vez que somente através da ação contundente sobre os “hábitos, o meio e a educação” seria possível “evitar o aparecimento e a difusão do alcoolismo” (Matos, 2000: 29).

Desse modo, o movimento antialcoólico brasileiro se desenvolve, nas primeiras décadas do século XX, no bojo do higienismo, para o qual a causa do alcoolismo se situa no exterior: é o meio social, no qual vivem os pobres, que facilitaria seu aparecimento e a sua difusão.

Assim, como destaca Matos, várias imagens negativas foram associadas ao alcoolismo: “o discurso das campanhas era incisivo, identificando o alcoolismo com ‘flagelo’, ‘praga social’, ‘mal social’, ‘demônio da humanidade’, ‘veneno’, ‘gangrena social’, ‘satânico vício’” (Matos, 2000: 29).

Todas essas representações associadas ao alcoolismo sugerem que, no Brasil, se desenvolve uma concepção muito parecida com a da França: o alcoolismo é entendido, sobretudo, como um problema cujas causas são sociais. Algumas idéias presentes no debate travado na sociedade francesa também encontrarão na sociedade brasileira um solo fértil para proliferarem, tais como, por exemplo, a tese do Dr. Morel sobre a “degenerescência alcoólica”37. O objetivo era, como explica Matos, assegurar a “preservação da família”. Por isso, em seu programa de combate ao alcoolismo:

Apareciam a chamada “eugenia positiva”, baseada na educação física e moral, e, dentro dela, as campanhas antialcoólicas. A eugenia preventiva propunha fazer profilaxia contra a decadência da raça, tendo entre seus focos a luta antialcoólica. A eugenia seletiva tinha por finalidade a restrição do nascimento de indivíduos degenerados e, nesse sentido, pontuava o caráter hereditário e degenerativo do alcoolismo (Matos, 2000: 49).

Em meio a uma verdadeira trama discursiva, elaborada nas teias do higienismo, o debate antialcoólico no Brasil afirmará uma imagem profundamente negativa do bebedor. “Um ser degenerado”: é assim que se vão se delinear os contornos da imagem

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do bebedor, na qual ele estará associado àquele que vive num estado de marginalidade, que beira a animalidade.

O uso do álcool apagava a inteligência no homem, acentuava a mudança de caráter, provocando uma excitação fugaz, seguida de abatimento nervoso, impulsões violentas, apatia considerável, cólera intensa [...] O alcoólatra perdia toda a energia, noção de honra e de conduta pública, do afeto pela família e amigos, das obrigações para a sociedade, podendo caminhar para a obsessão, para o impulso criminoso, além dos males que deixava para a prole (Matos, 2000: 61).

Em nosso país, segue-se o modelo que foi praticado na França, de maneira que a tradição higienista também se preocupa em assegurar o papel da família, denunciando os riscos que corriam essa instituição devido ao alcoolismo.

É importante ressaltar que essas idéias não surgiram isoladamente, mas estavam adequadas ao caldo de cultura positivista e cientificista presente naquela época. A nós interessa, porém, acentuar a lógica que rege o discurso médico higienista de combate ao alcoolismo e que faz dele um “problema social”. No Brasil do início do século XX, elabora-se uma teoria do alcoolismo na qual ele é definido como um problema cujas causas são exteriores ao indivíduo; e o bebedor nada mais é que um desviante, alguém que ameaça a estabilidade da família e a reprodução da ordem social.