ANADOLU’DA KADIN
2.3. HĠTĠT ÖNCESĠ ANADOLU KADINININ SOSYAL HAYATTAKĠ ROLÜ
2.3.4. Hitit Öncesi Anadolu Toplumunda Kadınının Dini Hayattaki Rolü
Ao analisar a estrutura fabular de Em Liberdade, o leitor corre o risco de assombrar-se com a combinação dos elementos factuais do relato, tendo em vista a forma irregular escolhida pelo ficcionista para articular as “vozes” no
processo narrativo decorrente. É complicado até para distinguir entre voz da personagem e voz do narrador, pois, não basta diferenciar homem, de autor (homo scriptor), é preciso reconhecer ambos, autor e narrador. O relato, como se sabe, é de propriedade do autor que, a princípio, assume, toma a palavra, a autoria e a história, fundindo-se com o narrador. Não obstante, Santiago preserva a superioridade do “escritor”, que não se deixa enganar pelo próprio relato, nem quebra a ilusão dramática ao apontar ao leitor todos os fios com que trama sua invenção.
Sabe-se que após o século XVIII o romance tende ao seqüestro do autor, que passa a mero prefaciador; ou seja, exerce o papel de relator. Mas a partir do Realismo, propugna-se pelo autor imparcial, objetivo e impessoal, em correspondência com o nível apreciativo: a reflexão moral integra-se em cada parte da história. Num primeiro nível, esse ideal de objetividade corresponde a uma das concepções do gênero, chegando quase a identificar-se com ele. Não se admira, então, falar-se, nesse tempo, de autor presente e de autor ausente.
O crítico literário, Oscar Tacca, declara, em sua obra As Vozes do Romance (1983), que há uma difícil tensão nas fronteiras entre o autor e o narrador: se, por vezes, o ‘autor’ está presente, não se pode fazê-lo calar-se; se a voz do ‘narrador’ é legítima, a do autor torna-se intrusa e, se o narrador acerta ao falar e ao calar-se, o autor só acerta ao calar-se. Assim, Em Liberdade mostra momentos em que o ‘autor’ é eliminado para manter esse total silêncio, de modo que ele passa a representar a ’consciência’ da personagem Graciliano, ocasionando o recurso da ‘transcrição’, que oculta outra diligência de maior alcance e envolvimento estético: a despersonalização
do narrador convertida em objetividade e verossimilhança, que também não deixa de ter uma relação com a intertextualidade: “Esta entidade a que chamamos ‘autor’ surge muitas vezes na obra, por detrás do narrador, não confiando inteiramente nele, arranjando, compondo, aclarando, acrescentando, completando” (TACCA, 1983, p. 19). Sua intervenção pode ser sutil, ou escancarada, refletindo uma imagem autoral que não aquela apresentada em outras obras do mesmo escritor, mas diferente para cada uma.
No gênero diário, aqui desenvolvido por Silviano Santiago, acontece de o narrador converter-se em aparelho do autor, em dissimulador de seus juízos e opiniões, embora seja um diário ficcional, projeto intertextual explícito de mise en abyme, em que se mantém aparentemente a voz da personagem Graciliano em narrações transubstanciadas. Caminhando pelo avesso de Memórias do Cárcere, o sentido do texto de Gracil(v)iano (BELLEI, S.L. 1982, p. 4) não toma forma. Bellei diz que a dramatização da experiência de Graciliano emerge das ações experimentadas por um “eu” autobiográfico ficcionalizado.
Em certas ocasiões o narrador retro-cede, passa para o plano da Advertência através das notas de rodapé, elucidativas para o leitor, e se torna uma espécie de editor de papéis encontrados em determinada situação, lugar, ou momento. Logo, a distinção entre autor/narrador desaparece, em virtude da empatia com o destinatário. Supostamente deixados por Graciliano Ramos a um “editor” que os teria entregado posteriormente a Silviano, os manuscritos surgem como argumento para convencer o receptor, conforme se pode ler: “Conservei em segredo, até hoje, os originais de Em Liberdade. Resolvo agora
publicá-los, obedecendo ao prazo de vinte e cinco anos exigido pelo romancista” (SANTIAGO, 1994, p. 4).
Por esse caminho, estabelece-se o jogo dos reflexos entre o texto do diário e o referente no interior da própria ficção, numa composição de interfaces de Em Liberdade e Memórias do Cárcere. É preciso ler o diário como uma pré-escrita onde o narrador tudo vê oniscientemente, como se a ficção tivesse que se submeter a ele; em se tratando de mise en abyme, o enunciado, apesar de referencial, é ausente do novo texto, apenas um manuscrito referido, conforme aí se menciona. É ainda ausente porque em realidade nunca existiu. O receptor passa por um intrigante estranhamento ao captar a armadilha e descobrir que não se trata do manuscrito do escritor Graciliano Ramos, mas sim da experiência (?) que o modifica e ao mesmo tempo instala a ficção.
Cabe, todavia, situar com precisão a leitura do “manuscrito” para encontrar seu lugar, seu papel de ligação e de retorno do texto sobre si próprio. Mise en abyme não é uma configuração fixa que engendra uma figuração limitada do conjunto; nessa “parafernália literária” o que transparece não é o texto-objeto produzido, apenas, mas a engenharia sobre o texto, a escrita leitura, visto tratar-se de uma leitura do manuscrito feita pelo narrador, que modifica o manuscrito no livro. Desse modo, a ficção se nutre da leitura do manuscrito, mola propulsora da escrita, o narrador a desenvolve subseqüentemente supondo que o leitor releia Memórias do Cárcere, mas mesmo assim, essa atitude pode ‘enrolá-lo’ entre as páginas. Tem-se, então, o drama de Graciliano e, após, o livro (da história do drama), ou por outra, o
processo de escrita, de concepção clássica (diário) ligado ao autor Graciliano Ramos.
Não obstante, há um outro índice que, nessa técnica proposta por Tacca, vem explicar a participação do autor-transcritor - o artifício da distanciação ou do disfarce do autor, onde a ausência do narrador é “natural” embora convencional, visto tratar-se de papéis ou de manuscritos encontrados. A objetividade e a verossimilhança são, neste caso, caminhos pelos quais se desenvolve o diário, ressaltando a um só tempo o “aspecto imparcial” do autor, ou por outra, deseja passar ao leitor a imagem de imparcialidade e de verossimilhança, que apontam para a credibilidade do que se conta. Pela imparcialidade, omite-se a figura do engendrador, do fingidor, e pela credibilidade, acumulam-se provas e indícios da realidade documental.
Contudo, a verossimilhança apresentada pelo autor permite que a obra abra caminho para reobservar-se a ideologia sem abdicar da visão política, já figurada no início da fabulação, quando o autor se declara organizador do perfil literário de Graciliano Ramos. Silviano Santiago ‘elimina’ o autor, como se não houvesse escrito o livro, mas, sim, transcrito, acentuando duplamente o processo intertextual. Primeiro, pela apropriação de um texto nomeado pela crítica e, segundo, pela re-criação autoral.
O gênero desenvolvido revela artimanhas revolucionárias para a literatura contemporânea: um único emissor, uma grande confissão que supõe um destinatário interno. Mas as “memórias” facilitam a compreensão da leitura quando se pressupõe uma distância temporal do que é narrado, por ser um diário de uma coetaneidade. Santiago retoma a vida do escritor alagoano num