Outra ocorrência que em Em Liberdade se destacou envolve o poeta árcade brasileiro Cláudio Manoel da Costa e tem ligação com o período em que o Brasil tentava firmar sua autonomia literariamente e politicamente perante Portugal, em meio a revoluções sociais. Por este motivo, elencam-se neste espaço alguns fatos ligados aos chamados movimentos anticolonialistas e Inconfidência Mineira (1792), onde se incluem os da trajetória de vida e obra do autor de Mariana.
Recorda-se que no século XVIII, poetas mineiros, como Tomás Antônio Gonzaga, Silva Alvarenga, Basílio da Gama e o próprio Cláudio Manoel da
Costa, por acreditarem em mudanças sociais, envolveram-se na conspiração intitulada Inconfidência Mineira. Com a memória desses artistas da palavra, vem também a desse tempo de exploração do ouro em Minas Gerais, outro período marcante da história do Brasil em que se dá o aparecimento de um núcleo de cidades vizinhas a Ouro Preto, que resulta em um comércio mais ou menos estável entre os interiores, do que viria a ser o Brasil.
Preciosos carregamentos seguiam para o litoral, a simbolizar concomitantemente a transição do Feudalismo ao Capitalismo. Nas áreas coloniais, registram-se movimentos de independência e, iniciado o processo de industrialização, na Inglaterra, o sistema colonial, sob a ótica do capital mercantil, desestrutura-se. Há, entre os estudiosos do assunto, um consenso com relação às motivações profundas (internas e externas) e àquelas mais conjunturais que explicam o rompimento das colônias com suas respectivas metrópoles: as colônias se desenvolvem devido à própria exploração que se faz sobre elas.
A classe dominante colonial compõe-se por uma elite poderosa, embora se submeta aos interesses e aos grupos de poder da metrópole; há um reforço no sistema colonial seguido de um agravamento da opressão metropolitana, enquanto cresce a oposição entre Metrópole e Colônia. No centro do sistema (metrópoles) sucedem-se, paralelamente, transformações fundamentais, como a crise no antigo regime com as Revoluções Burguesas com as quais se soltaram amarras e com que se abriria o caminho futuro da plena realização do sistema capitalista. Findam o absolutismo e o mercantilismo, impondo-se novas relações sociais de produção, devido à Revolução Industrial e todo um aparato
conceitual que acompanha essas modificações (o Iluminismo, o Liberalismo Econômico). Cresce a revolta contra os monopólios, contra o trabalho escravo que não condiz com a nova ordem, pois, como se sabe, o monopólio e o escravismo que eram sustentáculos do Antigo Sistema Colonial acabaram se colapsando.
Mesmo quando não objetivavam a emancipação política, alguns protestavam contra a opressão da Metrópole, tanto assim é que, em 1684, já haviam ocorrido, contra a Companhia de Comércio e contra os jesuítas que cerceavam a escravização dos índios. Em 1709, nova desavença entre paulistas e forasteiros pela posse da região mineira vem a se suceder e, no ano seguinte, entre latifundiários de Olinda e comerciantes portugueses do Recife. Novamente, na segunda metade do século XVIII, surgem as Conjurações ou Inconfidências, com destaque para as de Minas (1789) e as da Bahia (1798).
Para este estudo, convém, entretanto, tratar dos projetos dos conjurados mineiros por se referirem mais de perto ao árcade Cláudio Manoel da Costa, quer pelas denúncias que o envolveram, quer pela sua prisão, e finalmente, importa, enquanto figura de proeminência no relato de Em Liberdade.
Cláudio evolui em sua trajetória literária, de forma singular, com a criação de sugestões poéticas que, do ponto de vista da literatura brasileira colonial, representam autênticos vanguardismos, como os indianistas realizados pelo Romantismo. Embora se queixasse de males, de agruras de seu destino, mimetizava-as em ritmo camoniano; por isso, sua poesia preservou a atualidade, conforme evidencia Joaquim Ferreira, em História da
Literatura Portuguesa (1964). Está entre os poetas nascidos ou residentes em Minas Gerais, onde exerceram suas obras mais notáveis, assim como seus companheiros de trovas, Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto, Santa Rita Durão, Basílio da Gama e Silva Alvarenga que estrearam entre 1768 e 1795.
Sua opção era pelo Arcadismo ou Neoclassicismo, cujos modelos foram os de clássicos latinos, como Horácio, Vergílio e Ovídio, ou de gregos, como Anacreonte, Píndaro e Teócrito, ou ainda, mais próximos, dos clássicos quinhentistas, como, Camões, Sá de Miranda e Rodrigues Lobo. É oportuno reiterar-se que, em Portugal, esse movimento literário se celebrizou com Antônio Dinis da Cruz e Silva (mais tarde famoso com o poema herói-cômico O Hissope), cuja má sorte o levaria a sentenciar, como magistrado, os poetas Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto e a proceder judicialmente por motivos políticos, contra Silva Alvarenga, Teotônio Gomes de Carvalho e Manuel Nicolau Esteves Negrão. Enfim, faz-se conveniente apontar que a ultima sessão da Arcádia, em 1770, foi de uma reação contra o Seiscentismo, contra o barroco literário de origem espanhola - o cultismo ou gongorismo – de rejeição às formas sinuosas de expressão. Refutou-se a linguagem poética difícil para os leigos, devido às metáforas em que o representante foi ficando cada vez mais distante do representado, como “cristal”, por água, “ouro”, por cabelos, “cravo”, por boca etc. Desejava-se voltar à simplicidade, ao equilíbrio clássico.
Cláudio Manoel da Costa, com naturalidade e sublimidade, imaginava-se às margens do rio Mondego, em Coimbra, como uma espécie de fuga, para a
beleza natural, como a dos pastores de Teócrito e Vergílio a mais desejada, segundo a expressão literária dos clássicos. Se à arte se facultava imitar a natureza e outros autores, explicava-se a permissão que se concediam os neoclássicos, de imitar sem subserviência os antecessores célebres, de tal modo que era um desafio superá-los. Cláudio, preocupado com os valores de sua terra, em Obras (1768), mesmo compostas em Coimbra, refere fatos e conflitos regionais e, no Epicédio, consagrado à memória de Fr. Gaspar da Encarnação, inclui a produção de ouro e a natureza, com as penhas da região onde vivia (CÂNDIDO, 1959, p. 80).
Importante para este trabalho é sublinhar o envolvimento do poeta na Inconfidência Mineira, quando em Vila Rica se assistia aos ânimos exaltados; ao despótico Luís da Cunha Meneses (o Fanfarrão, das Cartas Chilenas), sucedera o sexto Visconde de Barbacena, culto e moderado, em cuja linha de programa levou à chamada “derrama”. Embora esta não tivesse saído do círculo confidencial em que a tramaram, havia entre os organizadores poetas e eclesiásticos, posteriormente envolvidos no processo e correspondeu a uma confissão de nacionalidade, autonomia e de nítidas incompatibilidades.
Enquanto isso, os conjurados estimulavam-se com forte nativismo, achando-se preparados para a independência, a República. A Derrama poderia ter tomado maiores proporções na emancipação, pelos sentimentos que assinalaram a maioridade das colônias, às vésperas do desafio, da luta e da soberania, se não fosse um ensaio de ordem política – o rompimento com o governo Del-rei, com o trágico desfecho do martírio de Tiradentes.
Uma vez suspensa, a operação, a 14 de março de 1780, o Visconde de Barbacena declarou que estudaria o caso com mais vagar e o primeiro nome citado foi o do coronel de cavalaria na marca do Rio das Mortes, Joaquim Silvério dos Reis, mercador arrematante do Contrato das Entradas: cidadão descontente daquela capitania, em razão da grande soma que devia à Fazenda Real, quando fora Contratador das Entradas. Alguns réus foram inquiridos, entre eles, Cláudio Manoel da Costa, que informou ter sido debatido o projeto em casa de Tomás Antônio Gonzaga e do cunhado do Tenente-Coronel Francisco de Paula, que, a certa altura, teria afirmado “que a primeira cousa era tomar-se a caixa real, bem que isso era também hipoteticamente” (RIBEIRO, 1903, p. 72).
A 04 de julho, Cláudio foi encontrado morto na prisão, enforcado na grade do cubículo com um cadarço, sem explicações convincentes. Faltam, porém, documentos que desmintam a versão oficial do suicídio.
A partir de um determinado momento fraturam-se os alicerces do Antigo Sistema Colonial que ocasionariam seu rompimento; basta olhar-se a situação por um prisma bilateral, como seja a inter-relação entre o que acontece na Europa e na América, pelo forte elo que as une. Em As Dimensões da Independência (1822), Fernando Novais lembra que a área central e área periférica se conjugam, tornando impossível ampliar a Colônia sem investir no seu desenvolvimento, o que dificultaria o aumento da produção, no conjunto delas (NOVAIS, 1972, p. 23).
O crescimento intensivo complica o esquema de administração colonial, pelo aparecimento de novas camadas sociais, de núcleos urbanos, enquanto
surgem oposições entre a Colônia e a Metrópole. A exploração das colônias estimula a economia central e a industrialização é a espinha dorsal do desenvolvimento; ao atingir um certo grau de mecanização (Revolução Industrial), todo o conjunto se ressente porque o capitalismo industrial não se enquadra nem nos limites estritos do regime colonial, nem no sistema escravista de trabalho.
Neste quadro de idéias liberais e democráticas, as letras brasileiras se destacam no século XVIII, emergindo várias sociedades literárias, segundo Pommer (1981, p. 13), sendo a mais importante a Academia Brasileira dos Esquecidos (Salvador, 1724). A ela seguiram-se a Academia dos Infelizes (Rio de Janeiro, 1736), a dos Seletos (Rio de Janeiro, 1752), dos Renascidos (Salvador, 1759) e, finalmente, dos Felizes (São Paulo, 1770).
Na onda do desenvolvimento cultural, cujo indício fora a proliferação das academias literárias, o arcadismo brasileiro constituiu o primeiro esforço conjunto de criação de uma literatura nacional, ainda ligado à literatura da Europa. Os poetas desse movimento literário brasileiro, entretanto, foram árcades sem arcádias do porte das que proliferaram na Europa. Contudo, militares, padres, comerciantes, fazendeiros, juristas e poetas representantes da elite, não suportando mais a injustiça dos encargos cobrados para sustentar o bem-estar de uma corte decadente, mobilizaram-se pela independência do Brasil.
Não poderia ficar imune a literatura, pois, do ponto de vista da literariedade; mesmo presa às origens lusitanas, destaca-se a poesia do século XVIII. Embora dominantemente árcade, agregou influências camonianas,
barrocas, com elementos bucólicos nacionais e motivações pré-românticas, nas obras dos vários autores. Desse modo, com Cláudio Manoel da Costa acentua-se o sentimento nativista; as imagens da pedra, tão marcantes em sua obra, refletem os vínculos de sua poesia com a terra natal e se constituem em elemento diferenciador dos clichês bucólicos com que se forma a paisagem árcade brasileira.
Silviano Santiago afirma acerca da morte do poeta:
A versão do suicídio inscreve Cláudio como herói na história “religiosa”: arrependido do que fizera, é presa do “remorso’. Não vê outra alternativa para a sua “covardia”. O remorso recupera o “traidor”, como recupera também o pecador. Não é este o papel da extrema-unção? É curioso notar como no “suicídio” de Cláudio encontram-se a história oficial e a não-oficial. Momento privilegiado que não posso deixar escapar. Só espero não estar fazendo tempestade em copo d’água. Amanhã, leio um livro qualquer sobre a rebelião, e já está tudo isso lá. Continuemos.
A história oficial enforca-o para que não implique os companheiros do mesmo grupo social e que, tudo leva a crer, só ele conhecia. Enforcando-o na cela, assumira culpabilidade maior e, por isso, o dá como suicida. O suicídio é explicado, posteriormente, pelo seu receio diante do justiçamento futuro que os seus companheiros de causa tentariam. A história não-oficial aceita a versão do suicídio, pois é a maneira que encontra (na sua versão religiosa dos acontecimentos) para colocá-lo ao lado de Tiradentes. O mártir glorioso e o arrependido Cristo e Madalena (SANTIAGO, 1994, p. 222-223).