2.12. Çocuk Hikâyeleri İnceleme Yöntemleri
2.12.2. Hikâye Haritası Yöntemi
O direito de propriedade evoluiu de direito absoluto do proprietário de usar, gozar e dispor da coisa, da forma que melhor lhe aprouver, para aquilo que hoje se denomina propriedade e sua função social. A proteção jurídica da propriedade greco-romano traz importantes considerações que demarcaram os limites da proteção estatal à propriedade privada. Segundo lições de Fustel de Coulagens:
“Há três coisas que desde as mais remotas eras, se encontram fundadas e estabelecidas solidamente pelas sociedades grega e italiana; a religião doméstica, a família e o direito de propriedade; três coisas que apresentaram entre si manifesta relação e que parece terem mesmo sido inseparáveis”.45
Os romanos mantinham o vínculo com suas terras à medida em que faziam de suas moradas um local sagrado para enterrar seus familiares mortos, considerados protetores
45 FUSTEL DE COULAGENS. In PIRES, Lilian Regina Gabriel Moreira. Função Social da Propriedade
do direito de propriedade. Daí se extrai o sentido individualista e absoluto da propriedade privada romana. Segundo a doutrina:
“No Direito Romano, a propriedade estava vinculada à religião, na medida em que o costume era enterrar os mortos no campo de cada família. As almas eram as tutoras do direito de propriedade e a sepultura estabelecia o vínculo da família com a sua terra. A proteção do altar indicava uma divisa que separava o domínio de um lar de outro domínio que pertencia a um outro lar, sendo a demarcação uma faixa a rodear o solo sagrado. Em determinados períodos o pai de família circundava a linha demarcatória da propriedade familiar, fazendo oferendas, cantando hinos e fixando as divisas que eram invioláveis. Nesse passo, tudo girava em torno do culto aos mortos, uma vez que a terra em que repousavam era sagrada.
(...)
De tudo isto, não temos dúvida em afirmar que na Roma antiga a propriedade era fundamentada na religião. Assim a religião, a família e o direito de propriedade encontravam-se intimamente ligados. Os deuses-lares eram cultuados com o objetivo de proteger a família que os adoravam, havia uma espécie de co-relação entre propriedade, família e antepassado. Foi nesse sistema que o direito de propriedade ganhou conceito individualista e absoluto”.46
Com a invasão bárbara e a queda do Império Romano do Ocidente, as concepções romanas sobre o direito de propriedade sofreram influência da cultura bárbara, eminentemente rural. Fortaleceu-se, assim, o poder do dono do solo, surgindo o modo de produção que caracterizou o feudalismo: a soberania passou a ser exercida pelo proprietário, confundindo-se a propriedade estatal com a particular. Desapareceu o caráter exclusivista da propriedade, que se repartiu entre o domínio eminente do Estado, o domínio direto do senhor feudal e o domínio útil do vassalo.
No sistema feudal identificavam-se dois poderes distintos sobre o direito de propriedade: o primeiro, daquele que tinha o domínio direto sobre a terra, representado pela figura do Senhor Feudal; o segundo, que detinha o domínio útil sobre a terra, representado pelo vassalo. Neste sistema, “o titular direto da terra cedia o gozo e a
fruição de determinada área da propriedade a um vassalo, e este poderia explorá-la, devendo retribuição àquele”. Ou seja, “Quem cultivava a terra não era dono dela e
quem detinha a propriedade não a cultivava”. 47
46 PIRES, Lilian Regina Gabriel Moreira. Função Social da Propriedade Urbana e o Plano Diretor. Belo
Horizonte: Editora Fórum, 2007, p. 20.
47 DALLARI, Adilson Abreu. Servidões administrativas. Revista de Direito Público. São Paulo, v. 14, nº
Nesse contexto histórico, são respeitáveis as lições de São Tomás de Aquino que, em reação à exploração do homem, insurge-se com idéias de que o homem tem o direito natural de apropriação privada de bens, desde que necessários à sua sobrevivência, todavia, limitada pelo direito que todos têm a uma vida digna.48
A propriedade privada, nos moldes da concepção romana, é restabelecida no século XVIII, com a Revolução Francesa. Com a ascensão da burguesia - conquistada pela Revolução Francesa -, que concebia o indivíduo como centro do universo, o caráter individualista do direito de propriedade tornou-se ainda mais reforçado, tendo sido elevado à categoria de direito sagrado e inviolável pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, conforme seu Art. 17. 49
A Declaração dos Direitos do Homem, ao lado dos direitos individuais e liberdades fundamentais, trata o direito de propriedade como prolongamento da personalidade humana, sendo a propriedade considerada direito absoluto e sagrado. Sob a influência do Estado Liberal o papel do Estado ficou restringido, assumindo este uma posição passiva e não intervencionista, cabendo somente a proteção aos direitos individuais. Segundo Paulo José Leite Faria:
“Sob a ótica de visão liberal, cabe ao Estado, tão somente, a missão de guardião das liberdades dos indivíduos e da sua segurança, não podendo, de forma alguma, interferir na ordem econômica e social, pois esta seria regulada pelo próprio mercado”50.
O Estado Liberal também foi palco da Revolução Industrial. As sociedades, marcadas antes pela atividade agrícola, dão lugar à formação da sociedade industrial. A população migra para os grandes centros urbanos em busca de emprego e acesso aos bens de consumo. Esse movimento provoca distorções sociais, econômicas e ambientais, principalmente com o processo de urbanização das cidades industriais, requerendo uma maior participação estatal para frear a “irracional” ocupação dos núcleos urbanos.
48 PEREIRA, Rosalinda Pinto da Costa Rodrigues. A teoria da função social da propriedade rural e seus
reflexos na acepção clássica de propriedade. Revista de Direito Civil, Imobiliário, Agrário e Empresarial. São Paulo, v. 17, n° 65, jul./set. 1993, p. 105-106
49 Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão: “Artigo 17°. Como a propriedade é um direito
inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado, a não ser quando a necessidade pública legalmente comprovada o exigir evidentemente e sob condições de justa e prévia indenização”.
50 FARIAS, Paulo José Leite. Competência Federativa e Proteção Ambiental. Porto Alegre: Sérgio
Tratando do tema “Liberalismo e meio ambiente na Revolução Francesa”, Guilherme Purvin leciona:
“As leis florestais inspiradas na doutrina liberal da Revolução Francesa orientam-se no sentido da ausência absoluta de intervenção do Estado na atividade particular. Os proprietários das matas têm inteiro arbítrio sobre a forma de exploração das mesmas. Podem utilizá-las, como melhor lhes aprouver, sem que o Poder Público tenha o direito de intervenção, uma vez que o direito de propriedade é total e insuscetível de qualquer limitação, por qualquer pessoa fora do respectivo dono. A lei conceituava o regime florestal apenas para as matas e bosques de propriedade pública”.51
A falência do Estado Liberal é expressada por Paulo Bonavides da seguinte forma:
“Resultava dos danos sociais causados pela industrialização que oprimia o quarto estado, produzindo lastimáveis condições de trabalho, exacerbando desigualdades econômicas fundados na própria igualdade jurídica entre o empregado e o empregador em nome de teses liberais, gerando, em suma, uma consciência de revolta fixada sobre a necessidade impreterível de rever os fundamentos da sociedade ou conjurar os excessos do sistema capitalista, provocador de injustiças capitais perpetradas contra a classe operária, em todos os países imersos na era da industrialização”.52
Nesse contexto, surge a necessidade premente do Estado intervir nas relações sociais, cabendo à ordem jurídica garantir não somente igualdade formal perante a lei, mas um conteúdo material:
“(...) ao lado dos direitos individuais, arrolam-se os direitos sociais e econômicos, destinados, antes de limitar a ação estatal, a exigi-la, como direitos a prestações concretas positivas. Os cidadãos por meio deles, participam do produto social, em todas as ordens, a fim de lhes ser possível o real exercício da sua liberdade, cuja afirmação é figura retórica, se desacompanhada dos meios mínimos para efetivá-la”.53
No Estado Social o direito de propriedade é profundamente modificado com o condicionamento de seu uso em prol do interesse coletivo. A função social da propriedade passou a constituir princípio das Constituições de cunho social e, em especial, cita-se a Lei Fundamental Alemã de 1919, conhecida como Constituição de
51 FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de. Propriedade e Meio Ambiente. São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais, 2008, p. 67
52BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 6ª Ed. São Paulo: Malheiros, 1996, p. 67 53 DOBROWOSKI, Sílvio In FARIAS, Paulo José Leite. Competência Federativa e Proteção Ambiental.
Weimar que foi a primeira a adotar a propriedade como direito subjetivo, devendo servir ao interesse da coletividade segundo “A propriedade obriga. Seu uso deve igualmente
ser um serviço ao bem comum”. 54 Nos termos da doutrina de Fábio Konder Comparato, a Constituição Alemã também inclui, no art. 15, uma norma de socialização da propriedade:
“O solo e as terras, as riquezas naturais e os meios de produção podem, com a finalidade de socialização, ser transformados em propriedade comum ou em outras formas de economia comunitária, por meio de lei que regulará a espécie e a extensão da expropriação”.55
Nestes sistemas jurídicos a proteção ao direito de propriedade só existe quando o proprietário cumpre o princípio da função social, ou seja, “O adjetivo social mostra que
esse objetivo corresponde ao interesse coletivo e não ao interesse próprio do dominus; o que não significa que não possa haver harmonização entre um e outro”. 56 Importante destacar que no campo jurídico o conceito de propriedade sofreu decisiva influência de
Leon Duguit, por meio da concepção da propriedade como função. Afirmou o ilustre mestre da França em 1912:
“Todo indivíduo tem a obrigação de cumprir na sociedade uma certa função na razão direta do lugar que nela ocupa. Ora, o detentor da riqueza, pelo próprio fato de deter a riqueza, pode cumprir uma certa missão que só ele pode cumprir: Somente ele pode aumentar a riqueza geral, assegurar a satisfação das necessidades gerais, fazendo valer o capital que detém. Está, em conseqüência, socialmente obrigado a cumprir esta missão e só será socialmente protegido se cumpri-la e na medida que o fizer. A propriedade não é mais um direito subjetivo do proprietário: é função social”.57
A função social agrega um importante elemento impositivo ao detentor da propriedade, o atendimento de interesses de outrem. Portanto, além de atender interesses individuais do proprietário deverá se conformar às necessidades da coletividade. Segundo Duguit:
54 COMPARATO, Fábio Konder. Estado, empresa e função social. São Paulo: Revista dos Tribunais, v.
85, nº 732, out. 1996, p. 41
55 Ibidem, p. 42
56 ROCHA, Sílvio Luís Ferreira. Função Social da Propriedade Pública. São Paulo: Malheiros Editores,
2005, p. 75
57 DUGUIT, Leon in PIRES, Lílian Regina Gabriel Moreira. Função Social da Propriedade Urbana e o
“de um lado o proprietário tem o dever e o poder de empregar a coisa que possui na satisfação das necessidades individuais e especialmente nas suas próprias, de empregar a coisa no desenvolvimento de sua atividade física, intelectual e moral. De outro lado, o proprietário tem o dever e, por conseguinte, o poder de empregar a sua coisa na satisfação de necessidades comuns, de uma coletividade nacional inteira ou de coletividades secundárias”.58
Segundo a doutrina59, Duguit sofreu forte influência de Comte, que em 1850 declarava que o “cidadão é um funcionário público com atribuições mais ou menos
definidas”, e que deve administrar o capital e prepará-lo para a geração seguinte.
A propriedade função, extraída das lições de Duguit, que pregava princípios de solidariedade social a serem cumpridos pelo proprietário, não sobreviveu nos sistemas jurídicos, mas sim aquela que concilia a propriedade privada a um dever de uso social. Todavia, é necessário destacar que na forma como foi concebida, a doutrina da propriedade função determinava e condicionava todo o direito em prol do interesse coletivo. Assim, caso houvesse se estabelecido o seu descumprimento, determinaria e fundamentaria a expropriação da propriedade sem qualquer direito à indenização.
Esta acepção foi tratada por Pietro Perlingieri, citada pela doutrina60 da seguinte maneira: “evidente diferença estrutural e política existente entre a propriedade que tem
função social e propriedade que é função social”. No primeiro caso haveria proteção ao direito subjetivo do proprietário, enquanto no segundo haveria atribuição da propriedade no exclusivo interesse público ou coletivo.
Na forma como vem determinado pelos textos constitucionais, o direito de propriedade é preservado, mas determina o cumprimento de uma função social, o que significa dizer que se reveste de um interesse geral, coletivo e, por conseguinte, social e de ordem pública. Segundo Adilson Abreu Dallari:
“(...) a única propriedade que merece proteção constitucional no Brasil, não é a ‘propriedade simples’; ao contrário é a ‘propriedade qualificada’, pela circunstância de estar servindo ao alcance dos interesses próprios de seu titular e também de utilidade social. (..) São traços do proprietário particular que, sem perder tal condição, assume as feições de um verdadeiro gestor de interesses públicos”.61
58 ROCHA, Sílvio Luís Ferreira. Função Social da Propriedade Pública. Malheiros Editores, 2005, 71. 59 FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de. Propriedade e Meio Ambiente. São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais, 2008, p. 84
60 Ibidem, p. 96
61 DALLARI, Adilson Abreu; FIGUEIREDO, Lúcia Valle Figueiredo apud MUKAI, Toshio. Direito
Eros Roberto Grau, também em defesa da propriedade-função social, aduz:
“Importa, nestas condições – a verificação de que a propriedade deve cumprir uma função social – não apenas o rompimento da concepção, tradicional, de que a sua garantia reside exclusivamente no direito natural, mas também a conclusão – que enuncio – de que, mais do que meros direitos residuais (parcelas daquele que em sua totalidade contemplava-se no utendi, fruendi et abutendi, na plena in re potestas) o que atualmente divisamos, nas formas de propriedade impregnadas pelo princípio, são verdadeiras propriedades-função social e não apenas, simplesmente, propriedades. As metamorfoses quantitativas se fazem completas e, no desenho marcado pela contemplação de limitações da propriedade – e não, meramente, de limitações ao exercício da propriedade – surgem novos institutos que não mais podem ser fidedignamente referidos como propriedades, mas que apenas encontram expressividade adequada quando indicados como propriedades-função social”.62