A aula de Filosofia, do professor Moésio, ocorreu em novembro de 2013, no 4º ano do curso de Automação, com a presença de 10 alunos. O professor havia pedido uma pesquisa prévia no final de semana anterior sobre Maquiavel e, nesta aula, iriam comentar as informações coletadas e desenvolver uma tarefa sobre o autor. A aula foi organizada em duas partes. De início, o professor fez a retomada das informações que os alunos deveriam ter pesquisado no final de semana, por meio de perguntas e foi fechando os conceitos com os alunos. Na segunda parte da aula, solicitou que se organizassem em grupos de 3 pessoas, como uma equipe que contivesse, pelo menos, uma pessoa com habilidade para desenhar. Depois passou 08 frases ou pensamentos do Maquiavel para serem escolhidas por eles para a produção de charge e cartum, e que fossem ressignificadas. Os alunos poderiam pesquisar no celular ou tablets as características dos gêneros de texto “cartum” ou “charge”. Os trabalhos foram entregues ao final da aula.
Excerto 21
Moésio: (...) Maquiavel é um mestre do mal ou um mestre da política? (questão controversa, pergunta fechada de expansão)
((alunos falam todos de uma vez))
Moésio: Pessoal, cada um por vez pra ficar registrado (exórdio). A G. (entrelaçamento de vozes) falou o quê? (pede clarificação)
Aluna 1: Falei que era da Política porque ele é meio bitolado, tipo assim, ele falava não importava o que você tinha que fazer pra chegar no seu objetivo (esclarecimento com réplica elaborada) tipo, podia pisar em quem você quisesse, mata todas as pessoas que quisessem se você atingisse o seu objetivo, não importa.
Moésio: Muito bem, para Maquiavel não importava o que fosse necessário fazer para chegar ao poder, mesmo que fosse necessário matar pra isso, é, então, justificável (síntese) né? Muito bem. A aluna T. (entrelaçamento das vozes) disse algo importante, o que é? (pedido de contra-argumentação)
Aluna 2: daí ele não importava usar a maldade, ele queria tudo bem, vamos ser bom, mas se precisar ser mau não tem problema que seja. (discorda de aluna 1 sobre a questão controversa)
Moésio: Não tem problema. (espelhamento da fala da aluna 2). Justamente porque o que mais precisa? O que o político, o Príncipe precisa mais: ser bom ou conquistar o poder? (pergunta semirretórica)
Aluna3: Conquistar.
Moésio: Conquistar o poder (espelhamento da fala do aluno). Vamos lá o G aí? (entrelaçamento das vozes)
Aluno 4: O Príncipe, ele tem alguns deveres, tem que pelo menos parecer ser algum político. (réplica elaborada à pergunta semirretórica)
Moésio: Exatamente! Exatamente, olha só!. Viu como foi boa a pesquisa pessoal?
Aluno 4: Vi que ele precisa pelo menos parecer ser bom, parecer humano, parecer ser fiel. (continuação da réplica)
Moésio: Olha só, vocês viram o que o G falou? Ouviu, F? (entrelaçamento das vozes) o Príncipe tem que pelo menos parecer ser bom, ser humano né? Ser justo, ser fiel. Tem que parecer ser, não tem que ser. E aí outro aluno, o que você me diz sobre Maquiavel? (pergunta de conteúdo)
Aluno5: Ah, gostei muito daquela parte lá que ele falou da raposa e do leão. É necessário que ele seja a raposa pelas estratégias e é necessário que ele seja leão para exercer o poder dele, sua força. (réplica elaborada com conceito e apreciativa)
Moésio: Ele tem que ser um leão pra ser forte e também tem que ser uma raposa pra ser esperta, não é assim? Muito bem? Ou seja, tem que ser tão flexível para dobrar em todas as direções, não é isso que Maquiavel disse? Não foi isso que vocês leram? (perguntas retóricas) Muito bem, e aí?
Aluno6: Ele tem 5 qualidades também.
Moésio: O que você disse? (pergunta retórica) Ah o Príncipe tem 5 qualidades? (pergunta retórica) Quais são? (pergunta de conteúdo)
Aluno4: Parecer ... mente, fiel, humano, religioso e sincero. Não é necessário possuir todos, mas é necessário parecer.
A aula anterior do professor Moésio (Excerto 10), embora fosse mais interativa e tivesse uma disposição em círculo, mais democrática em relação às dos demais professores, ainda tinha como organização discursiva a argumentação como discussão, de modo que os diferentes pontos de vista contribuíram para a formação de conceitos ou verdades coletivas (MATEUS, 2013). A divisão de papéis quanto ao conhecimento, mesmo num ambiente com abertura para o diálogo, tinha uma abordagem monológica (MAGALHÃES, 2011), pois todos os aforismos, depois de reproduzidos com as palavras dos alunos, eram validados com base no texto do filósofo Bacon.
Nesta segunda aula videogravada (Excerto 21), as articulações discursivas e as perguntas nas trocas dos turnos revelam uma ressignificação da organização metodológica da linguagem. O excerto refere-se a um momento de sistematização de conceitos, após uma pesquisa e posterior trabalho de produção de charge e cartum, por meio de trabalho com
tablets e celulares.
Primeiramente, o professor propõe uma questão controversa aos alunos “Maquiavel
é um mestre do mal ou um mestre da política?”. Como todos falaram ao mesmo tempo, o
exórdio do turno posterior, é um modo de retomar as regras de interação na aula e organizar a divisão de trabalho (ENGESTRÖM, 2008, 2009), de acordo com a qual todos perguntam, respondem, questionam, discordam. Para cada réplica elaborada dos alunos, o professor Moésio, por meio de entrelaçamento das vozes, realizava perguntas de esclarecimento ou espelhamento da fala dos alunos, de modo que não discordou de nenhuma das intervenções dos alunos, mas solicitou que a aluna colocasse sua posição distinta em “A aluna T. disse
algo importante, o que é?”. Esse modo de organização discursiva aproxima-se mais de uma argumentação colaborativa e crítica, baseada no diálogo, pois múltiplos pontos de vista trabalham a favor de uma compreensão compartilhada (MATEUS, 2013), com a preservação da contradição entre os interactantes.
É interessante notar que esta aula ocorreu no final do ano letivo e o professor Moésio estava trabalhando com essas turmas desde o início de 2013, sendo que, como dito antes, ele nunca tinha lecionado para o Ensino Médio, somente Ensino Superior. Ao decidir participar deste projeto, mostrou-se aberto ao diálogo e assumiu compromisso coletivo, com esta formadora e com os demais professores, de ressignificar suas práticas de leitura, de modo colaborativo. Participar deste projeto, sem experiência com este segmento, de fato, possibilitou a criação de ZPDs, compreendidas como processos de criação de novas trilhas (MAGALHÃES, 2009). Quanto às práticas de leitura, houve um movimento, motivado pelos tipos de pergunta, entrelaçamento das vozes e a produção de cartum e tiras, de construir o sentido na interação, mantendo o conceito em aberto, de modo a assumir uma abordagem mais dialógica.
A seguir discuto a segunda aula do professor Mário