Sobrevivência é um impulso de vida partilhado por todos os organismos vivos. A manutenção de seus ciclos e a tendência à multiplicação são características que compõem o esforço por sobreviver. Os projetos de ensino de fotografi a são, em parte, organismos vivos, se não no sentido biológico, com certeza sim na macroestrutura. Dessa forma, também incorporam em sua lógica operatória a diretriz catalizadora da sobrevivência, multiplicação e continuidade.
Se nos organismos biológicos sobreviver está relacionado à capacidade de alimentar-se de fl uídos e nutrientes, nos projetos de ensino de fotografi a esse processo se dá pelo estabelecimento de parcerias, visibilidade e aporte de recursos. Adaptações fundamentais para sua continuidade. Não há crítica nesse comentário, pois a sociedade contemporânea é baseada na circulação de bens e serviços, e seria impossível para as propostas se manterem sem adaptações que provessem a materialidade básica para sua execução.
A mais comum das adaptações nos projetos acontecerem é a tendência comum de sua formalização. Os outros organismos que se relacionam com as iniciativas de ensino de fotografi a, tais como
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possíveis patrocinadores ou parceiros, sejam eles privados ou públicos, invariavelmente exigem que as propostas tenham algum grau de constituição formal. Por exemplo, não é possível conseguir recursos via leis de incentivo sem a organização e registro do projeto, bem como nenhum patrocinador provê recursos sem a garantia de algum tipo de retorno que seja harmônico com seus interesses.
Falar em interesses quase sempre causa um sobressalto - sempre se espera que os interesses de uns sejam privilegiados em detrimento dos interesses de outros. Não necessariamente. Os apoiadores podem ver nos projetos ações que sejam consoantes com sua agenda, ocorrendo uma simbiose. Em todas as iniciativas mapeadas no trabalho, existe algum grau dessa qualidade de relação, proporcionada por interesses e mutualmente benéfi ca. Por exemplo, na ocasião de surgimento do projeto Imagens do Povo, Ripper foi apoiado pelo Observatório de Favelas porque a instituição comungou dos princípios do projeto, indo ao encontro de suas ações. No caso do projeto Olhar Coletivo, a própria estrutura organizacional que articulou a iniciativa veio do fato desta ser, no início, ancorada como uma ofi cina no âmbito do Projeto Escola Integrada (PEI). E ainda no projeto Agnitio, a própria iniciativa surgiu a partir de um convite que transpõe um determinado tipo de experiência com a fotografi a para o contexto de ensino e aprendizagem.
Existe, não obstante, o outro lado, que deve ser problematizado. Por mais que seja mutual a relação estabelecida entre a origem dos recursos que viabilizam as propostas e a lógica interna das iniciativas, existe algo que caracteriza esse processo, que, afi nal, é uma troca. A viabilização de recursos, materiais e estrutura demanda algum tipo de retorno, mensurável, que eventualmente é usado, nos projetos, fora de seu contexto de origem, para atender aos interesses dos fomentadores. A imagem fotográfi ca parece em especial predisposta a ser transmigrada para compor discursos. Por exemplo, quando a as imagens feitas nos projetos são circuladas em exposições de fotografi a que envolvem mídia jornalística, existe um bônus sob a forma de visibilidade, que é capitalizado por quem injetou os recursos, em primeiro lugar.
Em que medida esse possível destino público das imagens infl uencia o ensino de fotografi a e o processo de criação dos fotógrafos? É necessário
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que todos os envolvidos, em especial aqueles que produzem as imagens, estejam atentos às vicissitudes que podem advir dessas apropriações. De todas as formas expressivas da imagem se confi gurar, a fotografi a tem, talvez, a maior fl exibilidade para ser apropriada.
É muito perverso quando o sistema tem argumentos subjacentes, ideologias que nem sempre aparecem. Ao estudar as teorias e os projetos, é possível perceber a infi ltração dessas ideologias que geram contradições conceituais, por exemplo, no Agnitio. Toda a origem do projeto está atrelada à funcionalização da imagem como forma de atingir outros objetivos que não o ensino e desenvolvimento da expressão fotográfi ca, ainda que internamente seja este o intuito dos seus idealizadores, implicando um cotidiano de atividades que estimulem fotografi as expressivas. Esse processo ocorre como decorrência da conformação sistêmica que os projetos se sujeitam como estratégia da comentada sobrevivência.
A fotografi a, quando exposta e capitalizada ideologicamente para atender interesses distintos, acaba se simbolizando, transformada em um semióforo e perdendo um pouco a capacidade de ser imaginada de maneira propositiva. Qual relação estabelecem essas fotografi as- objetos, que interpõe uma conformação dos fl uxos de vida aos sujeitos que as veem descoladas de sua origem? Parece que boa parte de sua expressividade acontece no fenômeno de fotografar, nas relações estabelecidas entre o fotógrafo e o fotografado (independentemente de ser objeto ou pessoa) e na relação de ensino-aprendizagem de fotografi a no chão da ofi cina.
A foto da beleza na favela, a imagem da violência escancarada e a alegria do humilde- todas essas imagens podem se converter em semióforos (a foto vencedora do concurso, o fotógrafo-artista talentoso, a exposição dos excluídos) e então, se perderem. Como organizadas em um cemitério, onde nas lápides está escrito o que signifi cam, objetivamente, elas abandonam a sua potência imaginativa. Somente os vencedores de lutas, guerras e das histórias em geral tem direito a um túmulo identifi cado. E a procissão de lápides-imagens, conta uma história, que quase sempre é a história do vencedor.