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Hemşin Horonlarında Uyarı ve Komutlar

3. HORON KAVRAM

3.3. Hemşin Horonlarında Uyarı ve Komutlar

As novas configurações comunitárias que surgiram no Brasil a partir do assembleianismo contribuiriam para uma biotência do coletivo, onde o poder da vida emergia das experiências, êxtase, ascetismo, cânticos, músicas, testemunhos, culto nos lares e mediante outras formas de associação e empoderamento da comunidade. Acreditamos que nesses espaços pentecostais - e nos referimos de maneira mais direta ao período 1930-1945 de nossa pesquisa -, não se pensou em biopolítica como ferramenta de garantia da dignidade humana. Pudemos perceber isso ao analisarmos os artigos do jornal Mensageiro da Paz. Aderir ao pentecostalismo era um convite a novos sentidos para a vida. Portanto, eram corpos excluídos em busca de dignidade. Quanto a essa biopotência em grupos marginalizados Negri afirma:

A lado do poder, há sempre a potência. Ao lado da dominação, há sempre a insubordinação. E trata-se de cavar, de continuar a cavar, a partir do ponto mais baixo: este ponto é simplesmente lá onde as pessoas sofrem, ali onde elas são mais pobres e mais exploradas; ali onde as linguagens e o sentidos estão separados de qualquer poder de ação e onde, no entanto, ele existe; pois tudo isso é a vida e não a morte (NEGRI, 2001, p. 45).

Nas democracias modernas, o corpo é um sujeito político, de modo que ele ganhou centralidade nesse novo contexto político-jurídico. Dessa forma, quando falamos em direitos humanos, eles estão subordinados ao Estado. A própria expressão direitos já remete para a dimensão de aparatos legais que normatizam políticas sobre a vida humana. Agamben tece críticas à judicialização da dignidade humana a partir das declarações de direitos:

Mas é chegado o momento de cessar de ver as declarações de direitos como proclamações gratuitas de valores eternos metajurídicos, que tendem (na verdade sem muito sucesso) vincular o legislador ao respeito pelos princípios éticos eternos, para então considerá-las de acordo com aquela que é a sua função histórica real na formação do moderno Estado-nação (AGAMBEN, 2012a, p. 124).

Como já discutimos anteriormente, Agamben parece não criticar a ideia de direitos humanos, mas parece ver certos excessos em atribuir ao Estado a preservação e a decisão sobre os corpos. Assim como Foucault, Agamben também acredita que as declarações dos direitos representaram a transição da soberania de ordem divina para a soberania nacional; a vida nua ao nascer, passa a ser um cidadão e por conta disso está sujeita ao biopoder.

Boaventura de Souza Santos discutiu a tensão dialética entre o Estado e a sociedade civil, que seria resultado de disputas de grupos hegemônicos que controlam o Estado e os demais processos sociais. Para o pesquisador português “a tensão deixa, assim, de ser entre Estado e sociedade civil para ser entre interesses de grupos sociais que se reproduzem melhor sob a forma de Estado e interesses e grupos sociais que se reproduzem melhor na sociedade civil” (SANTOS, B., 2006, p. 435). Há situações em que o próprio Estado infringe princípios da dignidade humana. Um exemplo: os milhares de jovens negros e pobres que são mortos pela polícia, instituição que tem a função de ser um aparelho disciplinador dos governos. Essas tensões e conflitos geram uma série de dificuldades em políticas sobre direitos humanos, pois nem sempre há correspondência entre os interesses do Estado e a vida que pulsa na sociedade civil.

Os diversos grupos e movimentos sociais que resistem às políticas hegemônicas e imperialistas na sua relação com o discurso dos direitos humanos foram denominados por Boaventura de Souza Santos como globalização contra-hegemônica. Já Antônio Negri e Michael Hardt (2001) falaram sobre a Democracia da Multidão como forma de resistência ao biopoder e ao império. A referida contestação acontece a partir da biopotência e não mediante os aparelhos e dispositivos de poder do Estado. Essas vidas e corpos pedem dignidade humana a partir da criatividade, coletividade e novas formas de cooperação.

Portanto, questionamos a ideia de apoliticismo pentecostal nas primeiras décadas. Constituída que era na sua maioria de pessoas subalternas elas encontram nesses espaços marginalizados maneiras de resistir e não aceitar projetos de humilhação e exclusão social. Quando a referida denominação pentecostal percebeu que tinha força para exercer ação política para além do biopotência suas lideranças começaram a ingressar na política partidária. Entretanto, ainda havia aqueles que preferiram biopotência à biopolítica. O próprio jornal

Mensageiro da Paz, em pleno ano de movimentação das lideranças assembleianas para a

Assembleia Nacional Constituinte, publicou a carta de um leitor que alertava:

Sabemos que até agora a igreja vai indo bem. Um tanto reservada no que tange à política. Não devemos pensar que será, necessariamente, uma benção termos representantes junto ao governo. A igreja que se envolveu com política, tornou-se rica e poderosa, mas corrupta (MP, n. 10, p. 4, 1985).

Houve e ainda há vozes dissonantes nas Assembleias de Deus quando se trata de apoio às lideranças pentecostais que entram para a política partidária. Essa é apenas uma das indicações de que não existe homogeneidade tanto no discurso como em práticas políticas no interior do pentecostalismo. A atuação da congressista Benedita da Silva na Assembleia Nacional Constituinte, por exemplo, destoou da atuação de outras lideranças pentecostais do mesmo período. Apesar da heterogeneidade e de vozes dissonantes, percebe-se que esse processo deu empoderamento aos pentecostais. O grupo que há décadas foi marginalizado se viu representado em instâncias de poder. Mas, quais foram as implicações da ascensão e representatividade política de atores pentecostais?