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Atma Türkülerde Mısra, Kafiye ve Dil Özellikler

4. HEMŞİN HORONLARINDA ATMA TÜRKÜLER

4.1. Atma Türkü Nedir?

4.1.4. Atma Türkülerde Mısra, Kafiye ve Dil Özellikler

Conforme já discutimos em capítulos anteriores, no final da década de 1970 foram lançadas as bases de um projeto político de caráter mais denominacional das ADs. Vimos que naquele período o jornal Mensageiro da Paz dedicou vários artigos a respeito da necessidade de se acompanhar as discussões políticas do país. Também descrevemos e analisamos o aumento significativo de parlamentares assembleianos no Congresso Nacional Constituinte. A editoria do jornal Mensageiro da Paz afirmou:

Nossa igreja tem suficiente potencial para colocar um representante em cada Estado do parlamento. O compromisso da igreja, nesse caso, não pressupõe um envolvimento político-partidário, pois a nossa segurança está em Deus, mas representa um esforço da igreja manifestar sua benéfica influência nas mais altas esferas da vida pública (MP, n. 8, p. 1, 1985).

A ascensão de políticos das Assembleias de Deus no Brasil difere da ascensão de políticos das Assembleias de Deus nos Estados Unidos. A AD estadunidense, ao contrário da brasileira é, historicamente, branca e mais elitizada. Logo, não podemos falar que esse assembleianismo foi potencializado a partir das margens. Quando lançaram candidaturas suas pautas políticas no Congresso norte-americano tiveram como eixo central questões morais e conservadoras. Conforme analisamos no capítulo anterior, a agenda de congressistas assembleianos também esteve relacionada com questões morais e conservadoras, mas há diferenças em relação às ADs estadunidenses.

Parte considerável de assembleianos eleitos no Congresso Nacional Constituinte na década de 1980 era oriunda das margens. A Benedita da Silva é um exemplo disso. Outra diferença entre essas ADs é que na estadunidense não havia a preocupação com a influência da Igreja Católica, ao contrário das ADs no Brasil que tinham como projeto deter a hegemonia do catolicismo na relação Estado e religião. Era como se eles pensassem assim: “Estamos há décadas invisibilizados e nas margens, mas já temos condições de ir para centro”. Esse processo aumentou os anseios de visibilidade pública do pentecostalismo.

Destacamos quatro características políticas do assembleianismo do período 1978-1988: i) projeto de maior visibilidade pública; ii) questionamento da hegemonia católica no espaço público; iii) enquadramento na dimensão biopolítica do Estado e iv) representatividade política como empoderamento de grupo marginalizado. É um pentecostalismo que deseja sair das margens.

Terá esse pentecostalismo que chega ao centro o mesmo potencial de transformação se comparado com aquele que nasceu e se desenvolveu nas margens? A resposta para essa pergunta demandaria outras pesquisas. Todavia, pensamos que o assembleianismo que esteve circunscrito em dimensões de biopotência28 no período 1930-1945 fez daquele pentecostalismo

um polo de resistência, crítica e, sobretudo, de estabelecimento de novas formas de cooperação e sociabilidade. Por isso, defendemos a tese de que desde as primeiras décadas há posição e ação política nas Assembleias de Deus no Brasil e assim questionamos ao longo do texto a ideia do apoliticismo.

6.5 CONCLUSÃO

Desde suas origens há um núcleo político no pentecostalismo. As narrativas políticas circularam a partir de suas crenças e práticas. No que diz respeito às ADs no período 1930-1945 as referidas narrativas políticas foram configuradas a partir da biopotência. Foi nos espaços subalternos pentecostais que homens e mulheres performatizaram seus corpos a fim resistir e criticar posturas hegemônicas e excludentes. Para isso, a doutrina escatológica teve papel

28 Isso não significa que depois de 1945 não houve dimensões de biopotência no pentecostalismo. Pelo contrário.

Os pentecostalismos ainda são majoritariamente a religião de subalternos. Entretanto, fizemos a afirmação acima em razão do recorte histórico da pesquisa. Acreditamos que no período de 1978-1988, a atuação de parlamentares assembleianos esteve relacionada mais com a biopolítica do que com a biopotência.

importante. Através dela, pode-se questionar um tipo de mundo e isso incluiu modelos de Estado, políticos e propostas imperiais. Neste mesmo contexto, a pneumatologia também ganhou força nos espaços marginais. Além de ter criticado a razão hegemônica e colonial, o

pneuma soprou nos corpos e os integrou num sistema de cooperação menos excludente e pouco

hierarquizado. Mulheres, homens, adultos, jovens e crianças, todas e todos podiam falar. Nessa democracia da fala incluiu-se o corpo em sua dimensão extática. Desse modo, pessoas que eram invisibilizadas romperam processos de silenciamento no assembleianismo. Essa democracia da multidão, como definiu Negri desencadeou processos de biopotência, que foram vividos para além das instâncias de poder do Estado.

No período 1978-1988 vimos que setores do assembleianismo desejavam visibilidade pública; queriam sair das margens. Sendo assim, nossas análises sobre Assembleias de Deus e política devem levar em consideração o que a eleição de candidatas e candidatos pentecostais representou para aquela igreja. Mesmo se o apoio a essas candidaturas não tiver sido um discurso homogêneo nas ADs, esse processo teve relação com empoderamento da comunidade pentecostal. Entretanto, em certas expressões político-pentecostais a biopotência parece ter dado lugar à biopolítica. Desse modo, o poder sobre a vida passou a rivalizar com o poder da

vida. Esse processo é favorecido pelo próprio modelo de Estado na modernidade, onde a vida

como espécie entrou nos cálculos e políticas governamentais.

Há, portanto duas dimensões no assembleianismo onde se dão as práticas políticas: a biopotência e a biopolítica. No que diz respeito à biopotência: i) é potencializada nas margens; ii) a pneumatologia e escatologia têm papel importante; iii) tem como ponto fundamental o poder da vida. Já a biopolítica: i) se dá nas instâncias de poder; ii) tem na teologia pastoral seu paradigma principal; iii) tem como objetivo primordial o poder sobre a vida. Estamos inclinados a pensar que na biopotência o pentecostalismo é política e na biopolítica são estabelecidas as relações entre pentecostalismo e política.

Pentecostalismo é política. Por isso, questionamos a narrativa do apoliticismo pentecostal. Desde suas origens no Brasil os corpos pentecostais se movimentam a partir de fluxos de contestação e crítica a modelos sociais e culturais. Os artigos do jornal Mensageiro

da Paz, órgão oficial das Assembleias de Deus no Brasil, que foram analisados contribuíram

para fundamentação de nossa tese. Os critérios adotados para a escolha dos referidos artigos foram aqueles que abordaram de maneira direta ou indireta dimensões do chronos, do aiôn e do kairos. Os autores das matérias foram em sua maioria pessoas de destaque na denominação pentecostal. Mesmo aqueles artigos que estiveram relacionados com a escatologia foram formas de manifestar descontentamento. A escatologia em terras brasileiras que estivera relacionada com as crenças do milenarismo representaram empoderamento discursivo no qual se pôde manifestar descontentamento com um tipo de mundo.

Acreditamos que podemos denominar de protopentecostalismos expressões da religiosidade popular católica presentes no Brasil no final do século XIX e início do século XX. Em nossa pesquisa demos destaque aos movimentos sociorreligiosos de Canudos, Contestado e de Juazeiro do Norte. Muitas brasileiras e muitos brasileiros que se converteram ao pentecostalismo tiveram experiências religiosas com esses grupos. Desse modo, pensamos que eles exerceram influência sobre mentalidades assembleianas. A referida influência é consideravelmente maior se comparada com aquelas oriundas do conhecidomovimento da Rua Azusa. A religiosidade popular, principalmente aquela de matriz católica, deixou suas marcas naquele pentecostalismo que nascia no Brasil na primeira metade do século XX. Mesmo que não tenhamos tido como objetivo comparar a religiosidade popular católica com o assembleianismo brasileiro no primeiro capítulo vimos queambos tiveram características muito comuns.

O Brasil desse primeiro período estudado (1930 - 1945) ainda era caracterizado por processos de exclusão e marginalização das classes mais pobres e foram elas que fizeram opção pelo pentecostalismo. Os primeiros missionários suecos que vieram para o Brasil para fundar ADs também eram originados de situações de marginalização social em seu país. As ADs estiveram presentes tanto nas metrópoles como na zona rural brasileira e esse fato propiciou um assembleianismo de mentalidade urbana e outro de mentalidade rural. Também discutimos a possibilidade de falar de uma concepção escatológica a partir de uma mentalidade rural e outra concepção escatológica a partir de uma mentalidade urbana. Ambas podem ser caracterizadas por certa insatisfação com a situação presente.

Negros, pobres e mulheres foram os grupos que predominaram no pentecostalismo do período 1930 a 1945. Essa foi também uma época de significativas transformações na conjuntura nacional e internacional. Houve a ascensão de impérios e novos regimes políticos. A partir de nossas análises dos artigos do jornal Mensageiro da Paz constatamos que assembleianos se posicionaram em relação a esse momento político. Governos, modelos de Estado e impérios foram criticados e por isso questionamos a ideia do apoliticismo pentecostal. Para ajudar nossa fundamentação dialogamos com as temporalidades conforme pensadas por Giorgio Agamben: chronos, aiôn e kairos. O chronos foi discutido a partir do tempo profano que guarda relações com a história. Já o aiôn esteve relacionado com o fim dos tempos, enquanto que o kairos, tempo do fim ou o tempo que nos resta. Agamben retoma Walter Benjamim e relaciona o kairos com o tempo messiânico.

Os artigos que analisamos no jornal Mensageiro da Paz do período 1930-1945 que se enquadram na dimensão do chronos nos mostraram um pentecostalismo crítico à visão progressista da história. Mais do que uma visão pessimista, tinha-se uma concepção de que projetos políticos de Estado eram incapazes de promover justiça e equidade de maneira plena. A partir disso, escritores do jornal podiam criticar e até mesmo ridicularizar propostas políticas. Nesse período vimos também heterogeneidade política no assembleianismo. Assim como houve artigos com críticas à política e a políticos, encontramos também aqueles que incentivavam a submissão a certas autoridades políticas, como foi o caso do presidente Getúlio Vargas. Desse modo, ao analisarmos posição e ação política das Assembleias de Deus faz-se necessário levar em consideração a referida heterogeneidade.

Nesse primeiro período há também considerável número de artigos no jornal

Mensageiro da Paz relacionados à escatologia. Se o discurso sobre o céu é também uma fala

sobre a terra, o aiôn pentecostal foi uma narrativa concebida a partir da vida concreta. Não relacionamos escatologia com propostas de alienação ou desvinculação dos processos sociais. Ao longo de nossa pesquisa questionamos a ideia de que a escatologia por si só explica os motivos pelos quais assembleianos não tiveram uma presença maior na esfera pública. Acredita-se que escatologia não foi a causa de certo afastamento, mas sim efeito de processos de exclusão e marginalização nos quais os pentecostais estavam inseridos. É no mínimo temeroso vincular apoliticismo com escatologia. As narrativas escatológicas foram empoderamento discursivo para questionar e criticar modelos de sociedade e de Estado. O céu enquanto lugar de equidade serviu como paradigma para se manifestar descontentamento a esses modelos terrenos. Além disso, vimos ao longo da pesquisa que embora o discurso

escatológico fosse narrativa presente nas mentalidades pentecostais, isso não impediu o surgimento de lideranças e posições políticas no assembleianismo brasileiro.

O kairos, interpretado aqui como o tempo que nos resta, foi analisado a partir das expressões de êxtase e de certas formas de ascetismo do assembleianismo brasileiro. Sabe-se que o pentecostalismo tem no corpo a sua centralidade; logo, a expressão corporal também assume dimensão política. Os artigos do jornal Mensageiro da Paz do período também apresentaram discussões sobre a temática do êxtase. Através dele, homens e mulheres excluídos tiveram a oportunidade de romper processos de silenciamento e invisibilidade social. O êxtase não pode ser compreendido apenas como uma experiência individual e subjetiva. Ele está ligado a outros campos semânticos, dialoga com aspectos sociais. Desse modo, acredita-se que essas experiências de êxtase foram também empoderamento discursivo de subalternos. O ascetismo também pode ter dimensões críticas e até mesmo revolucionárias. O não fazer, e até mesmo a deserção é uma posição política. Acredita-se que em certas formas de ascetismo pentecostais demostraram descontentamento a modelos sociais, políticos e culturais.

O objetivo de nossa tese foi analisar a posição e ação política das Assembleias de Deus nos períodos 1930-1945 e 1978-1988. Entretanto, desde o início não queríamos deixar os anos de 1946-1977 no vácuo. Pensando nisso, denominamos esses anos de período intermediário ou de transição. Nele há importantes acontecimentos da história política brasileira. Uma delas é que o país viveu uma relativa democracia entre os anos de 1946 e 1964. Depois da ditatura comandada por Getúlio Vargas os partidos políticos voltaram a funcionar. A relativa democracia foi interrompida de maneira definitiva em 1964 quando aconteceu o Golpe Militar. Os anos que se seguiram foram caracterizados pela ditadura dos militares e também por lutas de grupos e pessoas que desejavam a volta da democracia.

Os últimos anos da década de 1940 também foram caracterizados pelo fortalecimento do papel de missionários norte-americanos no assembleianismo brasileiro, tendo em vista que os suecos deixavam de liderar as principais igrejas. Estes missionários atuaram principalmente na educação teológica, comunicação e literatura. Entretanto, os que mais se destacaram nesse período foram lideranças assembleianas brasileiras. Temos a primeira ocorrência de assembleianos na política partidária. Esse processo foi importante, pois a possibilidade de eleger membros da comunidade pentecostal a cargos públicos dava empoderamento ao grupo que ainda era marginalizado. Estabeleceu-se, então, uma relação entre religião e cidadania.

Um dos principais nomes desse período foi o pastor Antônio Torres Galvão. De origem operária, Galvão se tornou um dos principais líderes sindicais no Nordeste brasileiro até chegar ao posto de governador de Pernambuco, eleito pelo Partido Social Democrático. Também vimos

as relações e proximidades do pastor Paulo Leivas Macalão com lideranças políticas nacionalistas. Outro importante nome desse período foi Manoel da Conceição Santos. Seu lema “minha perna, minha classe”, uma vez que ele perdeu a perna decorrente dos processos de tortura, ilustra bem as lutas e perseguição à qual foi submetido por uma sociedade mais justa e igualitária.

No segundo período de nossa pesquisa - 1978-1988 - analisamos novas configurações da posição e ação política das Assembleias de Deus no Brasil. No que diz respeito às relações entre religião e Estado, a Igreja Católica dominava essa relação entre os grupos religiosos do Brasil. Desse modo, a entrada de grupos evangélicos na política e, de modo especial, a de pentecostais, representou o questionamento da hegemonia da Igreja Católica em questões de política. Embora desde fins da década de 1940 tenha havido assembleianos envolvidos em política partidária, acreditamos que foi em fins da década de 1970 que foram lançadas as bases de um projeto político de caráter mais corporativista nas Assembleias de Deus. Nomes como do pastor Joanyr de Oliveira foram importantes nesse processo. Mesmo antes do lançamento do livro do pastor Josué Sylvestre Irmão vota em irmão, o pastor Joanyr de Oliveira escreveu

no jornal Mensageiro da Paz sobre a importância de assembleianos na política partidária. Foi no período da reconstitucionalização do Brasil que as lideranças pentecostais se movimentaram no sentido de eleger representantes ao Congresso Nacional Constituinte de 1986. Na ocasião, um expressivo número de candidatos que pertenciam às Assembleias de Deus foi eleito. No período o jornal Mensageiro da Paz circulou um expressivo número de artigos sobre evangélicos e política. Entretanto, mais uma vez se percebeu a heterogeneidade política de assembleianos. Houve vozes favoráveis e outras contrárias a esse novo momento das Assembleias de Deus, tudo isso publicado no jornal Mensageiro da Paz. Além disso, houve parlamentares de pertença pentecostal com ideias conservadoras e outras e outros com mentalidade progressista. Na década de 1980 já era expressivo o número de pentecostais no Brasil, mas a maioria ainda estava circunscrita em processos de invisibilidade e silenciamento social. Ter tantos deputados eleitos poderia significar anseios de visibilidade pública das Assembleias de Deus. Mais uma vez a comunidade pentecostal que contribuía para a eleição de candidatos assembleianos sentia-se empoderada. Fizemos essa análise a partir da categoria de

chronos conforme pensada por Agamben.

No que diz respeito aos discursos escatológicos eles continuaram nesse período; ainda havia anseios pelo abreviamento do tempo e pela chegada de um mundo pleno de justiça e equidade. Entretanto, aqueles que foram publicados no jornal no período 1978-1988 parecem ter sido reconfigurados a partir do contexto do mundo bipolarizado: Estados Unidos versus

União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O considerável número de artigos que analisamos vinculou a URSS com o Anticristo. Nossas análises do kairos aplicadas à posição e ação política das Assembleias de Deus estiveram centradas na Assembleia Nacional Constituinte, que resultou na Constituição de 1988. O texto constitucional teve como uma de suas marcas principais o fortalecimento da biopolítica, de modo que caberia ao Estado o controle e cuidado da vida a partir da noção de políticas públicas. A partir de Michel Foucault e o próprio Agamben, discutimos a fundamentação teológica do Estado moderno, que teria na teologia pastoral um de seus principais paradigmas. Desse modo, um Estado biopolítico contribuiria para um tipo de atuação evangélica na política partidária e, principalmente, pentecostal que tem no corpo sua centralidade.

Como alternativa à biopolítica, analisamos a força da biopotência do pentecostalismo na sua versão fora das instâncias públicas e oficiais de poder. A biopotência que é o poder da vida foi vivenciada por corpos, espaços e saberes subalternos no interior de práticas pentecostais. Doutrinas como a escatologia e a pneumatologia foram potencializadoras da biopotência das margens. Ali foram criadas novas formas de cooperação e sociabilidade que rompessem processos de invisibilidade e silenciamento social. Entendido assim, o pentecostalismo vivido nas margens foi um polo que ofereceu dignidade humana. Por isso, acreditamos que desde 1930, que é o começo de nossa análise, há posição e ação política nas Assembleias de Deus.

BIBLIOGRAFIA PRIMÁRIA: DOCUMENTOS DA DENOMINAÇÃO

Jornal

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