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4. BULGULAR 1 Tanju Özelgin

4.7. Hatice Armağan

As atuais formas de vida da sociedade angolana têm sua origem no passado. A Igreja que se desenvolveu nela foi influenciada pela cultura ocidental trazida pelos missionários, europeus e pela cultura local. A natureza da Igreja atualmente é compreendida pelas suas raízes que continuam conservadas. O espaço social e geográfico em que a Igreja Evangélica Congregacional foi implantada, exerceram papel preponderante na adaptação e desenvolvimento da mesma ao longo da sua história. Toda e qualquer cultura é constituída principalmente por língua, costumes, técnicas e valores; é relevante frisar que as dimensões apontadas contribuíram de forma significativa na vida das igrejas em Angola444.

Ao longo da história, as sociedades angolanas foram degradadas pela captura de seus parentes submetidos à escravidão e trabalho forçado aos setores de economia agrária e mineradora, para centros urbanos e a fuga de alguns em virtude da perseguição colonial, que contribuíram negativamente para a formação das mulheres. Tal situação sacrificava as mulheres, a quem competia o cuidado dos velhos e das crianças e sua manutenção além dos seus habituais papéis.

A invasão européia e a colonização interferiram na formação tradicional das mulheres, proibindo a transmissão de conhecimentos, técnicas e valores na perspectiva da cultura do povo angolano. Foi desestruturado o processo de formação nas escolas tradicionais, nos onjango e ociwo, onde se aprendia internalizar o amor, a solidariedade e do respeito pelo ser humano incluindo os mortos. As igrejas também contribuíram no processo da desestruturação da formação tradicional.

Hoje em Angola, existe a necessidade de resgatar valores culturais e as igrejas devem promover programas de socialização de tais valores para que os membros possam contribuir no processo da reconciliação, consolidação da paz e reconstrução do país. Valores culturais também enriquecem a religiosidade dos membros na sua totalidade assim como a liturgia. Segundo sublinha Casiano Floristan, a fé se expressa em determinadas categorias culturais e quando não se corresponde com os destinatários da evangelização, há

problema. É necessário inculturar a fé, para que o evangelho penetre na cultura, fazendo assim parte integrante da vida das pessoas e completando a conversão445.

Quanto a relações de gênero, constatou-se que as mulheres são inferiorizadas, precisam ser ajudadas no processo da luta pela igualdade e libertação. Muitos advogam que a mulher africana não precisa de se libertar em virtude desta ser respeitada pelos homens e estar em vantagens em relação às mulheres nas sociedades ocidentais e orientais. Mas, a realidade é de sistema patriarcal que a maioria das mulheres africanas vivem, por isso, requer esforços conjuntos nas famílias, comunidades e sociedades. Pensamos que as igrejas devem e podem ajudar as mulheres para a promoção do equilíbrio de gênero. Resgatando o respeito e valorização como ser humano ao invés de ser respeitada somente enquanto mãe, educadora e provedora.

As mulheres, na Igreja Evangélica Congregacional em Angola, têm preocupação com a sua formação na Igreja e refletem sobre a mesma formação e sua contribuição. Nas suas reflexões tem feito referência a formação pastoral nas instituições educacionais da Igreja no período de 1965 a 1975. No documento intitulado “Retrospectivo da Formação Feminina”, as mulheres em Huambo revelam dificuldades que impediram o acesso às escolas de formação. Apontam dificuldades econômicas e culturais446. Na avaliação delas, perceberam que a formação pastoral das mulheres a partir da base, que é a aldeia, a participação era de 90%, no centro 50% conseguiam avançar. Do centro para a estação missionária, prosseguiram com os estudos aproximadamente 15%. Da estação missionária para a Escola Means, a estimativa era de 2%. Isto em geral, porém havia aldeias que não conseguiam enviar ninguém para a Escola Means.447

O problema de ordem econômica impediu muitas famílias de enviarem suas filhas para a formação elevada. Ligado a cultura insinuava as mulheres que não deviam ir para a escola formar-se para cuidar da casa, cuidar dos filhos, trabalhar no campo, gerar filhos para a sociedade, enquanto os homens se dedicam ao comércio; que as mulheres não eram capazes de aprender o que os missionários tinham a transmitir; que era perda de tempo enviar as mulheres para a Escola, devido a sua condição de futura esposa. Por isso, era inútil investir na formação das mulheres. Temia-se que uma vez as mulheres formadas, seriam iguais aos homens.

445FLORISTAN, Casiano; TAMAYO, Juan José. ESTELLA Navarra Espana, Editorial Verbo Divino, 1988,

p.138.

446 Sociedade de Senhoras da IECA. Retrospectiva da Formação Feminina. Huambo Angola, brochura

miniografada, Novembro de 2003, p.3.

No período de implantação da Igreja Congregacional verificaram-se barreiras de caráter social e de caráter religioso com relação à educação na escola fundada pelos missionários. Assim, Tarcisio Pedro Chokombongue, na sua dissertação de mestrado, aponta barreiras que não só impediam as mulheres, mas também os homens. Ele afirma que a chegada dos missionários protestantes em Angola coincidiu com o ápice do comércio da borracha e do marfim, e por isso, todos os adultos e jovens em condições físicas de fazer longas caminhadas e carregar peso, estavam envolvidos em negócio comercial. Outro fator impeditivo era o da instabilidade político militar; outro fator estava ligado à superstição448.

A preocupação da Igreja, para com a elevação do nível acadêmico e pastoral das mulheres constituíram a base principal da criação das escolas nos centros, nas missões e a criação da Escola Means. Segundo o relatório da Igreja de 1967, diz que a formação pastoral das mulheres tem como alvo principal estabelecer lares cristãos através de programas de educação cristã das mulheres e moças para que sejam boas donas de casa e úteis à igreja e à comunidade, visto que, nenhuma sociedade ou país pode progredir se as mães forem totalmente analfabetas449. Em segundo lugar, a colocação de Lawrence W. Henderson que diz que os rapazes formados procuravamraparigas que tivessem alguma preparação para orientar uma casa e para ser boas companheiras, o que tenha levado igrejas protestantes450.

As mulheres reconhecem a formação pastoral dada pela Igreja assim como a contribuição delas no desenvolvimento da Igreja e sociedade. Pois, as igrejas muito fizeram para a educação e formação dos angolanos e angolanos por intermédio de seus modelos pastorais. As escolas públicas do governo colonial também deram seu contributo, ao abrirem acesso aos nativos nas cidades e municípios, embora a princípio abrangessem aqueles que tinham estatuto de assimilado com cartão de cidadania. Para as populações no meio rural, o sistema de educação colonial implantou escolas no começo da década de sessenta.

Uanhenga Xitu afirma que embora houvesse escolas do governo colonial, porém o mesmo colonizador arranjou sempre formas de impedir o progresso acadêmico dos nativos. Ele diz que depois da formação nas estações missionárias das igrejas, poucos indivíduos

448 CHOKOMBONGE, Tarcísio Pedro. O congregacionalismo em Angola: Origem, desenvolvimento e

consolidação da Igreja Evangélica Congregacional no solo angolano. Dissertação de mestrado, Seminário Teológico do Norte do Brasil, Recife, 2002, p.93.

449 Relatório geral da Missão Evangélica do Dôndi. Bela Vista (Catchiungo), 1967, p.14.

conseguiam ir para os liceus na idade exigida, indo somente aqueles cujos pais tinham condições de pagar mensalidades elevadas nos colégios particulares ou que tivesse a bolsa da Igreja. Além do mais, os testes finais nas escolas das estações missionárias eram elaborados pela Repartição Geral de Ensino do governo colonial. Nos testes, a maior parte dos alunos e alunas era reprovada. À medida que ocorria a reprovação, a idade avançava e o sistema escolar liceal negava receber candidatos fora da idade estabelecida. Em virtude deste problema, muitos pais registraram ou batizaram seus filhos uma ou duas vezes, com idade mínima, em lugares diferentes, mudando os nomes e às vezes, mesmo a filiação, para escapar da armadilha colonial451. Os que tinham o estatuto de cidadania, além das exigências iniciais, surgiam outras exigências, por exemplo, agora é assimilado aquele que mora no bairro da cidade, ou é assimilado aquele que ganha tantos mil escudos por mês, agora é assimilado aquele que tem casa comercial, alfaiataria ou oficina com declaração da fazenda; enfim, uma série de impedimentos para calcar a instrução e desenvolvimento dos povos nativos452.

A formação pastoral das mulheres merece ser submetida à práxis de modo a acompanhar a vida dos membros em todas circunstâncias e viabilizar que todos/as participem no processo das ações pastorais.

Na pesquisa ficou perceptível que a formação capacita e viabiliza processos que mudam mentalidades e transformam as sociedades. No caso específico de Angola, os fatos revelam que as instituições das igrejas no estrangeiro, assim como dentro do país, contribuíram para a formação de quadros por seus modelos e práticas pastorais. As mulheres participaram no desenvolvimento da Igreja e da sociedade angolana de diversas formas, entretanto, destacam-se a ação pastoral delas na evangelização, liturgia, formação, administração dos lares, educação cristã, vida econômica da Igreja, saúde, ensino e ministério pastoral.

As mulheres se identificarão no espaço público com ações pastorais se a formação proporcionada a elas ajusta-se ao tempo em que vivem, do pós-guerra, num mundo contemporâneo. Também será necessário que os processos de formação e informação sejam submetidos à práxis religiosa, segundo o conceito de Casiano Floristan, por meio dos eixos pastorais e comprometimento com o pobre e o excluído.

451 XITU, UANHENGA - Agostinho A. Mendes de Carvalho. Os sobreviventes da máquina colônia. Op. cit.,

p. 98.

Procurar e recuperar a participação das mulheres jovens e de mulheres de idade mais avançada, assim como o homem, por meio da formação poderá facilitar a identidade das mulheres no espaço público. O caminhar juntos em todas as esferas da vida e ações pastorais promove motivação para o trabalho na Igreja e na sociedade.

Em tudo, a pastoral na sociedade tem que levar em consideração o inter-cultural e o inter-religioso, que advoga um diálogo para a cultura ecumênica das religiões, onde se encontram o discurso fundamentalista, o feminismo clamando pela justiça, visibilidade das mulheres em todos aspectos sociais e questionando ideologias patriarcais e elaborando a reflexão teológica na perspectiva da teologia contextual; o ecologista que escuta o grito da terra, que busca a libertação junto com o ser humano; o utópico, a partir do princípio da esperança453.

É necessário que se considere os esforços dos que procuram o resgate de valores africanos, abandonados por muitos, que levem ao desenvolvimento da vida digna valorizando: a vida das pessoas; as relações sociais: se dar bem com os vizinhos, com a família e com os que nos rodeiam, são os valores principais. O valor da hospitalidade. Na África a hospitalidade não se nega a ninguém. Estes valores praticamente se chocam com o que se vive hoje em alguns países da África das guerras. Este não é tipo de cultura tradicional africana. São provocadas por culturas pós-coloniais. A política, o poder e a economia produzem estes fenômenos que vemos atualmente. Deve-se tratar de uma cultura de tolerância, reconciliação, de aceitar a diversidade e sair de uma cultura étnica para uma cultura mais aberta e humana, a esperança para as sociedades pode residir na educação e formação das gerações454.

As mulheres possuem qualidades que devem ser desenvolvidas com formação e a Igreja deve e pode ajudá-las a fazer uso dos seus talentos e capacidades para que possam melhorar suas vidas e da sociedade em que vivem.

453 SILVA, Geoval Jacinto da. Estudos de novos paradigmas teológicos. In: Estudos de religião 26. São

Paulo, Universidade Metodista, 2004, p.227.

454 Revista missionária africana nº486. Es la hora de tu compromisso misionero. Colômbia, Domund, 2004,