4. BULGULAR 1 Tanju Özelgin
4.2. Armağan Birgil
A formação pastoral em liturgia que se propõe está relacionada à liturgia como celebração da vida. A gratuidade da vida é dada pela vontade de Deus e Ele ama todos e todas sem acepção430.
A liturgia, segundo Messias Valverde, envolve o conjunto de elementos que possibilita a celebração cúltica onde o público ou o povo de Deus expressa uma parcela do serviço total a Ele. É por meio da liturgia que a igreja realiza, opera e põe em prática a ação redentora, mediante a pregação do Evangelho e anúncio da obra da salvação431.
A liturgia também expressa e protege aquilo que, ao mesmo tempo, sustenta e envolve o povo da igreja (que é a experiência do próprio povo com Deus). Tornar-se também instrumento que expressa a recapitulação da história da salvação e sua formulação, o dever de expressar e salvaguardar a natureza do culto, desfrutando de considerável liberdade432.
Discorrendo pela história, segundo trata James F. White, na Reforma Martinho Lutero e seus contemporâneos, a antiga liturgia romana se tornou ponto de partida do
429 VIEIRA, LISZT. Cidadania e globalização. Rio de Janeiro, Editora Afiliada, 2000, p. 142
430 Departamento de Comunicaciones del Consejo Latinoamericana de Iglesias (CLAI). Gracia Cruz
Esperança em América Latina. Quito Ecuador, Israel Batista, 2004, p.41.
431VALVERDE, Messias. Liturgia e pregação: reflexões sobre o culto cristão. São Paulo, Editora Ecxodus,
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movimento litúrgico da época moderna. Sob direção de Martinho Bucer, a cidade de Estrasburgo presenciou a abolição da vida monástica. Isto implicou na tradução dos ofícios e a composição de músicas433.
Martino Lutero observou que as pessoas não mais conheciam o significado dos sacramentos. Acreditavam que algo de mágico ocorria quando deles participavam, transformando-as automaticamente em protegidas. Supunham que, pela simples recepção dos sacramentos, teriam garantia de vida eterna. Nada ficariam sabendo da verdadeira ajuda proporcional pelos sacramentos, muito menos do comprometimento que acarretam.
Daí, a opinião de Martinho Lutero em sugerir um processo de libertação, uma pregação do evangelho ligada em aspectos da promessa da palavra divina, do sinal exterior e da fé que recebe a promessa. Para Martinho Lutero, a promessa divina devia ser conhecida, proclamada, percebida e assumida quando se celebrasse o sacramento. Exigia que a celebração fosse acompanhada da pregação do seu significado434.
Quanto ao batismo, Martinho Lutero achava que a promessa está na passagem de Mc16.16 “Quem crer e for batizado será salvo”. Essa promessa, quando recebida em fé, acarreta na morte e ressurreição do ser humano. Morte pecaminosa, ressurreição de um novo ser. Onde há promessa e oferta divina, deve haver uma fé que a receba e acolha. As duas coisas são simultaneamente necessárias: a promessa e a fé. Sem promessa nada se deve crer e sem fé é inútil a promessa.
A proposta das liturgias para os cultos compreendia leituras bíblicas, salmos, cânticos, hinos, o pai-nosso, orações de coleta, o credo e pregação. Todos os reformadores colocavam ênfase na liturgia da palavra435.
A liturgia não deixa de ser um serviço dedicado a Deus em culto quando cristãs e cristãos se reúnem para celebrar a fé436. Para a realização de serviços litúrgicos ou
celebrações, são necessários recursos como livros litúrgicos, hinários, instrumentos musicais, móveis, símbolos, templos ou outros espaços escolhidos.
A dinâmica dos serviços litúrgicos varia de acordo com a denominação e também com calendários litúrgicos437. A participação das pessoas no culto, o que ouvem, o que
433 WHITE, James F. Introdução ao culto cristão. São Leopoldo, Editora Sinodal, 1997, p.103. 434 Idem, p.103.
435 Idem, p.104. 436 Idem, p.11.
vêm, o que tocam, o que comem, o aroma que sentem, enfim, tudo o que cerca o ambiente e se realiza, contribui para comunicar mensagens aos que cultuam.438
Jaci Maraschin, fala que a liturgia é coisa que se vê, daí a valorização das cores, ícones e outros requintes litúrgicos, que deixam sensações de prazer. O paladar também contribui na liturgia, pois o gosto do alimento partilhado na ceia aumenta a comunhão. A liturgia também se dá pelo ouvir, o som, os cantos, as leituras, os discursos falados trazem prazer e podem contribuir para a saúde dos corpos e mentes. O tato proporciona sensações através do toque, que na Bíblia tem um caráter curativo, tranqüilizador e humanizante.
Também em práticas de saudação, onde a congregação reconhece no corpo do outro a presença do Espírito, procura participar em ações da comunidade. Para Jaci Maraschin, o olfato nos ajuda a reverenciar a natureza, ajuda o ser humano a louvar e a contemplar a beleza da criação, pelos aromas de ervas, flores, frutos e outros produtos que fazem parte da gastronomia das pessoas. Ao mesmo tempo, pelo olfato se protesta contra a poluição e maus cheiros439.
Por isso a liturgia comunica. Na liturgia se processa o comprometimento dos participantes com a missão de Deus no mundo, o que confirma que a liturgia também tem o propósito de educar440. Acrescenta, Jaci Maraschin que a liturgia é também contestadora, ao apresentar um conteúdo de resistência aquilo que desumaniza. Os profetas e Jesus, em seus ministérios denunciaram a violência e as injustiças cometidas, principalmente contra os desfavorecidos e pobres441.
Como foi analisado, a sociedade angolana, apesar de tudo que aconteceu, tem motivos para celebrar a vida. As mulheres que passaram pelas agruras da guerra são desafiadas a celebrar a vida pela liturgia. A história bíblica da mulher viúva (Mc12.41-44) que deu a oferta, deixa um grande exemplo do potencial humano que encoraja a viver na graça de Deus, a recuperar a dignidade e a auto-estima442.
Liturgia como celebração da vida é conceituada por Casiano Floristan, no sentido festivo da fé, também significa celebração da gratuidade da salvação e contemplação da mesma como dom. Essa realidade deve ser expressa na celebração sacramental de modo único, porque toda celebração sacramental é celebração litúrgica. Toda celebração deve ter um caráter de festa. A gratuidade da vida é preciosa na existência do ser humano. É
438 Idem, p.5.
439 MARASCHIN, Jaci. A beleza da santidade: ensaios de liturgia. São Paulo, IEPG/Aste, 1996, p.126. 440I.E.C.A. Lições de Liturgia e Homilética. Idem, p.5.
441 MARASCHIN, Jaci. Op. cit, p.61.
celebrada no amor com festas, jogos, rito, cerimônias religiosas. Assim, a celebração leva os participantes a ação de graças pelo reconhecimento da gratuidade da vida443.
A formação pastoral em liturgia como celebração da vida pode servir de ponte entre as mulheres mais novas e as mulheres de idade mais avançada, por meio da liturgia, a vida é celebrada em reconhecimento da gratuidade do amor de Deus por Jesus.
443 FLORISTAN, Casiano. Conceitos fundamentais del pastoral. Madrid Espanha, Ediciones Cristiandad,