(1990) Genotipler Ort
4.1.3 Harnupta tohum sayısı ile ilgili sonuçların değerlendirilmesi
Na tarde de sábado, após a arrumação rigorosa da cozinha, punha o vidro de esmalte em cima do fogão, cruzava as pernas sentada no tamborete (umas coxas ainda bem fornidas) e pintava as unhas, soprando-as. Lúcia gabava-se à hora do almôço no restaurante do Instituto, fazendo inveja às colegas.
5 – Sorte sua, minha filha.
– Graças a Deus.
Lúcia isolava, batendo na tábua da mesa. Servia-se discretamente do palito, que partia entre os dedos, atirando-o dentro do prato.
Neide, a colega confidente, que queria o casamento de Lúcia com Seu Marcos, do
10 Almoxarifado, já conhecia Beatriz, a nova empregada.
Estivera no último domingo, após a sessão no Centro Esotérico, no apartamento de Lúcia, e não esquecia o gesto delicado de Beatriz, oferecendo-lhe a flor que colhera no jarro da mesa:
– Para a senhora voltar aqui outras vêzes.
Neide, já de saída na porta, curvava-se para abraçá-la, a haste da flor numa mão e a
15 bôlsa na outra:
– Obrigada, minha nêga. Apontava-a com o dedo:
– Tome conta de minha amiga. Ela está muito satisfeita com você. – Ah, isto é gente muito boa!
20 – Ótima.
Beatriz tinha mania por flôres. Era a sua grande paixão. Lúcia as comprava raramente. Então ela descia até o mercado e voltava com palmas de avenca e margaridas, que distribuía pelos jarros da sala e do quarto, recuando um pouco para apreciá-las. Preocupava-se
particularmente com o quarto de Lúcia. Mudava os lençóis, esticava repetidamente a colcha de
25 chenila. De passagem, dava nôvo toque ao arranjo de flôres sôbre a mesinha de cabeceira.
De manhã, ainda muito cêdo, Lúcia ouvia na cama quando Beatriz cautelosamente dava a volta à chave emperrada na porta de entrada de serviço. De início, talvez até andasse nas pontas dos pés. O ruído leve de atritos de panelas. Eram atenções, cuidados, que cativavam Lúcia.
30 – Bom dia, D. Lúcia.
O café já estava servido, porque Lúcia saía antes das oito horas: fazia dois expedientes no gabinete da presidência. Lúcia cedia-lhe o pacote de maizena ou a lata
109
de presuntada quase intata para as crianças. Antes de sair, vinha até a sala mostra-lhe o pacote. – Ora, Beatriz, precisa disso não.
35 – Obrigada.
No almôço de sábado, postava-se ao lado da mesa. Apressava-se em passar o prato: – Quer mais um pedacinho de bife?
– Não. Estou ficando muito gorda.
Sentia realmente dificuldade de meter a cinta diante do espelho. Outros desgostos: o
40 cabelo curto e ralo, que reclamava a peruca, a cabeça redondamente medíocre. Lembrava-se de
Seu Marcos, do Almoxarifado, e os desgostos se acentuavam: o luto de Seu Marcos, a grande calva, o chapéu de massa em cima do armário de aço, o triunfo com que êle anotava gastos na sua caderneta particular. Não esquecia o domingo em que Neide arranjara para os três irem ao cinema. Seu Marcos lhe parecera terrivelmente ridículo de silaque. Os braços finos e muito
45 brancos, com cabelos irritantemente encarapinhados. Neide os animava, dava-se como sempre.
Ou seria uma espécie de masoquismo, já que ela própria não se realizara? Neide acreditava na fôrça do pensamento:
– As coisas precisam ser mentalizadas.
Quando Lúcia sentiu repetir-se a dor na nuca, com pontadas fortes, que a faziam curvar-
50 se sôbre a máquina de escrever, a mão no pescoço, foi Neide, a colega protetora, que a levou
ao Serviço Médico, antes do lanche. Dr. Fausto tomou-lhe a pressão. Muito alta, como de costume. Seria bom uns dias de repouso:
– Quer uma licença?
Lúcia consultou Neide com os olhos.
55 – Não. Talvez apenas uns dois dias.
Dr. Fausto procurava no armário do ambulatório a amostra de remédio: – Tome logo uma drágea aqui mesmo.
Neide queria conseguir com Dr. Miranda o automóvel da presidência. Lúcia recusava. Apanharia um táxi. Não, não iria no automóvel, não custava nada. Dr. Miranda cedeu, também
60 interessado, formulando votos, porque era muito delicado, todos sabiam que servira no
Itamarati.
O motorista solene da presidência cortou o Flamengo, Botafogo, venceu o Túnel Nôvo: – Será que o nosso aumento vem mesmo, D. Lúcia?
– Êles falam, não é, Seu Expedito?
65 Lúcia comprimia a cabeça contra o assento. A cada pequeno solavanco aumentava a
dor. O motorista não perdia a solenidade. Alcançou a Praça General Osório:
110
– A vida está cada vez mais cara. – Caríssima.
70 – É na Barão de Tôrres, D. Lúcia?
– Sim.
Deu-lhe o número. Seu Expedito parou em frente ao velho edifício, de entrada escura, o depósito de lixo ainda na calçada. Lúcia agradeceu-lhe. O elevador enguiçou mais uma vez no terceiro andar. Ela voltou a comprimir repetidamente o botão. Procurou a chave do
75 apartamento na bôlsa. Surpreendeu-se, em grande pasmo, de encontrar na sala, junto à mesa,
um homem de têmporas grisalhas, elegante, que precisamente naquele instante acendia o cigarro com o isqueiro.
– Que é que o senhor deseja?!
O homem guardava o isqueiro com calma no bolsinho da calça:
80 – Eu... eu... nada.
Teve certa relutância. Disse que ali era uma casa de recursos. Pertencia a madame Beatriz. Pelo menos, era o que êles sabiam. Êle estava em companhia de alguém, que ainda se demorava no quarto. Ela desse licença. Protegia a companheira, que passou pela sala de cabeça baixa, batendo o fêcho da bôlsa, onde retocara o batom.
85 – Com licença.
Lúcia continuava interdita. Atirara-se à cadeira. A cabeça rachava, as têmporas iam partir. O cheiro das flôres murchas no jarro trouxe- lhe de repente uma onda de náusea. Correu até o banheiro, mas ainda lançou sôbre o tapête a primeira golfada de vômito.
111