3.5. Bursa’da Akıllı Şehir Uygulamaları
3.5.7. Hafriyat Takip Sistemi
A publicação do poema Juca Mulato, não só tornaria Menotti conhecido para além das fronteiras de São Paulo como se transformaria em um dos símbolos do mestiço na época, inspirador das idéias que o poeta defendia no terreno político.30 Além das inúmeras
29 A obra foi impressa nas oficinas gráficas do jornal La Pátria Degl’Italiani, de propriedade de Rodolfo
Palladini, que aceitou ser editor do poema.
30 Das muitas notícias de jornais que exemplificam a disseminação posterior do símbolo social criado por
Menotti, citarei como exemplo uma dos anos de 1940 e outras duas do final da década de 1950.
A primeira foi publicada em A Noite, de São Paulo, em 10.05.1946, intitulada “Juca Mulato entre os negros” e assinada por “Fernando”. Diz o jornalista: “Ora, esqueci-me a fazer essas considerações tão somente porque antes de ontem, em companhia de Ciro Mendes, e do outro Fernando, o de Barros, tive ocasião de ver como o “Juca Mulato”, de Menotti Del Picchia continua, cada vez mais vivo, na boca e no coração do povo. Pois não é que numa das comemorações com que se iniciaram as festas do 13 de Maio, uma entidade dos negros, a associação Palmares, dramatizou esplendidamente uma das cenas daquele poema? [...] Menotti Del Picchia que lá estava, também, em meio dos negros que o admiraram, e que não fizeram economia de palmas para o seu poema, mais uma vez constatou essa verdade, que só os donos de uma artezinha para os amigos íntimos, teimam, ainda – oó raiva! ó despeito! – em desconhecer.”
A segunda notícia: “O Sr. José Maria Alkmin saudando a Menotti Del Picchia contou que ele e o Sr. Juscelino Kubitschek, em sua adolescência decoraram todo o ‘Juca Mulato’ e disputaram um prêmio no teatro, pela interpretação”. (“Consagração ao poeta que é a voz da raça brasileira”, O Jornal, Rio de Janeiro, 17.12.1959). A terceira notícia publicada no Diário da Noite, por Assis Chateubriand, em 18.12.1959, rememora a amizade entre ele e Menotti, desde o período que antecedeu a prisão dos dois pelo governo de Getúlio Vargas, em 1933. Enaltece o amigo: “Quatro homens, a meu ver, entenderam a força anímica do cruzamento brasileiro: Gonçalves Dias, Machado de Assis, Euclides da Cunha e Menotti. Juca Mulato é a redação impessoal de nossa imaginação. É um grande livro, é um livro de raro gosto, feito com um talento inconfundível, por um romancista vibrante,
edições que teve o poema, seus trechos foram reproduzidos em livros didáticos, ampliando a divulgação da obra.31
Menotti freqüentemente atribuía ao seu personagem o mérito de suas vitórias, tanto no campo político como no literário, reinventando o símbolo que criara.32 O livro recebe elogios de escritores consagrados, como Coelho Neto e Olavo Bilac. Obviamente, o tratamento poético implementado ao enredo, no que se refere às inquietações do autor em torno do problema da mestiçagem, já em 1917, é fundamental para a compreensão do imaginário que culminou com o sucesso da obra.
O poema Juca Mulato (1917) poderia ser associado simplesmente ao ingresso de Menotti na literatura de cunho regionalista, por via da temática da miscigenação se não fosse o fato de o pensamento de Menotti, já por essa época, constituir-se como a confluência complexa de uma mentalidade ao mesmo tempo romântica e parnasiana, realista e naturalista, que cultuaria as paisagens exteriores por uma via marcadamente místico-panteísta.
Juca Mulato é a narração das desventuras espirituais de um caboclo “forte como a
peroba e livre como o vento” que cisma de se apaixonar pela filha da patroa. O livro se divide em nove partes seqüenciais que formam o enredo do poema, a saber: Germinal, A serenata, Alma alheia, Fascinação, Lamentações, Presságios, A Mandinga, A voz das coisas e Ressurreição.
Em “Germinal”, descreve a natureza que circunda a personagem e se inscreve no “rosto moreno” e no “corpo moço” do mulato, que terá como destino a aflição de desejar e cultuar o “impossível”: um amor inatingível. O poema expressa a completa integração do mestiço como uma força da natureza.
Como se sente bem recostado no chão! Ele é como uma pedra, é como a correnteza, uma coisa qualquer dentro da natureza
amalgamada ao mesmo anseio, ao mesmo amplexo, a esse desejo de viver grande e complexo
que dispõe de fontes poderosas de abastecimento espirituais e de uma vasta fantasia”. (Recortes de notícias pertencentes ao catálogo da “Coleção Menotti Del Picchia”, CEDAE, IEL, UNICAMP).
31 Segundo Ênio Silveira, a obra Juca Mulato, de Menotti Del Picchia, de 1917, tornou-se um best-seller na
época, vendendo mais de 10 mil exemplares a cada dois anos (MOREIRA, 2001: 72).
32 É o que se confirma em sua entrevista ao Diário de S. Paulo, em 12.10.1954, ao ser reeleito deputado federal
por São Paulo. Seu primeiro mandato fora conquistado nas eleições de 1950. Disse Menotti: “Sabem quem foi o meu grande cabo eleitoral? Não sabem? Pois eu lhes digo: o meu grande cabo eleitoral foi o meu velho amigo Juca Mulato! É um colosso! Colocou milhares de cédulas sem gastar um tostão! Notabilíssimo!”.
que tudo abarca numa força de coesão (1917/1923: 24).
Menotti compara Juca a uma semente que germina, no seu anseio de florescer. Compara a agilidade e a força de Juca com a de um poldro e a de um touro; seu equilíbrio viril, com a elegância dos barcos. A cor da noite confunde-se com o corpo de Juca.
O crescente, recurvo, a treva, em brilhos frange, e na carne da noite imerge-se e se abisma, como num peito etíope, a ponta de um alfange.
Juca mulato cisma...
A natureza cisma. (1923: 26)
Juca Mulato passa a sofrer do mal de amor. Para expressá-lo, pega a viola e canta sua “Serenata”33, na qual compara sua alma sonhadora, cheia de espinhos, a um leito de rio
repleto de pedras.
“Alma alheia” registra a mudança na alma de Juca e os conselhos de seu cavalo, Pigarço, que, por sua vez, “tem alma como a gente”, para que Juca esqueça da tentação dos olhos da mulher.
Em “Fascinação”, Juca, novamente, cede à vertigem do amor, que passa a habitar homem e mundo. “Tudo ama!”
Em “Lamentações” e “Presságios”, chora a dor que o oprime (“Sou um caboclo do mato, que ronda a luz de uma estrela”) e decide, para concluir a seção, tratar-se de “artimanhas do Demo e coisas de feitiço”.
Vai, por isso, procurar um “negro feiticeiro”, cujo encontro está descrito em “A mandinga”. Roque, o feiticeiro, porém, nada pode fazer pelo herói, pois não conhece a cura do amor impossível. O remédio está no esquecimento. “Juca Mulato, esquece!”.
Em a “Voz das coisas”, Juca, ao desejar fugir, ouve a repreenda do cedro, da torrente, da estrela, da floresta, do azul, enfim, da terra.
Juca Mulato, és meu, não fujas que eu te sigo... Onde estejam teus pés, eu estarei contigo.
[...]
Tu queres esquecer? Não fujas o tormento... Só por meio da dor se alcança o esquecimento. Não vás. Aqui serão teus dias mais serenos,
Que, na terra natal, a própria dor dói menos... (1923: 77)
Figura 2: Ilustração de Menotti Del Picchia para o poema Juca
Mulato.
A natureza representada adquire expressões antropomórficas perante um personagem que parece contracenar com ela.
“Tu és qual um sapo a querer uma estrela...” (1921:38). Nada resta ao caboclo de Menotti Del Picchia senão ouvir “a voz das coisas” e enraizar-se na terra, no seu “pedaço de chão”.
O final do poema, “Ressurreição”, traduz o retorno de Juca ao seu “lugar” de origem, ao regredir do desejo de “querer ser feliz”.
Consolou-se depois: “O Senhor jamais erra... Vai! Esquece a emoção que na alma tumultua. Juca Mulato! Volta outra vez para a terra procura o teu amor, numa alma irmã da tua. Esquece calmo e forte. O destino que impera, um recíproco amor às almas todas deu. Em vez de desejar o olhar que te exaspera,
procura esse outro olhar, que te espreita e te espera
que há por certo um olhar, que espera pelo teu...” (1923: 83, 84)
Duas metáforas possíveis sugeridas nas estrofes finais do poema merecem ser retidas: o “Senhor”, não só como Deus, mas como o “patrão”, marido da patroa, que sempre tem razão e que encarna a voz do próprio autor; e a importância do significado da terra, não só como lugar de origem, mas como “espaço social” que demarca uma condição e uma posição, que o poema aconselha que não seja transposta por um ideal “impossível”. Essa opção colocaria fim ao conflito existencial de Juca: cada qual no seu lugar.
Esse conservadorismo social estará presente no pensamento político de Menotti Del Picchia. Já o tema da raça entremeará vários de seus contos e romances, e perpassará tanto suas obras ficcionais como as de cunho histórico que viria a publicar posteriormente. Registre-se o fato que os termos mulato e caboclo são indistintamente utilizados para identificar Juca. Menotti parece não se importar com essa distinção, vinculando a figura de Juca a um mestiço de origem rural e de cor escura.
Júlio Dantas, escritor de língua portuguesa, ao divulgar o livro em Portugal e fazer o comentário apologético de Juca Mulato, ressalta o “parnasianismo ardente e paradoxal – mármore e sangue, bronze e nervos” do autor.34 Aliás, o comentarista ressalta o caráter
escultural da descrição das figuras de Juca Mulato e de seu cavalo Pigarço, “figura de bronze”, ambas esculpidas pela pena de Menotti.35 O caráter quase humano que adquirem as
formas naturais no poema, o cavalo como o companheiro com o qual Juca conversa sobre seu “amor inconsciente” pela filha da patroa e as suas mágoas são características evidenciadas pelo comentador.36 “É o gênio triste da raça que soluça na ingênua paixão de Juca Mulato. É a
dolorosa e ardente ternura brasileira que canta na sua voz. O caboclo quer ser ave, e fonte, e rocha, floresta, e tempestade”.37
34 Júlio Dantas (1876-1962) – Escritor e dramaturgo português que na década de 1910 foi considerado um dos
expoentes máximos da língua portuguesa. Tornou-se popular com a obra Ceia dos Cardeais, publicada em 1902. Acadêmico reconhecido, de 1921 a 1923 assumiu o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. Na década de 1940, tornar-se-ia embaixador no Brasil.
35 Segundo Ênio Silveira, a obra Juca Mulato, de Menotti del Picchia, de 1917, tornou-se um best-seller na
época, vendendo mais de 10 mil exemplares a cada dois anos (MOREIRA, 2001:72). A terceira edição de 1921 é o terceiro milheiro da obra. Em entrevista ao Estado de S. Paulo, em 20.03.1982, Menotti afirmou que o livro já tinha na ocasião mais de cem edições e era um dos marcos decisivos de virada da literatura parnasiana, ao lado de Os Sertões e Jeca Tatu.
36 O comentário de Júlio Dantas será incorporado como prefácio da obra a partir da segunda edição do poema
(1919). Nessa segunda edição de Juca Mulato (1919), Menotti anuncia o preparo de seis novas obras.
37 Raquel de Queiroz assim interpretou o personagem Juca Mulato: “Encarnação nova do Pery alencariano, Juca
Figura 3: Ilustrações de Martha Pawlowna Schidrowits para o poema Juca
Mulato (edição de 1947).
Juca é representado em formas análogas aos seres naturais: a imagem da terra reflete um rosto humano. Juca ora parece uma pedra, ora um vegetal que brota do solo, ora um tronco de árvore. Na última ilustração, surge como um “semelhante” em relação ao seu cavalo.
Moisés (1917) é o seu primeiro poema sacro, cujo mote é a oposição corpo e
alma, matéria e espírito, deserto real versus sonho da terra prometida.38 Em forma de peça
teatral, o diálogo entre Amoç e o filho ou Akhar apresenta a alternância de pontos de vista e a
patroa. Obra de transição, contudo, já representava um contraste aos marmóreos sonetos dos parnasianos com o seu ritmo livre e sua rima casual, naquele idílio campestre” (O Estado de São Paulo, 26 de agosto de 1988).
38 Menotti Del Picchia abre o poema com duas epígrafes, uma da Bíblia e outra de Fausto, que exprimem o
espírito da obra. “Eu vos conduzirei fora da aflição do Egito, no país dos Cananeus, num país extra-vazante de leite e de mel. Moisés – Êxodo, L. II, C. III. V. XVII”. “Na sede do infinito, ó alma em vão te abrasas: prende-te ao solo o corpo; o corpo não tem asas... não tem, não pode ter. Mas todos por instinto já sentiram por certo o mesmo que em mim sinto: cobiças de transpor, anseios de subir (Goethe – Fausto, quadro III - cena II, trad. De Castilho)”. Na edição de 1958, aparece um poema de Amadeu Amaral que se refere ao Moisés de Menotti Del Picchia e salienta a contraposição entre os “espinhos” da vida e o “jardim de encantos” dos sonhos, oposição essa que só encontraria termo na velhice e na morte.
contraposição entre a esperança e a persistência pelo encontro de Canaã e a realidade de um deserto cujo fim não se avista.39
Menotti explora também nessa obra comparações e metáforas que associam corpo e natureza, sangue e água: “a água sangra e mina como sangue da ferida” (1917/1958:45) ou natureza e paixões humanas: “Esta areia é voraz como o desejo humano, como vossa ambição e como a vossa mágoa...” (1958:51).
O poema termina com o anúncio pelo filho da continuidade da busca de um desejo que não encontra termo. “E o filho, encarnando uma geração nova, com os olhos fitos num sonho distante, parte buscando a mentira de Canaã” (1958: 94), esclarece um narrador-crítico oculto, ao fim do poema.
As Máscaras (1920) é um poema, também em forma de peça teatral, que enfoca
novamente a oposição entre ideal e realidade, nos dois primeiros atos, por meio do diálogo entre Arlequim, representando um desejo, e Pierrot, um sonho.40 No terceiro ato, entra em
cena Colombina, a mulher, formando o triângulo amoroso, que será o mote do conto. O poema descreve o corpo dos atores, comparando-os com “elementos” sublimes: Arlequim e Pierrot têm mãos brancas que mais parecem lírios, Colombina é loira como os raios de sol e como as moedas antigas. Arlequim e Pierrot são as duas faces opostas e inseparáveis do amor de Colombina. “Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho, pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho! Nessa duplicidade o amor todo se encerra: um me fala do céu... o outro me fala da terra!” (1920/1946: 92)
Em 1922, Menotti publicará outro poema em formato teatral, A Angústia de D.
João41, cujo enfoque é o debate entre Don Juan Tenório e Fausto, novamente tomados como
vozes de dois pontos de vista opostos: Fausto representa uma visão do amor e da mulher como representações, ainda que mentirosas, a serem buscadas e cultuadas na vida terrena, ao passo que D. João defende a beleza perfeita como algo que só pode existir na imaginação do
39 Na segunda edição do poema Moisés (1924), Menotti localiza o momento de realização do poema como
1913/1914, apesar de só ser publicado em 1917. Segundo o autor, já nesse seu “primeiro poema” pressentira o “instinto de imperiosa necessidade de renovação estética”. Nesse mesmo prefácio, ele assinala o anacronismo dos ditames parnasianos no Brasil no período que antecedeu o modernismo, responsável pela crítica reacionária que receberia o livro. A associação direta entre estética e política é uma forte recorrência no pensamento de Menotti. “O povo que possuía a mais avançada e democrática organização política do universo era tributário servil de uma anacrônica teocracia literária, de que eram calafriantes czares os srs. Heredia e Banville”(DEL PICCHIA, 1917/1924: VIII, IX).
40 Epígrafes do poema: “No fim do teu labor viste murcidas hastes nas rimas, a ostentar um verso antigo... A
idade ardente e juvenil encheu-te de vaidade... Esqueceste o Eclesiastes” e “Do ineditismo foste à procura. Inda provas um travo de amargor ao ver por tudo, gelhas... Mas julga-te feliz se, com idéias velhas, fizeste frases novas”.
seu criador. Os traços físicos da mulher loura e branca são destacados na seleção dos versos que formam o poema.
FAUSTO
Enganas-te, D. João. Nas nossas pobres vidas sempre os Faustos terão as suas Margaridas. Fugir-lhe, não querê-la, é inútil desatino: aquela que há de vir, vem do próprio destino! Um dia, por acaso, a encontras, loira e bela, e a reconheces logo: “És tu? – Sou eu...” É ela!
D. JOÃO
Não! não compreenderás o prazer que consiste Em se amar, como eu amo, um ser que não existe! Plasmei-a dentro em mim e fi-la minha Eleita. Chama-se essa mulher: a Beleza Perfeita! [...]
A eleita que sonhei enxergo-a, mas, que queres! vive disseminada em todas as mulheres.
[...]
Existe em toda parte, e cada mulher bela esconde no seu corpo alguma coisa dela!
Esta guarda-lhe o olhar: aquela, as carnes brancas; uma a forma do torso; outra a fuga das ancas. Tomando de uma a cor, de outra um traço indeciso, desta, o corte do lábio e daquela um sorriso, eu fragmento a fragmento, a amada recomponho, pois em cada mulher, há um pouco do meu sonho!
O ideal de uma mulher loira e bela, representada por Menotti em diversos poemas como figura inatingível e onírica, surgirá ilustrado no painel pintado pelo autor em uma fazenda no interior de Minas Gerais, como retrato da filha da patroa com a qual Juca Mulato sonhara.
Figura 4: Painel pintado por Menotti Del Picchia em uma fazenda do interior de Minas Gerais sobre o poema Juca Mulato.
A filha da patroa é representada no alto da tela; é retratada loira e localizada no céu e próxima à lua, à estrela e à casa, que parece significar uma referência à civilização. Enquanto Juca surge novamente associado à natureza, ao baixo, à enxada e aos animais. O negro mandingueiro ocupa o centro da base do quadro. Na foto em preto e branco, com a imagem do painel invertida, o autor observa a própria pintura. Fotografias pertencentes ao acervo da “Casa de Menotti Del Picchia”, em Itapira-SP.
Juca Mulato chama a atenção, sobretudo, pelo esforço e pelo “excesso” de
comparações entre o mestiço e outros “materiais”, como pedras, plantas e animais, que acabam funcionando como expressão e extensão da própria “natureza” da alma. Se, de um lado, é possível ler nesse posicionamento de Menotti o intento de se ater aos moldes parnasianos, quando o escritor se posiciona como expectador e procura observar a vida por um prisma estético (homens, natureza e movimentos vistos de fora), de outro lado, os materiais comparativos tornam-se fundamentais para a decodificação da visão socioracial do
autor, por simbolizarem e expressarem algo de profundo no homem, a matéria-prima da espécie. Na chave parnasiana, os materiais assumirão uma importância fundamental como expressão da própria condição humana.
Outras ilustrações nas muitas edições que teve a obra Juca Mulato auxiliam na percepção do mestiço, de acordo com o pensamento de Menotti Del Picchia, como uma extensão do mundo natural.
Figura 5: Ilustração de Candido Portinari para o poema Juca
Mulato.
A cabeça de Juca está escondida sob o chapéu e os pés se assemelham à madeira ou a raízes. Exemplar pertencente ao acervo da Biblioteca Mario de Andrade.
No caso do filho de imigrantes italianos, cuja inserção nos símbolos do catolicismo também é notória, os materiais e, conseqüentemente, o aspecto externo dos seres assumem o lugar da vontade divina, expressa de forma intrínseca e, por isso, no âmago da natureza dos seres. Vale a pena destacar no parnasianismo de Menotti, quando comparado ao sentido do estilo originário europeu de culto da beleza pura, a novidade de se pesquisar materiais ou espécies vegetais e animais que serviriam como expressão não só poética, mas intrínseca a uma condição mestiça.
Inúmeras vezes, também, na obra de Menotti o próprio termo raça é utilizado como expressão do mais “profundo”, da essência do homem. A natureza aparece, assim, como fonte privilegiada de metáforas sobre a condição humana, trabalhadas e transformadas
artisticamente. As metáforas não deixam, contudo, de serem uma chave fundamental para a análise da compreensão sobre as relações raciais tais como são percebidas e vivenciadas pelos autores.
O mestiço é representado por meio de metáforas que o colocam no mesmo plano de outros fenômenos naturais, como a pedra, a árvore, a correnteza; e não mais como um acidente ou uma anomalia resultante do cruzamento de espécies díspares e incompatíveis. Enfim, sob a pena de Menotti, o mestiço encontra-se “naturalizado” no plano literário.