A seguir, o poder é abordado como um fenômeno organizacional político.
As organizações podem ser vistas como uma arena política, complexa, onde os indivíduos buscam seus interesses particulares, por intermédio dos meios oferecidos pelas estruturas e regras burocráticas. Na busca de interesses individuais, os atores sociais devem organizar a cooperação entre si (MORGAN, 1996).
Motta (2005, p.363) discute sobre o poder nos sistemas organizacionais partindo da ação social e da política nas organizações. Compreende-o que, a partir de “ações estratégicas” (Habermas, [s.d]), os indivíduos percebem as oportunidades de ação, prevêem as conseqüências e os riscos de cada alternativa e assumem os riscos na execução da decisão.
A cooperação e o poder nas organizações são discutidos por Motta (2005), que parte da possibilidade de adoção de estratégias de cooperação, conforme o objetivo da organização de criar um sistema que consiga materializar os objetivos individuais dos seus atores sociais. Sendo as organizações, normalmente, contínuas e duradouras, elas possibilitam relações sociais que fazem emergir a cooperação entre os atores sociais, mesmo que estes busquem interesses específicos.
Nessa concepção, o que faz a cooperação ser possível nas organizações é o fato de os indivíduos em interação voltarem a se encontrar cotidianamente, a exemplo do dispositivo da reunião denominada de “passagem” na estrutura do CAPS II OESTE, como um permanente recurso provedor de diálogo. Veja-se o depoimento a seguir:
“Era prioridade da gerencia local a participação de todos os profissionais das reuniões de passagem, diariamente”. (E. 07)
“O modelo já definia reuniões diárias, denominado de reunião de passagem. O trabalho tinha como norte o ciclo de início, meio e fim e, com um objetivo de fazer circular as informações e os saberes, falava-se da dinâmica da casa e tomavam-se decisões”. (E. 01).
“As reuniões eram prioridades. Tínhamos garantido o momento de reflexão da equipe, um momento de troca de cada profissional de uma forma mais elaborada, era um momento de retro alimentação”. (E. 02).
Pode-se compreender que tal estratégia de cooperação parte do propósito de se maximizar ganhos, ou seja, um alcance da maturação da equipe na elaboração coletiva do então projeto.
Mediante o exposto, observa-se que a discussão sobre o poder nos sistemas organizacionais, a partir das relações sociais ali estabelecidas, através de estratégias de cooperação, de certa forma ignora os aspectos menos racionais das relações sociais, como, por exemplo, o afetivo e as reações defensivas. No entanto, Motta (2005) argumenta que estas permitem demonstrar que muitas formas de não-cooperação são possíveis e, dependendo do contexto, podem ser uma estratégia utilizável.
Essa visão pragmática de cultura compreende a organização como uma construção política que oferece aos seus atores sociais possibilidade de criar e recriar os objetivos pretendidos. Dessa forma, a mudança ocorre dependendo da negociação entre esses atores sociais, apresentando-se como um desafio político.
Trata-se, portanto, da instituição de uma forma de cooperação nas organizações, o que leva a um processo de negociação e gestão das partes que a constituem, em prol da criação de um novo sistema. Assim, implementada a cultura, esta permite que os valores individuais, diante do impacto e da pressão pela sobrevivência do grupo, sejam modificados diante das novas forças às quais o indivíduo é submetido, ao ingressar em um novo modelo de sistema social. No entanto, a cultura também pode ser compreendida como a capacidade de discernir sobre as possibilidades individuais e coletivas, para a realização das ações e a manutenção da visão escolhida, construindo, dessa forma, as interações sociais no sistema organizacional (MOTTA, 2005).
“No início havia uma tendência a intervenções mais individualizadas, mas a partir do momento em que a equipe compreendeu que precisava envolver mais os familiares e compromete-los no tratamento dos usuários passamos a intensificar a abordagem coletiva em reuniões quinzenais, oportunidade que os profissionais tiveram de conhecer e se aproximar das famílias e desmistificar a compreensão da família como empecilho e que eram culpados pelo estado e patologia do usuário. Tudo isso só veio ocorrer com a mudança da coordenação local que permitiu maior entrosamento, mais diálogo, ações melhor elaboradas de forma coletiva, onde se deu uma progressiva interface entre profissionais, familiares e usuários”. (E.10 ).
Nesse contexto, partindo do conceito de cultura e ação, predominante na análise do poder, compreendem-se as atitudes como inclinações para a ação, ou seja, as atitudes tomadas em relação às possibilidades de ganho futuro irão estruturar a ação presente dos indivíduos. Assim, a necessidade de sobrevivência de um novo sistema exerce pressão para que o indivíduo redefina, mesmo que parcialmente, suas expectativas, valores e prioridades. Novas possibilidades de ação e a pressão social podem, então, mudar valores e atitudes passadas, permitindo a aprendizagem de novas práticas sociais, como se pode perceber na fala do profissional, em relação à evolução do comprometimento da equipe CAPS OESTE, em busca da reabilitação psicossocial do cidadão com transtorno mental.
Motta (2005, p.374) reconhece que essas estruturas cognitivas e essa capacidade política podem ser exercidas e desenvolvidas sob pressão do sistema social e da luta pela sobrevivência deste. O referido autor enfatiza como características dessa realidade a
exposição contínua dos indivíduos, a pressão do grupo, a duração da experiência e a capacidade de aprendizado destes as quais contam nesse processo de desenvolvimento organizacional, na perspectiva de “organizações em aprendizagem”, que promoveriam a emancipação política dos indivíduos que a compõem.