Nos finais da década de 80 e no início da década 90, Moçambique assisitu grande transformação sociopolítica e econômica. Essa transformação foi marcada pela transição do Estado socialista ao liberal, uma transição impulsionada por dois acontecimentos fundamentais: um de caráter internacional marcado pela queda do muro de Berlim, em 1989, o colapso do socialismo e, por conseguinte, o triunfo do capitalismo; outro de carácter nacional determinado pelo fim da guerra interna, em 1992, e triunfo da democracia liberal. Esses acontecimentos de forma inequívoca foram fundamentais para o abandono do socialismo científico e a adesão ao regime capitalista.
Historicamente, o Estado moçambicano emergiu no período em que o mundo encontrava-se dividido em dois blocos: socialista e capitalista. Os dois sistemas políticos, sócio-econômicos e históricos, com orientações bem distintas, demarcaram as áreas em confronto pela manutenção da liderança econômica mundial. O bloco socialista, sob hegemonia da URSS, estendeu sua influência aos países da Europa do leste e para alguns países africanos. O socialismo como um sistema econômico e político baseado na socialização dos sistemas de produção e no controle estatal parcial ou completo dos setores econômicos, opondo-se frontalmente aos princípios do capitalismo desempenhou um papel fundamental na construção de alguns estados africanos.
No contexto de Moçambique, o partido Frelimo aderiu aos princípios do socialismo como um sistema que melhor adequava-se à estrutura orgânica das comunidades; princípios persistentes organicamente ainda no interior do partido, muito embora se identifique atualmente com o regime capitalista. Para a Frelimo, o planejamento central do tipo socialista oferecia um caminho para acumulação flexível do capital e o redirecionamento racional dos
recursos nacionais em vista ao desenvolvimento equilibrado das populações do país. Para isso, o partido organizou as populações em aldeias construindo um Estado encarnado nas camadas sociais. Um Estado centralizado que, intervindo na organização da produção e do controle da distribuição dos bens e dos serviços, combateu o individualismo e a propriedade privada dos meios de produção.
Segundo Cabaço (2008) “o ideário da Frelimo era de criar uma sociedade baseada na propriedade colectiva e na distribuição eqüitativa da produção e, ao mesmo tempo, o de combater contra as relações de produção capitalistas fundadas na divisão de classes”. Nessa visão, a Frelimo via no socialismo o fim de luta de classes, a queda do imperialismo e triunfo da revolução. Não resta dúvida de que a Frelimo esteve convicta de que o capitalismo não era o melhor caminho para triunfar a revolução e, por isso, Samora dizia: “mercado, sim; capitalismo não” (NEGRÃO, 2001, p. 61), pelo fato de este último privilegiar a individualidade e não a coletividade. Na ótica de Samora, o socialismo permitiria a classe operária organizada tomar o poder e suprimir a propriedade privada dos meios de produção.
Mas, o planejamento da Frelimo não foi capaz de realizar o propósito de desenvolvimento equilibrado, mesmo que tenha se pautado na construção de uma sociedade alicerçada na propriedade coletiva e na distribuição equitativa dos bens e serviços. O propósito do desenvolvimento equilibrado fracassou porque o sul (Maputo) desenvolveu-se mais em relação ao centro e ao norte do país. As assimetrias notabilizaram-se nos projetos de desenvolvimento social, sobretudo, econômicos e educacionais. Nessa altura, o princípio samoriano de “mercado sim, e capitalismo não”, enquanto, de um lado, tendia a criação de uma economia controlada pelo Estado com finalidade de promover uma distribuição justa da riqueza entre as pessoas da sociedade e de retribuir o trabalho pago segundo a qualidade e a quantidade do mesmo, de outro, o capitalismo impunha-se anunciando a fraqueza da esquerda comunista totalitária. Adesão ao mercado significava aceitação da propriedade privada e o desmoronamento do socialismo. Tratava-se de uma abertura ao liberalismo econômico e, a conseguinte, adesão à política da democracia liberal.
O fim do socialismo foi condicionado pela decadência da URSS e pela queda do muro de Berlim, ou seja, pela reunificação da Alemanha, em novembro de 1989. Esse fenômeno foi interpretado por Fukuyama (1992) como o “fim da história” e a emergência das democracias liberais. Segundo Fukuyama, com a decadência do socialismo, os sistemas políticos encontraram na democracia liberal sua expressão evolutiva final. Fukuyama (1992, p. 11) destacou que a dissolução do comunismo deu lugar à democracia liberal e afirma que:
Nos últimos anos, surgiu no mundo todo um notável consenso sobre a legitimidade da democracia liberal como sistema de governo, à medida que ela conquistava ideologias rivais como a monarquia hereditária, o fascismo e, mais recentemente, o comunismo.
A tese de Fukuyama convenceu muitos pensadores da ala liberal de que a destruição da URSS e a reunificação da Alemanha prepararam o fim da Guerra Fria e deram sucesso ao bloco capitalista. Huntington (1997, p. 31), na linha de Fukuyama, destaca que “o fim da Guerra Fria representava, de fato, o fim de conflitos significativos na política global e o surgimento de um mundo relativamente homogêneo”. Esse mundo relativamente homogêneo chamou-se do “ponto final da evolução ideológica da Humanidade e universalização da democracia liberal ocidental como a forma final do governo humano” (HUNTINGTON, 1997, p. 31).
Huntington acreditou que mesmo com a existência de conflitos nos estados do terceiro mundo, o conflito global chegou ao seu término, o conflito de idéias das grandes nações chegou ao seu fim e a democracia liberal triunfou. Depois do triunfo da democracia liberal o paradigma dominante passou a ser a social democrata, o desenvolvimento da economia do mercado. A manutenção da paz mundial tornou-se palavra de ordem. Com a queda do muro de Berlim, as Nações Unidas assumiram nova importância na manutenção da paz. Mas isso gerou novos conflitos, “uma ilusão de harmonia, que logo se viu não passar disso. O mundo ficou diferente no início dos anos 90, mas não necessariamente mais pacífico” (HUNTINGTON, 1997, p. 32).
O colapso do bloco socialista, ou seja, o fim da Guerra Fria foi interpretado como início de uma era de ordem universal de nações amantes de paz, portanto, o começo de uma estrutura de paz perpétua que dissipou a multiplicação dos conflitos étnicos ou aquilo que Huntington chama de “choque de civilizações”. Esse acontecimento fez com que os países em via de desenvolvimento mudassem de política rumo às transformações. Essas mudanças tiveram profundas repercussões em Moçambique.
O Estado moçambicano teve de mudar de orientação política socialista antes da sua consolidação para adotar as políticas de orientação capitalista. A identidade política construída durante o processo revolucionário via-se ameaçada pela identidade política mercantilizada e globalizada alicerçada no capitalismo. A conversão ao capitalismo aconteceu quando a direção do país estava nas mãos de Joaquim A. Chissano como líder do partido e Presidente da República de Moçambique. Durante o seu governo, o Estado deixou de ser elemento planificador das atividades e abriu-se à economia do mercado. A adoção da
economia do mercado significou uma nova realidade, uma nova concepção do Estado que, nas suas políticas contempla ação das Organizações Não Governamentais (ONGs) que influenciam econômica, política e culturalmente a reorganização do Estado e da moçambicanidade.
Outro acontecimento de caráter local, mas muito importante para destacar que impulsionou a mudança de orientação política foi a guerra interna que uns designam de ‘guerra civil’, outros, “guerra de desestabilização”, alguns denominam “guerra de 16 anos” e ainda outros, “guerra mercenária”, entre a Frelimo e a Resistência Nacional de Moçambique (RENAMO), um movimento que, inicialmente, identificou-se como étnico18, pela presença massiva de ndaus na direção. Para José de Sousa Miguel Lopes (2006, p. 226) essa guerra rebentou da:
Componente étnica, como resposta a estratégias de governação equivocadas por parte da Frelimo (poder político demasiado concentrado nas etnias do sul), previlegiamento económico de algumas regiões, concentração freqüentemente forçada das populações em aldeias comunais, silenciamento e (ou) hostilização das línguas moçambicanas.
Embora a componente étnica tenha sido eminente pelo modo como se estruturou a Renamo e pela maneira como são distribuídos os votos em momentos eleitorais, nessa pesquisa designa-se por “guerra de encomenda”, pois pela sua natureza, esteve ligada aos interesses do governo de Apartheid sul-africano e do Ian Smith da Rodésia do Sul, interessados em terminar com o regime político socialista e em desestabilizar a economia nacional. Alguns moçambicanos desacreditando o regime acima mencionado e reunindo um conjunto de interesses contrariados com os da libertação receberam apoios tanto internos quanto externos e organizaram um movimento de oposição política e militar, provocando uma guerra que dilacerou a incipiente infra-estrutura do país, minando os laços de solidariedade coletiva, destruindo a grande parte do patrimônio do Estado.
A guerra entre a Frelimo e a Renamo teve incentivo bélico transformando-se, segundo Gramsci (2007), em “guerra de movimento” que tende a conquistar posições não-decisivas, mobilizou forças militares e um aparato bélico, destruiu vidas, arruinou grande parte da
18 O uso da língua ndau como língua dominante entre os membros da Renamo, embora outros usassem outras
línguas, demonstrava as tendências regionais. Fernando Mazanga, porta-voz da Renamo, em debate televisivo sobre as eleições autárquicas realizadas, em 2008, que deram vitória a Frelimo e seus candidatos em 42 municípios, promovido pela STV no dia 21 de Janeiro de 2009, disse: “nós somos governo da região do centro do país, sobretudo da Beira”. Essa postura faz crer que os partidos tendem a regionalização, ou seja, a Renamo tem mais simpatizantes no centro e a Frelimo, embora se afirme como fundadora da unidade nacional em todo território, tem a maioria absoluta no sul do país. O norte tem sido campo de disputa para os votos pelo fato de
produção e do patrimônio público. Na “guerra do movimento”, as partes envolvidas mobilizam as forças militares e usam armas e quando chegam ao entendimento, a guerra do movimento transforma-se em “guerra de posição”. Na guerra de posição, o governo toma ofensiva ideológica contra a oposição e organiza-se de modo a impossibilitar a desagregação interna. Para Gramsci (2007, p. 255), na guerra de posição, o governo faz “controlo de todo tipo, político-administrativo e estimula a coesão política nacional”.
A guerra do movimento trouxe prejuízos incalculáveis recolocando o país em crise econômica, educacional e humanitária. Para sair da crise, Moçambique lançou um Programa de Reajustamento Econômico (PRE), em 1987, que abriu caminho para a intervenção das instituições financeiras como o Banco Mundial (BM) e Fundo Monetário Internacional (FMI). William Minter (1998, p. 335), analisando os fracassos econômicos e sociais provocados pela guerra em Angola e Moçambique, afirma que “os fracassos da pós-independência foram atribuídos ao planejamento estatal irrealista, à causa ideológica em deixar o mercado funcionar e à guerra”.
O planejamento estatal irreal, a falta da partilha do poder, a destruição da estrutura política tradicional e a adesão às políticas socialistas são arroladas como causas da guerra. No que disse respeito à partilha do poder e ao abandono da política socialista, em finais de 1985, quando o presidente Samora Machel apresentou um documento sobre as violações do acordo de Nkomati assinado, em 1984, entre Moçambique e África do Sul, por parte sul-africana, ao governo norte-americano, o presidente Reagan respondeu-lhe exigindo que Moçambique “considerasse um sistema de partilha de poder com a Renamo e que aumentasse a cooperação com o Banco Mundial e com o Fundo Monetário Internacional” (MINTER, 1998, p. 219). Essa resposta atendia aos interesses e aos objetivos ideológicos dos apoiantes da Renamo na medida em que a partilha do poder significava reconhecimento da Renamo como movimento político alternativo à Frelimo e, por conseguinte, abertura à democracia, de um lado, e, a cooperação com as instituições mundiais significava adesão ao capitalismo, de outro.
A partilha do poder e adesão ao capitalismo eram mecanismos que concorriam para enfraquecer a ideologia e a economia socialistas da Frelimo (Partido no poder) e, ao mesmo tempo, que permitissem a penetração de agentes interessados em explorar os recursos nacionais. A política de partilha do poder com a Renamo e de intensificar as cooperações com BM e FMI encorajava o sistema de apartheid e o governo da Rodésia a multiplicar o seu apoio aos rebeldes. Recorda-se que o governo sul-africano estava empolgado com o corredor de Maputo que constitui, até então, grande ameaça para África do Sul no que tange ao desenvolvimento econômico da África Austral. Na mesma altura, o governo de Reagan
estabelecia boas relações diplomáticas com África do Sul e abria portas para que a Renamo tivesse representação nos EUA. Essas relações diplomáticas eram criadas com intuito de motivar a Renamo a intensificar os ataques. A interferência direta dos EUA, do governo de apartheid e a falta de objetividade no seio dos rebeldes provam, em certa medida, que a Renamo teria sido instrumentalizada para desestabilizar a economia nacional.
A ligação direta dos EUA com África do Sul permitiu que a Renamo tivesse uma boa representação diplomática em Washington. De fato, o afro-americano Leo Milas, infiltrado na Frelimo até na década de 80, foi o primeiro representante da Renamo, em Washington. Além de Milas, destacam-se as personalidades como o mercenário norte- americano Robert Mackenzie, Artur Vilanculos – secretário da Renamo para as relações exteriores, senadores da Carolina do Norte, Jesse Helms, Dan Burton, Howard Philip, Paul Weyric. Em 1986, a Renamo via-se representada por moçambicano anti-Frelimo como: o Professor da Universidade de Haward, Luís Serapião e o religioso Thomas Schaaf. Os apoiantes do partido Renamo, republicanos, foram fortes e, em 1987, Robert Dole e Jesse Helms bloquearam a nomeação de Melisa Wells a cargo de embaixadora em Moçambique.
Destacam-se, também, os financiadores James Blanchard e William Ball, o antigo diretor adjunto da Agência de Informação da Defesa, Daniel Graham, o general, John Singlaub. Os simpatizantes da Renamo defendiam a intensificação das “oportunidades para a resistência anticomunista em Moçambique nas suas linhas de orientação para a política de administração, denominadas mandatos para a liderança” (MINTER, 1998, p. 205). O apoio à Renamo foi uma estratégia para enfraquecer o governo da Frelimo.
Durante a guerra, a Renamo recebia apoios militares e logísticos provenientes dos EUA através dos canais do Malawi e do Quênia. O que significa que Malawi, Quênia, África do Sul e os EUA foram contra a política socialista. Aliás, em 1988, os EUA forneceram “aconselhamento diplomático e encorajou a Renamo e os seus apoiantes na África do Sul, Malawi e Quênia a prosseguir com a guerra até que o governo moçambicano fizesse mais concessões ou se entrasse em colapso” (MINTER, 1998, p. 207).
Ao nível interno, a Renamo contou com ajuda das massas populares mobilizadas pela autoridade tradicional local. Após a independência, a Frelimo havia desmantelado a estrutura política tradicional montada pelo regime colonial baseada no regulado. À experiência das zonas libertadas, a Frelimo montou uma nova estrutura política que arrasou o poder tradicional local. Nas aldeias, a estrutura política da Frelimo era constituída por secretário do bairro, o grupo dinamizador, Organização da Mulher Moçambicana, (OMM), Organização da
justificado na teoria do fim das tribos e do obscurantismo em nome da nação. As formas pelas quais a Frelimo implantou o seu poder lesaram as sensibilidades locais. Rocha (2006), afirma que uma das razões que levou a Renamo a ter popularidade é a forma pela qual a Frelimo organizou o poder que se traduziu na negação da organização social das comunidades rurais e do poder local. Segundo Rocha (2006, p. 83):
Internamente, as formas que assumiram a prática do poder, do ponto de vista da organização política do Partido-Estado e das operações económicas, rapidamente se traduziram na negação da organização social das comunidades rurais, na política de concentração da população em aldeias comunais e numa política de investimento concentrada no setor estatal da economia.
Adelino Zacarias Ivala (2002, p. 95) afirma que depois da independência, “a Frelimo não só desautorizou os ex-régulos e os seus equivalentes chefes tradicionais, como também promoveu perseguições”. Essa prática levou ao descontentamento dos chefes locais que não tendo sido contemplados na prática do novo poder começaram a colaborar diretamente com a Renamo mobilizando vários estratos sociais com a esperança de que lhes seria devolvido o poder mal que a Renamo ganhasse a guerra.
Porém, a Renamo trouxe uma reviravolta na arena política da Frelimo, o Estado monopartidário transformou-se em Estado de Direito, democrático, multipartidário e liberal. Da democracia popular passou-se à multipartidária que, segundo Brazão Mazula (2006, p. 64), “foi-se aprofundando dentro do mesmo país até ganhar a forma desejável”. O reconhecimento da oposição foi necessário não apenas pela mudança do regime socialista, mas pela implantação da democracia multipartidária. Por isso, a Frelimo e a Renamo reconhecem-se como pais de Moçambique. Cabaço (2008) frisa que “a Frelimo e a Renamo legitimam-se e se auto-afirmam historicamente como únicos. Enquanto a Frelimo legitima-se pai da independência e do Estado nacionais, a Renamo reconhece-se como pai da democracia”. Essa afirmação é secundada por Mazula (2008), quando discute o problema de exclusão dos partidos novos no parlamento e sustenta que “a criação da barreira 5% para representatividade no parlamento mostra que os partidos menos populosos são e serão sempre eliminados pela raiz deixando-se que as questões políticas sejam definidas apenas pelos dois partidos majoritários”.
A democracia popular não abria espaço de participação, não conferia os direitos fundamentais aos cidadãos nem os concebia como sujeitos sociais e políticos válidos e contribuintes. Fundando-se ficticiamente na massa, não respeitava os valores do sujeito individual nem promovia a liberdade de expressão. Mazula (2006, p. 63) sustenta que no
centro da democracia “deve estar à cidadania multicultural, como expressão do ser individual de cada cidadão e da moçambicanidade, como expressão da identidade colectiva do povo moçambicano no seu todo”.
Transformar a política econômica, abandonar o bloco do leste e juntar-se ao bloco capitalista e, por fim, aderir aos princípios da economia do mercado e da democracia multipartidária era o desejo de alguns países da África Austral. Em 1980, a guerra atingia quase todas as zonas rurais e as ações da Renamo estendiam-se para todas as províncias do país. Como destaca Peter Fry (2001, p. 15), em Moçambique: ensaios, a Renamo, sob “bandeira ideológica da ‘democracia’, ganhou o apoio de certas igrejas protestantes americanas e de antigos colonos portugueses ressentidos” e, de algumas individualidades que instigados pelos interesses regionais, tribais e, até mesmo pessoais, aderiram à guerra para inviabilizar o progresso do socialismo.
A “guerra de encomenda” caracterizou-se pela destruição brutal do tecido humano, dos bens materiais e de infra-estruturas econômicas, educacionais, de comunicação e de saúde. Escolas, centros de saúde, postos comerciais e vias de acesso foram destruídos. Na educação, a guerra semeou e perpetuou o analfabetismo e inviabilizou o projeto do Homem Novo.
No domínio humano, muitas pessoas foram mortas, outras mutiladas. Muitas crianças ficaram órfãs de pais e outras perdidas. Muitos alunos perderam seus estudos e outros foram integrados obrigatoriamente no militarismo. No concernente ao setor econômico, muitos estabelecimentos comerciais foram destruídos e outros fechados. Havia carência de produtos da primeira necessidade e o custo de vida era muito alto. A guerra inviabilizou a implantação efetiva dos planos estratégicos do desenvolvimento do país desenhados logo após a independência que visavam à criação de estruturas políticas e administrativas que garantissem a participação da população, nos processos de desenvolvimento e na tomada de decisões políticas e administrativas.
Além dos massacres e dos seqüestros, a destruição das infra-estruturas econômicas provocou enormes prejuízos à economia moçambicana. Os indicadores econômicos decresceram vertiginosamente com o avanço da guerra e o balanço econômico baixou drasticamente. Beluce Bellucci (2007, p. 183), analista da economia de Moçambique, disse que, no período da guerra, a “participação do Estado na economia se reduziu substancialmente”, pois, 70% do orçamento do Estado era direcionado para aquisição do material bélico. A Frelimo redobrou as forças mobilizando vários estratos na luta contra a
fazendo com que o país fosse dependente em 95% das suas receitas. Em Economia
contemporânea em Moçambique, Bellucci (2007 p. 185) conta que “em 1991, 70% do
consumo se devia às doações recebidas. Contabilizava-se mais de quatro milhões de pessoas deslocadas, a dívida externa rondava em torno de 1.4 biliões de dólares”.
As tentativas de suprir a crise não faltaram. Em 1984, o governo da Frelimo tomou medidas estratégicas que visavam, entre outros aspectos: 1) reduzir a intervenção do Estado na economia, através da utilização de políticas de regulação dos preços e da descentralização das decisões para as províncias e empresas; 1) redirecionar alguns recursos do Estado para