Em contraposição à política colonial, a Frelimo começou a organizar a educação nas zonas libertadas, uma educação totalmente desvinculada à educação colonial que não só capitalizava a leitura, a escrita e as quatro operações matemáticas, mas a formação científica, moral e humana (cidadania). Assim, a Frelimo desmontou a estrutura educacional colonial e organizou um sistema de educação que foi decisivo na mobilização de recursos humanos para a luta de libertação nacional, na mudança de comportamento das populações, na construção da unidade e identidade políticas entre diferentes grupos. A escola foi concebida como a primeira arma de combate ao colonialismo, ao tribalismo e de consolidação da unidade.
A Frelimo foi organizando o sistema de educação obedecendo aos padrões da modernidade. Com efeito, um ano depois da sua fundação, dois programas ocupavam agenda política: a instrução militar e a formação educacional. De acordo com Mazula (2008) “a formação educacional era a mais relevante para o desenvolvimento da luta revolucionária e necessária para a organização eficaz do sistema do ensino tanto na forma quanto em conteúdo”. A educação colonial não tinha dado importância ao desenvolvimento da população nativa nem a formação para a moçambicanidade. A Frelimo insistiu na formação de cidadãos
capazes de tomar consciência sobre a situação política de Moçambique, por essa razão definiu a educação como a principal arma para o desenvolvimento humano. A educação, seja geral ou política, era adquirida através das experiências partilhadas em comícios ou em salas de aula. Destaca Mondlane (1995, p. 137):
Atribuímos sempre grande importância à educação porque, em primeiro lugar, ela é essencial para o desenvolvimento da nossa luta, (...). Em segundo lugar, porque o futuro de Moçambique independente terá grande necessidade de cidadãos formados para conduzir o país na via de desenvolvimento. Mondlane via a educação como o único meio para desenvolver a luta e formar cidadãos capazes de tomar consciência sobre a situação de Moçambique. De fato, Mondlane insistia na educação não só para desenvolver a luta de libertação, mas também para reduzir o índice do analfabetismo e criar a consciência de cidadania no seio dos moçambicanos. Para isso, a Frelimo lançara um projeto de construção de uma grande escola para a formação do Homem Novo, com dois objetivos essenciais: 1) contrariar os objetivos da educação colonial concebendo a educação como único caminho para o povo tomar o poder; 2) encarar a escola como espaço para renovar a cultura e a história do povo moçambicano e para construir o Estado nacional.
Nas “zonas libertadas”, onde a Frelimo detinha o poder do controle, “a estrutura política era o partido e o poder assentava no nacionalismo revolucionário”, disse Mazula (2008). Nelas foram criadas as milícias que se subordinavam à estrutura local do partido e aos chefes militares. Organizaram escolas de alfabetização onde os objetivos políticos se articulavam com os pedagógicos. Em função dos objetivos políticos, as escolas passaram a ser centros de mobilização desempenhando um grande papel na produção, no combate, na vigilância e na coesão social.
Dessa forma, o currículo refletia questões inerentes à revolução, à luta, à produção, ao patriotismo, à disciplina e ao espírito de fraternidade e da unidade nacional. A escola preparou jovens e líderes prontos para a reconstrução nacional. O projeto educacional da Frelimo era alfabetizar as populações para com elas vivenciar o espírito nacionalista e refazer o Moçambique. A escola era uma garantia para a vitória, um viveiro e tinha uma função especifica de “formar quadros necessários para as tarefas de acção política e armada; para as tarefas de reconstrução nacional, e em primeiro lugar as da produção” (GÓMEZ, 1999, p. 131). As escolas ofereciam a educação política e cultural aos militantes da Frelimo.
Em outubro de 1966, o Comitê Central da FRELIMO reuniu-se para reafirmar que o papel da educação era “permitir ao povo moçambicano realizar com eficiência as tarefas
importantes da revolução que, naquele momento, era principalmente estender a luta armada a todas as províncias de Moçambique” (GÓMEZ, 1999, p. 131). Ainda nessa reunião tomaram quadro decisões: “criar uma escola de formação política; apressar a formação de quadros técnicos; promover uma campanha de alfabetização de adultos; aumentar o número das escolas primárias” (GÓMEZ, 1999, p. 131-132). A escola nascida da FRELIMO chamar-se-ia a “escola para o povo” no sentido da inclusividade. Essa escola abria-se para o cotidiano e distanciava-se totalmente da escola colonial.
A escola, para a FRELIMO, devia ser uma base de formação militar, política, científica e humana das pessoas. Segundo Eduardo Mondlane, era preciso educar o povo para este descobrir o feitiço do colonialismo. Só com a educação, o povo poderia tomar o poder. Afirma Mazula (2008), em entrevista, que:
As escolas eram locais de preparação militar e de difusão das ideologias do partido Frelimo. Elas tinham um caráter fundamentalmente revolucionário e o currículo das escolas se fundamentava nos princípios da educação socialista e no paradigma de formação do Homem Novo, do novo Estado e da nova sociedade e da nova identidade.
A falta de escolaridade era a grande preocupação para a FRELIMO, pois o índice de analfabetismo no seio dos militantes era elevado, 97. 9% dos refugiados eram analfabetos. Esse assunto sufocava a FRELIMO, sobretudo no desenvolvimento da luta. Mondlane e Janet (esposa de Mondlane) assumiram a escola como uma das prioridades e começaram a estabelecer relações com as Nações Unidas e outras instituições no sentido de angariar fundos. A Fundação Ford, as Nações Unidas, a Universidade Saracusa e as Missões responderam imediatamente, disponibilizando bolsas de estudo e fundos para a alfabetização das pessoas que se encontravam nos centros de refugiados.
Como forma de racionalizar as ajudas, a FRELIMO atribuiu bolsa de estudo a alguns militantes e organizou escolas, criou o Departamento de Educação e fundou Instituto Moçambicano em Dar-Es-Salaam. Mas o problema crônico era a falta de professores formados. O que se podia fazer para alfabetizar as massas populares perante o cenário de falta de professores formados. Para gerir essa questão, a FRELIMO mobilizou todos os que sabiam ler, escrever e realizar as quatro operações matemáticas para cobrirem as escolas. Assim, os militares também desempenhavam o papel de professor ou alfabetizador.
Caráter revolucionário e a escola era alavanca para a luta revolucionária, base para redimensionar o sentimento do homem moçambicano e para a construção de identidade sociopolítica e cultural, sepultada pelo colonialismo.
O currículo da FRELIMO fundamentava-se nos princípios da educação socialista, embora, nessa altura, o Partido Frelimo não se afirmasse explicitamente como socialista, mas guiava-se pelos princípios políticos do marxismo-leninismo. Com a proposta curricular da Frelimo, pode-se concluir que, até 1974, em Moçambique, existiam três currículos: um organizado pela Frelimo e dois estruturados pelo aparato colonial.
Os desafios que se seguiram logo após transferência de poder no setor da educação gravitaram-se na organização do currículo único, cabendo à Frelimo reestruturar o sistema de educação fundamentado em contextos socio-históricos e culturais da realidade moçambicana independente. Foi organizado, nesse período, um currículo que pudesse integrar todos os cidadãos moçambicanos independentemente da sua categoria social. No início de 1975, dois grandes acontecimentos ocorreram no campo de educação. O primeiro diz respeito ao I Seminário Nacional de Educação, organizado por Ministério de Educação e Cultura que decorreu na Cidade da Beira. O seminário durou dez dias e contou com a presença de professores primários e secundários e quadros de todas as províncias com uma rica experiência de educação adquirida nas zonas libertadas. O seminário teve como objetivos discutir e definir os métodos de organização das escolas e analisar os programas em curso, à luz de novas políticas educacionais. Procedeu-se, nesse seminário, com:
a) elaboração de novos conteúdos da 1a a 11a classes, na base de alteração de conteúdos, b) introduziu-se a disciplina de Educação Política, c) introduziu- se o estudo político no seio dos professores, d) introduziu-se a disciplina de Historia e Geografia de Moçambique, com caráter obrigatório durante o ano de 1975, e) introduziu-se, no currículo escolar, atividades culturais como forma de afirmação da personalidade moçambicana, f) deu-se um valor especial às atividades produtivas, no princípio de ligação do estudo à produção, da teoria à prática. (MEC, 1980, p. 40).
A disciplina de Educação Política visava inculcar nos alunos a ideia de que Moçambique é fruto da luta de libertação e, portanto, deixou de ser domínio dos colonizadores para ser o Estado livre dos moçambicanos. Os conteúdos dessa disciplina versavam sobre a moçambicanidade e a unidade política e articulavam-se com os conteúdos da História e da Geografia de Moçambique. A tarefa que assiste a todos os moçambicanos é organizar o Estado e incentivar a aprendizagem dos conteúdos de âmbito nacional. Em abril de 1975, realizou-se um Seminário Nacional de Alfabetização, em Ribáue, província de
Nampula. O seminário visava avaliar as experiências da educação de adultos, redefinir os objetivos e reafirmar o papel fundamental de alfabetização na Reconstrução Nacional. Os dois seminários tiveram como alvo central a reforma educacional e foram propostas mudanças socioculturais e políticas. A partir desses seminários, nasceram visões mais claras de uma concepção de currículo nacional impregnado da realidade moçambicana.
No interior das reformas operadas, as escolas foram definidas como instituições que produzem pessoas (cidadãos) revolucionárias, ciência ou conhecimento e difundem a política partidária. Elas tornaram-se, assim, instituições fundamentais da distribuição da nova cultura revolucionária e da socialização ideológica e política da Frelimo. Nos viés da Frelimo, as escolas tornaram-se agências de distribuição da cultura moçambicana e africana. Michael Apple (2006, p. 40) destaca que as escolas, como:
Instituições não são apenas um dos agentes da distribuição da cultura efetivamente dominante; entre outras instituições, e aqui algumas das interpretações econômicas podem parecer bastante potentes, ajudam a criar pessoas (...) que não vêem outra possibilidade séria ao contexto econômico e cultural existente.
O conhecimento distribuído resulta da construção sociocultural de caráter nacional, porém com tendência revolucionária. É uma cultura organizada para responder à aprendizagem dos alunos de pós-colonização. A Frelimo organizou um currículo nacional que não só lida com a prática escolar, mas também relata a importância histórica da luta de libertação nacional, descreve o papel dos heróis moçambicanos e das guerras de resistência contra o colonialismo. Assim, a Frelimo fazia uma ponte entre o currículo e o Estado enquanto um artefato cultural organizado para a escola para exercer o controle. Disse Apple (2006, p. 36), citando Bernestein e Young, que “a estruturação do conhecimento e do símbolo em nossas instituições de ensino está intimamente relacionada aos princípios de controle social e cultural de uma sociedade”. O currículo e os sujeitos situam-se no mesmo plano educacional. O conhecimento que se ensina, as relações sociais que dominam as práticas pedagógicas e a preservação, a distribuição cultural e econômica são produzidas pelos sujeitos em correlação com a escola.
As reformas educacionais configuram-se como forma de produzir e de distribuir o conhecimento, as relações sociais e a cultura. Assim aconteceu. Em reformas empreendidas pela Frelimo logo após a revolução priorizaram-se a preservação e a distribuição da cultura moçambicana. A Frelimo entendeu que as escolas são instituições legítimas e agentes de distribuição da cultura popular e elitista. Elas preservam o potencial cultural. A preservação e
a distribuição igual da cultura nacional significou a africanização da escola. A africanização da escola no contexto revolucionário é fundamentalmente a revitalização da cultura e da história dos africanos. Dentro desta perspectiva, a educação moçambicana organizada pela Frelimo teria a sua centralidade na reconstrução histórica e cultural dos próprios moçambicanos. No paradigma, educar, produzir e combater, a Frelimo assumiu a educação como instrumento de libertação, de formação, de produção e de distribuição da cultura nacional. Apple (2006, p. 37) diz: “as instituições de preservação e distribuição cultural, como escolas, criam e recriam formas de consciência que permitem a manutenção do controle social sem a necessidade de os grupos dominantes terem de aplicar os mecanismos abertos de dominação”.
Para a implantação efetiva do poder e o desenvolvimento do exercício de distribuição da cultura nacional, a Frelimo desenhou novas políticas educacionais e expatriou todos os professores portugueses e missionários suspeitos de terem colaborado com o aparato colonial. O expatriamento visava fazer um corte transversal com a administração colonial em todos os sentidos e implantar uma nova administração com quadros locais, independentemente da formação. Para suprir o déficit, o governo mobilizou as pessoas com 9ª, 10ª e 11ª classes concluídas e enquadrou-as nas instituições sociopolíticas do Estado, como se descreve a seguir. Essa estratégia serviu para o Estado eliminar todos os vestígios do colonialismo, desmontar o sistema de ensino colonial e construir novos valores, padrões e princípios voltados à moçambicanidade.
O conhecimento ministrado nas escolas passou a ser uma escolha feita a partir do universo cultural nacional. Dessa forma, a Frelimo não só pretendia reafirmar a idéia de reafricanização dos conteúdos escolares, mas também assumir o controle das instituições culturais, sociais e econômicas. Isto significava ajuste das políticas educacionais e implicava a reestruturação das instituições educacionais e a reformulação do contrato social que une os moçambicanos.
Assim, como se referiu no primeiro capítulo, em 1977, durante o III Congresso, o governo da Frelimo definiu o Plano Prospectivo Indicativo (PPI) como política base das instituições que veio a ser aplicado em 1980. Para o governo, o PPI era o motor do desenvolvimento socioeconômico nacional. O objetivo principal do PPI era eliminar o subdesenvolvimento em 10 anos e reafirmar as potencialidades de Moçambique. No âmbito do programa de desenvolvimento acelerado, foram criadas cooperativas, “machambas19 do
povo” e aldeias comunais. A eliminação do subdesenvolvimento significaria um passo gigantesco em direção ao socialismo consolidado.
O PPI foi lançado na perspectiva de um desenvolvimento econômico equilibrado para todo o país. Dentro do PPI, foram delineados macro-projetos industriais, como: têxtil de Mocuba, Têxt-África de Chimoio, Tex-Manta, Tex-Moque de Nampula, Texlon da Matola; têxtil do Bungue, fábricas de descaroçamento de algodão de Ribáue, de Namapa, de Cabo Delgado, do Niassa; fábrica de descaroçamento de castanha, em Monapo; distribuição da rede elétrica para todas as capitais provinciais e distritais. Entre os mega-projetos, destaca-se o do sistema nacional da educação que culminou com a reforma curricular, com a extensão da rede escolar e a criação de centros de formação de professores. No contexto da política do desenvolvimento, a educação deveria desempenhar grande papel na formação para a cidadania e para o trabalho, contribuindo para a eliminação da pobreza absoluta.
No quadro do PPI, a Frelimo encabeçou o Ministério da Educação (MINED) para conceber um sistema de educação com características modernas, mas que buscasse responder aos novos desafios do povo moçambicano. No Plano político da Frelimo, o desenvolvimento nacional deveria ser assegurado pela educação; criando mais escolas e maximizando as oportunidades; assim como mobilizando o povo a aproximar-se da ciência e da escola. O novo sistema nacional de educação deveria resolver os problemas de exclusão, a descontinuidade entre os diferentes níveis e cursos, proporcionar a formação profissional e consolidar a unidade e a identidade nacional. Em resposta à política do PPI, o MINED declarou a universalização da educação básica por meio da extensão da rede escolar e se comprometeu pela renovação mais profunda e séria dos conteúdos.
Em 1981, o MINED elaborou um documento que foi apresentado na 9ª sessão da Assembléia Popular que se tornou fundamento jurídico do Sistema Nacional de Educação (SNE) denominado Linhas Gerais do Sistema Nacional de Educação. O documento foi aprovado pela Lei 4/83, de 23 de Março de 1983 e constitui o suporte legal do Sistema educacional moçambicano. O documento Linhas Gerais do Sistema Nacional de Educação explicitava claramente os objetivos políticos, princípios pedagógicos e a estrutura do sistema de educação, embora tivesse sido mais supervalorizado o ensino do que o aprendizado.