3.5. Verı̇ Setı̇ ve Ampı̇rı̇k Bulgular
3.5.3. Granger Nedensellik Testi
Segundo Maingueneau (2010, p. 46), “todo texto implica certa autoralidade, e o modo de onde emerge o texto implica ele próprio essa forma de autoralidade”. De um ponto de vista mais generalizado, constatamos que a problemática ligada à noção de autoria remonta aos séculos XVII e XVIII. Durante esse período, entende-se por autor o sujeito que responde por seus escritos, geralmente por uma questão de defesa contra a censura. Além disso, tal noção, nesse contexto, está associada ao direito jurídico das obras assinadas, o que gerou um debate acalorado sobre os dois núcleos de beneficiários (econômica e juridicamente falando) da obra: autores e editores.
No âmbito da Literatura, segundo Santos & Oliveira (2001), até o século XIX, o autor ocupou o centro das atenções dos estudos literários. Instaurava-se, então, o biografismo, termo usado para caracterizar a investigação feita por muitos críticos literários dessa época. Eles acreditavam que a obra possuía uma verdade a ser desvendada por meio dos dados biográficos do autor. Pressupunha-se que havia uma maneira correta de ler determinada obra e que a vida do seu criador era o caminho adequado para essa leitura. Essa postura, como se pode ver, resulta da ideia de que a arte imita a vida.
Essa corrente foi severamente criticada, a partir do século XX, pelas correntes de cunho formalista. Originaram-se, assim, estudos voltados para as formas dos textos, seus aspectos internos, excluindo-se os dados externos à obra. O texto ganha, assim, autonomia, e a intenção do autor passa a significar apenas no espaço textual. Com isso, a investigação do texto literário passa a ser feita por meio de suas características imanentes. O ponto mais importante dessa corrente é a radicalização dessas ideias com o decreto da “morte do autor”. Tem-se, então, o imanentismo, em que o crítico literário busca a verdade do texto por meio de análises intrínsecas. Nesse caso, o autor passa a ser visto como um leitor qualquer, pois os sentidos do texto não precisam ter sido previstos ou desejados pelo autor; basta serem explicitados pela estrutura da obra.
Podemos depreender da exposição dessas duas correntes que o autor não era tratado, até então, como elemento discursivo. No âmbito da análise do discurso, Maingueneau (2010) chega mesmo a dizer que, embora Foucault tivesse apresentado na década de 1960, a questão O que é um autor?, boa parte dos analistas do discurso, pelo menos na França, evitou- a durante um bom tempo.
O pesquisador retoma, então, a noção de autoria e afirma que ela deveria ser uma questão central na análise do discurso, já que é indissociável da noção de texto. Na realidade, Maingueneau (2010, p. 26) considera-a como uma noção híbrida por ter implicações simultâneas tanto no texto como no mundo do qual o texto faz parte. Trata-se de uma instância enunciativa que possui atributos de um éthos e de alguns gêneros discursivos particulares, como os prefácios, mas que requer também um estatuto social, historicamente variável.
O teórico francês problematiza duas concepções de autor. A primeira implica, antes de tudo, um estatuto social. Trata-se de casos em que a palavra “autor” é acompanhada de um complemento de nome, como em “o autor do manual”. Na outra acepção, a categoria “autor” é vista como um sujeito que deu a seu texto uma marca própria que a distingue, portanto, dos enunciados cotidianos. Assim, “os verdadeiros autores” seriam criadores originais. Após essa problematização, Maingueneau apresenta sua proposta: estudar a autoria com base nas imagens do autor, respeitando, portanto, a sua instância híbrida: a de enunciador do texto e a de indivíduo de carne e osso, o que se mostra compatível com a nova noção de éthos assumida por ele, em trabalhos mais recentes, que prevê uma vertente pré-discursiva ou prévia, ao lado de uma vertente propriamente discursiva.
Em função disso, a autoria será estudada, neste trabalho, sob dois aspectos: a noção de éthos discursivo e o estatuto social do sujeito. Isso para que seja possível chegar a uma verificação das três dimensões de autor propostas pelo teórico francês, o que caracterizará, portanto, a posição de Maria Bethânia frente a suas canções-poemas: autor responsável, autor-ator ou auctor.
De acordo com Maingueneau (2010, p. 30), o autor-responsável é a “instância de um estatuto historicamente variável que responde por um texto”, valendo para qualquer gênero de discurso. Já o autor-ator é a dimensão que, “organizando sua existência em torno da atividade de produção de textos, deve gerir uma trajetória, uma carreira”. Por fim, auctor é o termo usado para designar o autor “enquanto correlato de uma obra”, sendo que “uma obra, um Opus é, com efeito, tido como algo que ‘exprime’ a personalidade singular de seu autor” (MAINGUENEAU, 2010, p. 33).
Outro ponto relevante dos estudos de Maingueneau que converge com a questão da autoria, mais particularmente no tocante à noção de éthos, encontra-se no seguinte excerto: “Em literatura, porém, de maneira diferente do que ocorre em medicina, não existe diploma reconhecido que confere o direito à palavra. Para determinar quem tem o direito de enunciar,
cada posição define em suas dimensões o que um autor legítimo é” (MAINGUENEAU, 2001,
p. 77). Se entendermos que cada “posição” insere-se numa dada formação discursiva/ideológica, vemos que o enunciador da canção-poema pode realmente possuir dimensões autorais.
Assim, acreditamos que a análise do éthos da intérprete e, correlativamente, a do estilo das canções-poemas, direcionará este trabalho para a questão da autoria (ou da autoralidade, como prefere Maingueneau). Teremos, assim, percorrido uma parte da problematização da autoria das canções-poemas. Entretanto, como se viu, para que Maria Bethânia seja caracterizada como auctora faltará a dimensão social. Inicialmente, pensamos que o fato de a intérprete colocar-se entre a canção e o poema implica que “a terceira instância que consagra a qualidade de um texto” (como professores e críticos) possa não perceber o caráter de autoralidade que as canções-poemas suscitam.