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Ao longo do texto mencionamos transversalmente o que agora será discutido, a visão de igualdade presente no discurso dos/as adeptos/as do terreiro Tata do Axé.

Mãe Renilda diz que a visão do candomblé é uma visão da igualdade, argumenta que Olodumare, desde a criação do mundo, deixou clara essa lição na distribuição das funções entre os orixás.

[...] veja que quando a gente começa a observar, quando Olodumare cria o mundo ele já quebra todas as diferenças, ele quebra toda a individualidade, quebra toda centralização, porque ele já disse “eu sou Olodumare que criou o mundo, mas sozinho não posso fazer nada, só junto com vocês que são orixás, cada um vai ter sua superioridade [...] cada um tem sua função de cuidar de uma parte”. Mas ele não disse a um orixá que ele sozinho ia cuidar de tudo no mundo, não, por isso que eu digo que o trabalho coletivo pertence aos orixás, porque Olodumare determinou que cada um tem sua função e depois juntam-se todos nas águas de Oxalá para prestar contas de tudo.210

A ialorixá diz que no espaço religioso do barracão não há tratamento diferenciado em relação à distinção de classes sociais, os filhos de santo pertencem às mais variadas camadas sociais e conta que isso lhe causa transtornos porque, segundo a sacerdotisa se faz compreender, essa prática “incomum” causa estranheza entre algumas pessoas que gostariam de ser tratadas com algum destaque e saem do terreiro desgostosas pelo tratamento indiferenciado. Para ela, “[...] tanto faz um varredor de rua, catador de lixo, como aquela pessoa que chega aí num carro importado. Em muitas ocasiões muitos não gostam do nosso

209 Entrevista concedida por Mãe Renilda em 22/07/2010 – grifo da entrevistada. 210 Entrevista concedida por Mãe Renilda em 16/01/2011.

terreiro porque nós quebramos essa diferença, fazemos isso aí.”211

Pode haver uma incoerência na questão de classe – em função da influência econômica predominante na sociedade e que, certamente, chega aos terreiros.

[...] é justamente a religião da igualdade e como é que a gente vai fazer essa separação, porque quem lava a louça é a mulher, quem cozinha é a mulher, quem lava a roupa é a mulher, quem depena a galinha é a mulher. Não, depena a galinha homem, depena a galinha mulher, lava a roupa homem e lava a roupa mulher, cozinha homem e cozinha mulher. Então, o nosso terreiro tem isso. Agora, na hora do sagrado, aí nós temos as restrições, aí a parte do homem é do homem e a da mulher é da mulher, mas no geral do barracão, todos iguais.212

Parece haver um hiato entre a tradição religiosa – de divisão de tarefas – e as “novas” informações adquiridas com os movimentos sociais. Aparentemente há uma tentativa, por parte da ialorixá, de conciliar as teorias feministas com o saber religioso. Há sim, dificuldades de conciliar tais conhecimentos, mas a tentativa de harmonização é evidente.

Associada à “prática” da igualdade está presente à ideia de coletividade, que é constantemente ressaltada no terreiro: “[...] é uma religião que você não segue um preceito só, é uma casa inteira que segue com você. Então você tem aquela coisa de não estar sozinha, mas que está tudo se preparando juntamente com você.”213

De acordo com Carvalho (2005, p. 10 apud GONÇALVES e OLIVEIRA, 2010, p. 27), “as religiões africanas, das quais herdamos o candomblé, inserem-se em outra visão de mundo distinta da visão ocidental, ou seja, é anti-egóica ou contra-egóica. A devoção à comunidade é generalizada”. Esse discurso faz parte do processo de reafricanização do candomblé.

Por conta dessa vinculação – ou seja, por causa da sua continuidade com a tradição cultural africana – essas religiões seriam, em maior ou menor grau, portadoras de valores positivamente diferentes: mais coletivos, mais igualitários em relação às questões de gênero, mais respeitosos em relação aos mais velhos e mais ecológicos, entre outros atributos. São esses valores, apresentados como “herança” da origem africana, que são acionados no processo de construção/afirmação do candomblé (GONÇALVES e OLIVEIRA, 2010p. 16 – grifos dos autores).

Apesar de estar sendo atrelado a elementos positivos, averígua-se que existe no candomblé praticado no Ilê Tata do Axé, tensões entre o conhecimento adquirido fora do terreiro e os preceitos da religião. O que se percebe, são tentativas de conciliar os conhecimentos da militância com o saber da religião, procurando, entretanto, resguardar a

211 Entrevista concedida por Mãe Renilda em 13/06/2010. 212 Entrevista concedida por Mãe Renilda em 16/09/2010. 213 Entrevista concedida por Tânia em 16/02/2011.

imagem do candomblé como uma religião tradicional. Isso se configura para as religiosas como um desafio que, às vezes, é alcançado no discurso, mas ainda não se concretizou totalmente na prática.

A respeito deste aspecto, ou seja, a imagem do candomblé como religião tradicional, cumpre que façamos algumas considerações. Comecemos pelas expressões utilizadas pelas adeptas para referirem-se à sua religião: “religiões de matriz africana” ou simplesmente “matriz africana”. Atentamos que por trás dessa denominação, diferente do que nos habituamos a chamar de religiões afro-brasileiras, existe uma razão que é a busca por legitimidade e que está atrelada ao processo de reafricanização do candomblé, já aludido por nós em capítulos precedentes. “A denominação ‘de matriz africana’ agora preferida em detrimento do antigo termo ‘afro-brasileiro’ parece ter como objetivo destacar essa vinculação direta entre a origem [matriz] e a contemporaneidade dessas religiões” (GONÇALVES e OLIVEIRA, 2010, p. 28 – grifo dos autores).

O Manifesto Contra o Sincretismo, do qual falamos no capítulo 2, no fundo, segundo os autores citados, não foi exatamente uma negação da religião católica e suas influências, mas uma negação da posição de subalternidade ocupada pelo candomblé e que o ligava à magia. Assim, o alvo principal do movimento de dessincretização não é a religião católica, mas as formas sincréticas dentro do campo afro-brasileiro que inclui a umbanda, jurema, candomblé de caboclo, omolocô, entre outras. Essas denominações, diferentemente do candomblé, introduziram elementos oriundos de outros universos religiosos, o que acarretou, de acordo com os candomblecistas, uma degradação da tradição. Cremos que, hoje, a não identificação do candomblé com as outras denominações das religiões afro-brasileiras, não está atrelada simplesmente ao fato de estas serem sincréticas, mas sim por serem vistas como mais próximas da magia, da feitiçaria e da falta de identidade africana (GONÇALVES e OLIVEIRA, 2010).

Dessa maneira, ao ser identificado como religião de matriz africana, o candomblé busca um retorno à África, à tradição, diferenciando-se das demais denominações afro- brasileiras. Consideramos que é um processo de ressignificação onde as escolhas – agora ampliadas pelo contato com instituições externas à religião – são tomadas no sentido de afirmar e dar visibilidade a certos conteúdos e valores e também ocultar ou sublimar outros. Como nos fazem perceber os autores citados, a proposta é separar o que é considerado religião do que não é, algumas são consideradas legítimas e outras não. É essa legitimidade que os adeptos do candomblé vêm buscando.

Atrelado ao discurso da tradição e toda positividade que ele sugere, vimos que está incluído o respeito aos idosos como uma das marcas diacríticas do candomblé. A tentativa de conciliação entre temas feministas e religiosos destaca-se quando a sacerdotisa fala desse tratamento de respeito e prestígio dado às pessoas mais velhas.