2.3. ÜCRETLERİN VERGİLENDİRİLMESİ
2.3.1. Ücretlerin Vergilendirilme Yöntemleri
2.3.1.1. Gerçek Usule Tabi Ücretlerin Vergilendirilmesi
Na noite de 21 de junho de 1980, o Teatro União e Olho Vivo subia ao palco para mais uma encenação de Bumba, meu queixada297. Seria uma apresentação rotineira, se não fosse o lançamento da publicação do texto teatral, em forma de livro com o mesmo título da peça. Em tom convidativo, o jornal O Estado de São Paulo publicava a seguinte matéria:
O lançamento da primeira edição de “Bumba, meu Queixada” de César Vieira, hoje às 20 horas no Teatro Oficina, será acompanhado da apresentação da própria peça que dá nome ao livro que, desde o início do ano, vem sendo encenada em igrejas, praças e sociedades amigos de bairro na Zona Leste de São Paulo.298
O evento ocorreu no Teatro Oficina, mesclando teatro e literatura: o público pôde, ao mesmo tempo, conhecer a obra impressa e assistir à peça Bumba, meu
queixada. O livro, composto por onze capítulos, foi publicado pela editora Graffiti, de
São Paulo, constituindo-se no primeiro número da Coleção Teatro Popular, que tinha Augusto Boal, Elza Lobo, Ilka Marinho Zanotto, Dulce Muniz, Gianfrancesco Guarnieri e Carlos Queiroz Telles no conselho consultivo e César Vieira como coordenador.299
Com base nas temáticas afins, consideramos coerente dividi-lo em cinco partes e ou momentos, começando por um breve histórico do grupo “Teatro União e Olho Vivo: 11 anos”. Nesse item é descrita resumidamente a trajetória do grupo até aquele momento, destacando três trabalhos realizados anteriormente a Bumba, meu queixada:
Rei Momo, Império Brasílico e Apito de fábrica. No texto constam também informações
sobre os locais de encenação privilegiados pelo TUOV.
Em seguida, na “Introdução ao trabalho coletivo de Bumba, meu Queixada”, são apresentados dados sobre o processo de elaboração da peça e os temas do enredo. Esse tópico contém o cronograma das atividades realizadas durante a produção do
297
VIEIRA, César. Bumba, meu queixada. São Paulo: Graffiti, 1980.
298O Estado de São Paulo, 21/06/1980. 299Idem, ibidem, p. 4.
espetáculo, o modelo da ficha dramática confeccionada pelo grupo, o quadro de personagens, o elenco e a data da estréia.
Após essas informações, o leitor entra em contato com o texto da peça. Fica evidente que os envolvidos no projeto editorial dessa publicação tinham interesse que o leitor conhecesse um pouco da história do grupo e da peça antes de ter acesso à dramaturgia. Nessa terceira parte constam as indicações de cada cena com o respectivo título, impressas em negrito como forma de sinalizar o início e o fim de cada quadro. As páginas dessa seção reúnem também as letras das músicas e as rubricas, escritas em itálico, assinalando as intenções do autor e orientando para uma possível montagem.
O historiador Roger Chartier analisa o uso desse recurso na publicação das peças de Molière, explicando que ele “permitia que parte da encenação passasse para dentro dos limites do texto impresso: as indicações cênicas faziam com que os leitores imaginassem as entradas e saídas, os movimentos, enfim, a interpretação dos atores.”300 Dessa forma, o leitor de Bumba, meu queixada, ao entrar em contato com o enredo da peça, também pode contemplar indícios da encenação.
Ao término do texto da peça, o TUOV registra a bibliografia consultada. Em seguida, sob o título “Algumas opiniões sobre o trabalho de Bumba, meu Queixada”, há vinte e dois trechos de críticas e comentários sobre o espetáculo e o grupo.
O último tópico do livro oferece informações para contato com o grupo: “Como acertar a ida de Bumba, meu Queixada à sua comunidade”. Inicialmente são apresentadas as exigência mínimas para a realização do espetáculo:
a) - Local apropriado para apresentação b) - Publicidade no bairro
c) - Preço do ingresso igual a uma passagem de ônibus.
d) - Lanche para o grupo: 18 pessoas – (sanduíche e tubaína).301
Além disso, O TUOV estabelece um número mínimo de quatro apresentações, sempre seguidas de debates. Só após esses requisitos, são informados local, dia e horário para que os interessados procurem o grupo para contratar o seu serviço. O texto explicita que as condições colocadas anteriormente dizem respeito apenas à promoção de “espetáculos populares”; para um “público convencional de teatro”, as condições são
300
CHARTIER, Roger. Do palco à página: publicar teatro e ler romances na época moderna (séculos XVI – XVIII). Rio de Janeiro: Casa da Palavra , 2002, p. 54.
301
outras: seria cobrado um valor que contribuísse com a manutenção do trabalho do grupo nos bairros.
O livro traz ainda vários dados que possibilitam ao leitor compreender os objetivos do grupo, os temas abordados no enredo da peça, sua elaboração e, caso haja interesse, como fazer contato para negociar uma possível encenação do texto lido. Tomando como referência essas informações presentes na publicação, avaliamos que a publicação Bumba, meu queixada tinha a função de divulgar o próprio espetáculo, bem como as atividades do Teatro União e Olho Vivo, pois a obra foi lançada no período em que a companhia circulava com seu espetáculo por diversos locais.
A indisponibilidade de informações sobre outros locais de venda da obra dificulta mapear os lugares por onde ela circulou, mas o evento no Teatro Oficina é um indício de que tanto o livro quanto a encenação da peça atingiram um público de classe média, formado por intelectuais, profissionais liberais e estudantes que freqüentavam essa casa de espetáculo, uma platéia diferente daquelas que assistiam ao espetáculo nos bairros periféricos de São Paulo.
Com a obra impressa, ampliaram-se as chances de o grupo conquistar um outro público, o leitor, que pode ter ou não assistido ao espetáculo na periferia da cidade ou em ambiente comercial de teatro. Constatamos que, nas duas modalidades (encenada e publicada), a peça produziu no mínimo três públicos distintos: um que acompanha o trabalho cênico, um que literalmente pratica a leitura do texto e outro que soma as duas experiências.
Dito isso, é importante considerar as contribuições de Roger Chartier sobre a historicidade da leitura. Para ele, os modos de ler não são homogêneos entre indivíduos de um mesmo grupo e nem de uma mesma época, pois a maneira de ler, seja individualmente ou coletivamente, em silêncio ou em voz alta, implica modos diferentes de compreender o texto.302
Levando em conta a historicidade individual do leitor e do espectador e as formas como cada um entrou em contato com a peça, é possível inferir que Bumba, meu
queixada foi lida e compreendida de modos distintos e múltiplos, por públicos também
distintos.
302
3.2 A materialidade de Bumba, meu queixada e sua aproximação com o cordel