3.1. BİRİNCİ BÖLÜM: HAYALÎ ZAMANLAR
3.1.4. Gerçek Beni Öldürmek
O dispositivo da conversação utilizado como metodologia de pesquisa em Psicanálise e educação tem na “associação livre coletivizada” o ponto forte de sustentação, na medida em que permite que o objeto de estudo seja analisado a partir de uma multiplicidade ou proliferação de significantes, já que acontece em grupo. Ao mesmo tempo, a consideração da palavra como a expressão de um saber inacabado nos remete a um sujeito que “diz sempre mais do que sabe” (LACAN, 1985, p.161). Assim, não se busca um saber fixado do sujeito, organizado pelo simbólico ou preso ao significante dado pelo Outro.
Trata-se de uma tentativa de localizar os pontos de condensação do mal-estar na cultura atual, porque abre as possibilidades para cada membro do grupo
questionar esses pontos. É uma modalidade de investigação que, para além da busca de informações, propõe uma intervenção no campo pesquisado.
Esse dispositivo visa tocar o ponto de real do sujeito, deixando emergir mais do que a ficção de cada um, buscando o sem-sentido que provoca surpresa. O pesquisador encontra no produto do que se opera a partir dos mal-entendidos da linguagem, nesses pontos em que aparecem os tropeços e o inédito, o material que será submetido à análise. Não se trata, pois, de uma análise do conteúdo das falas dos sujeitos, baseadas em uma interpretação da cadeia de significantes e significados, das metáforas e das metonímias; por fim, tem os efeitos de sentido
do que se fala. Além do mais, trata-se de buscar o movimento dos sujeitos em direção ao registro do impossível: “como dizer o que é da ordem do indizível, mas cuja imagem quero fazer surgir?” (LACAN, 2005, p.180). Na expressão do mal-estar brota o inconsciente, que expressa o conflito intra-psíquico.
O Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em Psicanálise e Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (NIPSE/FAE/UFMG), dentro dos seus objetivos de promover estudos e investigação psicanalíticos em temas concernentes a inserção da criança na educação, desenvolveu, no primeiro semestre de 2006, 10 debates sobre a metodologia da conversação e finalizou com uma conversação dos participantes do NIPSE com o psicanalista Phillipe Lacadée, sob a coordenação da professora Ana Lydia Santiago. Podemos extrair desses estudos alguns apontamentos sobre a aplicação do dispositivo da
conversação como metodologia de pesquisa em psicanálise e educação:
• A conversação como oferta de palavra.
• Para a psicanálise toda oferta gera demanda.
• A aposta na conversação tem como princípio abrir possibilidades para interrogar os discursos já prontos, ou seja, questionar as máximas impostas pela cultura em vez de concordar com a nomeação dada pelo Outro — problematização.
• Ter como princípio atender a urgência do trabalho de pesquisa/intervenção sobre os grupos de risco da sociedade atual.
Consideram-se ainda, alguns pontos na organização dos grupos de conversação como orientação metodológica, tais como:
• Não há uma determinação prévia que diz aonde se quer chegar com tal procedimento.
• Propõe a interação não entre os participantes do grupo, mas entre o que é expresso pelo discurso.
• Não apresenta soluções para os problemas.
• É importante haver uma hipótese como ponto de partida, mas o essencial é dar a palavra aos participantes e, a partir daí, tomá-la como material de análise.
• O número de reuniões é predeterminado.
• É importante estar atentos às surpresas e ao mal-estar que se produz nas conversações, pois ali é que se dá a emergência do real e a possibilidade do novo.
Conseqüentemente, a metodologia da conversação foi o dispositivo privilegiado nesta pesquisa, dada a proeminência de alguns aspectos:
• Tratava-se de uma pesquisa de campo em cuja escola os educadores já vivenciavam a prática dos grupos de conversação e adotaram seus critérios como modalidade de intervenção sobre os problemas com os alunos.
• O objeto de pesquisa — o mal-estar do professor frente à “criança-problema” — versava sobre um conteúdo inscrito na cultura escolar com insistência duradoura, o que nos levou a considerar a terminologia “criança-problema” como uma verdade passível de ser questionada.
• Em grupo, os professores poderiam encontrar espaço mais favorável para falar dos problemas oriundos de sua prática, já que estariam em pares.
• A população à qual se destinavam as nossas investigações incluía os professores de crianças segregadas socialmente. Nesse contexto, a conversação, em sua dimensão política, criaria espaço para que os laços sociais fossem refeitos.
• A psicanálise teria uma versão aplicada, isto é, faria a oferta de palavra aos professores em um espaço fora dos consultórios.
O quadro-resumo abaixo apresentado visa organizar uma síntese da metodologia da Conversação aplicada na escuta do mal-estar dos professores desta pesquisa:
QUADRO-RESUMO
A oferta de palavra e a expressão do mal-estar dos professores Princípios da Conversação A Conversação na pesquisa com os professores Abrir possibilidades para interrogar os
discursos já prontos: questionar as máximas impostas pela cultura; problematizar a nomeação dada pelo
Outro.
“Criança-problema”?
Tema reincidente na cultura escolar e produtor de mal-estar docente. O operador-psicanalista faz a oferta de
palavra em um tempo pré-determinado.
Dez reuniões para que os professores expressassem o mal-estar frente à “criança-
problema”. O desejo, da ordem do particular, orienta
a participação no grupo.
Nove professores se dispuseram a participar do grupo de pesquisa.
Em grupo, um significante chama outro e toca cada um no coletivo: associação
livre coletivizada.
Entre professores, e na presença do analista, aumentaria a confrontação25 dos dizeres e a
chance de emergência do particular. O espaço vazio da palavra produz a
expressão de pontos de condensação do mal-estar na cultura.
Os interstícios da palavra possibilitariam o surgimento do que contorna o real para o sujeito – tomado como material de análise. Não se tem um a priori: efeitos de saber
produzem algo inédito para o sujeito.
O que os professores poderiam construir nas Conversações?
Esta pesquisa de mestrado se originou de um “Projeto interdisciplinar e interinstitucional sobre a Criança e o Adolescente”, que existia desde 2003, numa parceria do Centro de Saúde Nossa Senhora de Fátima e a Escola Municipal Senador Levindo Coelho. Ambas as instituições se localizam no bairro Serra, da Administração Regional Centro-Sul da cidade de Belo
25 Para Lacan (1998a) a confrontação é um procedimento de intervenção diferente da interpretação. Sem apontar
para o fantasma do sujeito, a confrontação seria “uma formulação articulada para levar o sujeito a ter uma visão (insight) de uma de suas condutas (...) possa receber um nome totalmente diferente, como confrontação, por exemplo, nem que seja a do sujeito com seu próprio dizer, sem merecer o de interpretação, simplesmente por ser um dizer esclarecedor” (LACAN, 1998a, p. 598).
Horizonte. O “Aglomerado da Serra”, como é conhecida a região de alto risco do bairro, engloba cinco vilas, onde moram as crianças e os adolescentes que freqüentam essa escola e o centro de saúde. O “aglomerado” é notório na cidade porque é uma das regiões mais pobres e violentas, cenário propício para lutas entre gangues do tráfico, para o abuso sexual e para o surgimento de doenças infecto-contagiosas. A miséria habitacional, o envolvimento de crianças e adolescentes com o uso e o tráfico de drogas, a gravidez na adolescência, a desnutrição infantil, as “dificuldades escolares” e o encaminhamento massivo de crianças para a saúde mental, também caracterizam o lugar.
Diante das situações elencadas pelo Programa Bolsa-Escola, como situações de alto risco de sobrevivência e alta vulnerabilidade da população, o “Projeto de Crianças e Adolescentes” surgiu como uma tentativa de amenizar os efeitos destrutivos sobre essa população marginalizada, segregada e espoliada socialmente. No que se refere à participação da saúde mental, era instigante interrogar sobre o que se passava na relação daquelas crianças com a escola que gerava tanto mal-estar, desaguando numa persistente demanda de atendimento psicológico no centro de saúde. Parceria firmada, após um ano de trabalho
conjunto, alguns efeitos já se anunciavam na escola, entre eles, a disponibilidade dos professores de consolidar o espaço para as conversações, momento em que tinham oportunidade de debater os problemas encontrados em sua prática docente.
No final de 2004 o mestrado da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais aceitou nosso projeto de pesquisa “O mal-estar do professor
frente à “criança-problema”. Em seguida, apresentamos a proposta de pesquisa
à Gestão de Educação da Administração Regional Centro-Sul, da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, que aceitou também. Logo depois convidamos os professores da Escola Municipal Senador Levindo Coelho para participarem da pesquisa.
Esclarecemos o tema da pesquisa em 10 reuniões, com horário e local
predefinidos. Optamos pela realização das reuniões no Centro de Saúde Nossa Senhora de Fátima, em um horário que não coincidisse com o tempo de trabalho das professoras naquela escola. Pretendíamos, dessa maneira, atenuar possíveis problemas que pudessem obstruir o desenrolar da pesquisa, por exemplo, a saída de professores durante as conversações para resolver problemas da escola.
Inicialmente 24 professores se inscreveram, mas nove permaneceram durante a pesquisa: uma professora desistiu após a primeira reunião e uma outra solicitou permissão para participar.
Entendemos que a presença dos professores às reuniões estaria ligada ao seu desejo de saber mais sobre o mal-estar dos professores diante dos alunos considerados problemáticos, portanto, encontrar saídas que atenuassem o exercício de sua prática docente. É relevante levar em conta que o horário das reuniões tinha sido estabelecido antecipadamente pelo pesquisador.
Coincidências de tempo e disponibilidade decidiram a participação somente dos que trabalhavam no turno da tarde, embora o convite estivesse aberto a todos. Utilizamos em um primeiro tempo, três meses antes da primeira conversação, um questionário com três questões para os professores:
• Série e turno de atuação.
• Formação profissional e tempo de magistério.
• Pense no seu “caso mais difícil”. Por que ele é difícil?
Com esse recurso, pretendíamos traçar o perfil dos professores participantes e preparar o campo de investigação, provocando um aquecimento do tema. Vinte e um professores responderam ao questionário, cuja terceira questão compôs o material de análise dos resultados desta pesquisa. Podemos considerar os possíveis efeitos advindos da primeira inserção junto aos sujeitos da pesquisa, como um assentamento seletivo, já que dos 21 professores que responderam ao questionário, somente nove se mantiveram integrados à pesquisa.
Na primeira conversação foi estabelecido um cronograma participativo no qual se previa a realização de 10 reuniões no período de três meses. Optou-se por um cronograma predeterminado para que as pessoas pudessem se programar com antecedência. O horário foi reafirmado para as segundas-feiras, às 17:45, logo após o término das aulas, no Centro de Saúde Nossa Senhora de Fátima, localizado a um quarteirão da escola em que os professores trabalhavam.
Ainda que nem todos os professores estivessem presentes a todas as reuniões, as conversações mantiveram-se fiéis aos princípios que os nortearam: fazer o
professor falar sobre o seu mal-estar frente à “criança-problema”.
Fizemos a devolução do material investigado em duas ocasiões, em que os professores puderam confrontar suas declarações:
• Na terceira reunião da pesquisa, após caracterização dos “casos difíceis” e das “crianças-problema”, levantadas anteriormente pelos professores a partir da demanda do pesquisador.
• Em conferência na Escola Brasileira de Psicanálise, realizada no dia 20 de setembro de 2006, quando foi apresentada a pesquisa de mestrado, ainda em andamento, sobre o
Mal-estar do professor frente à “criança-problema”. Todos os professores da
pesquisa foram convidados. Compareceram três, que participaram ativamente dos debates, dando depoimentos favoráveis ao seu envolvimento nas investigações. Estiveram presentes, ainda, três profissionais que ocupam cargos de gestão junto à Administração Pública Educacional da Regional Centro-Sul de Belo Horizonte, onde se localiza a escola em que se deram as investigações.
CAPÍTULO 4
A “CRIANÇA-PROBLEMA” E O MAL-ESTAR DO PROFESSOR
Este é um momento privilegiado da pesquisa porque permitiu que, na análise do material levantado, novas perspectivas se abrissem na prática de ensino com as “crianças-problema”. Durante análise dos resultados, foi possível estabelecer
uma conexão entre os dois núcleos que compõem nosso objeto de estudo: a “criança-problema” e o mal-estar do professor, que em algumas ocasiões foi desmembrada para que se afilasse a investigação.