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No ano de 1875, a “Província” publicou dez textos na “Secção Scientifica” favoráveis à Teoria da Evolução e um com enquadramento ligeiramente desfavorável, criando agenda receptiva às teorias de Darwin. Ao explorar traduções e textos publicados em outros periódi- cos em tons partidários, evidencia sua escolha editorial. Isso torna explícito o posicionamento do jornal quanto ao tema: de acordo com as ideias darwinistas.
Tendo o primeiro texto sobre a Teoria da Evolução sido publicado apenas quatro me- ses após a inauguração do jornal, nota-se que o assunto foi considerado relevante por seus editores desde a criação da “Secção Scientifica” e da criação do próprio veículo.
Os espaços reservados para o tema também são de destaque. A média de tamanho dos textos é de duas colunas inteiras (240 linhas em média). Eles foram publicados majoritaria- mente na primeira página do jornal, com seis textos inteiramente na página um, dois que se iniciaram na primeira página e terminaram na segunda e apenas três publicações inteiras na página dois. Nenhum artigo sobre esta controvérsia foi publicado nas páginas três e quatro.
A primeira publicação, datada de 24 de abril de 1875 com o título “Conferências sobre o darwinismo”, apresenta série de palestras de Augusto Cesar de Miranda Azevedo, no Rio de Janeiro, que objetivava “tornar conhecidas as doutrinas do celebre Darwin” (A PROVÍNCIA, ed. 84, 1875, p. 2).
Figura 44. Reprodução da publicação de 21/04/1875 Fonte: A Província de São Paulo – ed. 84
Com entusiasmo, redator valoriza a nova doutrina e seus proeminentes autores. Deixa claro, em parágrafo seguinte, que a intenção da teoria não é ser antirreligiosa ou subversiva. O que estaria retardando maior difusão da teoria seriam objeções à ideia de que o homem des- cende do macaco – questão que grupos influentes estariam combatendo arduamente.
A theoria genealogica que sustenta a derivação de todos os organismos de um pequeno numero de typos antepassados, excessivamente simplices e transformados por uma evolução gradativa. Assim, exclue a hypothese das creações simultaneas segundo as cosmogenias ordinarias e a concepção theologica da natureza, e substitue por uma ex- plicação do genese monastico a existencia fatal. Resume-se nas leis seguintes: Luta pela existência - Variabilidade das especies – Hereditariedade – Selecção natural. (A
PROVÍNCIA, ed. 84, 1875, p. 2,)
A paleontologia, ciência recente para a época segundo o próprio jornal, seria uma das bases de sustentação do Darwinismo – e foi fundada por Cuvier, um dos maiores opositores de Darwin. Antes, pouco se podia falar sobre evolução. Aqueles que plantaram teorias que corroboraram com o Evolucionismo em sua fase inicial foram Goethe (sobre o osso interma-
xilar), Treviranus (explicação dos zoófitos), Oken (substância coloide primitiva), Schaaffhau- sen (descendência do homem dos animais pitecoides), Baer, Huxley, Mooker e Lamarck (filo- sofia zoológica).
A atuação de Cuvier também contribuiu para a demora na propaganda das ideias evo- lucionistas. Respeitado naturalista, representava um obstáculo na controvérsia que envolvia a teoria darwiniana. Na Inglaterra, Charles Lyell combatia as ideias de Cuvier na geologia e preparava a generalização da teoria evolutiva na botânica e zoologia. Outros opositores a Darwin uniram-se a Cuvier na contenda, como Agassiz e Linneu. Apesar de defender clara- mente um lado da controvérsia, texto apresenta os cientistas que estão em lados opostos.
O próprio Linneu teria demonstrado a lei da variabilidade, assegurando que a heredita- riedade era reconhecida por todos e especialmente pelos médicos. E a seleção natural das es- pécies, formulada por Darwin, era considerada a glória da doutrina genealógica evolutiva. Autor citou 17 fontes de maneira não recuperável – genérica e superficial – para amparar o Darwinismo, deixando, ao final, um apelo aos brasileiros que estudem e sigam a teoria.
Texto seguinte, datado de 29 de abril, segue a mesma linha editorial favorável ao Darwinismo. Retoma publicação anterior, contextualizando as conferências ministradas por Augusto Azevedo e realizadas na Escola de S. José, na corte. Segue desconstrução do posici- onamento de autores contrários às teorias de Darwin.
Sugere dificuldades e até erros na divisão de Linneu dos três reinos: vegetal, animal e mineral. Agassiz, na obra História natural dos Estados Unidos, mostra-se convencido da “unidade do Universo, referindo, porém, tudo ao Creador, por ser sectario das idéas dualistas e theologicas. Os darwinistas, porém, explicam tudo unicamente interpretando as leis da natu- reza sem procurar causas sobrenaturaes.” (A PROVÍNCIA, ed. 91, 1875, p. 1).
Como fundamentação, a Teoria da Evolução estaria amparada na anatomia e fisiologia comparadas, na teratologia e na embriologia. A teratologia explicaria racionalmente as modi- ficações que apraz ao homem através da alteração dos meios que o cerca em sua origem e sua vida. Também referencia a embriologia, através das conclusões de Baer e Pouchet sobre o óvulo ser a origem de todos os animais – “descoberta esta que o proprio Agassiz denominou a mais importante da historia natural e que, com as metamorphoses que a fecundação produz no ovulo, são valiosas provas em favor do darwinismo.” (A PROVÍNCIA, ed. 91, 1875, p. 1).
A luta pela existência, segundo o orador, é a aplicação da lei de Malthus, com relação ao crescimento das espécies para preservação da própria. Também sugere o banimento da palavra “morte”, afinal, os elementos que morrem em um ser revivem em outro pelas leis da circulação da matéria. Descreve a luta dos herbívoros contra os vegetais, dos carnívoros con-
tra os herbívoros e de todos contra “o mais cruel dos animaes – o homem” (A PROVÍNCIA, ed. 91, 1875, p. 1). A luta do homem é justificada pela mesma luta dos outros animais: a fome e o amor, na linguagem do poeta Schiller, que seriam os instintos de conservação e reprodu- ção na linguagem da ciência. Encerra sua conferência pedindo ao público que reflita sem pre- conceitos sobre as ideias darwinistas, recebendo aplausos ao final.
O terceiro e último texto da série foi publicado em 22 de maio de 1875. Inicia-se pelo posicionamento contrário da Igreja à doutrina darwinista. Orador esforça-se para dissociar o Darwinismo do campo da fé, afirmando que se trata de teoria científica e só pode ser discutida neste âmbito.
“As leis da adaptação, conservadora, progressiva e cumulativa, de acordo com os fac- tos naturaes, e auxiliadas pelo princípio da hereditariedade, explicam de maneira satisfactoria as transformações estudadas pela doutrina evolutiva.” (A PROVÍNCIA, ed. 110, 1875, p. 1). Reforça que a hereditariedade é percebida frequentemente por médicos ao tratar dos doentes, tanto para casos psicológicos quanto para teratológicos.
O texto indica que haveria mais palestras, porém, o jornal não as publica. Autor bus- cou exemplos nos reinos animal e vegetal para comprovar a cientificidade de seus argumentos a favor do Evolucionismo. Os exemplos figuram como observações fiéis do funcionamento das leis naturais e como prova da teoria de Darwin. Porém, tais citações não são facilmente recuperáveis pelo leitor, visto que não há indicação de obras de forma sistematizada. Não dei- xa espaço para argumentação contrária ao Darwinismo – nem mesmo quando cita o posicio- namento da Igreja sobre tal questão.
Concomitantemente a esta primeira série favorável ao Darwinismo, a “Província” pu- blica três traduções de textos de Girard de Rialle intituladas “O transformismo em linguísti- ca”. O objetivo dos textos é mostrar que a linguística e o transformismo se justificam e com- provam um ao outro cientificamente. O primeiro texto data de 16 de maio de 1875 e ocupa a metade da primeira página do jornal.
Para Rialle, a teoria de Darwin foi testada no estudo da linguística pelo professor Au- gusto Schleicher, cuja obra, publicada em 1860 porém escrita em 1859, comprova que ele nada sabia das teorias de Darwin (que também publicou em 1859) quando estudou e propôs seu ponto de vista sobre o assunto. Autor é preciso ao fazer referência de obra de Schleicher, tornando-a recuperável para qualquer leitor que queira aprofundar tal discussão. Nas páginas 43 e 44 de tal livro, Schleicher explica a luta pela existência.
As justificativas para relacionar as teorias de Darwin a este linguista são expostas pelo autor em seu livro Die Darwinsche Teoria: as línguas são organismos naturais que, indepen-
dentemente da vontade humana, nascem, crescem, desenvolvem-se, depois envelhecem e morrem. Seguem padrões do que se compreende como vida.
Max Muller combate essa posição e “manifesta-se energicamente contra a theoria de Darwin, particularmente na philosophia da linguagem.” (A PROVÍNCIA, ed. 105, 1875, p. 1,). O outro lado da controvérsia é exposto, numa tentativa de se fomentar o debate que envolve o tema. Rialle tenta descredenciar Muller da discussão científica ao apontar que este teria afir- mado que a própria linguagem nascera em dia de Pentecostes – o que o aproxima da religião e da metafísica e o afasta da ciência. Os protagonistas dessa discussão precisariam ser cientistas e Muller, com tal postura, não teria o crédito para ser ouvido.
Autor expõe tais posicionamentos de forma irônica, comparando seus pontos de vista a pensadores considerados por ele retrógrados. E finaliza: “Essas jocosidades de máu gosto fo- ram, de resto, respondidas como merecem por um linguista tão eminente como o sr. Max Muller, o americano sr. Whitney, que entretanto está longe de pertencer á eschola transformis- ta.” (A PROVÍNCIA, ed. 105, 1875, p. 1,). Whitney estaria credenciado para participar das discussões por ser cientista e estar dentro dos padrões positivos do método.
Whitney estuda os fenômenos intelectuais em animais, comparando-o ao estudo do in- telecto humano. O cão conhece o homem e não o confunde com outro animal. Isso dá margem a crer que há certa intelectualidade no animal. Whitney desconstrói a ideia de Muller de que não pode haver pensamento sem linguagem. Apenas pensamentos muito complexos resultari- am em linguagem.
Há nitidamente diferença de tratamento para argumentos que corroboram a tese de Darwin e aqueles que os contrariam. O ato de minimizar posições contrárias ou contra- argumentá-las é indicativo de parcialidade e de favorecimento de agenda mais próxima da Teoria da Evolução. Whitney, ao apresentar suas conclusões, não pôde se esquivar da “incluc- tável necessidade de aceitar, talvez sem o querer, a theoria transformista” (A PROVÍNCIA, ed. 105, 1875, p. 1). Porém, ele não vê como possível demonstrar cientificamente, a qualquer tempo, a existência de um antepassado comum entre homem e macaco. A esta contestação, Rialle cita Jorge Darwin20:
Não imagina elle como uma lingua, posto que incompleta, nasce de uma só geração de macacos antropoides. É certamente provavel que se passaram muitas gerações de qua- si-homens, que se serviram de um pequeno vocabulário de gritos convencionaes, e que taes gritos se foram tornando cada vez mais convencionaes, affastando-se cada vez mais dos sons ou exclamações de que se haviam originado. Muitas raizes se devem ter multiplicado por scisão, e produzido novas radicaes, que mais tarde e gradualmente se
devem ter apartado das suas onomatopéas originaes. (A PROVÍNCIA, ed. 105, 1875, p. 1)
Para Rialle, a origem das “quase-palavras” ocorreu em tempos primitivos como “mnemothecnica de suas significações.” A aprendizagem da criança é exemplo, pois associa mais fácil as palavras bé-carneiro e mu-vaca, para só depois chamá-los de carneiro e vaca. O cão é au-au. Isso pode ter acontecido com a infância das raças humanas. O desenvolvimento é longo, vagaroso e dificultoso. Mas os movimentos mais complexos só podem existir depois de várias etapas de processos mais fáceis.
O autor enfatiza, portanto, que a evolução linguística da humanidade é justificada e justifica a teoria de Darwin sobre o transformismo das espécies. Apesar de citar ilações a res- peito da evolução da linguagem, não apresenta o estado da arte destes estudos, valorizando mais as possíveis explicações e comprovações ligadas ao Evolucionismo de Darwin.
O segundo texto desta série foi publicado em 19 de maio do mesmo ano. O objetivo do texto é o mesmo do anterior. Para o autor, a linguagem não é inata ao homem, mas adquirida através da evolução. De acordo com a publicação Westminster, é ela quem dá ao homem a superioridade sobre as demais espécies animais. Ela culminou em outras evoluções, como “as artes de escrever e imprimir, o emprego do vapor e da electricidade, e ainda a álgebra e a construção de estradas, pois tudo isso contribuiu para converter a sagacidade excepcional de certas individualidades em propriedade comum de toda a raça e herança sua duradoura.” (A PROVÍNCIA, ed. 107, 1875, p. 2).
Autor questiona por que outros animais se mantiveram mudos diante da evolução do homem, como macacos, cães e elefantes? O homem, de todo o período que ocupa a terra, pas- sou a falar recentemente apenas. Rialle sustenta que, quando os cães passarem a falar daqui a vinte mil anos, os filósofos colocarão outras barreiras para separar o homem dos animais, co- mo a capacidade de imprimir, por exemplo, que não será dominada pelos cães.
Segundo o dr. Farrar, falta um poder generalizador aos selvagens, contradizendo o po- sicionamento do professor Max Muller. Entre a tribo que primeiro desenvolveu imperfeita forma de linguagem e os antropoides que não falavam, as diferenças eram pequenas. Porém, com a evolução, estas diferenças passaram a ser maiores e distantes: o ente humano passou suas faculdades a outros e pode desenvolver esta e outras habilidades, enquanto que os simia- nos não tiveram essas oportunidades. “Depois, a tribu humana, com seus meios aperfeiçoados de combinação, viu que podia eliminar os seus inferiores immediatos, que eram seus mais poderosos inimigos na lucta pela existencia.” (A PROVÍNCIA, ed. 107, 1875, p. 2).
Ele não ignora o prof. Broca, que é de corrente contrária a Darwin, sobre a “terceira circumvolução frontal do hemispherio esquerdo do cerebro considerada como a séde da fa- culdade da linguagem articulada.” (A PROVÍNCIA, ed. 107, 1875, p. 2). Eis que os estudiosos têm de recorrer à anatomia, que tem gerado poucos progressos em relação à antropologia. Nos manuscritos do dr. Bateman, foram encontrados fragmentos de uma carta de Carlos Vogt que explica a questão:
O cerebro do homem e dos macacos, especialmente dos macacos anthropomorphos (ourangs, chimpanzés, gorilhos) são construidos absolutamente sobre o mesmo typo, typo sui generis, e que é characterisado, entre outras cousas, pela fenda de Sylvius e pelo modo por que a ilha de Reil é formada e coberta; assim, no homem, a terceira cir- cumvolução frontal é extraordinariamente desenvolvida, ao passo que as circumvolu- ções transversaes e centraes são de muito menor importancia. No macaco, por outro lado, a terceira circumvolução frontal é muito pouco desenvolvida, ao passo que as circumvoluções transversaes e centraes tão muito consideráveis. (A PROVÍNCIA, ed. 107, 1875, p. 2).
Cita o exemplo dos microcéfalos, como o papagaio, que repete poucas palavras, mas não tem a capacidade de desenvolver uma linguagem ou raciocínio. Nestes, a circunvolução frontal é igual à dos macacos. É a única coisa que se salva, segundo Rialle, das brochuras do dr. Bateman, “cuja argumentação contra o darwinismo é deploravelmente fraca”. (A PRO- VÍNCIA, ed. 107, 1875, p. 2). Dos dois autores citados que se posicionam contra a Teoria da Evolução, autor destacou apenas trechos que são considerados partidários de Darwin, igno- rando todo o restante de suas obras e de suas justificativas para se contraporem ao transfor- mismo.
O terceiro e último texto desta série foi publicado no dia seguinte, 20 de maio, conten- do o mesmo perfil dos textos anteriores. Assim como antes, autor não retoma ou contextualiza a série que vem publicando.
Atribui o título de linguagem articulada à fala do homem, considerando a linguagem dos animais como não articulada. Exemplifica, citando a Westminster review, que os chefes bugios têm modo particular de se comunicar com seus subordinados, cuja linguagem é basea- da em entonações curiosamente variadas, como latidos rápidos e agudos, urros prolongados, gritos súbitos e até gestos são empregados e repetidos de uns para os outros.
O sr. Mortillet considera “o ente que arrebentava o sílex com o auxilio do fogo durante a epocha terciaria não como um homem, mas como um precursor do homem, entre de transi- ção entre o pithecoide antepassado do homem e os anthropomorphos.” (A PROVÍNCIA, ed. 107, 1875, p. 2).
Para Hovelacque, se a linguagem não veio ao homem sem causa, sem origem, deve-se então crer que se trata de resultado progressivo, produto do aperfeiçoamento orgânico. As teorias darwinianas também justificam a diversidade de línguas entre os povos. Se não se po- de achar uma língua materna única para a humanidade, pode-se comprovar que a seleção na- tural é responsável por reduzi-las a uma quantidade ainda grande, porém, com predominância daquelas vivas entre grupos mais fortes.
Lista os estágios da linguagem humana, começando pelo monossilábico, em que cada palavra é uma radical invariável e não há conjunção ou declinação. Este estado progrediu para o que se chama de sistema aglutinativo ou polissintético, que representa a maior parte das línguas. Às raízes invariáveis, juntam-se sufixos, prefixos e infixos que lhes variam o signifi- cado. O terceiro estado é o chamado de línguas de flexão, em que os radicais e sufixos e pre- fixos incorporam-se, modificam-se foneticamente e formam palavras.
Cada tronco de línguas cria árvores genealógicas e comprovam o que a teoria de Dar- win quer indicar para as espécies animais. Ferrière compara as leis do Transformismo e as leis da glótica, recebendo sólida confirmação dos estudos de Schleicher. Diminui a importância da linha argumentativa de Max Muller, contrária às investigações de Jorge Darwin: “Considera- ções tão extrascientificas, mas tão orthodoxas, são bem dignas de quem não receia escrever que a sciencia da linguagem foi constituida quando desceram linguas de fôgo sobre os aposto- los consagrados!” (A PROVÍNCIA, ed. 107, 1875, p. 2). Continua apresentando e ridiculari- zando a argumentação de Muller.
Na conclusão de seu texto, Rialle propõe que “nas controversias transformistas, parti- cularmente na que se refere á sciencia da linguagem, as idéas e observações do sr. Schleicher ainda não foram absolutamente combatidas com victoria da parte contraria.” (A PROVÍNCIA, ed. 107, 1875, p. 2). Para o autor, não parece possível que tal resultado venha a acontecer.
A última série tratada no ano de 1875, contendo cinco publicações, é tradução de rese- nha do livro de Oscar Schmidt intitulado “O transformismo na Alemanha”. O objetivo das publicações é valorizar a teoria evolucionista e diminuir posicionamentos religiosos contrá- rios.
Segundo a narrativa, a paleontologia e a embriogenia devem confirmar a Teoria da Evolução, indicando como é e como foram muitas espécies. Os naturalistas estão em chamas com as novidades e todos os dias surgem novos operários para contribuir ou tentar derrocar a teoria, evidenciando que o tema ainda é considerado uma controvérsia. Na Alemanha, em especial, o movimento tem sido mais considerável. Enquanto Von Baër e Kölliker tentam se opor, a grande maioria dos naturalistas está entusiasmada. Para o autor, “o movimento trans-
formista revolucionou profundamente as sciencias naturaes; transformou-lhes o aspecto e communicou-lhes um impulso como nunca tiveram depois de Linneu e Cuvier.” (A PROVÍN- CIA, ed. 182, 1875, p. 1).
O professor Oscar Schimidt publicou o livro Descendencia e Darwinismo com o pro- pósito de apresentar a teoria da descendência de Darwin. Seu livro é “muitissimo interessan- te” e merece ser estudado, afirma o texto.
O transformismo é hoje sustentado por uma legião de defensores: recebeu em algumas nações, a adhesão quasi unanime dos naturalistas que o tornaram mais que uma dou- trina scientifica: é hoje para elles um systema inteiro de philosophia, uma verdadeira religião que tem seu nome: o monismo. (A PROVÍNCIA, ed. 182,1875, p. 1).
Defende que o homem não foi criado no estado de perfeição em que se encontra con- temporaneamente. O que se vê é fruto de desenvolvimento gradual. Não há, pois, razão algu- ma para colocá-lo fora do reino animal, do qual ele representa o termo mais elevado. Os ani- mais e plantas de hoje são descendentes modificados de seus antepassados. As formas de vida em constante evolução estão se adaptando sempre às constantes mudanças do mundo ao seu redor: “as espécies actuais devem ter descendido das especies extinctas, por effeito de leis immutaveis e sem que tenha sido necessaria a intervenção pessoal de Deus, a intervenção de um milagre, sem que jámais tenha sido necessario um actor creador.” (A PROVÍNCIA, ed. 182, 1875, p. 1).
O segundo texto desta série é datado de 27 de agosto e não retoma argumentos anterio- res. Propõe analisar se o mundo natural demonstra que possa ter havido evolução das espé- cies, avaliando os dois lados da controvérsia. Há quatro divisões entre os animais estabeleci- das por Cuvier e Von Baër, o que favorece a ideia da fixidez das espécies. Desta teoria, pode- se, no máximo, supor que os animais do mesmo tipo têm uma ascendência em comum. Po- rém, destaca o autor, ao se analisar a composição química dos animais, veem-se apenas pro- porções diferentes dos mesmos elementos.
Para se aceitar a teoria do Transformismo, é necessário encontrar as formas de transi- ção, atuais ou extintas, que separam os quatro tipos de espécies. Em pouco tempo, a zoologia e a paleontologia não demoraram a fornecer abundante quantidade de tais formas de transição, defende. “Limitemo-nos a citar os Sagitta, os Balanglossus, os Polygordius dentre os vermes