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O Alvará de 28 de junho de 1759, inicialmente, fez sérias acusações ao método do ensino religioso utilizado pelos professores Jesuítas, ao qual foi desaprovado pelos “Homens mais doutos, e prudentes nestas úteis disciplinas, que ornaram os séculos XVI e XVII, [..]”, expressão maior da instrução pública laica, com controle dos ensinamentos dos professores conforme se registrou no documento:

“[...]Alvará de 28 de junho de 1759, expressavam-se definitivamente as principais intenções da Coroa Portuguesa: criar um sistema de ensino público e utilizá-lo como lhe conviesse. Sinal disso é que a legislação a respeito do que deveria ser ensinado era extremamente rígida e detalhada,[...]” (CARDOSO, 2002, p 168).

No Alvará de 5 de abril de 1771, o Marquês antecipou as determinações que seriam publicadas pelo Alvará de 6 janeiro de 1772. Transferiu a administração do controle dos assuntos de ensino, antes de competência do Diretor Geral de Ensino, para a Real MeZa Censória, “[...] órgão criado em abril de 1768, com a qual pretendia efetivar a emancipação do controle absoluto dos jesuítas no ensino, passando, então, ao controle do Estado” (MACIEL e NETO, 2006, p. 471). Ficou instituído por D. José I o subsídio literário, destinado ao pagamento dos salários dos professores e as aulas públicas, criado pelo Alvará de 1772, vigorando até 1834, através das contribuições de impostos dos produtos de bebidas e carnes. (MORAIS e OLIVEIRA, 2012)

O Alvará de 6 de janeiro de 1772, publicado pela Imprensa Régia, em 12 de novembro de 1772, decretado pelo Rei Dom José, conteve sete páginas que assinalavam a política de abrangência e regulamentação do magistério sob as orientações a serviço do poder monárquico.

A estrutura política deste Alvará afirmava inicialmente a concepção ideológica do Estado e denunciava os abusos causados pelos mestres jesuítas que, “em vez de ensinarem”, prejudicavam o progresso das `Artes e Sciencias´, impedindo o desenvolvimento e formação de uma nação plena de igualdade a todos os povos. Segundo Maciel e Shigunov Neto, (2006, p. 469) “há uma tentativa de atribuir à Companhia de Jesus todos os males da Educação na metrópole e na colônia [...] os jesuítas são responsabilizados pela decadência cultural e educacional [...],” visto que os jesuítas se dedicavam a formação teológica em detrimento do conhecimento científico.

O Alvará de 1772 deixava claro em que condições se dariam a oferta do ensino e a quem se destinaria como tal. A oferta da instrução pública estava para a necessidade do Estado e reconhecia que nem todos os indivíduos teriam o mesmo direito à educação, quanto aos “Estudos Maiores”, pois nem todos eram necessários aos cargos ao serviço do reino. No entanto, muitos dos súditos deveriam estar a serviço das “Artes Fabris, que ministram o sustento aos povos”, os quais se constituíram os “braços, e mãos do Corpo Político [...]” (PORTUGAL, ALVARÁ, 1772, p. 1-2).

Apesar de o documento assumir a instrução pública laica, este reservou o direito de permitir a educação religiosa, na qual se observa que o compromisso de educação religiosa continuaria mantido pelo Estado para todos, sendo reservada aos padres a instrução dos fiéis, uma vez que, “[...] bastariam às pessoas destes grêmios as Instruções dos Párocos [...]” (PORTUGAL, ALVARÁ 1772, p. 2).

A partir desse documento foram tomadas as decisões, tanto na corte quanto nas colônias, para a criação de escolas públicas e as condições legais dos Mestres que deveriam ensinar nas escolas conforme a “força da Lei”. Efetivou-se assim a força política do Estado na ordem da seleção dos professores e no controle de suas atividades.

Através da Lei, o Rei tratou de estruturar o processo de seleção aos futuros professores e normatizou a forma de ingresso da profissão, sob a hegemonia do poder monárquico, delegando uma comissão representada por uma “Real Meza Censória” composta por um presidente de banca e dois deputados. Assim, estava decretada no item II, a composição da banca a quem os professores deveriam se submeter para o exame de ingresso na carreira docente, conforme o Alvará:

II. Item Ordeno: que os Exames dos Mestres, que forem feitos em Lisboa: quando não assistir o Presidente, se façam na presença de hum Deputado, com dous Examinadores nomeados pelo dito Presidente; dando os seus votos por Escrito, que o mesmo Deputado assistente entregará com a sua informação no Tribunal. Em Coimbra, Porto, e Evora (onde só poderá haver Exames) serão estes feitos na mesma conformidade por hum Commissario, e dous Examinadores, também nomeado pelo Presidente da Meza[...] Nas Capitanías do Ultramar se farão os Exames na mesma conformidade[...] (PORTUGAL-ALVARÁ 1772, p. 3).

No item I deste Alvará destacou-se a forma de provimento dos Mestres, devendo ser publicado em editais do reino e de seus domínios. Quanto às atividades dos professores, o documento ordenou o que deveria ensinar: as ciências na universidade, a filosofia, a lógica, e a ética; e aos Mestres das primeiras letras “sejam obrigados a ensinar não somente a boa forma dos caracteres, mas também as Regras geraes da Orthografia Portuguesa” incluindo-se assim,

a ortografia, a leitura e a escrita, a aritmética, o catecismo e a “Regras das Civilidades”. Ficava assim determinado o currículo que os mestres deveriam seguir.

Também, orientou-se que terminado o ano letivo os mestres deveriam enviar uma relação detalhada de suas atividades para prestação de contas junto ao conselho geral de educação denominado de “Meza”, de nomeação feita pelo rei, tendo a função de examinar os abusos e emitir os certificados.

“Ordeno: Que todos os sobreditos Professores subordinados à Meza, sejam obrigados a mandarem a Ella no fim de cada Anno Lectivo as Relações de todos, e cada hum dos seus respectivos Discípulos; dando conta dos processos, e morigeração deles; Para por ellas regular a Meza as certidões, que há de fazer expedir pelo seu Secretário; evitando-se assim abuso, com que em hum tão grande número de professores poderia haver alguns, que passassem as suas Certidões com ódio, afeição, ou maior aceitação de Pessoas. (PORTUGAL, ALVARÁ 1772, p. 4).

Observou-se ainda na lei, que a profissão docente passa a ser de ordem do poder monárquico, tanto para os professores régios quanto para os professores particulares, sendo que estes estavam autorizados a lecionar após o exame junto à “Meza”, sob condições de penalidades das quais cita Reis, (2006, p. 5) “[...] o caso de inúmeros processos abertos contra professores na cidade de Lisboa, condenando professores ao tronco por ensinarem sem a devida licença[...]”, para quem não o fizessem. Nesse sentido, os professores recebiam o mesmo tratamento dos escravos, determinado pela política de governo.

Os professores particulares ensinavam em casas de famílias e seus alunos deveriam se submeter a testes, pela fiscalização do representante do governo, para ingressar nos Estudos Maiores, conforme fora determinado nos itens VII e VIII do documento:

VII item Ordeno: Que aos particulares, que puderem ter Mestres para seus filhos dentro nas próprias casas, [...] devem ser examinados, antes de entrarem nos Estudos Maiores.

VIII, Item Ordeno: que as Pessoas, que quiserem dar Lições pelas casas particulares, o não possam fazer antes de se habilitarem para estes Magistérios com Exames, e Approvações da Meza; debaixo de pena de cem cruzados pagos da cadeia pela primeira vez; e pela segunda da mesma condenação em dobro, e de cinco anos[...] (PORTUGAL, ALVARÁ, 1772, p. 5).

No entanto, o Alvará de 1772, destinado ao comprimento do veredicto do rei tanto na Corte como em suas colônias, deixava claro as condições para a admissão de professores, que se dava através de exame sob a jurisdição da “Meza”, e que legalizava sua atividade de mestre. Porém, esse documento não se preocupou em efetivar a política de recursos, do subsídio literário para formação do professor, sendo que pode se supor que o novo professor, após os Estudos Maiores, já egresso, poderia se submetesse aos exames da “Meza”, e se tivesse

aprovação já estaria habilitado para a profissão. Nesse sentido, a administração do Marques pouco se deteve com a formação profissional, se deteve mais em controlar a profissão do que em dá meio para o bom exercício. Essa política permanece até a vinda de D. João VI para o Brasil, abordagem da próxima subseção.