• Sonuç bulunamadı

ca. 600-550 a.C. (?)

177

(Apud anônimos e Eustácio de Tessalônica)

178

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Fragmenta179

220 Σ Ap. Rhod. 4.825-31 (p. 295 Wendel)

Στησίχορος δέ ἐν τῆι Σκύλληι † εἶδός τινος † Λαµίας τὴν Σκύλλαν φησὶ Θυγατέρα εἶναι. --- Eust. Od. 1714. 34 Στησίχορος δὲ Λαµίαν αὐτῆς (sc. Σκύλλης) µητέρα ποιεῖ. ---

Σ Od. 12. 124 (2. 451 Dindorf) = An. Par. 3. 479. 14 Cramer

Στησίχορος Λαµίαν φησί τῆς Σκύλλης µητέρα.

---

fragmentum obscurissimum: etiam de nostro Stesichoro auctore et de titulo Scylla dubitatur. εἶδός τινος L (om. P): varii varia: fort. Λιβυστίδος (Lloyd Jones).

Tradução:

Fragmentos:

220 escólio a Apolônio de Rodes 4.825-31

Estesícoro, na Cila, diz que Cila é filha de algum tipo de lâmia.

---

Eustácio, comentário à Odisseia 1714.34

177 Cf. West, 1971, no qual ele faz uma problematização da datação de Estesícoro, explicando suas

razões para colocá-lo no final do século V a.C., através de dados obtidos em outros escritores, tanto posteriores quanto contemporâneos a ele, além de apontar também para a possibilidade de terem existido dois poetas chamados Estesícoro de Hímera. Cf. ainda West, 1970, artigo no qual ele discute a possibilidade de os dois Estesícoros de Hímera (1 e 2) terem escrito poemas intitulados Cila.

178 Estesícoro, como muitos outros, chegou-nos por citações. Esses escritores são preservados por um

“apud”. Os generosos autores que preservaram seus textos para nós serão mencionados em cada autor, como aqui.

Mas Estesícoro faz uma Lâmia ser a mãe dela (de Cila) ---

Escólio anônimo à Odisseia 12.124

Estesícoro diz que Lâmia é mãe de Cila

---

fragmento muito obscuro: duvida-se tanto do nosso autor Estesícoro quanto do título Cila

Comentário:

Λάµιας / Λαµίαν: o fragmento de "Estesícoro" é apresentado através de três fontes,

os fragmentos expostos acima.180 Vamos passar a uma rápida apresentação de cada

um deles e depois comentaremos os três de modo geral.

O primeiro deriva de um escólio anônimo à Argonáutica de Apolônio de Rodes. Em comentário a esse fragmento, o professor David Campbell afirma que

pode ser de autoria de outro Estesícoro, que viveu no século IV a.C.181 Campbell

também sugere que o texto está corrompido após a palavra Lâmia, e que talvez

dissesse: "[...] Lâmia, filha de Poseidon", ou "[...] Lâmia líbia".182

O segundo pertence a Eustácio de Tessalônica, autor grego do século XII que escreveu diversas obras, entre elas comentários à Ilíada e à Odisseia. O fragmento

acima pertence ao comentário à Odisseia.183

O terceiro faz parte de escólios anônimos à Odisseia. Comenta o verso 124 do canto XII, em que Circe diz a Odisseu a quem clamar para retornar com segurança à

Ítaca. Ela lhe diz:

ἀλλὰ µάλα σφοδρῶς ἐλάαν, βωστρεῖν δὲ Κράταιϊν, µητέρα τῆς Σκύλλης, ἥ µιν τέκε πῆµα βροτοῖσιν: ἥ µιν ἔπειτ᾽ ἀποπαύσεν ἐς ὕστερον ὁρµηθῆναι. mas com mais vigor rema, clamando por Crateis, mãe de Cila, a que a pariu como praga para os mortais, que a ela então vai impedir de atacar mais tarde.

O escólio aponta para a outra possibilidade da lenda de Cila: a versão dada por

180 Os fragmentos retirados de Page & Davies, 1999, foram cotejados com a edição de Campbell, 1991. 181

Esse é o único fragmento citado por Campbell em sua obra.

182 Cf. Campbell, 1991, p. 133.

Estesícoro de que ela é filha de Lâmia, e não de Crateis. Há, ainda, outra possibilidade: se o substantivo Κράταιϊν fosse entendido como o adjetivo κραταιός, ά, όν, "poderoso(a)" (forma poética de κρατερός). Isso geraria a seguinte tradução: "[...], clamando pela Poderosa, / mãe de Cila, [...]", que bem poderia ser entendida como a

Lâmia a que se refere Estesícoro.184 O aparato crítico final esclarece que se trata de

um fragmento obscuro, porque não se tem certeza nem se o autor seria mesmo Estesícoro, nem se o título do poema seria mesmo Cila.

Através da análise dos fragmentos percebemos que Estesícoro via Cila como filha de alguma Lâmia. Contudo, ele não faz nenhuma especificação a respeito da natureza dessa mãe, se ela era um ser humano ou se era um monstro (um θήρ, um

θαῦµα). Hopmann, por sua vez, inclui Cila na tradição do κῆτος.185

Desse modo, se considerarmos que Cila era um monstro marinho, a Lâmia mãe dela poderia também ter essa mesma relação com as "feras do mar", e ser um tubarão. Há uma espécie de tubarão denominada λάµια por Aristóteles, Plínio o velho, Ateneu, Galeno, Opiano (único autor a usar a variante λάµνα, ao invés de λάµια) e

Oribásio.186 Desse modo, Cila seria cria de um monstro do mar e, consequentemente,

um monstro do mar também.

West aponta para outra coincidência entre Cila, a Lâmia que perdeu os filhos e a Lamashtu assíria: a incapacidade de produzir descendência que sobreviva até a fase adulta, a infertilidade. Explicamos: West afirma que, se compararmos a raiz da palavra grega Σκύλλα com raízes semíticas (em hebraico, š kûl āh), ela significaria, nessa última língua, "enlutada pela perda dos filhos", o que teria acontecido a Lâmia, e teria sido vetado tanto a Lamashtu, que era estéril, ou não encontrou alguém capaz

de engravidá-la, quanto a Cila.187

184

Para κρατερός, LSJ, 1996, p. 990.

185 Para κῆτος cf. LSJ, 1996, pp. 949-950: "qualquer monstro marinho ou grande peixe"; cf. também

Hopman, 2005, p. 9, em que ela afirma que o κῆτος é uma combinação das voracidades de animais terrestres e marinhos, e ainda pp. 14, 34-36, em que ela trabalha a inserção da figura da Cila na tradição do κῆτος grego; cf. ainda Mair, 2002, pp. lxvii-lxviii e p. 203: ele aponta que esse vocábulo era usado para indicar "baleias, golfinhos, focas, tubarões, atuns, e as grandes criaturas do mar, em geral". Hoje, após uma especialização ao longo do tempo, o vocábulo é usado para designar os grandes mamíferos aquáticos da ordem dos cetáceos: as baleias, os golfinhos e os botos, cf. Heiser, Janis & Pough, 2008, pp. 572-573. Θῆρ é um substantivo usado para indicar não somente um animal selvagem, mas também um ser fantástico, algo oposto ao que se define por humano, cf. LSJ, 1996, p. 799.

186 Cf. todos esses autores nesta mesma tese: Aristóteles, pp. xx; Plínio o velho, pp. xx;

187 West, 1997, p. 59, n. 248. Ele cita dois autores antigos, Lewy, que fez comparações entre raízes

gregas e semíticas (LEWY, H. Die semitischen Fremdwörter in Griechischen. Berlin, 1895.), e Foster, que publicou uma antologia de literatura em acádio (FOSTER, B.R. Before the Muses. An Anthology of

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Αἴσωπος - Esopo ca. VI a.C. (?)

—————————————————————————————————— Prouerbia - 108188 Ἐν καιρ<ῷ ἀ>νάγκης τὴν λάµιαν µητέρα κάλει. Ἑρµηνεία. Ἐν ἀν<άγ>κης καιρῷ <δυσκαίρῳ ληφθείς,> Καὶ τοὺς θηριώδεις ἄνδρας π<ατέρας> κάλει.

Explanationis versus multo fidelius servat Georgides in Sent. 39, q. v. supra; folio

incolumi verba nonnulla exciderunt.189

Tradução:

Provérbios - 108

Em tempo de necessidade, chama a lâmia de mãe.

Interpretação

Em tempo de necessidade <tendo recebido um tempo ruim>, chama de pais, inclusive, os homens ferozes.

Uma linha de explicação muito mais fiel mostra Georgides em Sent. 39, cf. acima; algumas palavras perderam-se do fólio incólume.190

Comentário:

τὴν λάµιαν µητέρα κάλει: a tradução desse trecho por "chama pela mãe lâmia",

mantém todos os objetos no acusativo, caso em que estão. Contudo, considerando-se a posição do artigo definido (τήν), talvez fosse mais apropriado traduzir como "chama a

lâmia de mãe", pois, por sua proximidade imediata com a palavra λάµια, ele poderia

188

Provérbio retirado de Perry, 2007, p. 281.

189 B.E. Perry, 2007, p. 281.

estar caracterizando apenas esse substantivo, e não o µητέρα.

O problema das duas possibilidades de tradução é que o sentido fica alterado de uma para a outra. Se for dito: "chama pela mãe lâmia", pode-se pensar em alguma deusa favorável que vem solucionar o problema trazido pelo tempo de necessidade (καιρῷ ἀνάγκης), o que não faz sentido no campo semântico da palavra lâmia no folclore grego antigo. Todavia, se for dito "chama a lâmia de mãe" pode-se pensar que o momento é tão ruim que até mesmo um monstro é chamado de mãe, ou que se renega até mesmo a mãe, de forma a chamá-la de lâmia.

A interpretação (ἑρµηνεία) fornecida após o provérbio ajuda a entender os versos sem contextualização: aclara que o tempo de necessidade é um tempo ruim (δυσκαίρῳ, já que o prefixo δύς é usado para indicar um aspecto ruim adicionado à palavra, destruindo seu aspecto bom, ou enfatizando seu aspecto mau) no qual até mesmo homens ferozes (rudes, violentos, selvagens, bestializados = θηριώδεις

ἄνδρας) são chamados de pais (πατέρας κάλει).191

Optamos por adotar a segunda opção de tradução, que julgamos mais adequada ao contexto de voracidade expresso pelo vocábulo λάµια.

Sobre o comentário de Perry ao provérbio, ele informa que o fólio onde foi encontrado estava incólume, mas que algumas palavras estão erradas. A interpretação/explicação que aparece junto ao provérbio foi fornecida por Karl

Krumbacher, editor da editio princeps de Esopo.192 Uma explicação para esse mesmo

191 Para δύς cf. LSJ, 1996, p. 453. 192

A história da seleção dos manuscritos e do estabelecimento do texto tanto das fábulas quanto dos provérbios e sentenças atribuídos a um autor grego chamado Esopo é complexa. Perry dedicou 15 anos de sua vida a esta pesquisa, e o resultado de seu trabalho é a magnífica edição que publicou pela primeira vez em 1952, e que foi reeditada em 2007, versão à qual tivemos acesso graças à coleção de textos clássicos da Fundação Hardt, que nos ofereceu uma bolsa de três semanas em suas instalações. A edição de Perry trata de toda a história do estabelecimento do textos dos provérbios de Esopo, estabelecendo uma nova numeração para eles, mas fornecendo a numeração atribuída por Krumbacher, além de apresentar comentários sobre cada provérbio e fábula. Perry afirma que há dois manuscritos que contêm as Comédias Cósmicas (41 provérbios, sem as epimúthia) atribuídas a Esopo, denominados

M (Monacensis graecus 525, do século XV) e S (Mosquensis 436, do século XIV). Krumbacher

publicou sua edição com base em outro manuscrito, o Monacensis 239, do século XIV, que contém fábulas e provérbios com epimúthia, (aparentemente todos esses três manuscritos derivam de um mais antigo que se perdeu). Mas esse manuscrito consultado por Krubacher tinha três folhas perdidas. Uma delas foi encontrada na Biblioteca de Dresden por outro especialista, Jernstedt, que também publicou uma edição dos provérbios. Bem antes deles, Ioannes Georgides compilou essa coleção de máximas ditas "esôpicas", sem adicionar os provérbios, mas preservando alguns dos epimúthia. Os provérbios podem, assim, ser encontrados na seguinte ordem: Dresden folio 20, Mosquensis folia 228, 227, 231, 230, 229, 232. Para mais informações sobre esse assunto cf. Perry, 2007, pp. 261-264; e ainda Perry, 1981, pp. 231-233 (trata somente dos manuscritos onde se pode encontrar os provérbios), p. 175 (onde ele apresenta todos os manuscritos em detalhe), e p. 186 (onde ele apresenta os manuscritos M e S). Recentemente foi lançado um livro com uma tradução para o inglês de todos os provérbios, com comentários e uma introdução excelente, que problematiza o estabelecimento do texto dos provérbios

provérbio também pode ser encontrada no gnomologion de Ioannes Georgides, que escreveu epimúthia para alguns desses provérbios de Esopo sem, todavia, colocar o respectivo provérbio junto a elas. Supõe-se que ele tenha vivido antes do ano 1100.

Sua obra foi encontrada num manuscrito do século XI.193

As hermeneiai de Krumbacher e Georgides encontram-se abaixo reproduzidas

e traduzidas:194 Krumbacher: Ἐν ἀν<άγ>κης καιρῷ < > τοὺς θηριώδεις ἄνδρας π<ατέρας> κάλει Georgides: Ἐν καιρῷ ἀνάγκης καιρῷ δυσκαίρῳ ληφθείς Καὶ τοὺς τυχόντας ἄνδρας τοκέας λέγε Tradução:

Georgides: Em tempo de necessidade tendo recebido um tempo ruim, Também os homens vulgares chama genitores

O comentário apresentado por Perry em sua edição mistura os dois epimúthia. Só traduzimos o de Georgides, uma vez que o trecho inteiro de Krumbacher já se encontra traduzido acima. A ideia permanece a mesma nos dois comentários: em tempo de necessidade chama-se de pais quaisquer pessoas, mesmo que elas sejam vulgares, ferozes, bestializadas, rústicas. Ou seja: quando se necessita de ajuda, ou proteção, não se olha a quem pedir, apenas pede-se.

(que, em algum ponto, contabilizavam mais de 200): PHILLIPS, Chandler A. Proverbial Aesop. Saratoga, CA: Millennial Mind Publishing, 2012. Conseguimos acessar apenas algumas páginas através da visualização do Google Books, mas não a do provérbio em questão, infelizmente.

193 Cf. Perry, 2007, p. 281.

194 Ambas foram retiradas de Perry, 1981, p. 233, já que a edição de Boisonade que contém o texto de

Georgides não está completa, e não trazia essa epimúthia. Cf. BOISONADE, J.Fr. (ed.) Anecdota

graeca. v.I. Hildesheim: Georg Olms Verlagsbuchhandlung, 1962 (1a edição 1829). pp. 1-108 (ΓΕΩΡΓΙΔΟΥ ΓΝΩΜΟΛΟΓΙΟΝ).

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Ἀκουσίλαος - Acusilau

ca. VI a.C. (?)

195

(Apud anônimos e Eustácio de Tessalônica)

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Fragmenta (Jacoby, ed.) 1a,2,F, fr. 42196

SCHOL. APOLL. RHOD. IV 828: Σκύλλης Αὐσονίης ... ἣν τέκε Φόρκωι

νυκτιπόλος Ἑκάτη, τήν τε κλείουσι Κράταιιν] Ἀκουσίλαος Φόρκυνος καὶ Ἑκάτης τὴν Σκύλλαν λέγει· Ὅµηρος δὲ οὐχ Ἑκάτην ἀλλὰ Κράταιιν ... ἐν δὲ ταῖς Μεγάλαις Ἠοίαις Φόρβαντος καὶ Ἑκάτης ἡ Σκύλλα. Στησίχορος δὲ ἐν τῆι Σκύλληι εἴδους τινὸς Λαµίας τὴν Σκύλλαν φησὶ θυγατέρα εἶναι.

Tradução:

Fragmentos (Jacoby, ed.) 1a,2,F fr. 42

Escólio a Apolônio de Rodes IV 828: Sobre a Cila Ausônia ... a que para Fórcis

pariu Hécate noturna, também celebrada como Crateis. Acusilau diz que Cila é filha de Hécate e Fórcis; já Homero diz que não de Hécate, mas de Crateis. Nas Grandes Eias Cila é filha de Forbes e de Hécate. Estesícoro, na sua Cila, disse que a Cila era filha de alguma forma de lâmia.

Comentário:

Λαµίας: Crateis é a mãe que Homero atribui a Cila, como já observamos antes, e que

parece não ter a simpatia de Acusilau.197 Podemos notar, pelo trecho selecionado, que

195 Fowler (2007, pp. 623-624) discute a datação para Acusilau dizendo que Josefo (test. 3, Fowler

2007, p. 1) o localiza antes das Guerras Pérsicas, entre os primeiros escritores de fatos históricos, e Dioniso de Halicarnasso (test. 2 e test. 9, Fowler, 2007, p. 1 e p. 2, respect.) o posiciona junto a Hecateu, em algum ponto anterior à Guerra do Peloponeso. Cícero (test. 8, Fowler, 2007, p. 2) também considera Acusilau um escritor do período arcaico, e tanto Platão (fr. 6a e fr.23a, Fowler, 2007, p. 5 e p. 18) quanto Teofrasto (fr. 22, Fowler, 2007, pp. 15-17) o citam em suas obras. Portanto, assim como Fowler, essa tese adota a premissa de que Acusilau pertenceu ao Período Arcaico da literatura grega.

196 Fragmento retirado de Jacoby, 1995 = TLG, também consultado em Fowler, 2007, pp. 26-27, fr. 42. 197 Cf. nesta tese Estesícoro, p. 55; cf. ainda Homero, Odisseia, XII.124-126: "ἀλλὰ µάλα σφοδρῶς

ἐλάαν, βωστρεῖν δὲ Κράταιϊν, / µητέρα τῆς Σκύλλης, ἥ µιν τέκε πῆµα βροτοῖσιν: / ἥ µιν ἔπειτ᾽ ἀποπαύσεν ἐς ὕστερον ὁρµηθῆναι" - "mas com mais vigor rema, clamando por Crateis, / mãe de Cila, a que ela pariu como praga para os mortais, / que a ela então vai impedir de atacar mais tarde".

o escólio que se refere a uma suposta obra de Estesícoro intitulada Cila é derivado de algum comentário desse autor sobre a Odisseia. Ainda é possível inferir que o comentário de Acusilau não tomava partido de nenhuma das possíveis origens de Cila, mas apenas as enumerava, como se estivesse fazendo uma lista.

Portanto, uma das possibilidades é a de que a mãe da Cila seja algum tipo de

lâmia (εἴδους τινὸς Λαµίας), que nesse caso parece mais estar se referindo ao tubarão

que os gregos denominavam λάµια.198 Isso porque ambos são monstros marinhos, e

têm suas dentições comparadas à de cães, mesmo que os adjetivos usados para caracterizá-las não sejam idênticos: os de Cila são "τρίστοιχοι ὀδόντες πυκνοὶ καὶ θαµέες" – "três fileiras de dentes afilados e abundantes", enquanto esse peixe lâmia é

um καρχαρόδων – "de dentes em forma de serra".199 Há semelhança entre dentes

enfileirados e dentes em forma de serra, afinal, os "dentes", ou partes cortantes, de uma serra são enfileirados também.

Fowler cita o PMGF, que emenda a linha "εἴδους τινὸς Λαµίας" como "εἰδός τινος Λαµίας". Ele cita ainda a possibilidade levantada por Jacoby de que essa reconstrução pudesse ser "δαίµονός τινος Λαµίας", em português, "de algum demônio

lâmia".200 Essa última proposição resolveria a questão sobre a natureza da lâmia referida por Estesícoro: seria um tubarão ou outro tipo de monstro? Tanto a primeira quanto a segunda opção deixam essa definição pendente, afinal, "algum tipo de

lâmia" é indefinido, pode ser tanto o monstro papão quanto o tubarão.

Cila, como já mencionamos, é referida na Odisseia como um monstro de doze pés em forma de tentáculos e seis cabeças com três fileiras de dentes afiados, cuja voz

imitava a de um filhote de cachorro.201 A pesquisadora americana Marianne Hopman

afirma que Cila está associada a três elementos da literatura greco-romana: a mulher, o cão e o mar, e que desde a Odisseia a referência canina no nome Σκύλλη é aparente (Σκύλλη seria derivado de σκύλαξ). Hécate, por sua vez, estaria ligada a Cila pelo fato

198 Cf. nesta tese Aristóteles, p. 106, Plínio o velho, p. 167, Ateneu de Náucrates, p. 219, Galeno, p.

239, Opiano da Cilícia, p. 264, e Oribásio, p. 286.

199Cf. Homero, Odisseia, XII, 80-100, e 244-259, nesta mesma tese pp. 44-54. Καρχαρόδων,

καρχαρόδους - a acepção principal é "com dentes que parecem uma serra". Aparentemente, todos os vocábulos relacionados derivam dos substantivos compostos καρχαρόδων e καρχαρόδους, que são as palavras mais antigas atestadas (Homero na Ilíada, Hesíodo, Aristófanes, Aristóteles, Teofrasto, entre outros), e aparecem sempre usados para caracterizar a dentição de cães. Todos esses vocábulos têm ligação com o fato de indicarem seres cujos dentes são pontiagudos e estão dispostos enfileirados nas bocas que os abrigam: um ao lado do outro, como no formato de uma serra. Νa Grécia de hoje, καρχαρίας é um dos substantivos usados para indicar tubarão. Cf. LSJ, 1996, p. 881; Chantraine, 2009, p. 483; Maniatoglou, 2008, p. 392; Hopman, 2005, p. 33; Grimal, 2005, pp. 88-89.

200 Cf. Fowler, 2013, p. 629.

de assumir a forma de uma loba, ou uma cadela, na imaginação popular. Era sob alguma dessas formas que ela se aproximava de mágicos e feiticeiras, e outros

"habitantes das sombras".202

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Σκύλαξ - Sílax de Carianda

203

ca. VI-V a.C. (?)

—————————————————————————————————— Πέριπλους 62.5 - 62.10204 ΜΑΛΙΕΙΣ. Μετὰ δὲ Μηλιεῖς [Μαλιεῖς] ἔθνος. Ἔστι δὲ Μαλιεῦσιν ἡ πρώτη πόλεις Λάµια, ἐσχάτη δὲ Ἐχῖνος· εἰσὶ δὲ καὶ ἄλλαι πόλεις Μαλιεῦσι, µέχρι οὗ ὁ κόλπος ἐπιθίγῃ. Καὶ τῇ Μαλιέων χώρᾳ ἐποικοῦσιν ἄνωθεν ἀπὸ µεσογείας Αἰνιᾶνες, καὶ δι' αὐτῶν ῥεῖ ὁ Σπερχειὸς ποταµός. Tradução: Périplo 62.5 - 62.10

Málios. Depois há o povo dos mélios [málios]. A cidade mais importante para os málios é Lâmia, na parte mais afastada do Equino. Mas os málios também têm outras cidades ao longo do alcance do golfo. Os eniânios vindos do interior invadiram o interior da região dos málios. Entre eles flui o rio Esperqueu.

Comentário:

Λάµια: o trecho acima trata da geopolítica da região do Golfo de Mália, que fica na

Grécia central, na altura da ilha de Eubeia. Lá está localizado o famoso Paço das

203 Hoje os especialistas não atribuem mais a autoria do Périplo a Sílax: estão certos de que o texto foi

produzido em Atenas em meados do século IV a.C. (por volta de 330 a.C.), por uma outra pessoa, que foi denominada Pseudo-Sílax (cf. Couillon, 2004, p. 11). Como optamos por basear o corpus dos autores desta tese nos dados fornecidos pelo TLG, e este programa ainda atribui a autoria do Périplo a Sílax de Carianda, resolvemos mantê-lo na ordem cronológica no intervalo entre os séculos VI-V a.C., que é a data atribuída a esse autor. Fragmentos da obra de Sílax de Carianda podem ser encontrados em Heródoto, em Aristóteles, e na Suda.

204

Fragmento retirado de Müller, 1965 = TLG. Duas edições recentes traduzem e comentam o texto, mas não tivemos acesso a elas: SHIPLEY, Graham. Pseudo-Scylax's Periplus. Text, Translation and

Commentary. Exeter: Bristol Phoenix Press, 2011; e GARZÓN DÍAZ, J. Geógrafos griegos. Escílax de Carianda, Hannón de Cartago, Hijo de Califonte. Oviedo: KRK Ediciones, 2008. Patrick Counillon

afirma que o Périplo é uma descrição geográfica das costas do Mar Mediterrâneo e do Mar Negro, que vai progredindo em um sentido horário até chegar às colônias gregas da Líbia, no norte da África. O autor francês afirma ainda que a obra, que ele considera mal-escrita e portanto mal-estabelecida para a Posteridade, tem uma importância epistemológica fundamental, por ser o primeiro tratado de geografia que nos chegou completo, e por revelar a visão que tinham os atenienses de suas cercanias, em meados do século IV a.C. (cf. Counillon, 2004, p. 11, e pp. 24-27, onde ele discute a questão mais a fundo).

Termópilas.205 Lá também está a principal cidade da região, Lâmia, que Sílax cita no

fragmento acima como sendo a principal cidade do povo dos málios, os habitantes locais.

Lâmia ficava na planície do rio Esperqueu, e era fundamental na conexão entre a Tessália e a Grécia central, principalmente por, além da posição estratégica, deter o controle do porto principal da região, Fálara, como atesta Élio Herodiano:

"<Fálara> cidade da Tessália, próximo de Lâmia".206 Herodiano não diz que a cidade

era portuária, mas Hansen & Nielsen afirmam que sim, que era um porto muito usado

pelos tessálios e por aqueles que vinham da Ásia Menor.207 Sua ocupação é atestada

do neolítico aos dias atuais, tendo sido fortificada por volta de 400 a.C.208

Esse registro é puramente geográfico, não há conexões diretas com a voracidade que é traço semântico da raiz da palavra λάµια.

205 O Paço das Termópilas é um local no Golfo Málio onde um dos mais conhecidos episódios das

chamadas Guerras Médicas, entre persas e gregos, teve desenvolvimento. Ali, em 480 a.C, Xerxes, filho do rei Dario I, e comandante do imenso exército persa, que estava pronto para invadir a Grécia, enfrentou uma coalisão grega diminuta de sete mil homens. Entre eles estavam os 300 homens da guarda pessoal do rei espartano Leônidas, e o próprio, que atrasaram os persas o suficiente para dar aos gregos tempo de se organizar e expulsar os invasores definitivamente na Batalha de Plateia. Cf. Hornblower & Spawforth, 1996, pp. 1189, para a Batalha de Plateia, e 1507-1508, para o Paço das Termópilas e a batalha que lá aconteceu; cf. nesta tese Hipérides, p. 98, esp. n. 304.

As Guerras Médicas foram duas tentativas frustradas que o Império persa fez de invadir a Grécia, uma em 490 a.C. e outra em 480/479 a.C. Cf. Hornblower & Spawforth, 1996, pp. 1145-1147. A Batalha de Plateia aconteceu em 479 a.C. na região de Plateia, próximo a Atenas, e colocou fim às esperanças do imperador persa Xerxes de invadir a Grécia. Cf. Hornblower & Spawforth, 1996, p. 1189. Xerxes era filho de Dario I, e herdou de seu pai os planos de conquista da Grécia, mas seu período de governo é conhecido como um período de consolidação do Império persa, e não de decadência. Cf. Hornblower &Spawforth, 1996, pp. 1631-1632.

Dario I foi o rei persa que construiu as capitais de Susa e Persépolis, e expandiu o império até o vale do rio Indo e a Trácia. Após conquistar as ilhas gregas do Mar Egeu, Dario planejou a invasão da Grécia, mas encontrou uma resistência maior do que esperava em sua incursão, tendo sido vencido na Batalha de Maratona, em 490 a.C. Foi um soberano respeitado, que trabalhou continuamente para