Ai de nós que não vivemos ao menos cem anos para lermos todas as obras que nos dariam verdadeiro prazer!167
Eduardo Frieiro. A ilusão literária. 3. ed,. p.69.
Autodenominando-se homem de papel, Frieiro, como muitos outros intelectuais, parece ter orientado sua existência para duas funções fundamentais: ler e escrever. Editar o bom texto e ensinar os jovens a conhecer a literatura seriam conseqüência natural das primeiras funções. Onde nasceu, como transcorreram seus primeiros anos, as impressões de menino são fatos que merecem pouco espaço no exercício rememorativo do escritor adulto. É como se ele não tivesse existido, de fato, senão a partir de seu nascimento como leitor.
Assim é que, da infância pobre de um filho de imigrantes espanhóis, não são muitos os fatos lembrados nas cartas. Quando afloram, as menções à infância e à juventude vêm, via de regra, como autobiografemas no sentido barthesiano, fragmentos de memória, pequenos fatos narrados em descontínuo, quase sempre envolvidos pelo sentimento melancólico e amargo do adulto. Assim, aos 75 anos, escrevendo a Ruth Nielsen, a mesma leitora do Rio de Janeiro com quem manteve agradável e entretido diálogo por vários anos, retrata num matiz sombrio, com poucas pinceladas, as primeiras décadas de sua vida:
166 Carta a Josué Montello, 28/7/1959. 167 FRIEIRO, A Ilusão Literária, 3. ed. p.69.
Não há na minha vida particular e pública nada que ofereça qualquer interesse biográfico, vida paupérrima em acontecimentos anedóticos. Minha infância foi pobre e mofina. Minha mocidade? Vazia, ácida e melancólica. De sujeito nervoso e casmurro, meio intratável e muito malcriado. Não me deixaram a mínima saudade, nem a infância nem a juventude. Pelo contrário: nem gosto de as lembrar.168
O silêncio que paira sobre uma fase da vida não deve, contudo, enganar os pretensos leitores de uma vida contada. Para o crítico norte-americano James Olney,169 se um texto autobiográfico não ilumina todas as fases do passado do sujeito em questão pode, contudo, ter muito a revelar desse sujeito no momento em que compõe a sua escrita. Além disso, dedicar pouco espaço à infância e concentrar seus esforços na celebração do adulto parece ser, na análise de Sylvia Molloy, uma tendência dos autobiógrafos hispano-americanos da segunda metade do século XIX às primeiras décadas do XX170.
Ainda que seja arriscado afirmar algo semelhante em relação aos autobiógrafos brasileiros do mesmo período, ao meu ver, Frieiro, por temperamento e, também, por suas fortes ligações com a cultura hispano-americana, preferiu calar-se sobre a primeira fase de sua vida. Optou por dirigir todo o esforço de narrador de si mesmo ao homem adulto que abandonou as ilusões e projetou-se, já maduro, como um intelectual autodidata. Se algumas ocorrências infantis conseguiram passar pela censura do Frieiro autobiógrafo foi porque, justamente, anunciavam a imagem do homem que ele viria a ser, no momento da escrita, e que desejava passar aos leitores da posteridade: o intelectual puro à imagem de Heráclito de Éfeso171, um misantropo que desprezava o vulgo, que não foi discípulo de ninguém e aprendeu consigo mesmo tudo o que sabia.
Isso posto, conto um pouco de sua história. Eduardo Frieiro nasceu em 5 de julho de 1889172 em Matias Barbosa, Zona da Mata mineira, filho de Melchíades Frieiro e Maria Juana Pampín. Imigrantes originários da província de Pontevedra, na Galiza, - chegaram ao Brasil em 1885 ou 1886 - eram pessoas simples e sem letras. O pai, nas palavras do escritor, “era homem tímido, honrado, trabalhador, rude e cabeçudo como costumam ser os galegos. E teve
168 Carta a Ruth Nielsen, 29/12/1964.
169 Apud EAKING, P. J. Fictions in autobiography, p, 21.
170 MOLLOY, Sylvia. Vale o escrito; a escrita autobiográfica na América Hispânica. Chapecó: Argus, 2004.
p.177.
171 Em artigo intitulado Um antepassado intelectual,Frieiro articula uma filiação ao filósofo grego Heráclito de
Éfeso, (540 a C.. a 480 a C.). O artigo foi publicado no jornal Estado de Minas, 17 set.1961 e incluído no livro póstumo Encontro com Escritores, Belo Horizonte: Itatiaia, 1983. p.35-8.
a boa companheira de lidas, laboriosa, sofrida, honesta, clarividente, compreensiva, tenaz, como é em geral a campônia da Galiza.” O retrato dos pais generaliza a imagem do povo cuja pátria que não chegou a ser a sua mas que lhe ocupou sempre um lugar no coração e na memória.
Sí, soy gallego de todos cuatro costados. Mis padres eran de Pontevedra, y también dos hermanos míos. En el Brasil, así como en toda América, y Ud. bien lo sabe, el 80% de la imigración española es de gallegos. Gallegas fueron las primeras palabras que oí pronunciar, salidas de la boca de mi madre.173
Era o tempo da edificação da nova capital de Minas, que motivou um fluxo migratório de trabalhadores proletários para a região do Curral Del Rei, principalmente espanhóis (galegos, na maioria), portugueses e italianos. Assim, em 1895 (ou 97?)174, Melchíades Frieiro, pedreiro de profissão, muda-se com a família para a cidade em construção, indo morar perto da Ponte do Saco, sobre o Ribeirão do Arrudas, na entrada do atual Barro Preto. “Por esta época a cidade era uma espécie de vila que se aglomerava perto de uma igrejinha, onde hoje é a igreja da Boa Viagem. Eu conheci o arraial do Curral del Rey, quase intato!”, ele rememora.175
Na rua Muriahé, número 4, longe do centro da nova cidade, na casa modesta construída pelo pai, Eduardo Frieiro viveu 37 anos, só se mudando para uma casa na Rua Diorita, bairro Calafate, quando se casou, em 1935. Tinha dois irmãos, José e Belmiro, e duas irmãs, Maricota e Chica. Gente acostumada ao trabalho duro e honesto, como seus antepassados labregos. Trabalho, muito trabalho era, de fato, a rotina daquela casa proletária “onde não havia livros e raramente entravam jornais”176. Música, era o cantar da mãe, lembrança que volta com a leitura de um estudo do musicólogo Curt Lange, com quem trocou correspondência de 1947 a 1969:
172 É curioso como esta data de nascimento, conforme consta na sua carteira de identidade, diverge da informada
pelo próprio Frieiro em carta de 21/9/1959 a Célio Meira: Enganou-se muito na idade que me deu. Sou de 1892, escreve o escritor. Essa data será repetida em muitos artigos sobre Frieiro.
173 Carta a José María Viqueira, datada de 30/11/1959.
174 Há muita contradição nas datas dos primeiros anos nos diferentes documentos consultados. A data de nas
mento aparece em vários textos como sendo 1892, inclusive em carta escrita pelo próprio Frieiro. A carteira de identidade, contudo, desfaz esse equívoco. 1895 teria sido a data da vinda da família para Belo Horizonte,
embora algumas notícias citem 1897 e 1898.
175 OLIVEIRA, Heloísa Aline. Eduardo Frieiro; ou de como chegar aos 90 anos. Estado de Minas, Belo
Horizonte, 5 jul. 1979. Caderno 2, p. 1.
[...]E quero dar-lhe duas pequeninas provas do interesse com que li o seu Gottachalk, cuja continuação espero conhecer. Na página 7 deparou-se-me, não sem alguma emoção, a variante de umas velhas coplas que ouvi minha mãe cantar muitas vezes.[...] Digo “variante” porque a letra que minha mãe cantava difere da do tango mencionado em “A Semana Ilustrada”. Era assim:
“Me gustan todas, me gustan todas, me gustan todas en general; pero las rubias, pero las rubias, pero las rubias me gustan más.
E ainda me lembro da música. Tenho para mim que eram coplas de alguma zarzuela.177
Dois anos e meio do chamado curso primário foi todo o estudo formal do menino Eduardo, numa escola pública do bairro Carlos Prates, reduto de imigrantes semi-analfabetos naquela virada de século.
Dos anos passados na escola, ficaram, na memória dele: a professora de Sabará, que lhe ensinou as primeiras letras; a prisão de ventre crônica; a chacota dos pequenos colegas a respeito do seu sobrenome, trocando Frieiro por frieira. Mas, foi nessa mesma escola onde teve início a mais significativa experiência de sua vida: a leitura. A impressão que tenho, acompanhando-o nas lembranças mais antigas, é que sua vida pessoal começa, de fato, no momento em que, lendo, ele inicia o diálogo com o mundo da representação literária. Contou, certa vez, a Vivaldi Moreira que, sendo ele bem novo, via os meninos do bairro furtando amendoim de um velho português, dono de armazém, que vivia cochilando atrás do balcão. Quanto a ele ...
Que ia eu roubar, meu caro Vivaldi? Jornais, jornais velhos, Jornal do Brasil, com a magnífica colaboração; Jornal do Comércio, com artigos quilométricos, e eu bebia tudo aquilo! [...] Fui um grande ledor de jornais! Então, jornal do interior, que delícia! Eu lia, por exemplo: Gazeta de Guaratinguetá, que mistério para mim! Que encanto! Eu lia tudo, tudo. [...]178
Fantasiosa ou não, a veracidade dessa história interessa menos ao biógrafo do que a constatação de quão importante para o escritor é repassar para seu interlocutor a idéia de que a leitura foi essa paixão precoce que confere sentido a toda a sua vida, abrindo-lhe um
177 Carta a Curt Lange, datada de 14/01/1952. 178 MOREIRA, 1991, p. 26.
caminho diferente do que lhe seria destinado por tradição familiar. Na entrevista já citada que deu ao Estado de Minas179 quando fez 90 anos, ele reforça a mesma idéia de ser, desde a
infância, um intelectual predestinado:
Desde menino gostei de ler, acho que é uma coisa que já nasceu comigo. Frequentava a biblioteca que havia na cidade, levava livros para casa e lia pela noite a dentro, à luz de velas, o que causava aborrecimentos a meu pai pelo preço de 200 réis, o custo de uma vela. Ficava muito caro.
E em outra entrevista,180 até contradizendo-se quanto ao interesse que suas memórias possam vir a ter, acrescenta:
Eu lia o que achava ao meu alcance. [...] Na tenda dum sapateiro italiano eu lia o “Fanfulla”, “Il Corriere della Settimana” e “L’Asino”, semanário
anticlerical do famoso caricaturista Rata Langa181. Com a ajuda de um “Petit
Larousse” em ruínas, já sem as últimas cinco letras, comecei a ler francês, que só mais tarde eu aprenderia regularmente. Que aventura! Ainda as escreverei.
Crescendo na periferia, numa casa com quintal, árvores e animais domésticos, as brincadeiras usuais da infância não aparecem nas suas lembranças nem mesmo como negação, à maneira de Sartre: “Nunca esgaravatei a terra nem farejei ninhos, nem herborizei nem joguei pedras nos passarinhos.”182 É a leitura, ele nos faz acreditar, que vai dando o compasso para os movimentos e o ritmo desta vida solitária. As hagiografias (lembre-se da carta enviada a Euryalo Canabrava em 1978, p.125) deixaram no menino de nove, dez anos, a vontade de levar uma vida de pobreza e de santidade. Paradoxalmente, foi salvo do sacrifício pela ignorância e obscurantismo de um padre com quem se confessou para fazer a primeira comunhão e que o levou, a partir de então, a perder a crença no sagrado. Daí em diante, ao acaso, mas também sistematicamente na biblioteca pública da cidade, encontrou textos que o ajudaram a construir uma visão de mundo particular, cujo trajeto ele faz questão de demarcar retrospectivamente, como as pedras na floresta, lançadas pelo personagem da história infantil, na angústia de garantir um caminho de volta ao lar. Volto a esse aspecto pela recorrência no seu discurso confessional: nas cartas e no Diário, Frieiro vai, incansavelmente, citando os livros que leu, como peças da construção de si mesmo ou como a trilha sinalizadora para uma
179 OLIVEIRA, 1979, p.1.
180 COMO vivem e trabalham nossos intelectuais. Entrevista de Eduardo Frieiro a Raimundo Meneses. Minas
Gerais, Supl. Lit., Belo Horizonte, 20 dez. 1967.
181 Rata Langa, pseudônimo de G. Galantara (1865-1937). Suas vinhetas anticlericais e antifascistas correram o
mundo no início do século XX.
volta ao passado. Apoiando-se nessas leituras, vai respondendo às questões típicas do autobiógrafo:
Quem sou eu?
Sou um herege total. Antidogmático em filosofia, em política, em estética e no resto. Penso que ter opinião é preferir enganar-se num certo sentido. Desde muito moço, o problema religioso deixou de existir para mim, considerado daí em diante apenas como fenômeno cultural.183
Como cheguei a ser o que sou?
Li, desde cedo, os materialistas dos séculos XVIII e XIX. Preciso dizer-lhe que Voltaire é para mim, sempre, “le dieu Voltaire”? “Candide” é um livrinho que eu coloco logo ao lado do “Dom Quixote”, “ manuais de indulgência, bíblias de benevolência”, ambos no dizer de A France.184
O que escolho para contar?
Creio ter esboçado o meu retrato psicológico, com tintas atenuadas, favoráveis, e aparadas muitas arestas, na figura de Basileu Prisco, protagonista do meu romance “Inquietude, melancolia”. As circunstâncias da vida de Basileu, é claro, são outras, inventadas quase todas, romanceadas, mas o tipo suponho ser o meu. O tipo, não os seus atos. 185
A todas essas perguntas Frieiro responde, invariavelmente, apoiando-se na sua biblioteca – obras lidas e textos seus – que foi construindo desde a infância. Por isso, não poderia ser outro o título do livro que publica em 1941 para dar vazão ao sentimento perene de amizade a esses indispensáveis guias espirtuais: Os livros nossos amigos.
Mas o livro mais marcante, o que demarca caminhos não é, necessariamente, o primeiro que se lê. Por conseguinte, o encontro mais significativo, diferente de tudo o que vivera anteriormente, aquele que será lembrado como a cena primeira de leitura, emblemática, ocorre por volta dos seus doze anos. Reconta essa história muitas vezes no diário, nas cartas, em artigos de jornal, no prefácio de O alegre Arcipreste (1959). “Ali pelos doze anos eu lia tudo, aunque fuesen los papeles rotos de la calle (por fazer minhas as palavras do prodigioso autodidata que foi Cervantes)”186, recorda ele, deixando-se confundir com o autor do Quixote.
183 Carta a Ruth Nielsen, datada de 10 de dezembro de 1964. 184 Carta a Ruth Nielsen, datada de 10 de dezembro de 1964. 185 Carta a Ruth Nielsen, datada de 29 de dezembro de 1964.
A propósito dessa obra, certo dia caiu-lhe nas mãos um exemplar do Dom Quixote no original espanhol, provavelmente trazido pelo irmão mais velho, pintor de paredes, da casa de algum freguês. O menino apanhou o livro já meio estropiado e começou a ler com gana, “sem perceber muitos vocábulos, sem penetrar em sua significação, encantado mais com o ritmo das palavras, embalado no fio da história, como se o conteúdo do texto jorrasse diretamente em sua alma”(MOREIRA, 1991, p.29). Dá-se assim, o encontro definitivo, e para sempre renovado, entre um leitor voraz e uma obra de arte, por natureza inesgotável, nunca inteiramente decifrável. O Quixote lhe inocula “o núcleo da ilusão – essa terrível e lúcida alucinação que o conduziu por toda a longa existência de 92 anos”(MOREIRA, 1991, p.29). De sua parte, Frieiro terá, na carreira de intelectual e professor de literatura espanhola, o prazer pessoal de dialogar com essa figura-símbolo da modernidade através da leitura do livro e da elaboração de artigos críticos sobre a obra de Cervantes187. E mais, assumiu o compromisso de divulgar o valor dessa extraordinária obra através das edições do/sobre Dom Quixote que colecionou188, e da leitura crítica do original que gostava de proporcionar a seus alunos da Faculdade de Filosofia da U(F)MG.
Voltando à história daquela cena primeira de leitura, sabe-se que, freqüentemente associada à
revelação nas autobiografias intelectuais está a figura do mediador, aquele que facilita a um outro o encontro com os livros e com as coisas do espírito. Nas memórias de Frieiro, o irmão mais velho é citado algumas vezes, menos como mediador intelectual do que intermediário entre o mundo lá fora e o lar proletário. Era ele espécie de mensageiro que trazia notícias da cidade e, de quando em vez, jornais e livros de segunda mão. Na verdade, Frieiro fazia questão de proclamar a sua autonomia mental e intelectual, tendo dito mais de uma vez: - “O que sei aprendi sozinho, comigo mesmo”.
Quer me parecer, contudo, que a singularidade do menino Eduardo, pobre, franzino, muito tímido, foi ter tido como guia de leitura, não o pai, o avô ou a professora, alguém de suas relações parentais e afetivas como tiveram, no seu tempo, muitos meninos, ricos ou pobres. O que o distingue dos outros é a estatura de seu mediador inesquecível, ninguém menos que o
186 FRIEIRO, E. Minha amizade à literatura espanhola. Kriterion, Belo Horizonte, n.1, v.2. jul./set. 1947. p.34-
47.
187 Cf. VIEIRA, Anna da Soledad. Eduardo Frieiro; Bibliografia. Belo Horizonte: Esc. Biblioteconomia
UFMG, 1967.
188 Na sua biblioteca, hoje sob a guarda da AML, arrolamos seis edições diferentes do Don Quijote de la
Mancha, no original espanhol, além de um número não computado de livros e artigos sobre a grande obra. (Quando fiz essa anotação, os mais de 4.000 volumes não estavam ainda inventariados e catalogados).
ingenioso hidalgo Don Quixote de la Mancha! Seu guia - não exatamente ao mundo da leitura mas ao mundo através da leitura – foi essa figura mítica da literatura universal, personagem de um mundo agônico, que vivencia alguns dos impasses decisivos do nosso tempo, de qualquer tempo: o desejo de fazer do mundo o espaço da liberdade e da solidariedade, da justiça e da verdade, da beleza e da alegria, da honra e da compaixão.189 Difícil dizer, além do que o próprio Frieiro diz, o quanto Dom Quixote marcou o seu desenvolvimento pessoal e intelectual uma vez que o efeito que esse herói-problemático produz no leitor pertence à ordem das emoções, de complexa avaliação. Com efeito, assinala o escritor:
Lido por mim na puerícia, o livro de Cervantes foi um dos episódios mais felizes das minhas aventuras de caçador furtivo de leituras, que não tinha muito o que escolher, nem sempre sabia escolher e, por isso, fazia alvo de
todo papel escrito que se achasse ao meu alcance.190
De fato, o testemunho de quantos o conheceram é de que tanto o homem como o trabalhador intelectual espelharam, no concreto de sua existência, a força do mito quixotesco carregado de senso de justiça e de amor à verdade, ao custo, algumas vezes, de suscitar a ironia e a incompreensão de seus pares. Além disso, não se pode esquecer o veio inesgotável de reflexão que essa obra fundadora do gênero romanesco seguramente terá proporcionado ao escritor, do leitor iniciante ao futuro cervantista e professor de literatura hispano-americana, naquilo que ela oferece de problematização do ato de ler e de fundamento teórico sobre a própria obra e a literatura em geral. Leitor competente do cânone, ele nunca deixou de beber nessa rica fonte.
Mas, o encontro de Frieiro com esse grande livro põe em destaque a questão da leitura dos
clássicos à margem do centro europeu pelo leitor latino-americano do século XIX e começos do XX (MOLLOY, 2003, p.40). O que constato, antes de mais nada, é que o primeiro encontro do leitor de uma ex-colonia americana com o cânone foi quase sempre mediado por uma outra língua, quando não duas. Borges, caso atípico, cultivador do paradoxo, lê o Quixote na tradução para o inglês embora seja falante do espanhol. Frieiro lendo-o no original, mais intuindo que entendendo a língua dos seus antepassados, recupera uma conexão rompida, pela diáspora dos pais, com o mundo europeu, com a Espanha, mais precisamente. Assim:“...segui
siempre fiel en mi amistad a las cosas de España y en especial a su ‘riquísima,
189 PAULA, João Antônio de. Dom Quixote, a modernidade e nós. Palestra de abertura da Exposição Dom
Quixote de la Mancha – 400 anos. Belo Horizonte, Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, 2005.
individualísima y humanísima literatura’” revela ele, aos 70 anos, a um hispanista brasileiro.191 A cerimônia dessa primeira grande leitura consagra o pequeno espanhol desterrado, desgarrado, sem letras, no fundador de uma nova linhagem dos Frieiro: um Frieiro intelectual, um Frieiro que retorna à pátria distante pela via da literatura e encarna, pela re- criação leitora do Quixote, a figura de um grande espanhol, o maior de todos, o prodigioso
autodidata Cervantes. “Para fazer minhas as palavras de Cervantes [...]” teve ele a liberdade de dizer, imaginando-se, quem sabe, antes de Borges, um autor do Quixote!
A inevitável transmutação semântica implícita na tradução interlingual sustenta a primeira ruptura em relação ao cânone. Mas, a barreira lingüística perde centralidade nessa questão