... e teve então saudades da sua juventude inquieta e melancólica, saudades da sua infância triste e mofina. E. Frieiro. Basileu.
A necessidade de fragmentar o texto biográfico em etapas distintas, correspondentes aos ciclos cronológicos de uma vida, apresenta dificuldades que nem sempre é possível superar, em benefício do equilíbrio entre as partes, da leveza do estilo e da justeza das informações. Assim, situar a leitura como marca da infância de Frieiro não quer dizer que o processo não tenha continuado na juventude e na maturidade. Ao contrário, posso dizer que a temporalidade de sua vida poderia ser medida, exclusivamente, por sua relação com a leitura.
Do mesmo modo, o trabalho que começa na pré-adolescência se diversifica, sempre em função do escrito, mas não se interrompe até o final da vida. O leitor, o operário do livro e o escritor se confundem num trajeto só aparentemente previsível. As indecisões, os recuos, os imprevistos nessa vida que se conta são perceptíveis, ano após ano, na escrita reiterativa das cartas.Mas, como todo autobiógrafo, Frieiro queira dar a entender, ao seu leitor, que desde o início, como um fado, estava destinado a ser o intelectual que é, o erudito que se tornou, acentuando os fatos que corroboram essa impressão. Na verdade, ele estava bem ciente de que, entre a experiência de vida e a sua grafia, se interpõe a imaginação criativa, a qual, justamente, faz “a graça e a perdição do gênero biográfico”.197
Em carta de 1/8/1961, anteriormente citada, agradece ao escritor Soares de Faria um exemplar de seu livro intitulado Minha vida e comenta:
[...]Não escreverei as minhas [memórias] porque não acho nada interessante na minha vida, que foi modesta, recolhida e paupérrima em acontecimentos dignos de nota. É certo que o memorialista é que dá interesse ao que porventura conte, se é um bom narrador. Acresce que a minha existência passada não me deixou saudades, nem me agrada lembrá-la.[...]
Também agradecendo um livro recebido de Nélson Lustoza Cabral, em 3/11/1963, diz:
[...]No dia seguinte ao do agradável bate-papo em casa do José Condé recebi o seu
livro Paisagens do Nordeste, cortesia que muito me penhorou. Eu acabava de almoçar naquele momento e, ainda à mesa, enquanto tomava o café, fui entrando nele, páginas a dentro. [...] era o mesmo humor nostálgico de homem nordestino a falar do“seu mundo”, o mundo de sua infância e adolescência, só recuperável através da re-criação imaginativa. Dizia Renan, nos Souvenirs d’enfance (deixe passar esta erudição de algibeira), que tudo que cada um diz de si é sempre poesia. Escrevem-se souvenirs para transmitir a outros a teoria do universo que cada um traz consigo.[...] (Grifo do autor)
Qual será, em suma, a visão de mundo que Frieiro traz escondida na sua reserva de homem introvertido mas que, intencionalmente, deixa escapar na tessitura de suas cartas? Como desvendar as intenções desse jovem leitor que, debruçado sobre a caixa de composição tipográfica vai construindo o homem erudito em que ele acaba por se transformar? Para isso é preciso refazer, com ele, os seus anos de formação.
Anos de formação
Estando o menino Eduardo com onze anos e meio, num lar onde não cabiam bocas improdutivas, seu pai pensou em conduzi-lo para a profissão de pedreiro, como ele próprio, ou de pintor, como o irmão mais velho. A mãe, entretanto, vendo-o tão franzino e temendo por sua saúde, pediu a um vizinho na Ponte do Saco, o major Augusto Serpa, chefe das oficinas da Imprensa Oficial do Estado, que arranjasse naquela repartição uma colocação para o filho. Nas palavras de Frieiro, o major “esquivou-se, disse que eu era muito miudinho, mas minha mãe insistiu e ele mandou que eu fosse lá. Fui e fiquei até aposentar”.198 Tão miúdo ele era, de fato, que nos primeiros anos de trabalho tinha que subir num caixote para alcançar as
198 OLIVEIRA, H. A. Eduardo Frieiro, ou de como chegar aos 90 anos.Belo Horizonte, Estado de Minas, 15 jul.
caixas de impressão. Em outra entrevista, poucos meses antes de morrer, reconta o mesmo fato, tirando das dobras da memória mais um pequeno detalhe: “[...] aos onze anos ganhei minhas primeiras botinas e o emprego de aprendiz de tipógrafo” 199.
Não obstante as barreiras físicas e psicológicas que o menino enfrentou ao entrar no mundo do trabalho, começava ali, na casa da palavra, o caminho que o direcionou, em definitivo, para o mundo do texto impresso, sensibilizado igualmente pela forma e pelo conteúdo dos livros. A partir do gosto precoce pela leitura e da prática, igualmente precoce, com a composição tipográfica, desenvolve percepção para a interdependência entre a materialidade do texto ou discurso e a produção de sentidos. Canaliza tal interesse e conhecimento, mais tarde, para a editoração e para o ensino da disciplina História do Livro e das Bibliotecas, integrante do currículo dos cursos de Biblioteconomia. Habitavam sua biblioteca, autores como Henri Lebfévre e Albert Cym, importantes teóricos no exame do objeto-livro como fonte histórica. Esse tema, aliás, viria a ganhar renovada importância na chamada História Cultural, a partir da década de 1980, sobretudo com Donald F. McKenzie (1986) e Roger Chartier (1987). Frieiro também pensava sistematizar, em livro, seus conhecimentos sobre esse assunto, conforme responde ao cronista Paulo Mendes Campos em 1957, então um dos diretores da Editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro. O convite feito ao escritor mineiro era para escrever um trabalho para constar na Coleção Retratos do Brasil daquela editora. Sua resposta, em 9/3/1957, diz o seguinte:
Agradeço a gentileza, que muito me desvanece, mas nada tenho para mandar agora, nem posso prometer nada de concreto. Ando cada vez mais ocupado, e sempre com pouca vontade de escrever. Pensarei entretanto no assunto. Se tiver tempo e pachorra bastantes, prepararei uma pequena história do livro, com base em lições dessa matéria que dei durante dois anos no Curso de Biblioteconomia, aqui. Vago projeto, por ora. [...]
O momento, ao que parece, não era propício à realização do projeto que, na realidade, nunca foi realizado. Mas, o prazer de ver o bom texto conjugado à bela impressão, despertado no trabalho naquela casa de impressão será tema constante na vida do escritor, tema esse compartilhado com muitos dos seus correspondentes. Assim sendo, em 09/06/195[?], escrevendo a Saldanha Coelho, escritor e Diretor da Revista Branca200, ressalta:
Gosto do livro bem feito, por dentro e por fora. Felicito-o pois pela excelente apresentação do material de seu livro [Mural, 1950], que revela experiência tipográfica.
Parabeniza, também, Guilhermino César, em 25/08/1965, pelo belo livro:
Parabéns, Guilhermino, pelo belo livro [Lira coimbrã e Portulano de Lisboa]. E que apresentação gráfica condizente com a clara beleza dos poemas. Parabéns.
Mas, a longa e bem sucedida trajetória de Frieiro na Imprensa Oficial de Minas Gerais é contada por ele em breves termos:
[...] Depois [de passar quase vinte anos como compositor caixista], devido à insistência do meu amigo Moacyr Andrade, fiz um concurso de revisor, no qual fui aprovado, já que não tive sequer um erro de português. Com o passar do tempo exerci as funções de redator e secretário do Minas Gerais, órgão oficial do Estado201.
Em outra entrevista ele acrescenta mais um dado da sua carreira na Imprensa Oficial, que significa, também, o começo de sua experiência como crítico literário:
Fui depois [de ser revisor concursado] chefe de revisão, redator e, finalmente, secretário deste jornal, onde comecei até uma coluna de crítica
literária [a partir de 1927], graças ao Diretor Abílio Machado”. 202
As condições que o levaram a participar do concurso pelo qual passou de compositor caixista a revisor, abrindo-se-lhe as portas à progressão funcional dentro da instituição, são interessantes e merecem destaque por expressar um pouco da personalidade arredia de Frieiro. Com efeito, já estaria ele com mais de vinte anos no momento em que a Imprensa Oficial abre concurso público para revisor. Frieiro relutava em se inscrever, mas o amigo Moacyr, extrovertido e dono de um temperamento brincalhão, também funcionário da Casa, não teve dúvidas: falsificou a assinatura do jovem tímido no formulário de inscrição! Sem saída, Frieiro fez a prova, passando brilhantemente em primeiro lugar.
Voltarei, porém, ao começo do século, para acompanhar o menino na sua formação profissional naquela repartição pública onde, além da folha oficial Minas Gerais e de
200 A Revista Branca foi publicada no Rio de Janeiro, no período 1950-1954. (Fonte:ANTELO, R As revistas
Literárias Brasileiras. Disponível em: http//:<<www.cce.ufsc.br/~nelic/Boletim_de_Pesquisa2> Acesso em: 24 junho 07.
201 EDUARDO Frieiro aos 92 anos: a arte de permanecer atual. Jornal de Casa, Belo Horizonte, 6 dez. 1981. 202 OLIVEIRA, Heloísa Aline. Eduardo Frieiro, ou de como chegar aos 90 anos. Estado de Minas, Belo
documentos oficiais, se imprimiam outros jornais, livros e folhetos às custas de clientes particulares. A incipiente capital do estado no começo do século XX tinha menos de 15.000 habitantes, mas já contava com um número significativo de periódicos, embora fossem folhas modestas e de pequena tiragem, entre os quais, Belo Horizonte, A Capital, Tiradentes, A
Aurora e o jornal humorístico O Boêmio (ANDRADE, D. 1947, p.23).
Componedor na mão, lidando com tipos a tarde inteira, o interesse pela leitura se aguça! Frieiro lê tudo o que lhe cai nas mãos! O ambiente familiar conformado em torno da união entre pais e filhos e do trabalho responsável foi, pelo que pude deduzir, importante para orientar o espírito metódico e pertinaz do pequeno Eduardo, transferido para a sua carreira de intelectual. Um artigo seu intitulado Elogio da mulher pequena203 dá idéia do valor atribuído ao trabalho na sua formação. Leia-se um pequeno trecho:
Criei-me no meio de gente do trabalho, gente na maioria formada de famílias de imigrantes espanhóis, italianos e portugueses, os que ajudaram a construir a nova capital mineira. Nessas famílias laboriosas, poupadoras e previdentes, que ascenderam pela maior parte na escala social, nem sei quem trabalhava mais rijamente, se o homem ou a mulher. Lembro-me que as mulheres lidadeiras eram a regra, sobretudo entre as de pequena estatura. Ficou-me desde então a idéia de que as mulheres mais ativas, corajosas, alegres e sofridas não são as grandes [...].
Pedindo licença à psicanálise, aventuro dizer que esse retrato da mulher laboriosa é uma projeção da imagem de sua mãe, a quem descreve, no Diário, como “baixinha, alegre, companheira infatigável do pai no trabalho e na criação dos filhos, morta aos 57 anos de uma doença prolongada, quando, estando a prole já criada, a família começava a ter estabilidade financeira”. Sobre o dia da morte dela consta, do mesmo modo, no Diário: “Lembra-me que, quando o padre entrou para lhe ministrar a extrema-unção, eu, que ainda era novo na irreligião e no pessimismo, tive vontade de gritar, repetindo uma conhecida blasfêmia: - A única desculpa de Deus é que ele não existe!”204
Por outro lado, é difícil não relacionar a imagem do pai severo e o seu próprio senso de ordem e respeito à autoridade que, mais tarde, pode-se pensar, se refletirá na maneira positiva de avaliar chefes de Estado fortes como Getúlio Vargas e Perón. Um pequeno trecho de Os
livros nossos amigos sugere como, na mente infantil de Frieiro, se reforça a noção de
203 Publicado nos jornais Folha de Minas, 8/4/1945 e Estado de Minas,25/5/52 e na revista Kriterion, n.11,
legitimidade da autoridade paternal ao espelhar, na figura do Pai bíblico, o seu próprio genitor:
Entre as primeiras leituras que fiz, leitor precoce, ávido sobretudo de obras de imaginação, conta-se uma História Sagrada em versão resumida, ornada de figuras, para uso das escolas católicas. O autoritário e zangado Jeová de longas barbas (que lembravam obviamente as de meu pai) causava-me forte impressão, e do fundo do coração eu aprovava a sua severidade paternal na distribuição de ralhos, prêmios e castigos (FRIEIRO, 1999, p.60).
O caminho do ceticismo que tomou no início da juventude, na linha da filosofia do obstáculo, da perplexidade e dos resultados não encontrados,205 surpreendentemente, não abalou o peso que continua a atribuir a valores como ordem, hierarquia, merecimento, introjetados na infância e aplicados ao seu desempenho profissional ao longo da vida. De fato, a disciplina e o rigor com que se dedicava ao exercício de suas funções de tipógrafo e revisor eram vistos por ele mesmo como requisitos básicos do trabalhador, não importando a função que desempenhasse ou a remuneração que recebesse. A propósito, Moacyr Andrade (1999, p.16- 7) conta que, antes de se tornar grande amigo de Frieiro, conhecia-o de vista dos corredores da Imprensa e de ouvir o “Seu” Manoel da Costa, chefe da sala de Composição de Obras apregoar ser aquele sujeito recolhido e caladão, o mais perfeito tipógrafo de sua seção. A ele o chefe entregava sempre os serviços de composição mais difíceis, que exigiam arte e zelo – os trabalhos de quadros e corondel. “Frieiro dava conta magnífica das tarefas que exigiam técnica e paciência, pois era um grande gráfico e não apenas um puxador de linhas no componedor”, revela o amigo. Além disso, o gosto pela língua bem escrita e pela filologia de
algibeira (expressão sua) também já o caracterizava nessa fase de vida. Compondo, como tipógrafo, o livro Raízes e Cognatos de Carlos Góes, Frieiro fez, um dia, uma observação ao eminente professor sobre certa raiz de uma palavra. Timidamente, discordava do que o autor escrevera. Mestre Góes anotou a observação do jovem funcionário e, no dia seguinte, ao devolver as provas emendadas, disse-lhe: – “O senhor tem toda razão. Fiz novas consultas e verifiquei que o senhor está certo.” Conversaram mais um pouco e Carlos Góes correu ao gabinete do diretor da Imprensa, então o Noraldino Lima, seu colega da Academia Mineira de Letras, para dizer-lhe: - “Você provavelmente não sabe que tem aí na Imprensa um tipógrafo que conhece português mais que muitos bons professores. É o Eduardo Frieiro.” “Noraldino, é claro, até então não sabia. Frieiro ocultava-se demais”, conclui Moacyr Andrade.
204 FRIEIRO, E. Novo Diário, p. 26-7.
205 DUMONT, Jean- Paul. Ceticismo. Encyclopaedia Universalis. Trad. Jaimir Conte. Paris: [s.d.], vol. 14, p.
Quase duas décadas depois, em junho de 1939, um revisor do jornal Folha de Minas escreve uma carta a Frieiro em defesa da classe dos revisores, supostamente atacada pelo nosso escritor em mais de um artigo que havia publicado sobre os erros tipográficos quase inevitáveis em livros e jornais. A resposta de Frieiro, além do orgulho pela especialização profissional conquistada por mérito, mostra um pouco de sua ética no trabalho. Nessa carta, ressalta a indispensável reunião de competência e responsabilidade que deve, na sua opinião, presidir o desempenho de qualquer função. Revela, igualmente, num modelo vagamente freudiano, a severidade paternal que admirava em criança no Jeová bíblico, aplicada ao seu próprio julgamento do trabalho alheio.
[...]Respondo com satisfação à carta que me enviou, em desagravo dos brios da digna corporação de revisores da Fôlha de Minas. Está muito bem a sua defesa, falha num só ponto: é que o senhor se dirige a mim como se eu não avaliasse bem o que é o serviço de revisão. A quem o disse! Fui revisor, no Minas Gerais, seis anos, por concurso, em que tirei o primeiro lugar, e isso depois de haver sido tipógrafo caixista durante cerca de vinte anos! O senhor alega que o serviço de revisão é penoso e mal remunerado. Afianço-lhe que muito mais penoso e piormente remunerado é o do compositor manual.E há outros ainda que o são muito mais. Seja como for, a competência não depende de tais fatores.Bem pago ou mal pago, pesado ou leve que seja o serviço, a sua perfeição é função unicamente da competência do trabalhador. Eu não disse que todos os nossos revisores são incompetentes. Há, naturalmente, excepções – que confirmam a regra, como se diz. O senhor é uma delas. A prova que corrigiu e me remeteu está irrepreensível.Dou-lhe meus parabéns[...].206
Contudo, parece-me interessante ressaltar: o escritor não romantiza a sua longa e vitoriosa trajetória de servidor público, de aprendiz de tipógrafo a primeiro secretário do jornal oficial do Estado. Ao contrário, a lembrança que guarda desse tempo é sombria e carregada de mágoas e ressentimento. Em 22 de abril de 1946, ele responde a uma carta do escritor Cyro dos Anjos, que o cumprimenta pela aposentadoria na Imprensa Oficial. Mesclam-se, nessa resposta, a satisfação de poder descansar depois de quatro décadas de trabalho disciplinado e a melancolia por associar a inatividade com a chegada da velhice e da morte.
[...] Agradeço pela Noêmia e por mim os seus parabéns, que eu melhormente interpreto como voto de condolências. Sim, porque a aposentadoria, esse pré- atestado de óbito (a que não faltou no meu caso o ante-necrológio no Minas, feito pelo Moacir [Andrade], insigne enterrador,a aposentadoria, digo, não é caso de parabéns, mas de pêsames. Os cumprimentos pela minha aposentadoria soam a meus ouvidos como uma missa de réquiem, em vida. Como quer que seja, considero motivo de parabéns a alforria do meu longo cativeiro de pequeno funcionário na mais modesta repartição do Estado. Felizmente, já não me recordo bem – poucos
dias após a minha alforria – de haver lidado uma vida inteira naquela infecta repartição de que Você também não tem saudade [...]. (Grifos do autor)
Os termos tão carregados com que descreve aqueles anos de trabalho – longo cativeiro, pequeno funcionário da mais modesta e infecta repartição – se, por um lado, expressam o modo habitual de falar de si, subestimando-se, por outro lado mostra a sua capacidade de superação. Mas não se trata da superação movida pela ambição de atingir uma meta específica, como costumam proclamar muitos indivíduos que se fazem por si mesmos. No caso de Frieiro, o mérito de ter atingido destacado lugar como intelectual deve ser creditado, em grande parte, vale repetir, à herança de ambiente familiar e social de imigrantes europeus que viam, no trabalho duro e disciplinado, a condição única para a sobrevivência e ascensão social na nova terra. Isso me pareceu claro na forma como elaborou sua formação autodidata e na maneira como negociou o preço de seu trabalho intelectual, como focalizarei à frente.
Autodidatismo
“Mestres, só conheci um. Eu mesmo”, tinha orgulho de repetir. Sem condições financeiras de freqüentar o ginásio, como se denominavam, na época, os anos do ensino secundário, Frieiro estabeleceu para si mesmo um plano de estudos rigoroso e metódico. Consistia, esse plano, em tomar conhecimento da grade curricular oficial vigente nos ginásios do país e cumpri-lo estudando sozinho, todos os dias, matéria por matéria. Sua autodisciplina, contudo, ia mais além: periodicamente, avaliava o progresso de seus conhecimentos para, ele mesmo, promover-se ao período seguinte. “Professor e aluno numa pessoa só! E ambos criteriosos: o professor exigente e o aluno querendo saber”, no testemunho do jornalista Moacir Andrade(1999, p.15). Poderia dizer, usando as palavras de Paulo Freire sobre a politicidade da aprendizagem, que Frieiro alcançou, muito jovem, a capacidade de tomar para si sua própria formação, isto é, tornar-se sujeito e objeto da formação de si mesmo. Contudo, sem desmerecer a autonomia e a perseverança com que esse autodidata realizou a sua caminhada no “desejo de conhecer”207, considero que o motor de seu extraordinário esforço não foi uma contestação ao sistema educacional tradicional, na linha de teóricos históricos do autodidatismo como William Godwin (1756-1836) ou Joseph Jacotot (1770-1840)
207 Aristóteles inicia Metafísica dizendo: “Todos os homens têm, por natureza, o desejo de conhecer...” (1979,
(VALVERDE, 2005), mas a vontade de inserir-se, ainda que de maneira alternativa, no sistema escolar vigente na sua época. Daí, quem sabe, a supervalorização da cultura letrada e a dificuldade de aceitar a renovação da linguagem implícita no movimento modernista, contemporâneo dos seus primeiros artigos em jornais mineiros.
Data desse momento, do mesmo modo, o seu interesse em aprender línguas estrangeiras: ouvindo falar, falando, lendo, sobretudo lendo. O galego, língua dos ancestrais, chegou-lhe primeiro aos ouvidos, como música e como poesia: