• Sonuç bulunamadı

KAPSAMINDA GÖKÇEADA

3.1.4. Gökçeada’nın Toplumsal ve Kültürel Yapısı

Em termos tipológicos, a estratégia prototípica para a expressão de posse predicativa nas línguas bantas é a construção de cópula associada ao uso de uma partícula de valor comitativo, conforme bem atestado pelos trabalhos de Heine (1997) e Stassen (2009). Na terminologia de cada autor, diríamos que a maioria das línguas bantas segue o Esquema de Evento de companhia, nas palavras de Heine, ou que são línguas de possessivos comitativos, na terminologia de Stassen. Uma rápida olhada nos títulos dos trabalhos voltados para a relação entre os domínios conceituais relacionados a possessivos demonstra sem grandes dificuldades a quase que total ausência do comitativo nos debates sobre a base conceitual de posse predicativa (Clark, 1978; Freeze, 1992; Kayne, 2000; Langacker, 2009), excetuando o trabalho tipológico de Stolz, Stroh e Urdze (2006) que é voltado justamente para o domínio do comitativo. Ainda assim, o trabalho desses autores é dedicado quase que exclusivamente às línguas da Europa. Sem dúvida, parte do motivo da ausência do comitativo nos debates sobre possessivos se dá pela preferência de utilização de línguas de possessivos locativos, ou possessivos de tópico para tentar explicar as línguas que usam verbos (semi)transitivos, equivalentes a ter do português ou have do inglês para a expressão de posse predicativa. Línguas que utilizam a estratégia de possessivos comitativos são marginalmente citadas ou analisadas. Esse cenário se mostra intrigante se levarmos em conta que o domínio do comitativo está intimamente relacionado ao de possessivos, sendo mesmo bastante expressivo nas duas principais tipologias de posse predicativa, discutidas no capítulo 3 (Heine, 1997; Stassen, 2009).

Fora alguns poucos trabalhos como os de linha tipológica de Stolz (2001) e Stolz, Stroh e Urdze (2006), o comitativo não parece representar um bom candidato a dividir as descrições e análises sobre a relação entre possessivos com locativos e existenciais. Mesmo quando o comitativo é identificado entre as estratégias para posse predicativa, como é o caso da estratégia comitativa em português (estar com), os autores tratam do valor semântico de comitativos como uma espécie de locativo (Avelar, 2009a considera a preposição com do português como PP locativo). O trabalho do cognitivista Langacker (2009, p. 103) não é diferente. O autor inclui a preposição with do inglês como uma das alternativas “locativas” para possessivos locacionais (Langacker, 2009 , p. 103). Tal posicionamento não deixa de ter reflexo até mesmo em manuais de linguística voltados para trabalhos de campo, como em Thomas Payne:

Pode parecer estranho o possuidor em uma oração possessiva ser considerado um

locativo, mas quando você pensa sobre isso, é o que um possessivo é: quando você

possui algo, ela está literalmente ou figurativamente localizada “sobre”, “em” ou “com” você. [...] muitas línguas prestam atenção gramaticalmente para essa similaridade cognitiva tal qual os possuidores são tratados formalmente da mesma forma que locativos. (Payne, T., 1997, p. 122)16

Talvez o trabalho mais próximo do que está sendo pretendido aqui seja o de Lisa Levinson (2011), que parte de dados do islandês e sua estratégia comitativa para possessivos. No entanto, a crítica da autora se dirige mais precisamente à caracterização da categoria P nos trabalhos formalistas e a natureza dos processos de incorporação. Vale citar a seguinte constatação da autora: “Línguas que têm possessivos de companhia envolvendo preposição têm sido pouco discutidas na literatura sobre TER, apesar do fato de que essas construções se assemelharam muito mais as de TER.” (Levinson, L. 2011, p. 363).17

Tal constatação torna-se mais curiosa se considerarmos que a estratégia comitativa é uma das mais representativas estatisticamente nas tipologias de posse predicativa (Heine, 1992; Stassen, 2009), depois da estratégia locativa, tendo no grupo das línguas bantas suas maiores representantes. Basicamente, uma área geográfica significativa do continente africano tem no comitativo a principal estratégia para construções possessivas, no entanto, os trabalhos voltados para a relação entre possessivos e outros domínios conceituais se restringem aos domínios dos locativos e existenciais. Os trabalhos tipológicos de Stolz (2001) e Stolz, Stroh e Urdze (2006) tomam o comitativo como foco da análise, mas também se restringem ao papel semântico do Comitativo principalmente em relação ao de Instrumento. Até mesmo na discussão sobre possessivos e outros domínios, Heine (1997, 4.4) se restringe àqueles discutidos na literatura e nada menciona sobre a significância do comitativo. A questão óbvia a que se pode chegar com essas constatações é a de como seriam os resultados ou direcionamentos dos debates sobre possessivos se o comitativo fosse levado em conta mais seriamente? Nesta tese, essa é uma das principais questões, trazer para o palco de debates sobre possessivos o papel do comitativo na sua relação com possessivos, locativos e existenciais, e com ele a contribuição das línguas bantas para o refinamento dessas discussões. Produzimos assim, um casamento dos resultados tipológicos sobre possessivos com os

16 “It may seem odd that the possessor in a possessive clause is considered to be a location, but when you think

about it, that is what possession is: when you posses something it is literally or figuratively located “on”, “at”, or “with” you. […] many languages pay attention grammaticaly to this cognitive similarity in that possessors are treated formally the same as locations.”

17 “Languages that have companion possession involving prepositions have been little discussed in the literature

resultados dos debates teóricos sobre a relação entre as construções possessivas com locativas e existenciais.

Uma primeira mudança a ser produzida nessa nova perspectiva seria que não mais apenas a tríade Locativos-Existenciais-Possessivos deveria ser considerada, mas o quarteto Locativos-Existenciais-Comitativos-Possessivos, atentando para as quatro principais estratégias para a expressão de posse predicativa nas línguas do mundo. Heine (1997, p. 222) refere-se justamente a essas quatro “formas elementares de expressão da experiência”. Outra mudança esperada seria o que Lisa Levinson (2011) demonstra com os dados de uma língua que usa uma estratégia comitativa para possessivos, a de que os dados do islandês vão contra um paradigma localista forte, nas linhas de Freeze (1992). Nesse caso, mesmo que os autores continuem adeptos de algum tipo de “unitarismo” formalista, mesmo o mais flexível, como o que segue nas linhas de análise de Kayne (2000), atentar para o comitativo, de certa forma, tira a centralidade do locativo/existencial nas análises sobre possessivos e seus domínios conceituais. A esse respeito, as línguas bantas tornam-se um terreno fértil para testar os limites do paradigma localista, pautado principalmente no processo de incorporação.

Podemos apontar como uma diferença básica entre nosso trabalho e os demais que se ocuparam das construções possessivas em relação com as construções locativas e existenciais, o papel primordial do domínio conceitual do comitativo no conjunto das principais estratégias utilizadas pelas línguas naturais para a expressão de posse predicativa. Acreditamos que um melhor entendimento da relação entre possessivos, existenciais e locativos só se dará com a participação do comitativo, completando assim o quadro dos domínios conceituais de possessivos.

4.7 Em síntese

Frente a essa diversidade de abordagens sobre o mesmo tema, acabamos por encarar alguns questionamentos epistemológicos sobre o posicionamento teórico a que deveríamos adotar. Tendo em mente os objetivos de descrever as construções locativas, existenciais, e possessivas em línguas bantas sem esquecer a importância do comitativo para essas línguas, e o caráter conceitual das relações existentes entre essas construções, uma primeira alternativa seria a de abordar as construções focalizadas a partir de uma base conceitualista de linguagem.

A abordagem cognitivista nos pareceu mais adequada para tal empreendimento, por compartilharmos de alguns dos seus pressupostos como a base simbólica da linguagem e a

abordagem da língua baseada no uso (usage-based approach). A abordagem cognitivista se coaduna bem com o posicionamento de Heine (1997, p. 205) para quem: “[… ] posse, da forma como encontramos no discurso linguístico, não é um domínio independente e autocontido, mas sim um domínio que exibe um número de relações sistemáticas com outros domínios da conceitualização humana.” (Heine, 1997, p. 234).18 Concordando com essa afirmação, decidimos enfatizar o caráter cognitivo das relações entre possessivos e os demais domínios conceituais, o que nos levou a buscar em uma abordagem cognitivista de gramática os dos processos de conceitualização que serão úteis para uma analise conjunta dos quatro domínios em questão, foco do Capítulo que segue.

18 “... possession, as we encounter it in linguistic discourse, is not an independent and self-contained domain, but

CAPÍTULO 5

____________________________________________________________