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cuia e do Conselheiro PauHno. na mesma meC:ida em que golpeavam o porte­ lismo. reabilitavam funcionários republicanos e monarquistas preteridos por Portela.

Alarmada com a tendênda do governo Baltasar. a facção deposta buscou convencer Floriano a promover o retomo do estado à '·Iegalidade··. Seus jornais advertiam o marechal pard a hegemonia do Conselheiro Paulino de Sousa no novo situacionismo. o que representaria para o estado a perma· nência do " peso tremendo da mão de feITO escrdvocrata. origem de todos os seus males. de todas as suas desgraças. de tudo quanto de mau lhe acontet ceu no penodo de 30 anos"" O argumento. que lembrava a responsabilidade do chefe conservador na defesa da escravidão e no despreparo em que a província fluminense se encontrava quando da Abolição. seria poderoso se. de fato. a luta política estivesse sendo travada em tomo de problemas relatit vos ao conservadorismo ou progressismo das correntes partidârias. Na ver­ dade. porém. os políticos se alinhavam indiferentes às filiaçõc:s anteriores. unidos pela perspectiva do poder. As dissidências. antigas ou não, começa­ vam a ser sepultadas em nome da construção da República. isto ê. da fede­ ração. efetivo elemento aglutinador das facçõc:s oligárquicas.

O calendário eleitoral de Baltasar da Silveim foi mantido. e o regula­ mento das eleições para a nova Constituinte fluminense foi baixado em 21 de dezembro. Enquanto ainda se discutia a questão eleitoral. a facção porte lista sofreu novo revés. acusada de participar da revol ta da fortaleza de Santa Cruz, na baía de Guanabara. deflagrada por partidários de D1::odoro da Fon­ seca em

19 de janeiro de

1892.

O movimento foi derrotado no mesmo dia. e os porte listas viram-se em situação ainda mais delicada. tendo-se mesmo queixado de sofrer perseguições ligadas 11 repressão aos revoltosos.' Nessas condições. sô lhes restava pregar a abstenção eleitora .. '

No melhor estilo da época. a chapa situacionista - e unica - foi divul­ gada uma semana antes das eleições.' Os nomes propostos. que incluíam apenas cerca de 20% de renovação em relação às listas apresentadas pela en­ tão oposição nos dois pleitos anteriores. mais uma vez representavam a co­ alicio que combatera Portela. Foi estabelecida uma certa paridade entre re­ publicanos e ex-monarquistas. constando da chapa pnlticamente todas a� chefias políticas de expressão no estado. Embora não incluisse o nome do Conselheiro P.,lUlino. a chapa abrigava. como das outras vezes. membros de sua famnia.

Realizadas as eleições em

3 1 de janeiro de 1892.

a chapa única foi eleita de ponta a ponta. O cronograma estabelecido pelos d�rctos de Baltasar da 70

Silveirn continuou sendo respeitado. e a Assembléia ConslÍtuinte foi ofi­ cialmente instalada em março seguinte.

Barbosa Lima Sobrinho refere-se à derrubada de Ponela como " um ou­ tro chungl'l. J� pluc�j da qUlldrilha man::ada pelos donos do poder ... • De fa·

to. não se processou uma revolução. mas um ajustamento no interior da classe dominante. No entanto. os candidatos eleitos para a nova Assembléia Constituinte não eram apenas os " candidatos da chapa de Silva Jardim. der­ rotados no plcito de 15 de setembro de 1890"". que agora "'voltavam vitorio­ sos"'. Naquele pleito. os antigos monarquistas haviam optado pela absten­ ção. e os republicanos tivernm de concorrer sozinhos. Agora. as duas cor­ rentes se apresentavam unificadas e como e�pressão politica de uma mesma substãncia social.

Vinualmente instalados no poder no govemo de Baltasar da Silveirn. os antigos monarquistas e os republicanos " históricos" procurariam ponanto consolidar a unidade construída durante as campanhas oposicionistas. Tra­ tava-se. essencialmente. de estabel�er as regras de relacionamento no inte­ rior da composição dominantc. de maneira que as im:vitâveis divergências de interesses não resultassem em impasses ameaçadores da ordem política. A nova Constituição deveria assim definir as condições em que a disputa intra..oJigárquica permaneeeria subordinada ao interesse geral de manter es­ tável a coalizão que assumira o poder estadual.

José Tomãs da Porclúncula. a quem os constituintes elegeram presidente da Assembléia Constituinte. fez da "conciliação'" o tema exclusivo das suas poucas intervenções em plenário. Já na sessão de instalação. pronun. ciou um discurso que afinnava çlaramente a relação entre a conciliação polí­ tiça e a autonomia estadual. isto é. entre a coesão das oligarquias do estado e o usufruto do federalismo." Os Anuis da CmlSliluinlt indicam o pleno ê�ito dessa política. já que não houve um tema sequer que opusesse republicanos históricos a ex-monarquistas enquanto blocos. As questões de principio do programa republicano - o presidencialismo. o federalismo e o sistema re­

presentativo - eram gerais o suficiente para se adequarem às çonveniências

das oligarquias es taduais. Assim. no momento em que se definiram as estru­

turas estaduais de poder. os temas dedsivos não tinham a ver com as dou­ trinas republicana ou monarquista. mas com a administração do poder local. a relação entre o estado e os municípios. a representatividade dos órgãos le­ gislativos etc. Questõcs como estas deveriam ser objeto de consenso entre as facções oligãrquicas. de maneira a garantir-se a concretização de seu principal objetivo polítko: a cSlabilidade do sistema em implantação.

2. A CONSTITUIÇÁO ESTADUAL DE 1982

Ao contrário do ocorrido durante o governo Portda. a constitucionaliza­ ção presidida por Pordúncula e orientada pela política de conciliaçâo elt­ pressou o ajustamento do an::abouço jurldico-polltico do estado à sua base social. O terreno

fora preparado por Baltasar da Silveira. que destruíra a rede institucional e clicntelistica montada por Ponda. e a segunda jornada constitucionalizadora veio apenas repor as coisas em seus devidos lugares. Reunindo lado a lado tradicionais conservadores. como o Barão de Mirace­ ma. Carlos Castrioto e Pedro Luís Soares de Sousa. e republicanos de pri­ meira hora. como Porciúotula. Alberto Torres e Pedro Tavares. a Assem­ bléia Constituinte de

1892

procurou na verdade contomar diferenças e defi· nir regras de dominação pan. os grupos hegemónicos no estado. adequan. do-as à ideoloaia do liberalismo conservador dominante no pais.

É

particularmente expressivo o tratamento dispensado pelos constituin· tes aos mesmos temas que selecionamos para comentar a Constituinte porte· I;sta. Os prazos dos mandatos. por exemplo. foram homogeneizados. Pelo aniao 116 ua nova Constituição,· o governador. 05 deputados estaduais. os

chefes dos executivos municipais e os vereadores exerceriam suas funções por perlodos de três anos. Não havia mais razões para impor mandatos lon· gos nem temer eleições como fator de ameaça à ordem.

No tocante ao Poder Judiciário. a Constituição de 1892 incorporou a P"'lTOIIativa de vitaliciedade dos juízes introduzindo ainda a de inamovibili· dade, que veio concorrer para a independéncia da mugistraHlra. A possibili· dade de remoção dos juízu de direito. desdobrada ao máximo pelo porte· lismo. constituíra um ponto delicado no equilíbrio entre os poderes locais e o poder estadual. Agora. porém, ao contrário do oconido no periodo anterior, enas relações tendiam ã estabilidade. O poder estadual - no caso. o Tribu· nal da Relação. nomeado pelo presidente do estado _ surgia como a instãn·

cia fiadora da autonomia do Judiciârio, na medida em que, pela nova Consti· tuição, os juizes de direito só poderiam ser removidos de suas comarcas nas hipóteses de acesso 11 posições mais ele\ladas na carreira. a pedido do pró­

prio por motivo de "conveniéncia pública. julgado provado pelo Tribunal da Relação",

É

claro que a última hipótese deixava aberta a possibilidade de pressão política sobre os juízes. mas o poder decisório ficava concentrado na órbita estadual. enquanto sob a Constituição porte lista os chefes locais dispunham do direito de exigir li remoção por meiu de uma simples represen·

tação.

A nova Constituição favortteu finalmente a ampliação da autonomia municipal. conferindo aos municípios a posse exclusiva sobre li arrecadação

do imposto de indústria e profissões e alargando a represenlllÇão local. A administraÇâo munic:ipal !)anou a .ser exercida por tres instituições: a Ci­ mara Municipal. compoSla de um conselho de vereadores eleilos pelo muni­ c/pio e de mais um vereador eleito em cada distrito; as juntas distritais. for· madas pelo vereador distrital e os juízes de paz. e a Assembléia Municipal. formada pela reunião da Câmara e das juntas distrilais.

À

Câmara Municipal e a seu presidente competiam funções deliberativas e eXel.:utivas. e às junlas distritais funções de assessoramento da Câmara. sobretudo no tocante li c0- brança de impostos. A Assembléia Municipal, por sua vez. deveria aprovar o orçamento e autorizar empréstimos. além de criar e extinguir cargos públi. coso

I.

O lratamento di5pensado

às três questões comentadas _ prazo dos mano datos. independência da maaistratura e autonomia municipal - e o estabele·

cimento de dispositivos inéditos _ como o voto direto para todos os carll:0s

eletivos. a representação das minorias," a descentralização da administra· ção estadual com a criação de Irés secretarias, e a implementação do Tribu· nal de Contas - revelam a plena realização do princíp;o liberal que caracte· rizou a República brasileira em seus primeiros tempos: centralização política combinada a descentralizaçâo administrativa. Nesse sentido. entende·se que

não se tenha sequer questionado a concesSÍlo ir. Assembléia Legislativa do

poder de veto às deliberaçôcs municipais consideradas COntrárias às leis do

eSlado e da federação. Se o ponelismo. escorado no governo federal e com bases precârias no estado. delegara tal poder de veto ao jtOvernador. a .se­

gunda Constituinte. expressiva do poder oIigãrquico estadual, pôde ser coe­

rente com o formalismo liberal. atribuindo tal prerrogativa li Assembléia

I..tgislativa. No interior da coalizão dominante. a aliança política deveria ponanto assumir este duplo conteúdo: exerckio pleno da autonomia admi·

nistrativa nas municipalidades. organizadas e geridas de maneira ampla·

mente representativa das chefias locais. e preeminência política da direçào eSladual. reconhecida pelas mesmas chefias locais como legitima fiadora da ordem política geral.

A segunda Constituição numinense, promulgada em 9 de abril de 1892. estipulava em suas ""disposições transitôrias" a imediata eleição. pelos cons· tituintes. de um presidente e um vice·presidente estaduais provisórios; a

eleição de deputados estaduais. do presidente e vice·presidente no estado Ij

dias depois; a instalação dll legislatura ordinãria em 12 de maio seguinte. e a

eleição. 4j dias depois da escolha dos deputados. dos vereadores e juizes de

paz. Ainda no dia 9. ClH-tllS Baltasar d:l Silveir.l e Miguel de Carvalho for.un eleitos respectivamente presidente e vice·presidente provisórios. e em se· guida a Assembléia Constituinte dissolveu·se. não sem antes prestar home· 7J

nqem ao marechal Aoriano Peixoto. Aliás, os laços com o governo federal se estreitanun no dia seguinte ao término dos trabalhos constituintes. quando nova tentativa de rebelião deodorisla foi denagrada no Rio de Ja­ neiro e $ufocada imediatamente."

No dia 18 de abril. a comissão encarregada pela recém-dinolvida As·

sembléia Constituinte de indicar os candidatos â Assembléia Legislativa do

Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) divulgou a chapa ofICiai em nome do

Parlido Republicano Auminense, li que pela primeira vez aparecia com esta

denominação, A própria composição da comissão refletia a aliança polftica

que conformava o partido, já que dela faziam pane os ex·monarquistas Car­ los Castrioto e Paulino José Soares de Sousa Junior. e os republicanos histó­ ricos José de Barros Franco Junior e Albeno Torres. Dos candidatos apre· sentados. apenas uito não haviam sido constituintes. o que revela uma pe­ quena renovação de nomes. Por outro lado. seguindo já as disposiçôcs cons·

titucionais relativas à represenlação das minorias. a chapa era incompleta.

sendo reservadas du vaga! à oposição.

Segundo o cronograma estabelecido pela Constituição, em 24 de abril realizaram-se as eleiçôcs dos deputados estaduais e do presidente do estado. A chapa do PRF foi eleita integralmente. cabendo as vagas restantes a can­ didatos avulsos simpatizantes do partido. uma vez que a oposição sequer concorreu. Para presidente estadual foi eleito José Tomás da Porciuncula. com Manuel Manins Torres. Mauricio de Abreu e Lourenço Maria de Al­

meida Batista (o Barão de Miracema) como vice-presidentef

3. AS BASES DA ESTABILIDADE

A administração de contradiçôcs secundãrias de maneira a preservar a identidade fundamental tem sido uma das principais caracteristicas do rela­ cionamento entre as classes e fr.tções de classes dominantes no Brdsil. Esse estilo "conciliatório", que se tomou um mito importante na cultura política do país." foi persejuido pelos novos donos do poder no ESlado do Rio não

SÓ durante os trabalhos constituintes. mas nos jovemos que se seguiram, de Porciúncula e Mauricio de Abreu. resultando num padr;;'o de prática político-administrativa eficiente. A estabilidade a que esle modelo condutiu, viabili:zada sem duvida pela melhoria da situação financeira do estado. não

resultou da ausência de conflitos -na verdade. houve vlírios -, mas de sua

sllpen.ção. garantida pela �intonia entre o governo estadual e o

PI{

F. de um hldo, e o 1I0vemo federal. de O1.Itro. A estabilidade Ir .. dutiu-se. enfim. no eontrote do governo sobre 1000S os pleitos rcllliUldos entre 1892 e

1897.

Um dos principais objetivos da lUla federalista contra o centralismo im­