I. BÖLÜM
6.6. Futbolcuların Seyirci Saldırganlığı Üzerindeki Etkileri
A exigência da presença do pesquisador no local e durante a realização do trabalho é técnica privilegiada pela ergonomia de tradição francesa. Conforme apontam Guerín, Laville, Daniellou, Duraffourg e Kerguelen (2001): “a abordagem mais imediata da atividade é a observação” (p. 143). Inspirada por essa corrente teórico-metodológica, mas sem a pretensão de realizar uma intervenção ergonômica, a observação foi imprescindível para a minha aproximação com a atividade de trabalho dos inspetores ferroviários e esteve presente em todas as 67 incursões que fiz no campo, rendendo um registro de caderno de campo de 121 páginas.
Schwartz e Durrive (2010) afirmam que a distância entre o prescrito e o real “só será explicitada caso se vá a campo para ver, e caso se aprenda com o que se vê, inclusive discutindo com a pessoa que trabalha” (p. 43). A importância da observação na construção da pesquisa fica clara no comentário do inspetor Pedro, em um momento de devolutiva, após a nossa leitura conjunta de trecho desta dissertação relativo a um dia em que o acompanhei em uma viagem de trem e pude ver a sua ação na resolução de um problema. Ele diz:
Você tinha que ver mesmo como que é o lado operacional para você conseguir escrever isso aqui. Sem você ver [sic] o lado operacional e aquele dia ter dado aquele problema lá, é bom que você viu [sic] realmente. Porque uma coisa é falar, outra é ver acontecer, né? Então, aquele dia deu tudo certo, você viu lá os problemas que dá [sic], como que a gente resolve, você viu o produto final, que foi chegar com o trem aqui sem problemas. Eu não saberia escrever esse tanto de coisa que você escreveu com essas palavras bacanas, mas basicamente é isso, você viu a situação normal acontecer, aí você viu um problema acontecer, viu a solução do problema e viu o que resultou, a solução. O trem chegou aqui e coisa, é uma situação que deu a você uma bagagem para escrever.
Falar do trabalho sem antes presenciá-lo, muitas vezes, só nos remete a
representações parciais com pouco conteúdo para uma aproximação, de fato, da atividade.
Ver o trabalho me trouxe não apenas bagagem para escrever, como muito bem pontuou o
inspetor, mas também bagagem para dialogar. A observação marcou um ponto de partida para convocar possibilidades de diálogos entre mim e os trabalhadores que se apoiaram em referências concretas do trabalho.
Assim, se a observação pode ser considerada como meio mais irrefutável para se chegar a um conhecimento da atividade real, em vários casos mostra-se insuficiente para compreender os motivos dessa atividade, os raciocínios e os conhecimentos em que se baseia. É, no entanto, um apoio indispensável para produzir explicações por parte dos operadores: é a partir de casos concretos que podem ocorrer trocas detalhadas a respeito de eventos e ações efetivamente constatados pelo observador e vividos pelo operador. (Guerín et al, 2001, p. 164)
Os diálogos em busca da compreensão da atividade de trabalho foram construídos tanto em forma de verbalizações simultâneas e consecutivas, como de entrevistas semiestruturadas embasadas nas observações. As verbalizações são perguntas feitas aos trabalhadores com o objetivo de compreender aquilo que se observa (Guerin et al, 2001), as simultâneas são aquelas que ocorrem durante o curso do trabalho e favorecem entendimentos básicos acerca da atividade, e as consecutivas são aquelas feitas depois que a atividade foi encerrada. As verbalizações simultâneas proporcionaram explicações no calor da condução do trabalho imprescindíveis para a minha compreensão das inúmeras atividades complexas que presenciei. Mas isso não se deu sem custo. Encontrar o momento de fazer as perguntas como: “O que você está fazendo? Com quem falava ao telefone? Porque nesta situação fez dessa maneira e não daquela outra?”, é tarefa complicada. Preocupei-me quanto à maneira de perguntar, no que diz respeito até mesmo ao tom de voz, para que não parecesse que eu estava julgando o trabalho. Mas não há garantias de que tive êxito. Outro ponto de preocupação sempre foi a inconveniência. Meu afã em compreender o que estava acontecendo não podia passar por cima da urgência da própria atividade. É difícil e sutil captar quando as perguntas não vão atrapalhar o trabalhador a continuar o seu trabalho. Além disso, tive que lidar com as mudanças de curso da atividade que minhas perguntas, inesperadamente, provocaram. Após algumas inadequações,
aprendi que certas perguntas tinham que ser deixadas para outro momento posterior à conclusão do trabalho observado.
As verbalizações consecutivas, apesar de mais exitosas em não causar tantos impactos no curso do trabalho, muitas vezes não alcançaram o nível de detalhes que as simultâneas. Isso se deu, inclusive, porque fiz o registro das observações somente no caderno de campo, sem fotografias ou filmagem. Se, por um lado, a ausência de um registro de imagem pode ter facilitado meu ingresso no campo, porque, assim como o gravador, imaginei que uma câmera poderia causar constrangimentos que me afastariam dos trabalhadores, por outro lado, o papel e o lápis, muitas vezes, não foram suficientes para trazer à tona lembranças de detalhes das situações que eu procurava compreender melhor.
Uma característica importante das observações e das verbalizações é que elas carregam consigo, inevitavelmente, uma intervenção no trabalho. A presença do observador, evidentemente, não passa despercebida pelo trabalhador e, consequentemente, não é alheia ao seu trabalho. Haja vista as consequências das verbalizações simultâneas que já mencionei. Conforme esclarece Yves Clot (2010), observar alguém o leva a observar a si mesmo:
qualquer observação do trabalho do outro é uma ação sobre o outro. E, nessa qualidade, ela possui dois destinos, está na origem de um duplo efeito. A observação do trabalho produz resultados para o interveniente do ponto de vista de conhecimentos, mas ela não produz apenas conhecimentos. Ela produz, também, atividade no observado. (p. 250)
Dessa maneira, observar a atividade de trabalho para compreendê-la, inevitavelmente, também a transforma (Clot, 2010), assim como as verbalizações levam,
muitas vezes, os trabalhadores a “descobrir por si a complexidade do que fazem e as suas consequências” (Guerín et al, p. 166).
Estar com os trabalhadores não será nunca uma atividade neutra, como discutirei mais adiante no texto. Como afirma Cardoso (1986), “observar é contar, descrever e situar os fatos únicos e os cotidianos, construindo cadeias de significação. Esse modo de observar supõe (...) um investimento do observador na análise de seu próprio modo de olhar” (p.103), que certamente não é imparcial, já que se relaciona com as escolhas teóricas e históricas do pesquisador, tanto quanto com seus limites de ver e ouvir a realidade.