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Mesmo ao longo das décadas de 50 e 60, novas manifestações culturais surgiam à margem do comércio, em uma série de movimentos não necessariamente caracterizados pela participação da juventude, mas dignos de nota porque seus caminhos terminaram por cruzar

os do rock’n’roll e porque foram abordadas, em seus trabalhos, ideias associáveis a uma

postura jovem, como a irreverência. Esses movimentos, formadores da chamada contracultura, apresentam uma dupla face. Por um lado, podem inseridos em uma linhagem artística experimental que remonta ao final do século XIX e tem em suas etapas tendências como o Expressionismo, o Cubismo, o Dadaísmo, o Surrealismo. Ligam-se, portanto, a uma

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ideia de vanguarda que já é antiga na década de 50, mas ainda defendida. Por outro lado, a contracultura dos anos 50 e 60 vai se ater a questões próprias daquele momento, fazendo com que a inovação tenha um papel mais amplo do que simplesmente o de buscar a novidade em si, como havia acontecido com as vanguardas europeias do início do século XX.

Para os professores Antonio Carlos Brandão e Milton Fernandes Duarte, “os EUA do

pós-guerra, obcecados pela aquisição de bens de consumo, criaram uma série de instituições consumistas que iam desde os supermercados até as garrafas de Coca-cola” (BRANDÃO & DUARTE, 1990, p. 18). Institui-se um way of life baseado na cultura de massa, na existência de uma sociedade de consumo, formada por indivíduos uniformizados. A contracultura vai negar seu lugar no mundo homogeneizado, propondo obras, produtos, que buscam provocar um estranhamento, que não se encaixam nos moldes comerciais determinados para a sociedade de consumo. Vai também utilizar a arte como forma de divulgação de posturas de vida alternativas, em uma negação dos estilos de vida comumente aceitos. Essa tecnologia de ação cultural, como poderia ser chamada, será em parte apropriada por muitos movimentos rebeldes posteriores, entre os quais se coloca também o heavy metal.

Os autores que compuseram a chamada beat generation são o mais conhecido exemplo dessas novas concepções filosóficas e artísticas. Originalmente, os beats eram um pequeno grupo de autores, e é surpreendente que uma manifestação cultural tão restrita tenha deixado marcas tão profundas na cultura dos anos 50 e 60. O termo “beat” era usado na linguagem informal como indicativo de cansaço, desistência, desânimo ou derrota. Esse era o sentimento presente em muitos jovens americanos nascidos após ou durante a Segunda Guerra Mundial, pois não se seduziam por nenhum dos dois grandes projetos de vida então existentes: o serviço militar ou um trabalho empresarial. Havia uma sensação de desajuste, buscavam-se novos valores, novas bandeiras. Mais precisamente, percebe-se na produção da geração beat uma pluralidade de valores, o que a ponta para a falência de ideologias ortodoxas e das concepções morais que refletiam a vida que a juventude havia conhecido até então.

Enquanto os autores da beat generation percorriam os Estados Unidos, a Inglaterra era palco de um movimento semelhante, encabeçado pelos Angry Young Men, grupo de jovens autores que se propunham a fazer uma literatura engajada, refletindo acerca dos problemas do mundo pós-guerra. Surge então a figura do jovem cuja insegurança diante do mundo é escondida atrás de um muro de agressividade, do jovem que rejeita lugares preestabelecidos na sociedade, do jovem que se engaja em uma batalha contra a sociedade, ao mesmo tempo que participa de um embate consigo mesmo, com seus próprios conflito; surge, enfim, a figura

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do anti-herói, que, com frequência, era pouco galante, sujo, grosseiro. Principalmente na Inglaterra, os Angry Young Men pertenceram a um mesmo movimento histórico que levou muitos garotos às guitarras, uma opção às propostas medíocres ou insatisfatórias que a sociedade lhes apresentava. Certamente, é mais que coincidência que eles sejam

explicitamente citados em uma canção dos Beatles, “Getting Better”.

Não é difícil detectar uma genealogia cultural que ligue os metaleiros do Brasil quase diretamente a esses movimentos de contracultura. De muitas formas, o desenvolvimento do rock a partir da década de 1960 esteve ligado à contracultura. Afinal, a mesma Inglaterra dos Beatles foi o berço do rock pesado, gestando bandas como o Led Zeppelin, Black Sabbath, Iron Maiden e outras, que viriam a ter influência muito significativa no Brasil. A figura do metaleiro, com cabelos longos, roupas rasgadas e atitude aparentemente hostil, facilmente evoca a do anti-herói da contracultura e chega ao Brasil através do mesmo fluxo de informações. Além disso, a logística do heavy metal tem afinidades com a dos movimentos de contracultura: vale-se de recursos modestos, ferramentas rústicas, circulação localizada, em atrito com as grandes estruturas de difusão comercial. Não é absurdo detectar nos movimentos de contracultura as bases do que se chamaria underground, ou seja, de universos reconhecivelmente consolidados de geração e difusão de manifestações culturais, mas de pouca penetração nos meios de comunicação de massa e com pouco acesso aos recursos tecnológicos e logísticos que ele oferece.

Uma análise da evolução da intervenção juvenil no mundo estaria incompleta se não se lembrasse que, ao lado de tantas manifestações poéticas, musicais, teatrais, a era do rock ainda assistiu, em especial durante os anos 60, a uma série de movimentos estudantis em diversas partes do mundo, especialmente em 1968. Como se sabe, houve em maio desse ano uma grande mobilização jovem na França, que desencadeou uma mobilização trabalhista, o

que, no entender de Antônio Carlos Brandão e Milton Fernando Duarte, “colocou em xeque uma sociedade em que se pensava a partir de modelos ideológicos preestabelecidos” (1990, p.

54). Embora as reivindicações dos estudantes não fossem claras nem para eles mesmos, as manifestações na França foram marcantes, pois acima de tudo se buscava, com essa postura anárquica, uma declaração de autonomia, de que era possível pensar livremente. Poucos meses depois, em agosto, os jovens da Tchecoslováquia combateram a intervenção da União Soviética, que tentava inibir as transformações liberais que aconteciam no país. Sem entrar em combate armado com os soldados russos, os jovens tchecos realizaram uma resistência de cunho mais psicológico, dificultando a ação dos invasores. Brandão e Duarte acreditam que,

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embora a invasão tenha sido bem-sucedida, a resistência pacífica “acabou mostrando ao

mundo a política totalitária de intervenção dos soviéticos” (2000, p.56). No Brasil, como em

outros países da região, movimentos semelhantes aconteceram, com os estudantes se organizando contra governos ditatoriais. Novas organizações que se posicionavam contrariamente ao status quo surgiam com insistência.

Com tudo isso, o papel do rock’n’roll nesse tempo conturbado nem sempre fica claro.

Para alguns é inquestionável o poder revolucionário desse estilo musical, que teria catalisado as angústias latentes na juventude ocidental ou mesmo na própria sociedade como um todo. A partir daí, teria acontecido um radical processo de transformação dos costumes. Para outros, a

existência do rock’n’roll nem sempre exerceu influência explícita sobre a situação política,

chegando alguns mesmo a afirmar que a música popular carrega uma característica alienante. Afinal, não se pode ignorar o fato de que muitas das letras tinham como temas assuntos banais, como encontros, automóveis e festas. No caso do heavy metal, embora temas usualmente associados ao estilo causem maior choque, como o ocultismo, o fim do mundo e outros, são também muitas vezes desligados de uma realidade imediata. Embora exista um caráter transgressor, há também uma perspectiva etérea, irreal, nesse sentido, alienante. Novamente, portanto, o estilo se coloca em um espaço de atrito entre posturas incompatíveis.

Assim, uma observação dos diversos registros sobre o rock mostra que ele cumpriu múltiplos papéis na conturbada juventude dos anos 50, 60 e 70, e esse legado foi absorvido pelo heavy metal, na década de 1980. Reconhecendo, indiretamente, esse poder, Hilário Dick afirma que

[...] quem trabalha com jovens, numa dimensão de articulação e de formação na fé e para quem procura ter uma visão mais ampla do contexto, nunca dirá que foi uma época perdida. [...] Seríamos injustos, contudo, se não recordássemos que foi nessa década, também, que começaram a surgir com sucesso, no Brasil, os diferentes grupos que constituem o movimento punk, com artistas e assuntos em torno da situação da periferia ou, então, do subúrbio. (2000, p. 251, 252)

Por um lado, essa música eminentemente jovem funcionou sim como catalisador de angústias latentes, na medida em que deu à juventude um senso de união, de identificação, de reconhecimento como um grupo, uma categoria social. Em suas várias formas, o rock sempre explicitou questões com as quais a sociedade tentava não se confrontar, como a presença dos negros na cultura branca ou a conquista de uma independência dos filhos em relação a seus

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pais. Ao fazer isso, porém, o rock também permitiu que certos conflitos potencialmente violentos se resolvessem no âmbito cultural. O rock foi a música negra que invadiu as rádios dos brancos, mas foi também a linguagem comum que os jovens de todas as cores aprenderam a usar. Nesse espaço de convívio, ele funcionou como revolta e como coalisão. Pode-se dizer

que o rock’n’roll teve uma função apaziguadora ao mesmo tempo em que reafirmadora de

conflitos.

Jon Savage acredita que cada “geração tem sua própria tarefa”. Ao adolescente das décadas de 1960 e 1970, segundo ele, cabia “ajudar a lidar com danos da guerra” (SAVAGE,

2007, p. 15). Groppo (MONTEIRO, 2001, p.57) pode sustentar essa leitura, com o conceito de unidade de geração, segundo o qual os participantes de uma geração podem compartilhar experiências e contextos que permitam a criação de laços para além da comunhão de etnias, idiomas ou localização geográfica. Savage, porém, não ignora o fato de que essa unidade obviamente esconde uma diversidade e, consequentemente, o perigo de que se tome como regra a exceção, em um movimento de que ele chama de “dialética entre o ordinário e o

extraordinário” (2007, p.16), mas que talvez fosse mais adequadamente denominado de

paradoxo entre o ordinário e o extraordinário, já que a tese do autor é de que a unicidade do jovem rebelde não justifica a exclusão da rebeldia de uma história da juventude. Para Savage, narrar a juventude a partir do que pode argumentavelmente ser considerado uma exceção se justifica por um projeto político, já que, segundo ele,

Por sua natureza, a juventude tem sido acusada de representar o futuro: a perene tipificação do adolescente pela mass-media como um gênio ou como um monstro continua codificando os temores a esperanças dos adultos com relação ao que vai acontecer. Ignorar aqueles que se destacam como precursores em favor daqueles que se apegam ao status quo é recusar envolver-se com o futuro, se não interpretar mal a própria juventude. (SAVAGE, 2007, p.16)

Sob essa perspectiva, a juventude evoca a noção de coletividade proposta por Gayatri Spivak (2003). A autora propõe uma literatura comparada que “abarque o mundo” (p.4), que

se abra, conforme Derrida propõe, à perspectiva de um “talvez”, de uma indecidibilidade. No

contexto do estudo de Spivak, isso equivale a se adotar uma postura acadêmica que contribua para a abolição de espaços de subalternidade a que grupos diversos são submetidos e para a instauração de espaços de fraternidade. A autora defende a tese de que as coletividades que caracterizaram o mundo antigo, baseadas em etnia, religião, gênero e outros critérios passam a

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conviver, no terceiro milênio, com outras coletividades, mais fluidas e interpenetráveis. A literatura pode ter um papel importante na construção dessa nova realidade, devido a seu poder de teleopoiesis, ou seja, de afetação, através de um gesto imaginativo, do que está distante.

Entendida em seu caráter de limite, como proposto por Giovanni Levi e Jean-Claude Schmidtt, a juventude é um exemplo adequado de coletividade, conforme o que foi apresentado por Spivak. Por seus limites imprecisos e por seu papel ambíguo e misterioso na construção do futuro, o jovem é por excelência quem se situa no espaço da indecidibilidade. O jovem é também ocupante de um espaço de subalternidade. Sendo assim, a história da juventude, desde o século XIX, narra a demanda por um direito de existência e expressão. Se Jon Savage tem razão ao dizer que a cada geração cabe uma tarefa, é também verdade que essa tarefa quase sempre se concretiza na forma de um gesto artístico, teleopoiético. No Brasil da década de 1980, esse gesto foi a criação do heavy metal.