Em 1986, a banda Vodu, uma das mais atuantes no cenário paulistano, lançou, pelo recém-criado selo Rock Brigade Records, seu álbum The final conflict, um marco de conquista do espaço fonográfico pelo heavy metal brasileiro. Com canções complexas e letras engajadas, o Vodu foi um dos responsáveis por conferir ao estilo a orientação questionadora, rebelde, que ele assumiria no Brasil. A capa do álbum já deixava clara a perspectiva crítica que o trabalho da banda assumia diante do mundo: a seção mais chamativa trazia a representação de uma explosão da Terra, cujo centro exalava uma tenebrosa névoa, que tomava a forma de uma face cadavérica e ameaçadora, como se um mau espírito, até então habitando o centro do planeta, fosse enfim liberado. Em primeiro plano, nas extremidades da imagem, um par de mãos representava um ritual vodu: a mão direita carregava uma longa agulha, presentes a ser usada para empalar a vítima, uma jovem nua, desfalecida e indefesa, que se prostrava sobre a palma da grande mão esquerda, na outra extremidade da capa. Gravados nos punhos dessas mãos, supostamente pertencentes a alguma entidade poderosa responsável pela destruição da Terra, percebiam-se dois símbolos bem conhecidos: a bandeira dos Estados Unidos da América e a foice com o martelo, representativa da União Soviética.
Preenchendo todo o fundo do encarte, uma imagem apontava para o cumprimento da promessa perceptível na capa: a mesma jovem aparecia empalada por uma longa agulha,
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indicando a concretização de um gesto destrutivo. De fato, as canções expressam uma visão
pessimista do mundo, como em “What an irony”:
Nothing like calmly walking on the streets Nothing like opening the pan full of food Nothing like trusting our government Nothing like knowing the neighbourhood What an irony, these good times we´re living in
Nothing like the freedom without censorship
Nothing like opening the window to breathe clean [air
Nothing like listening to Metal on the radio Nothing like sleeping ithout nightmares What an irony these good times we´re living in
I wish I could see the horizon I wish I could be myself Might believe in future And love in a peaceful world
Nothing like going to school to learn something Nothing like living in honesty
Nothing like having na easy way of living Nothing like getting a good job an take a salary
What an irony, these good times we´re living in
Nada como andar calmamente pelas ruas Nada como uma panela cheia de comida Nada como acreditar no governo Nada como conhecer a vizinhança Que ironia, esses bons tempos em que [vivemos Nada como a liberdade sem censura Nada como abrir a janela e respirar ar puro Nada como ouvir heavy metal no rádio Nada como dormir sem pesadelos
Que ironia, esses bons tempos em que [vivemos Gostaria de olhar o horizonte Gostaria de ser eu mesmo Talvez viesse a acreditar no futuro E no amor em um mundo pacífico Nada como ir à escola e aprender algo Nada como viver honestamente Nada como ter um bom jeito de viver Nada como ter um emprego e receber salário Que ironia, esses bons tempos em que [vivemos Como se percebe, em um bem colocado comentário irônico, os compositores discutem
depreciativamente a ideia dos “bons tempos”, que, em algumas leituras, teriam caracterizado a
década de 1980. O enunciador sonha com conquistas modestas, muitas das quais compõem as promessas de um Brasil melhor que a redemocratização, então em curso, trazia: liberdade sem censura, trabalho e comida para todos, governo confiável, educação, enfim, todas essas condições básicas que permitiriam ao personagem a mais básica de todas as conquistas, e
ainda assim a mais distante: “ser eu mesmo”, essa condição tocantemente colocada na única
estrofe do texto em que a ironia não é a estratégia de expressão; essa condição que está na raiz de muitas das aspirações da juventude, mas que, como denuncia o Vodu, é negada ao jovem.
Na canção seguinte, “How can you believe”, essa denúncia toma a forma de um
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How can you believe guns are used pacify How can you believe education is used to teach How can you believe freedom has ben honoured How can you believe the truth isn't used to cheat
How can you believe and trust the rules they put [on us
Once everything seems to be made to confuse us Once everything looks wrong, it has to be changed [us
Cleaned, polished, follwed and trusted
There should be no pollution in the air The green shouldn't be devastated The future shouldn't be forgotten And our rights shouldn't be violated
I can't understand, how could you be so naive To believe the powerful men
I can't understand, how could you be so naive To believe their dirty games
I can't understand, how could you be so naive To believe the political promisses
Oh! don't believe this anymore, you fool! How can you believe miracles aren't used to [deceive us
How can you believe th pain isn't being diffused How can you believe the hunger isn't everyhere How can you believe the man is being respected
Como pode acreditar que armas são usadas [para pacificar Como pode acreditar que a escola é usada para [educar Como pode acreditar que a liberdade foi [honrada Como pode acreditar que a verdade não é [usada para enganar Como pode acreditar nas regras que nos colocam Uma vez que tudo parece destinado a nos [confundir Uma vez que tudo parece errado, tudo tem que [mudar Limpo, polido, seguido, confiável Não devia haver poluição no ar O verde não devia ser devastado O futuro não deveria ser esquecido Nossos direitos não deveriam ser violados Não consigo entender, como pôde ser tão ingênuo a ponto de acreditar nos poderosos [homens Não consigo entender como pôde ser tão ingênuo a ponto de acreditar nos jogos sujos [deles Não consigo entender como pôde ser tão ingênuo a ponto de acreditar nas promessas [políticas Oh! Não acredite mais nisso, idiota! Como pode acreditar que milagres não servem ao engano Como pode acreditar que a dor não está difundida Como pode acreditar que a fome não é onipresente Como pode acreditar que há respeito ao ser humano
Em oposição a uma trincheira de mentiras, o enunciador, através da estrutura repetitiva, cria o que poderia ser metaforizado como uma metralhadora de verdades. A ideia de um mundo promissor, oferecedor de perspectivas, é frontalmente atacada. Há um convite tácito a uma postura de ceticismo e crítica, o que se difere do discurso pacifista comumente associado à
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juventude das gerações anteriores. Um mundo em que há possibilidade para o debate, em que há perspectiva de melhora, em que há espaço para honestidade, esse mundo não é o que se apresenta ao enunciador da canção.
Coerentemente a essa atitude, na canção seguinte, o enunciador questiona a postura pacifista do discurso hippie:
During a crazy time, when the dream came true Castles in the clouds were shining in the sky You´ve built your world
On a peace and love dream Planted flowers like bases To rest over them
Naquele tempo maluco, quando os sonhos se [concretizaram, Castelos nas nuvens brilhavam no céu
Você construiu seu mundo em um sonho de paz e amor plantou flores como bases sobre as quais repousar A imagem de castelos nas nuvens, brilhando no céu, é uma clara crítica à postura ingênua de que o sonho da paz e do amor seria exequível. Dirigindo-se a um interlocutor que parece ser a própria personificação do ideal hippie, o enunciador parece zombar desse projeto, depreciando, ao longo da canção, vários elementos associados à juventude dos anos 60 e 70,
como as flores (“don´t believe these flowers”), as viagens lisérgicas (“Don´t believe these trips”). Em uma canção de estrutura muito semelhante a “God”, de John Lennon, o
enunciador termina por citar quase textualmente o ex-beatle, no verso “The dream ended and
you weren´t aware”, para então expressar sua melancólica mas inevitável percepção: “This is
not your world”, frase que é também o título da canção.
Mais do que alegar que o mundo almejado pelos hippies não é o mundo real, essa frase é a expressão de alguém que não se sente parte de um mundo: o título da canção seria
igualmente pertinente caso fosse “This is not our world”. De fato, mudando a partir daí seu
foco para a primeira pessoa plural, o enunciador passa a falar de uma entidade coletiva da qual ele faz parte e que pode ser facilmente identificada à juventude daquele novo tempo, a década de 1980:
Today we´re fighting and the truce is ending ´Cos the pacts are just tricks, very well done Today we hate ourselves and love is dying We´re fools insisting to ilude ourselves
Hoje estamos em guerra, e a trégua acabará Os pactos são meras tramoias, bem elaboradas Hoje nos odiamos, e o amor está morrendo Somos tolos insistindo em nos enganar
Na última canção do álbum, “Let me live”, o enunciador implora a um interlocutor não
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“sinta o prazer de morrer naturalmente”. O que “This is not your world” mostra, porém, é um
mundo do qual o jovem, não apenas em sua integridade física, mas principalmente em sua perspectiva de vida, é alijado. Capitalismo e comunismo, ideologias dominantes no mundo de então e igualmente associadas ao armamento e ao perigo, são ambos rejeitados. Existe, por outro lado, a percepção de uma alienação, em relação à qual o discurso dominante no álbum se coloca crítica, mas melancolicamente.
Eis a grande ação rebelde no heavy metal brasileiro da década de 1980: o metaleiro teme se tornar marionete. Não está a serviço de nenhuma grande ideologia do século XX: nem do capitalismo, nem do comunismo. Embora a capa de The final conflict e várias canções desse e de outros álbuns fizessem alusão ao medo de um embate nuclear, o conflito final, mais do que uma guerra, era um conflito ideológico. Afinal, como dito em uma letra da banda Anthares, “batalhas ocultas se travam na mente”, mas não só na mente.
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