2. Abdülkahir el-Cürcânî’ye Göre İç ve Dış Bağlam Arasındaki İlişki ve Mana
2.1. Takdîm ile Tehîr ve Bağlam İlişkisi:
2.1.1. Takdîm ve Tehîrin Hemzeli Sorular Üzerinden Analizi
2.1.1.1. Mazi Fiilli Cümleler
Na segunda metade do século XIX, a economia do Rio Grande do Norte estava apoiada basicamente na criação de gado na região Agreste e no sertão do Seridó; na agricultura da cana-de-açúcar no litoral e zona da Mata; e, finalmente, na extração de sal mineral na região Oeste, entre Mossoró, Areia Branca e Macau.
3 Ibid., p. 6.
4 O panorama econômico do Rio Grande do Norte apresentado nesta seção foi baseado fundamentalmente em A’RBOCZ, op. cit., p. 16-49 e TAKEYA, op. cit., p. 21-83. Sobre as relações da província com as demais regiões do Nordeste e com o poder central imperial, ver Evaldo Cabral de MELO, O Norte agrário e o Império (1871-1889), p. 258 e segs.; ver também, Gadiel PERRUCI, A República das Usinas: um estudo de história social e econômica do Nordeste, p. 105-27.
Cerca da metade dos 233.979 habitantes da província, em 1872, vivia da pecuária, principal atividade do Agreste e do sertão até fins do século XIX.5 Contudo a criação de gado
começou a se retrair a partir do último quartel do século, em razão do aumento nos preços internacionais do açúcar e do algodão, entre 1860 e 1885 e de 1892 a 1901, mas principalmente pelas periódicas secas que dizimaram o rebanho bovino do Rio Grande do Norte, particularmente a de 1877-79.6
Esses fatores acabaram por fixar a cultura do algodão, em finais do século XIX e inícios do XX, como a principal do Seridó, voltada a partir de então mais para o nascente mercado têxtil nacional, embora em condições de competitividade cada vez mais desvantajosas em relação a Pernambuco e ao sul do país.7 O algodão foi o responsável pela ascensão dos políticos
do Seridó, que chegarão ao poder estadual na década de 1920, substituindo a oligarquia Maranhão do litoral.
A partir de meados do século passado, a cana-de-açúcar teve uma expansão acentuada em Canguaretama, Ceará-Mirim e Macaíba, tornando-se o principal produto de exportação do estado no início da República e atingindo o auge em 1891, ano em que chegou a um índice jamais superado.8 No entanto a
5 A’RBOCZ, op. cit., p. 21. Para os dados populacionais do censo de 1872, ver BOLETIM COMEMORATIVO da Exposição Nacional de 1908, p. 71-90; para o Rio Grande do Norte, Recenseamento realizado a 1º de Agosto de 1872, in: RELATÓRIO do presidente da província, João Capistrano de Melo Filho, de 13 de setembro de 1874, microfilmado no Arquivo Público do Estado de São Paulo, 3º rolo, 1874-1882. 6 A’RBOCZ, op. cit., p. 24.
7 Sobre os efeitos da cultura algodoeira na economia potiguar à época, consultar TAKEYA, op. cit., p. 32-33 e 47-49.
8 Sobre os dados referentes ao açúcar, ver SOUZA, op. cit., quadro 8, p. 45 e segs.. É de se observar que o início de nosso período coincide com uma fase de queda no preço internacional do produto (1885-1892). Para um quadro geral sobre a economia açucareira no Nordeste, PERRUCI, op. cit., p. 111-113. Sobre o Rio Grande do Norte, ver A’RBOCZ, op. cit., p. 24-25.
concorrência externa do açúcar de beterraba e a grande cheia de 1894-95 atrofiaram a exportação do Rio Grande do Norte em fins do século. Tentativas de modernização, como a introdução dos engenhos centrais e mesmo das usinas, fracassaram ou tiveram pouca repercussão entre os senhores de engenho, conhecidos por seu espírito rotineiro e atrasado.9 Na entrada
do século XX, toda a produção de açúcar em terras potiguares ainda era feita nos antigos banguês.
A indústria salineira, entre a foz dos rios Açu e Mossoró, abastecia os mercados de Pernambuco e do Centro-Sul, desenvol- vendo boa escala industrial após 1886, em Mossoró e nos portos de Macau e Areia Branca, mas permaneceu subaproveitada até bem avançado o século XX.10 Apesar de tudo, já se tinha
ideia das potencialidades de sua exploração comercial, como atestam os artigos saídos em O Macauense, ainda no Império, e os discursos de parlamentares potiguares no Congresso Nacional, já na República.11
Em termos de indústria propriamente dita, a situação do Rio Grande do Norte no final do século XIX também não era nada auspiciosa.12 Havia apenas algumas pequenas indústrias
de alimentos e somente uma fábrica têxtil, a Fábrica de Fiação e Tecidos Natal, de propriedade do cunhado do governador Pedro 9 Manuel Correia de ANDRADE. A Terra e o Homem no Nordeste, p. 110 e PERRUCI, op. cit., p. 113-5, que questiona a “rotina” como motivo principal da decadência, atribuindo-a antes a “problemas socioeco- nômicos e políticos”.
10 A’RBOCZ, op. cit., p. 31.
11 EXPORTAÇÃO de sal e INDÚSTRIA do sal, O Macauense, 13 e 23/8/1886. Ver também os discursos de Augusto Severo nas sessões de 4 e 11/11/1895, Anais da Câmara dos Deputados, 1895, v. 7, p. 25-7 e 193 e de Almino Affonso, nas sessões de 18/10 e 23/12/1895, Anais do Senado Federal, 1895, v. 6, p. 143 e v. 8, p. 235. Doravante os discursos na Câmara dos Deputados e Senado Federal serão citados pelas siglas ACD e ASF, respectivamente.
Velho, Juvino César Paes Barreto (1847-1901), de tradicional família pernambucana, durante muito tempo a única tecelagem do estado, inaugurada em 1888. Em 1893, a fábrica contava com 80 operários e produzia 1 milhão 371 mil metros de tecidos ao ano, insuficientes para fazer frente à crescente concorrência das indústrias do sudeste e mesmo de Pernambuco, sobrevivendo com dificuldade até seu fechamento nos anos 20.13
Com esse perfil econômico, era natural que o comércio fosse a principal atividade do Rio Grande do Norte no último quartel do século XIX. Os principais centros comerciais, além da capital, eram Canguaretama, São José do Mipibu e Macaíba, no litoral e Zona da Mata; Angicos, no Agreste; Mossoró, Macau e Açu, no Oeste e, finalmente, a Vila do Príncipe (Caicó), no Seridó. O comércio interno, pequeno, ressentia-se das dificul- dades de locomoção e comunicação entre as localidades do interior e o litoral. As estradas eram poucas e ruins, na verdade apenas caminhos de terra. Aliás, o serviço dos correios era alvo constante das críticas dos jornais e um presidente da província chegou a considerá-lo “o pior do Império”.14
O comércio exterior era realizado através da compra e venda do sal de Areia Branca e Macau e, principalmente, do açúcar levado de Ceará-Mirim e Canguaretama, pelo rio Jundiaí, até Macaíba. Daí, esses produtos eram embarcados para o Recife com destino à Europa e aos EUA. Essa dependência para 13 TAKEYA, op. cit., p. 48-49. Sobre o número de estabelecimentos indus- triais do Rio Grande do Norte (por setores de produção), consultar SOUZA, op. cit., quadro 14, p. 58.
14 Foi o presidente Francisco de Gouveia Cunha Barreto quem chamou a atenção para o problema, em sua “fala”, ao abrir a Assembleia Provincial em 9 de fevereiro de 1883, afirmando que “esse ramo do Serviço Público continua em péssimas condições, parecendo-me que nenhuma província do Império é tão mal servida de Correios como a do Rio Grande do Norte” (ver Relatórios, Falas e Mensagens de Presidentes da Província do Rio Grande do Norte, APESP, 4º rolo (1883-1888), p. 21). Para uma análise mais criteriosa, ver A’RBOCZ, op. cit., p. 34-36.
com Pernambuco, agravada pelas dificuldades estruturais da entrada do porto de Natal, dificultava a expansão do comércio exterior do Rio Grande do Norte e gerava inúmeros protestos dos comerciantes potiguares, do que a propaganda republicana se aproveitava para responsabilizar a Monarquia pela situação.15
Em 1889, havia cinco casas importadoras/exportadoras na província (duas em Mossoró e três na capital e litoral oriental). A mais destacada dentre elas fora criada em 1859 pelo avô materno de Pedro Velho, o paraibano Fabrício Gomes Pedrosa (1809-1872), nos Guarapes, então município de Macaíba, e trabalhava com a compra e venda de açúcar e algodão.16 Em decadência após a
morte do velho Fabrício, a casa comercial, revitalizada em 1892 por seu filho de mesmo nome, constituiu-se num dos suportes econômicos da família Maranhão, que, assim, dominava tam- bém o grande comércio atacadista importador/exportador e a única indústria têxtil do estado, além de grandes engenhos na zona da Mata.
Apesar de tudo, com relação a Natal, a expectativa otimista dos republicanos, ainda que exagerada e, no final, frustrada, pode justificar-se, se levarmos em conta alguns indicadores da época. A partir da década de 50, a pequena capital do Rio Grande do Norte, até então quase exclusivamente um centro político-administrativo, vai se transformando aos poucos, graças à difusão da navegação regular a vapor (1857), no principal polo comercial do litoral oriental e da região Agreste, aproveitando os vales dos rios Potengi e Ceará-Mirim. O primeiro telégrafo, em 1878, entre Natal e Angicos, e a estrada de ferro Natal- Nova Cruz (1880-83), da companhia inglesa Great Western of Brazilian Railway, ligando a capital da província à vizinha Paraíba, trouxeram certos ares de modernidade à cidade. Aliás, até o começo do século XX essa era a única ferrovia que cortava 15 TAKEYA, op. cit., p. 85-7 e A’RBOCZ, op. cit., p. 34.
16 Para informações sobre as origens de Fabrício Pedroza, ver CASCUDO, APV, p. 221-223.
o Rio Grande do Norte, embora intensamente criticada, por seu crônico déficit orçamentário e pelo suposto erro de traçado, pois não atendia o vale açucareiro do Ceará-Mirim.17
Mesmo assim, não se pode afirmar que esses indicado- res “modernizadores”, de resto bastante modestos, tivessem condições de alterar substancialmente as precárias condições econômicas da província norte-rio-grandense e muito menos a característica rural, patriarcal e acanhada da sociedade potiguar da segunda metade do século XIX. Nesse sentido, mais uma vez, a realidade insistia em desmentir o exagerado otimismo dos jovens republicanos do Potiguarânia, em 1890.