2. Abdülkahir el-Cürcânî’ye Göre İç ve Dış Bağlam Arasındaki İlişki ve Mana
2.6. Beyân (Mana’l-Mana) ve Bağlam İlişkisi
Ao contrário dos bacharéis seridoenses, Pedro Velho era médico, formado no Rio de Janeiro em 1881, num curso aparen- temente técnico, sem grandes pretensões sociologizantes, como as que se arrogavam as Faculdades de Direito. Não obstante, vivendo na corte durante o curso, depois de uma viagem à Europa que o fizera interromper os estudos iniciados na Bahia, Pedro Velho pôde tomar contato com as principais discussões filosóficas e políticas dos finais da década de 70 e início da de 80, no ambiente europeizado da capital do Império. Ao voltar à terra natal, dedicou-se a clinicar, chegando a Diretor da Saúde Pública provincial em 1885/86, mas também ao magistério secundário no Atheneu Rio-Grandense, onde se tornou lente de História, por concurso. Por intermédio de seu irmão mais velho, Fabrício Maranhão, chefe do partido em Canguaretama, Pedro Velho aproximou-se dos Liberais, mas sem maiores compromissos. Por outro lado, engajou-se na campanha abolicionista, sendo um de seus principais entusiastas em Natal. Como acompanhamos, tornou-se republicano tardiamente, por insistência de seu primo João Avelino, mas, a partir do momento em que resolveu aderir, convencido da fatalidade da implantação da República no Brasil, tornou-se figura de proa, fundando o Partido Republicano do Rio Grande do Norte, do qual foi o único líder. Era tido como “histórico” pelos republicanos da corte e foi, até sua morte, em 1907, o chefe incontestável do partido no estado. Suas simples opiniões, divulgadas por A República, se transformavam na posição oficial do partido, que controlava pessoalmente ou por intermédio de parentes ou fiéis correligionários.
Pedro Velho compartilhava com os republicanos “puros” as ideias genéricas do Manifesto de 1870 sobre soberania popular e democracia representativa, sem o doutrinarismo evolucionista daqueles, misturando opiniões liberais democráticas com o difuso positivismo cientificista “fin-de-siècle”. Inicialmente, por influência dos opúsculos de propaganda de Assis Brasil e
Silva Jardim, afirmava seguir o primeiro como “doutrinário” e o segundo como “técnico”.73 Logo e duradouramente, apro-
ximou-se dos chefes nacionais “moderados”, principalmente Quintino Bocaiúva e Francisco Glicério, a quem acompanharia no Partido Republicano Federal (PRF) até depois da divisão de 1897, quando o grupo do político paulista que criara o partido se tornou minoria.
Recém-saído do campo do liberalismo monárquico, o agora líder republicano chamaria a Monarquia, em janeiro de 1889, de “cogumelo exótico” dentro do continente americano.74
O regime imperial, segundo ele, estaria isolado em Petrópolis, sem “alicerces” sociais ou políticos de espécie alguma, contando apenas com uns poucos áulicos palacianos, que viviam em torno da família real.
Seguindo os mesmos passos da propaganda caicoense, Pedro Velho denunciava que a Monarquia abandonara as provín- cias nortistas à sua própria sorte e dela o Rio Grande do Norte nada mais poderia esperar e nada lhe devia. Nesse contexto, a República era “o remédio único aos males” da nação e da província, o qual tenderia a unificar todos os povos americanos sob a “bandeira branca da democracia”. Com o determinismo inexorável de seu tempo, afirmava que a República era o “des- fecho fatal e necessário da marcha de nossa civilização” rumo ao progresso, citando o exemplo do caranguejo de Michelet: “o certo é que tudo caminha e caminha para a frente”. Essa certeza seria apreendida com o estudo da História, “a grande mestra da vida”, transformada em tribunal inapelável.75
73 CASCUDO, HRRN, p. 49.
74 Para as ideias republicanas de Pedro Velho expostas nos próximos parágrafos, ver MANIFESTO do Partido Republicano do Rio Grande do Norte, in CASCUDO, APV, p. 7-32.
75 Ibid., p. 8; A REPÚBLICA, AREP, 8/7/1889; ver também MPRRN, CASCUDO, APV, p. 11 e 32.
Aparece aqui, como já ocorrera com o documento dos republicanos seridoenses, a visão finalista da história. Esta se caracteriza, segundo a síntese precisa de Nicolau Sevcenko, “por ideias que correspondem ao sentido necessário da história, antevisto pelo homem, cuja razão entrou em sintonia com a marcha da humanidade”, visão recoberta por “um linguajar tecno-científico, de uma crença mística no progresso e harmonia da humanidade, sob a tutela de uma elite de administradores sociais”.76 Visão de mundo positivista que, difusamente, per-
meava quase todas as correntes políticas republicanas e até mesmo os setores mais radicais do reformismo monárquico da época.
Assim, se praticamente todos os brasileiros eram repu- blicanos, como queria fazer crer a propaganda, só restava à pátria remover aquilo que a retardava no encontro consigo mesma, pois não poderia haver interesse “da nação contra a nação”, como afirmara Pedro Velho em carta para Janúncio da Nóbrega; não poderia haver “uma parte da nação que queira o regime da liberdade e da dignidade e outra que o renegue”.77
Não restava dúvida: só a República, “um governo identificado com os interesses do povo brasileiro”, poderia reconciliar o que a Monarquia separara – a pátria e seu povo – e proporcionar “o bem público [...] que se traduz no mais completo desenvolvi- mento do progresso, à sombra protetora da liberdade e da paz”.78
Aos republicanos organizados no seu partido, como por- tadores do facho de luz salvador da razão, caberia a tarefa de livrar o país e o povo, através da doutrinação, da ignorância imposta pela Monarquia. Munido dos argumentos de um racio- nalismo ilustrado, Pedro Velho explicava assim qual devia ser o papel de um genuíno órgão republicano, no artigo em que apresentou A República à opinião pública: “Difundir e propagar 76 SEVCENKO, op. cit., p. 34.
77 PARTIDO Republicano, OPV, 3/8/1889, carta datada de 13/6. 78 PELA Pátria, artigo de apresentação de AREP, 1/7/1889, reproduzido
as ideias que o seu título sintetiza [...] com as armas da razão [...] contra a realeza corrompida e corruptora [...] emancipando-a de preconceitos vãos e perniciosas influências”.
A propósito, para o fundador do PRRN, a República triun- faria “em curto prazo e sem abalos e convulsões [...] (pela) [...] vitória pacífica da opinião”, através das regras da democracia representativa, na luta parlamentar e eleitoral, até mesmo admitindo uma oposição não sistemática ao regime imperial.79
E, realmente, a propaganda republicana oficial no Rio Grande do Norte seria realizada “sem abalos ou convulsões”, sem meetings provocativos ou ações mais ousadas, que, definitivamente, não eram o estilo de Pedro Velho, cuja única ação mais incisiva na propaganda foi “um passeio a Ceará-Mirim”.80
Foi majoritário no Partido Republicano do Rio Grande do Norte, portanto, o ponto de vista dos moderados, de que a República viria naturalmente pela evolução dos acontecimentos ou, ao gosto da época, por uma “revolução pacífica”. O próprio padre João Manuel a admitiria, no discurso com que aderiu à República, ao afirmar que
a revolução é outra: a revolução pacífica, operada pela centelha do patriotismo, incendiando todos os espíritos e abrasando todos os corações brasileiros, revolução que terá o mesmo resultado benéfico que teve a da abolição do elemento servil.81
Pedro Velho, que confessara seguir Silva Jardim no iní- cio da propaganda, acabou naturalmente convergindo para os moderados de Quintino Bocaiúva. Ao assumir a chefia do Partido Republicano, em julho de 1889, depois da disputa com Hermógenes Tinôco, fez predominar na propaganda poti- guar o tom pacifista, gradualista e eleitoral. No manifesto de 79 Ibid., p. 8. Para a defesa da “oposição não sistemática”, ver o artigo
O ORÇAMENTO, AREP, 29/7/1889. 80 CASCUDO, HRRN, p. 111-112. 81 CARVALHO, op. cit., p. xiv.
apresentação do partido, em janeiro, ele explicitara a maneira como deveria implantar-se o regime republicano na província e no país:
Queremos votos, porque será sem dúvida pela revolu- ção incruenta do sufrágio, será pela vitória das urnas que se há de erguer na terra brasileira o estandarte da democracia. A República se fará sem que custe uma gota de sangue brasileiro.82
É, porém, no conceito que Pedro Velho tinha sobre esse povo, que considerava soberano, que transparece claramente o ponto de vista patriarcalista do futuro líder republicano. Acompanhemos o trecho que se segue, sobre a eventualidade do trono vir a ser ocupado pela princesa Isabel, uma mulher, para entendermos melhor sua visão de mundo:
O que será o terceiro reinado? De duas uma: ou a imperatriz Isabel será bastante autoritária para que- rer governar a exemplo do pai; ou algum favorito será o rei de fato. Na 1a hipótese temos uma mulher a
dirigir os destinos políticos de uma nação, o que não se compadece com as noções mais elementares da ciência social. Porque o homem será sempre o cultor reverente da beleza, da graça e da virtude feminis, enquanto elas coroarem as frontes das esposas e mães. Mas na marcha dos negócios públicos a mulher mais inteligente achar-se-á sempre deslocada; e se ela insistir em querer trocar o lar pela praça pública, se quiser ostentar energias varonis impróprias do sexo, desnatura-se, deixa de ser mulher, é uma virago.83
Visão patriarcal com pitadas de cientificismo, que Eric Hobsbawm já chamou com propriedade, referindo-se ao Brasil e ao México do início do século XX, de “positivismo oligárquico”, ela não contradiz necessariamente as pretensões racionalistas de Pedro Velho; apenas comprova a força de tradições culturais
82 CASCUDO, APV, p. 22-23. 83 Ibid., p. 31.
seculares.84 Na época da propaganda republicana no Rio Grande
do Norte, o que diferenciava essencialmente o racionalismo de Pedro Velho do evolucionismo dos bacharéis de O Povo era o pragmatismo do primeiro, que não vacilou em utilizar-se de metáforas religiosas como meio de se fazer entender por uma população esmagadoramente católica, o que não passaria nem por um instante pela cabeça dos “rapazes do Seridó”.
Assim, no manifesto que lançou o Partido Republicano do Rio Grande do Norte, Pedro Velho comparou a República a “um novo Cristo”, aquela sendo a “desejada das gentes” como este fora o “esperado das nações”.85 Também como Cristo, a
República no Brasil tivera já o seu “Batista”, aquele que lhe preparara o advento; no caso desse novíssimo evangelho, a abolição da escravidão. Livre-pensador mas preocupado em se fazer melhor compreender pela opinião pública católica, Pedro Velho utilizou-se muito de imagens caras aos cristãos. Era uma questão, acreditamos, de ênfase discursiva no interesse da propaganda republicana, mas não apenas isso. A utilização de metáforas e analogias religiosas, além de propagar a ideia da República num meio majoritariamente católico, continha o propósito de minimizar o impacto da proposta histórica do republicanismo de separação Estado-Igreja.
Essa postura “pragmática” de Pedro Velho o contrapunha às visões anticlericais predominantes entre a juventude evolu- cionista das escolas de Direito, com suas decorrências deístas, agnósticas ou mesmo ateias, tributárias da tradição majoritária da filosofia das Luzes e, principalmente, do fortíssimo compo- nente anticlerical da III República Francesa.86 Ainda que Pedro
Velho, como filho de seu tempo, pudesse acreditar sinceramente nesses princípios iluministas, teve a perspicácia de adaptar suas 84 HOBSBAWM, A era dos Impérios, p. 365.
85 CASCUDO, APV, p. 20.
86 Para uma compreensão histórica do anticlericalismo republicano francês, ver Claude NICOLET, L’idée republicaine en France (1789-1924), particularmente o cap. 11, p. 467-508.
crenças íntimas ao meio religioso em que vivia. Aproximou-se, nesse aspecto, de uma tradição republicana de liberdade de culto e respeito ao clero católico, que não se poderia esperar dos jovens bacharéis evolucionistas do Seridó. A própria presença do vigário de Macaíba, padre José Paulino de Andrade, republicano histórico acima de qualquer suspeita, na sessão fundadora do Partido Republicano, mostra como era difícil equacionar essa importante questão ideológica. José Paulino, inclusive, foi um dos principais críticos da separação e da precedência do casamento civil sobre o religioso, posição que o fez afastar-se de seus correligionários sem deixar de ser republicano.
A verdade é que praticamente os únicos meios utilizados na propaganda republicana no Rio Grande do Norte para tornar mais conhecida pela opinião pública a nova forma de governo foram a imprensa e a participação na eleição de agosto de 1889. No final desse ano existiam na província três jornais republi- canos ou simpáticos ao movimento: além do órgão oficial do Partido, A República, havia O Povo, de Caicó, liberal com seção republicana, e O Ensaio, de Ceará-Mirim, muito educado para entrar em grandes polêmicas ou empolgar muita gente, segundo uma avaliação posterior.87
A ênfase da propaganda, portanto, é na via eleitoral, e o discurso oficial, nesse ponto, era dirigido apenas aos que tinham direito de voto. As eleições de agosto/outubro de 1889 proporcionaram um ambiente favorável à divulgação de ideias republicanas. Nelas, que foram as últimas do Império, Pedro Velho pôde encaminhar o partido para o “batismo das urnas”, a fim de demonstrar que existiam mesmo, e os candidatos repu- blicanos conseguiram 67 votos (1,9% do total de 3323 votantes).88
87 CASCUDO, HRRN, p. 122-123.
88 Ibid., p. 121. Os republicanos potiguares, porém, tomaram gosto pela coisa e, quatro dias antes da Proclamação, A República convocava os correligionários para uma reunião com a finalidade de escolherem os candidatos à eleição provincial que se aproximava, AVISO, AREP, 11/11/1889.
Contudo o pacifismo eleitoral predominante na propa- ganda tinha um limite importante na ênfase discursiva tanto do “radical” Janúncio quanto do “moderado” Pedro Velho: as tradições históricas de participação do Rio Grande do Norte nas revoluções de 1817 e 1824, especialmente na primeira. Nesse ponto, os dois discursos convergem, ao introduzirem o apelo sentimental a essas tradições “escritas com sangue”, resgatando os “mártires” norte-rio-grandenses naqueles episó- dios, o coronel de milícias André de Albuquerque Maranhão e o Padre Miguelinho. Os discursos readquirem nesse instante o tom nativista, como é fácil perceber nos documentos fundantes do movimento republicano norte-rio-grandense. O dos repu- blicanos seridoenses, já no início, exortava: “Povo seridoense, nós os riograndenses, mais do que ninguém, temos necessidade de ser republicanos [...]”. Os caicoenses chegaram ao âmago da intenção dramática de resgate histórico: “O nosso passado, o sangue dos mártires riograndenses das adesões de 1817 e 1824 constituem um apelo eterno à geração atual para um futuro melhor”.89 Na ata de fundação do PRRN também se recorre
à imagem do passado heroico e sangrento a ser redimido no presente, ao lembrar que era a primeira reunião republicana em Natal após “os movimentos revolucionários tragicamente afogados no sangue dos patriotas de 1817 e 1824”.90
Com essa enfática insistência no chamamento histórico, os republicanos potiguares pretendiam fazer a ligação, do ponto de vista simbólico, entre o glorioso passado de rebeldia republicana e a alvissareira perspectiva do presente. Janúncio da Nóbrega foi quem primeiro teve essa preocupação, ao escolher o octogenário participante da Confederação do Equador em Pernambuco, Manuel Sabino da Costa, para presidir o primeiro núcleo republicano do Rio Grande do Norte no Seridó, em 1886. 89 MRPS, in CASCUDO, HRRN, p. 269.
90 Ata da reunião republicana de 27 de janeiro de 1889, CASCUDO, HRRN, p. 271, Apêndice 3.
Pedro Velho igualmente procurou não esquecer os signatários da saudação de 1871, convidando-os a fundar com ele o partido republicano. Muito particularmente, fez questão de levar seu primo distante, Dr. João de Albuquerque Maranhão, sobrinho materno do chefe de 17, para dirigir a reunião fundadora.
O cuidado de Janúncio da Nóbrega e Pedro Velho em trazer para esses encontros de grande significado simbólico os velhos republicanos ou seus descendentes, parecia querer mostrar que o passado sancionava a missão do presente, tornando-a sagrada e legitimando o movimento. O gesto de Pedro Velho confirma a intenção sacralizadora: o velho “João das Estivas” não abriu a boca durante todo o evento, mas, segundo Câmara Cascudo, representou bem “o papel catalítico que por si só anunciava a união dos passados mártires de 1817 com os garantidos repu- blicanos de 1889”.91
O recado, pomposamente juramentado nos manifestos da propaganda, estava dado: ao descaso imperial para com o Rio Grande do Norte, os republicanos potiguares, moderados ou radicais, respondiam com a evocação do passado glorioso, sancionado pela História. Se fosse preciso, ele voltaria encarnado naqueles jovens para conquistar no presente o que fora tentado outrora com o sacrifício da própria vida. Na prática, esse sen- timento seria manifestado por um nativismo exacerbado, que caracterizou não só a propaganda mas todo o período inicial da República no Rio Grande do Norte.