O tema “pós-implementação continuada” ou “manutenção da vantagem competitiva sustentável” ligado ao valor de uso dos ERP’s nas organizações ainda é um assunto muito pouco pesquisado e conseqüentemente associado a poucas referências bibliográficas diretas. É importante frisar que o mesmo não ocorre quando o termo “valor de uso dos ERP’s” é estudado em espaços curtos de tempo, especialmente quando comparados os períodos de pré- implementação e o de pós-implementação destes aplicativos, momento este em que o contraste entre os fatores positivos e negativos associados às duas realidades operacionais (sem o ERP e com o ERP) costuma ser explícito, dadas as mudanças de paradigmas associadas a tais eventos.
Nestes termos, a inspiração para a identificação do problema desta pesquisa deu-se através da leitura da tese A framework for sustainable ERP value de autoria de Vikas Jain, publicada no ano de 2008.pela universidade George Washington (EUA). Em seu trabalho de pesquisa, Jain procurou estabelecer um conjunto de fatores relevantes intrínsecos às empresas que estivessem associados ao fator “sustentabilidade” do valor de uso dos ERP’s implementados em empresas indianas.
Em seu estudo, Jain realizou diversos testes de hipóteses através de pesquisa de caráter quantitativo (survey) junto aos executivos da área de TI em um universo de 250 empresas indianas usuárias de aplicativos ERP’s, hipóteses estas formuladas a partir de conceitos derivados da teoria relacionada ao valor genérico do uso da Tecnologia da Informação para as organizações. Desta forma, nota-se no trabalho de Jain, a procura pela identificação de um conjunto de atributos associados ao “valor de uso da TI” originalmente válidos para todo o universo da Tecnologia da Informação (o qual geralmente reúne uma grande quantidade de aplicativos de software e hardware) de forma a transpor e a validar estes mesmos aspectos genéricos para com o universo específico dos ERP’s, procurando explicar, desta maneira, como este universo em particular se comporta, em termos de valor de uso no âmbito do longo prazo, em relação aos conceitos originalmente identificados em uma teoria de foco mais genérico, com foco na área de TI.
Como é recorrente a todo processo científico no qual que se propõe a estudar um assunto delimitado com maior especificidade e profundidade, nota-se que o trabalho de pesquisa desenvolvido por Jain, apesar de ser relevante sobre o ponto de vista de estabelecer uma visão
relacionada ao tratamento do valor de uso dos ERP’s no longo prazo – o mesmo abre espaços para novas discussões e focos de análises diferenciados, espaços estes gerados tanto pelas limitações naturais de estudos de natureza quantitativa (testes de hipóteses) como pela necessidade de analisar-se o tema de forma intensa e profunda. De acordo com esta abordagem, segundo Martins e Theóphilo (2007, p.62), a possível adoção de uma abordagem qualitativa para o tratamento de temas complexos pode ser resumida da seguinte forma:
No campo das ciências sociais aplicadas há fenômenos de elevada complexidade e de difícil quantificação, como, por exemplo, a supervisão de funções administrativas dentro de uma organização [...] etc. Nestes casos, abordagens qualitativas são adequadas tanto no que diz respeito ao tratamento contextual do fenômeno quanto no que tange à sua operacionalização. O tratamento de eventos complexos pressupõe um maior nível de detalhamento das relações dentro das organizações, entre os indivíduos e as organizações, bem como o relacionamento que se estabelece com o meio ambiente em que estão inseridos. De um modo geral, pode-se afirmar que avaliações quantitativas são mais adequadas ao processo de testar teorias, enquanto as avaliações qualitativas são mais aplicáveis em situações onde se deseja construir teorias (Grounded Theory), enfoque de pesquisa orientada por um estudo de caso.
Neste sentido, a leitura do trabalho de Jain (2008), propiciou a inspiração para se desenvolver um modelo teórico de cunho qualitativo que pudesse refletir quais são as características dos modelos de gestão de competências da fase de pós-implementação continuada (de longo prazo) que visam manter ou preservar o valor de uso (ou vantagens competitivas associadas) dos aplicativos ERP’s. A inspiração para tal iniciativa baseou-se em três vertentes principais:
a) A enorme extensão e relevância do assunto “valor do ERP a longo prazo” frente a um único estudo direcionado a este tema identificado na literatura: Jain (2008);
b) A inexistência de um modelo teórico relacionado ao problema da pesquisa, desenvolvido a partir de uma abordagem qualitativa (investigação intensa e profunda); c) A construção de um modelo teórico gerado a partir de estudos de casos efetuados
diretamente no universo dos ERP’s em particular e não utilizando-se de conceitos originários da teoria genérica do valor da TI para as organizações apenas como base de validação de uma teoria pré-existente, de caráter genérico.
Face à importância do ERP no contexto do somatório de soluções oferecidas pela indústria de TI às organizações empresariais, configura-se o assunto “manutenção do valor do ERP a longo prazo” como de extrema relevância. A delimitação da pesquisa acerca deste tema no âmbito brasileiro justifica-se pelos seguintes motivos:
a) Após ampla pesquisa bibliográfica realizada no contexto acadêmico brasileiro, na qual foram encontrados estudos sobre ERP’s com outros focos de análise, não é do conhecimento do autor que tenha sido desenvolvido qualquer estudo sobre a percepção ou mensuração do valor do ERP em seu período de pós-implementação, bem como sobre as implicações diretas deste fenômeno sobre as competências empresariais e sobre as ações de gestão da TI das empresas que operam no cenário brasileiro;
b) O Brasil, notoriamente, configura-se como um dos países de maior complexidade tributária e legislativa do mundo. A constante necessidade de atualização dos sistemas ERP’s face a obrigações legais (requerimentos e funcionalidades legais são diferentes até entre municípios) obrigam as empresas a gerenciarem seus sistemas ERP’s com base em uma dinâmica própria e específica, não aplicável de igual forma a outros países. Este contexto, por si só, pode vir a influenciar a percepção do valor do ERP ao longo do tempo;
c) Demais fatores exógenos do macro-contexto brasileiro, como aspectos culturais, de formação e de atuação profissional dos gestores de TI e usuários dos aplicativos ERP’s, valores históricos de investimento em TI, níveis de adoção de upgrade de versão, maturidade do mercado com relação à implementação e manutenção de ERP’s, perfil dos usuários frente a necessidade de constantes mudanças e aperfeiçoamentos de funcionalidades, dentre outras, podem ou não constituir-se como fatores direcionadores de uma percepção própria concernente ao valor do ERP na linha do tempo;
Diante das justificativas apresentadas, esta pesquisa efetua algumas contribuições práticas e teóricas acerca da problemática que envolve a sustentabilidade do valor do sistema ERP. Em primeiro lugar, este estudo é um dos poucos que tratam diretamente da problemática envolvendo os conceitos de valor, preservação do valor a longo prazo (sustentabilidade do valor) e ERP. Esta pesquisa não somente colabora para aumentar o conhecimento acerca do conceito de sustentabilidade aplicada ao valor do ERP como também traz conceitos acerca das competências empresariais utilizadas pelas organizações no contexto brasileiro que são capazes de contribuir para o estabelecimento da sustentabilidade do ERP ao longo do tempo. Em segundo lugar, valendo-se dos conceitos de criação do valor do ERP e da sustentabilidade do valor do ERP, a pesquisa enfatiza a significância da segregação de competências que podem criar valor ao uso do ERP daquelas que ajudam as empresas a manterem este mesmo valor. Através da análise destes conceitos, os gestores de TI poderão vir a desenvolver ações
que possam vir a fortalecer os distintos processos de criação e manutenção do valor do uso dos sistemas ERP a longo prazo.
Em terceiro lugar, esta pesquisa traz evidências sobre formas de utilização do ERP na fase de pós implementação que podem influenciar o valor do ERP na linha do tempo. Através da análise de competências organizacionais típicas da fase de pós implementação do ERP, como a qualidade do uso da informação e qualidade das informações advindas do ERP, esta pesquisa traz conceitos acerca do comportamento dos usuários na fase de pós implementação que são capazes de influenciar o retorno sobre o investimento realizado nos sistemas ERP.
Em quarto lugar, já no âmbito acadêmico, o estudo poderá ser de grande valia quando se trata da efetiva reunião da bibliografia atual existente acerca dos temas “valor de uso do ERP”, “competências organizacionais” e “gestão continuada de pós-implementação do ERP”, evidentemente, adaptada ou focada ao recorte utilizado neste trabalho de pesquisa. Adicionalmente, devido ao reduzido numero de trabalhos de cunho científico relacionados ao problema de pesquisa deste estudo, o mesmo auxiliará a formação de uma massa crítica teórica relacionada ao tema, proporcionando assim o desenvolvimento de trabalhos acadêmicos futuros que tenham por finalidade aprimorar ou complementar o foco de estudo ora apresentado.