A casa é mais do que um espaço físico destinado à moradia. Ela é, também, uma manifestação social e cultural, refletindo, talvez melhor do que qualquer outro artefato humano, os valores culturais de uma determinada sociedade ou extrato social.
Rapoport colocou a questão nos seguintes termos:
A casa é uma instituição, não somente uma estrutura, criada para um conjunto complexo de propósitos. Como construir uma casa é um fenômeno cultural, a sua forma e organização são grandemente influenciadas pelo meio cultural ao qual pertence [...] a casa é um fato humano, e mesmo dentro das mais severas limitações físicas e tecnoló- gicas o homem tem construído em formas tão diversas que elas só podem ser atribuídas à escolha, que envolve valores culturais [...] forças socioculturais se tornam, portanto, de importância primordial no relacionamento do modo de vida humano ao meio ambiente”.1
O ato de construir e de morar em um abrigo é, portanto, um ato cultural. Assim como a comida, a vestimenta e os costumes, a casa também faz parte do universo cultural de uma determinada comunidade. O presente capítulo tem por objetivo tratar dessa temática. Em termos mais específicos, objetiva demonstrar resultados parciais
1 RAPOPORT, Amos. House Form and Culture. Foundations of Cultural Geography Series. Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall, Inc., 1969. p. 46 e 48.
de nossa pesquisa de mestrado,2 que analisou as transformações
formais ocorridas em um tipo tradicional ou vernáculo3 de habitação
popular, por isso mesmo encontrada mais comumente em áreas rurais, mas que sofre influências que podem ser atribuídas, em maior ou menor grau, ao meio urbano onde ela se insere como parte de um processo que está diretamente associado à migração rural-urbana de seus moradores.
O estudo foi desenvolvido com base em uma pequena comunidade urbana localizada no bairro Lagoa Seca, em Natal, Rio Grande do Norte, formada, à época do estudo (1988-1990), por famílias em boa parte oriundas de áreas rurais, com ou sem passa- gem prévia por pequenas cidades do interior do estado antes de che- garem à capital. Pretendíamos verificar o processo de transformação das casas urbanas, construídas por esses moradores de origem rural e verificar, nelas, indícios que pudessem ser ou estar associados ao mundo rural ou semirrural de onde vieram, assim como as mudan- ças ocorridas no meio urbano. A pesquisa original tentava responder três perguntas essenciais: 1) o que permaneceu na habitação urbana informal, construída na cidade por imigrantes de origem rural, em relação a suas habitações de origem? 2) o que mudou? 3) que razões socioculturais podem ser apresentadas para explicar a permanência da tradição, bem como a mudança nessas habitações?
A última das três perguntas deixa transparecer que, na pes- quisa original, tentamos estabelecer relações de causa e efeito, mas também de influência recíproca entre o amplo processo de mudança cultural no Brasil e a habitação – tanto rural quanto urbana – dos moradores que migraram para a cidade, considerando as caracterís- ticas físico-espaciais ou formais de ambas e sua transformação no
2 A pesquisa, realizada entre 1988 e 1990, foi defendida, portanto, há mais de vinte anos. Intitulada Tradition and change in the domestic environment of the unplanned
urban settlements: a case study in Natal – Northeast Brazil, ela foi desenvolvida na
School of Architecture, McGill University, Montreal, Canadá, e orientada pelo professor Vikram Bhatt. Ainda inédita, pois nunca foi objeto de publicação parcial ou total, os seus resultados, parte dos quais aqui apresentados, continuam válidos sob muitos aspectos.
tempo. Os objetivos do presente capítulo são, contudo, mais modes- tos. Nele, deixamos de lado questões teórico-conceituais e analíticas relativas ao amplo processo social de mudança cultural em si, bem como a descrição detalhada da comunidade estudada, fruto de um amplo levantamento de dados, entre outros aspectos que foram ana- lisados. Ainda que necessários a uma compreensão mais adequada das modificações verificadas nas habitações, eles não figuram, ao contrário da pesquisa do mestrado, no escopo deste capítulo, por uma questão de limitação do seu conteúdo. Adotamos, assim, um enfoque mais limitado, que segue, na verdade, um caminho inverso, do sintoma para a interpretação de suas causas. Em outras palavras, queremos tão-somente verificar ou apreender, a partir das manifesta-
ções físicas e formais da transformação de um conjunto de habitações
estudadas, consideradas em um período histórico e uma realidade urbana específica, indícios que podem ser interpretados ou atribuídos a um processo de mudança cultural, o qual esteve intimamente rela- cionado, segundo vários estudos, ao processo de migração de grandes contingentes populacionais do campo para a cidade no Brasil.
Contudo, é possível perceber, ao longo da leitura, alguns pressupostos teórico-conceituais e metodológicos sobre itens como a migração rural-urbana, teorias e processos de modernização social e urbana que guiaram a análise, mesmo que não estejam explicita- dos. Por exemplo, partimos do pressuposto de que existem diferen- ças socioculturais suficientemente distintas entre o mundo rural ou semirrural de pequenas comunidades urbanas do interior e as médias e grandes cidades. Embora a influência do urbano ou de valores e modos de vida normalmente relacionados ao urbano tenham cada vez mais atingido ou alcançado as áreas rurais mais remotas, atenu- ando essas diferenças, elas persistem, e se continuam válidas hoje, o eram ainda mais ainda no momento da pesquisa, desenvolvida há mais de vinte anos. A capacidade de resistência e permanência de valores tidos como tradicionais é maior, muitas vezes, do que se imagina. Apesar disso, este trabalho não apresenta qualquer esforço de atualização do estudo. Não voltamos à comunidade estudada, que será apresentada no devido momento, para verificarmos a conti- nuidade do processo analisado. Portanto, o leitor deve ter em mente
que os dados e conclusões aqui apresentados são os de mais de duas décadas atrás. Temos plena convicção, e esperamos demonstrá-la ao longo deste trabalho, que as conclusões a que chegamos continuam válidas hoje, como o eram à época do estudo.
Para a realização do estudo, de natureza comparativa entre a casa rural e a casa urbana, foi necessário considerar, obviamente, tanto as casas de origem rural de onde muitos vieram ou, pelo menos, conheciam bem, e a casa urbana onde eles moravam. Na impossibili- dade de estudar as casas de origem desses moradores de forma direta por uma série de razões,4 foi necessário partir de pressupostos como
o padrão socioeconômico dos moradores, sua profissão, assim como algumas descrições dos chefes de família que realizaram a migração sobre suas casas de origem, para chegarmos à conclusão do tipo de casa tradicional em que eles moravam anteriormente. Tendo como base uma série de categorias analíticas – tipo, quantidade e dispo- sição dos ambientes, volumetria das habitações, fachadas, compo- nentes como esquadrias, técnicas e materiais construtivos, e mesmo a mobília, foi possível estabelecer elos de comparação entre os dois tipos de habitação – a rural, tida como a original ou de condições de partida – e a urbana, construída e transformada pelos próprios moradores, que denominamos aqui de as condições de chegada. Ainda que, na pesquisa, tentamos abordar questões mais amplas, como as questões teórico-conceituais acima mencionadas (migração rural-urbana, mudança cultural, urbanização e modernização etc.), essas considerações não cabem, como dissemos, no presente capí- tulo. Queremos nos prender essencialmente ao estudo comparativo
4 Dispersão pelo interior do estado do Rio Grande do Norte e de outros, das casas dos moradores; tempo disponível para o levantamento dos dados; impossibilidade de identificá-las, ou mesmo devido a sua inexistência, em razão de sua precariedade e porque já fazia décadas que a primeira geração dos membros das famílias estudadas, isto é, os pais, se encontravam em Natal. Além disso, existem fortes motivos para acreditar que o tipo de habitação original obedecia a uma tipologia ou arquétipo relativamente bem definido, mesmo que houvesse variações, de modo que o estudo pormenorizado de cada casa dos moradores migrantes, embora fosse ideal, se tornava em nossa opinião dispensável.
em si, entre as habitações rural e urbana, em sua expressão física, como indício da mudança cultural de seus moradores.
Cabe, finalmente, expor a estrutura do presente capítulo, que se divide em quatro partes principais, além das considerações ini- ciais. Na primeira, à guisa de introdução, apresentamos rapidamente algumas referências de estudos que discorrem sobre valores rurais e urbanos tais quais expressos na habitação. Partindo das transfor- mações formais, físicas, da habitação como indício da mudança dos valores culturais da população, este item faz rápidas referências a estudos anteriores que mencionam a transformação na habitação como indício de mudança cultural, bem como a determinados valo- res sociais que estão de certa forma associados ao mundo rural ou ao urbano. Em seguida, descrevemos o Mucambo, tipo de habita- ção vernácula mais característica das populações de baixa renda, especialmente em áreas rurais, no Brasil e na região Nordeste em particular. Ele serve como as condições de partida do estudo com- parativo. Segundo os indícios coletados não somente nas entrevistas e em outras fontes, mas nas próprias habitações urbanas das famí- lias de migrantes estudadas, o Mucambo era o tipo predominante, talvez único, de habitação em que eles viveram antes de migrarem para a cidade. A terceira parte situa o processo histórico da formação do assentamento estudado no contexto da migração rural-urbana para Natal e apresenta rapidamente a comunidade estudada. Essa parte, no entanto, está voltada principalmente para a descrição da casa urbana onde essa comunidade vivia à época do estudo, ou seja, as condições de chegada. Finalmente, a quarta e última parte, que também serve de conclusão, apresenta resumidamente os resultados do estudo comparativo.